quarta-feira, 26 de novembro de 2008

nº 09 O Cantor dos Melismas 3

Já não sei cantar canções de crianças...
Manuel António


As ruas todas têm fome de meninos.
Noutros tempo
o eco eram pisadas diminutas
esvaziando as poças a pontapés.
Havia custosos presentes
para amores diminutos:
uns brincos de fúchsias
ou um colar de camomila.
Havia diminutos fatos
que nunca passavam desapercebidos,
diminutos lanches
de tijolo e chuchamel,
e um sorriso diminuto
a abrir hospitalário o seu portelo.
Mas hoje as ruas estão fomentas de meninos
quem sabe se fugidos
para um outro território sem infantários-infantívoros.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

nº 08 Leitura das leituras 2

Aqueles anos do Moncho (1977) [Akal; Madrid]
No quarto dos pais há sempre gavetas proibidas. No do meu, militar de profissão, havia uma proibidíssima onde guardava uma Star de nove milímetros fabricada em Eibar e com empunhadura de nácar. A pistola estava escodida no armário, oculta entre a roupa branca. Lembro-me de aquele dia que de joelhos e diante da gaveta aberta, introduzi a mão entre os lençóis até sentir o frio do aço do cano.

Para então, já descia pela minha fronte um suor frio, batia o coração como um pisão da frágua e não sei como naquele mesmo instante não cai ao chão desmaiado. Muito devagar peguei na culatra, arrastando a pistola até que ficou ante mim despida e trémula. Apenas um segundo, o intervalo que tardou em fazer o caminho de ida e volta. Esta foi a única vez que teve entre as minhas mãos uma arma de fogo.

Uma vez, a procura de qualquer coisa, remexia no conteúdo da mesinha-de-cabeceira, enquanto meu pai, deitado na cama, olhava para mim. Entre um inúmero de objectos fascinantes havia um livro com uma capa de impacto: Aqueles anos do Moncho. Um pequeno ajoelhado e abraçado a outra criança um bocadinho maior, um homem deitado numa poça de sangue, a folha queimada e, no fundo, os troncos derramados dumas árvores. Meu pai, que até então não se incomodara muito em que remexera nas suas coisas, alterou-se quando, curioso, me pus a dar uma vista de olhos no livro. Ele diz para mim em tono muito grave:

- Esta não é leitura para os miúdos.

Desde esse mesmo momento aquele livro foi considerado objectivo número um. Cada vez que ficava sozinho ia ao quarto e pegava nele, lia umas páginas e o devolvia procurando não alterar a cena do crime que acabava de cometer. Com cada folha aguardava encontrar aquilo pelo que o meu pai decidira incluir o livro do Neira Vilas no Index Librorum Prohibitorum, mas nada parecia justificar medida tão radical. Suponho que eu estava à procura de sexo ou crimes atrozes que não chegavam nunca. Mas o livro foi-me engatando e alguns parágrafos ficaram em mim para sempre e, principalmente, um que dizia assim:

«Esta noite, Ramón chegou a morada do Daniel o jornaleiro, disposto a contar-lhe a inquietude que o aburava. Ainda que não havia entre eles um vencelho de amizade, um leva-e-traz de segredos e palavras em murmúrios, tinham-se apreço e uma mais certa que expressada estima de homens que no ar ventam o poder canjar nalgum intre.
Pegaram em candanseu talho, fechou-se por dentro a porta, trás da cal havia pendurado o retrato dum homem de barba cumprida.»

Os protagonistas do parágrafo anterior são o Ramón, pai do Moncho e o Daniel, ambos os dois militantes antifascistas. No romance que acontece durante a Guerra Civil, conta-se a história dum menino que vai a descoberta dos segredos da existência humana em tempos de dor extrema.

Já de adulto, recuperei a leitura desta pequena jóia literária e compreendi os verdadeiros motivos que houve para que fosse censurada. Recém estreada a democracia, na altura do golpe de estado do Tejero e do Milán del Bosch, quem sabe os medos que os militares democratas como meu pai albergariam. A conversa clandestina do Ramón e do Daniel presididos pela foto dum barbudo, quiçá Marx ou Bakunin, lembravam uns tempos aos que alguns, como os assaltantes do Congresso, quiseram voltar.

Assim, no quarto de casal dos meus pais havia duas armas escondidas. A regulamentária dos repressores, e mais uma, carregada permanentemente de futuro.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

nº 07 Leituras das leituras 1

Pensamiento, palabras y música (1998) [Edaf;Madrid]
Existe, como é natural, uma leitura da leitura. Não é tanto uma história dos escritos, do texto como médio de comunicação social, mas, antes bem, da leitura em si própria, dos seus benefícios e contra-indicações. Como ser livrófago, preciso de palavras impressas para subsistir, havendo uma grande quantidade de textos que me acompanharam sempre, constituindo o meu hipomnémata existencial. Cícero definiu perfeitamente a minha Utopia quando diz aquilo de: «Se temos uma biblioteca e um jardim temos tudo» Mas ler precisa dum grande esforço. O próprio Schopenhauer dizia que em justiça, quando compras um livro, no preço deveria vir incluído o tempo para lê-lo.

Ninguém pode ler tudo o que é preciso para estarmos conformes. Eu nem tão sequer posso pretender abranger os vários milhares de volumes que possuo, assim que quiçá deveria pensar em não comprar mais um livro. Mas, o vício pode comigo. O mesmo que os ludópatas sentem uma força que os atrai as máquinas de jogo, eu não posso superar o impulso irrefreável de cruzar a soleira da livraria e comprar um pacote de folhas impressas. E então, que fazer? Como avaliar aquilo que deves ler e o que resulta, quando menos, prescindível?

A minha vida como leitor mudou significativamente apôs o encontro com Pensamiento, palabras y música (1998) [Edaf;Madrid] de Arthur Schopenhauer (Danzig, 22 de Fevereiro 1788 — Frankfurt, 21 de Setembro 1860) . O filósofo alemão, tão amigo das frases lapidárias, tem muito claro quando devemos começar a ler: «Uma pessoa somente deve ler quando a fonte de seus pensamentos próprios seca.» E acrescenta: «Deste modo, todo aquele que realmente pensa por si é como um monarca – sua posição é absoluta, não reconhece ninguém acima de si.» Resulta evidente, pois, que uma pessoa que lê compulsivamente é um ser medíocre, porque apenas tem tempo para reflexionar sobre o lido.

Temos que, sempre seguindo o velho carrancudo de Danzig, descartar o preconceito de as pessoas mais sabidas ser as mais lidas. Um homem sábio é aquele quem de ter pensamentos próprios, mas há um pequeno problema: «Um homem sempre pode sentar-se e ler – mas não pensar.»

Faz muitos anos , num tempo em que o meu pai não andava muito bem da saúde, tive de viver na casa dum colega seu. Eu era um pré-adolescente, mas já um ávido leitor. Quando rematei o livro que levara comigo fiquei sem saber que fazer, aborrecido e intimidado numa casa onde não conhecia a ninguém. A mulher do colega do meu pai deveu perceber o meu tédio, e como por telepatia perguntou:

- Olha! queres que te deixe um livro?

Eu que vira todas as prateleiras cheias de pratos, jarros e lembranças de bodas e comunhões não dava crédito.

-Quero, sim, por favor.

Supunha que a seguinte pergunta a me fazer a senhora trataria sobre os meus gostos literários. Mas não. Virou as costas e adentrou-se num pequeno quarto onde tinha arrumados calçado e produtos de limpeza. Por fim, pôs diante minha um tambor de detergente a transbordar de novelinhas de vaqueiros, quase que todas do Estefanía.

Nunca lera uma de aquelas historias absurdas e também não o volvi fazer , mas hoje é provado que um pré-adolescente pode ler o contido em novelas dum tambor de detergente no prazo exacto duma semana.

Daquela doença, meu pai já não se recuperou mais. Durante o tempo que estive na casa do seu colega, os breves romances de bangue-bangue foram uma leitura terapêutica, evasiva, que me impediu de pensar no que estava a acontecer com o meu pai.

Tudo isto para concordar com o Schopenhauer. Certamente a leitura aos molhos é contrária à reflexão. Temos que procurar lugares e momentos em que a nossa mente só esteja ocupada em meditar sobre o que for. É preciso localizar o problema, identifica-lo e esmiuça-lo até conheçe-lo por completo, e depois, ficar a sós com um mesmo para chegarmos à sua resolução.

Por último, respondamos a pergunta antes formulada: que ler? Entre tanto monte de possibilidades a melhor escolha é sempre acudir aos autores consagrados. Algumas mentes pós-modernas consideram que todo o velho está desfasado, que a ciência vai progredindo por acumulação de modo que o novo substitui sempre ao antigo. Isto pode ser possível nas chamadas ciências puras, mas não é assim nas humanas. Resulta muito mais fornecedor para o espírito e a mente dum indivíduo ler a Cícero que a maioria dos filósofos modernos, os quais, as mais das vezes, ocultam a sua falta de originalidade presentando-se como neo-algo.

«A arte de não ler é muito importante. Consiste em não sentir interesse algum por aquilo que está a atrair a atenção do público numa determinada altura. Quando um panfleto político ou eclesiástico, um romance ou um poema estão a causar grande sensação, não devemos esquecer-nos de que quem escreve para tolos tem sempre grande público. Uma condição prévia para ler bons livros é não ler os maus: a nossa vida é curta.»

sábado, 1 de novembro de 2008

nº 06 Orjias 3

O primeiro filme que lembro ter visto num cinema foi Encontros Imediatos do Terceiro Grau. Este grande sucesso na carreira de Spielberg, causou-me uma grande impressão, até o ponto de não poder dormir em noites por medo aos extraterrestres. Tendo em conta o atraso com o que chegavam as fitas à Ilha, acho que devim vê-la um ano após da sua estreia no 1977.
O que ficou na minha memória de aquele dia foi a gigantesca imagem da nave-mãe iluminada, tão real que parecia que estava a atracar no cais do Xufre. Também lembro que me impactou a trilha, muito antes de saber quem era o John Willians, não tanto por questões puramente musicais, (tinha oito ou nove anos), por quanto a sugestão que produzia combinada com o projectado na tela.
Nessa sala gocei de muitos outros títulos desde um lugar privilegiado, a cabine de projeção. Meus pais eram amigos do cameraman, assim que alem de não pagar tiquete via o filme através dum pequeno quadrado feito na parede. Quando a película não interessava muito, vigiava os eletrodos que se consumiam aos bocadinhos, deitando ao ar um ténue fio de fumo.
Às vezes, o celulóide se queimava e então umas borbulhas apareciam na tela, começando na plateia uma grande vaia que devia elevar subitamente as pulsações do coração do cameraman. Então, havia que cortar a fita deteriorada com uma lâmina e depois colar os extremos o mais rapidamente possível. Essas fitas voltavam às latas e às sacas onde vieram para ir parar em outro cinema de aldeia assim de diminuídas.
Na metade do filme havia um intervalo que se anunciava com um fotograma no qual líamos: Visite el ambigú. Tardei décadas em saber que era aquilo do ambigú. Suponho que com anterioridade ao que eu posso lembrar houve tempos melhores nos que o bufê era real. Nos meus, o ambigú, era uma banca improvisada no exterior do edifício, onde se vendiam sementes e tofes de café.
Quando os filmes eram de índios e vaqueiros, a tensão ia in crescendo até que com a chegada do Sétimo de Cavalaria o público rompia num prolongado sapateado, uma forma de dizer Viva, ganharam os bons!
Lá vi cento e um títulos de Bruce Lee, de Cantinflas, westerns, históricos, etc, e ainda lembro, entre tantos sons fossilizados nos meus ouvidos, o do mecanismos do projector a funcionar.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

nº 05 Orjias 2


Quando criança, os Sábados de tarde eram de futebol. O jogo era prioritário, e tinha de haver um grande temporal de chuva e vento para ficar na casa a ver T.V. Sesión de Tarde botava quase sempre filmes de aventuras, com Johnny Weissmüller na selva ou Errol Flynn a fazer de Robin dos Bosques. A má notícia era quando punham uma da pioneira do nado sincronizado Esther Williams e a sua escola de sereias, ou cinema espanhol com estrelas infantis a fazer esforços por não medrar.

Uma tarde que chovia a potes, sentei no cadeirão a ver um filme com o meu pai. Era de detectives privados, da hampa de Chicago e de muito tiro. Um daqueles homens de chapéu preto e metralhadora de tambor, subiu a um elevador, premeu no botão e dirigiu-se directamente ao terraço. Na Ilha, as casinhas eram pequenas e os únicos edifícios de vários andares foram construídas pelas Caixas Económicas, más apenas com escada de serviço. Na minha ignorância de puto com pouco mundo, dirigi-me ao meu pai com voz maravilhada:

- Quem dera que uma coisa assim existira na verdade!

Meu pai ficou a olhar para mim como a pensar, meu Deus, o que foi que eu fiz de errado?, mas de seguida explicou pelo miúdo que aquilo era um engenho inventado fez muito, muito tempo.

Anos mais tarde, depois de rematar a educação primária, teve de ir a Vila a estudar o secundário, na altura em que já começava a ter penugem no bigode. Fiz amizade com um natural que como bom colega, guiou-me pela sua cidade. Desde a conversa com meu pai, acho que poucas vezes subira num elevador, pelo que aquele mecanismo seguia a aliciar-me com a sua magia. Na conversa, saiu o tema da minha extravagante atracção, questão que provocou no meu colega uma sonora gargalhada. Curvei a cabeça e caminhei um bocado silencioso, percebendo o amigo, acertadamente, que me chateara. Para compensar-me, parou no primeiro portal e premeu ao chou um botão do porteiro automático. Não sei o que respondeu à voz que falou do outro lado, mas de imediato a porta abriu e passamos para o interior do prédio.

Aquela manhã teve overdose de elevador. Uma e outra vez subimos e baixamos, contando os números que se iluminavam ao nosso passo, cumprimentando com os transeuntes que nos olhavam com indiferença. A partires de então, perdi parte da minha paixão pelos elevadores, que só recuperei um dia que subindo ao andar do meu primo, o qual não deixava de botar uma bola de basquete, vimos como esta foi engolida pela pequena fenda entre a caixa e a porta. Mas essa é outra história...

nº 04 O Cantor dos Melismas 2

Seria quem de comunicar-me contigo
a través do seu útero afrutado
sussurrando uma só mensagem em clave:
meu nen@.
Seria quem de imaginar o teu cabelo,
o teu nariz, a tua boca,
os teus olhos abertos para ver o futuro amável que te espera,
apenas pelo feito casual de seres nosso.
seria quem de te abraçar
de enviar-te um beijo umbilical que te estremeça,
de cantar-te um arrolo telepático,
de comer-me teu nome aos bocadinhos.
Tudo posso fazer por ti,
meu nen@,
menos suportar a sua dor
por ter-te.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

nº 03 Meu cinema 1





Aldeia da Roupa Branca, é um filme de Eduardo Chianca de Garcia (14 de Maio de 1898 - Rio de Janeiro, 28 de Janeiro de 1983). Foi estreada em 1939 e relata a história das disputas entre as famílias do Tio Jacinto e a viúva Quitéria. Quando a vi, fiquei admirado com a cena inicial na que Beatriz Costa canta acompanhada do coro de lavandeiras, ajoelhadas fronte ao rio Doiro. Todo o filme é uma alegoria da luta entre a cidade e a aldeia. Neste quadro de costumes, os velhos carroceiros negam-se a abandonar as suas viaturas de tração animal, e só é no remate que aparece um moderno caminhão. A cidade é a terra dos perigos, do fado, das más companhias, no entanto que a aldeia é o canto popular, a gente trabalhadora e honesta.

Numa outra cena antológica, os patrões transportadores, contratam suas respectivas bandas de música para as festas da aldeia. Entram desfilando em direção contrária pelo largo principal, até investir uns com os outros e dar começo a uma grande briga.

É um filme para não perder.

Aldeia da Roupa Branca
Beatriz Costa
Composição: Raul Portela, G. Chianca, A. Curto

Ai rio não te queixes,
Ai o sabão não mata,
Ai até lava os peixes,
Ai põe-nos cor de prata.

Roupa no monte a corar
Vê lá bem tão branca e leve
Dá ideia a quem olhar
Vê lá bem que caiu neve

Água fria, da ribeira,
Água fria que o sol aqueceu,
Velha aldeia, traga a ideia,
Roupa branca que a gente estendeu.

Três corpetes, um avental,
Sete fronhas, um lençol,
Três camisas do enxoval,
Que a freguesa deu ao rol. (BIS)

Ai rio não te queixes,
Ai o sabão não mata,
Ai até lava os peixes,
Ai põe-nos cor de prata.

Olha ali o enxoval
Vê lá bem de azul da esperança
Parece o monte um pombal
Vê lá bem que pombas brancas

Água fria, da ribeira,
Água fria que o sol aqueceu,
Velha aldeia, traga a ideia,
Roupa branca que a gente estendeu.

Três corpetes, um avental,
Sete fronhas, um lençol,
Três camisas do enxoval,
Que a freguesa deu ao rol. (BIS)

Ai rio não te queixes,
Ai o sabão não mata,
Ai até lava os peixes,
Ai põe-nos cor de prata.

Um lençol de pano cru,
Vê lá bem tão lavadinho,
Dormimos nele, eu e tu,
Vê lá bem, está cor de linho.

Água fria, da ribeira,
Água fria que o sol aqueceu,
Velha aldeia, traga a ideia,
Roupa branca que a gente estendeu.

Três corpetes, um avental,
Sete fronhas, um lençol,
Três camisas do enxoval,
Que a freguesa deu ao rol. (BIS)