sexta-feira, 31 de agosto de 2018

nº 227 Despedia à Sma. Virgem de José Sánchez Vázquez


Em 1934, vai fazer 84 anos, o 7 de setembro também caiu em sexta feira. Esse dia, véspera da festividade da Virgem de Guadalupe, o sochantre da ex-colegiada de Íria e ilustre rianxeiro José Sánchez Vázquez assina a partitura titulada Despedida a la Virgen. Trata-se dum típico canto de romeiros muito semelhante ao conhecido como Adios, Reina del Cielo [A.R.C], um desses cantos marianos de difícil atribuição a compositor algum e que aparecem sempre como tradicionais.

A Despedida de José Sánchez parece uma melodia original sobre um texto inspirado no [A.R.C], uma letra da que podemos encontrar muitas variantes e reelaborações no cancioneiro musical da Virgem. A segunda estrofe é idêntica à [A.R.C], mas da primeira não encontrei referente algum. 

No 2014, e neste mesmo blogue, já falei desta pecinha composta pelo irmão de Dona Pura, a mãe de Manuel Antonio. A novidade é que encontrei no Fondo Local de Música do concelho de Rianxo um novo documento, esta vez com as vozes do duo e acompanhamento, com toda probabilidade para ser tocado no harmónio de Santa Columba. Vejamos ambos os dois documentos.

Os documentos:

J.S.V. 1 Despedida de la Virgen [música manuscrita] Partitura vocal. 1 folha (2 p.) 15X21 cm. Com letra.  Espólio de José Pérez.
Nota: Assinatura autógrafa: Rianjo, 7 de Septiembre 1934 José Sánchez.

 Despedida a la Virgen 

De ti, ¡Oh Madre mía!
Esperan bendición,
los hijos de tu hijo
dádnosla con tu amor.

Adios del cielo encanto,
mi delicia y mi amor,
adios, ¡Oh Madre mía!
Adiós, adios.
Adios, ¡Oh prenda adorada!
Adios, adios.



J.S.V. 2 Despedida de la Virgen [música manuscrita] Partitura para tenor, tiple [soprano] e instrumento de tecla. 1 folha (2 p.) 21X31,5 cm. Com letra.  Espólio de José Pérez.
Nota: Marca de agua de J. Romaní. Barcelona.

Despedida a la Virgen 

De ti, ¡Oh Madre mía!
Esperan bendición,
las hijas de tu hijo
dádnosla con tu amor.

Adios del cielo encanto,
mi delicia y mi amor,
adios, ¡Oh Madre mía!
Adiós, adios.
Adios, ¡Oh prenda adorada!
Adios, adios.




A diferença mais evidente entre ambas partituras reside na armadura. A J.S.V. 1 está em Mi Maior e a J.S.V. 2 em Mi b Maior. Suponho que o autor da segunda partitura optou pelo Mi b Maior e o seu relativo Cm por resultar-lhe mais cómoda ou estar mais habituado.

Outra diferença acho que importante reside em que na primeira versão o terceiro verso diz: «los hijos de tu hijo» e no segundo «las hijas de tu hijo». Acho que a explicação reside em que a função da primeira era ser cantada pelos romeiros que vão a festividade da Guadalupe, embora a segunda teria como protagonistas às filhas de María, coro para o que foram arranjadas muitas das obras com que contamos no nosso Fondo Local. Pode que a intenção da J.S.V. 1 fosse fazer da Despedida um tema popular, cantado meio espontaneamente no fim da celebração, como em muitas romarias marianas do Estado Espanhol. Tal vez o autor da J.S.V. 2 imaginava uma interpretação mais formal com o seu organista, um tenor e o coro de filhas de María para a parte de duo.

Por último, e de a nossa hipótese ser certa, a J.S.V. 1 seria uma partitura autografa, é dizer, escrita e assinada pelo seu autor. No segundo caso estaríamos ante uma partitura apócrifa. Quem foi o autor desta segunda versão? Tudo parece indicar que se trata de José Pérez, o proprietário original deste espólio. A partitura que elaborou o autor do J.S.V 2 é como um rascunho, tal vez uma simples anotação para lembrar o desenho harmónico. Isto se evidência na inexistência de plicas. Na estrofe a duo a partitura de piano carece de mão direita o que me faz pensar que o organista tocaria a melodia do tenor. Isto parece confirmar-se quando a sete compassos do final o autor do manuscrito escreveu o primeiro tempo da voz do tenor, colcheia com ponto e semicolcheia. Em qualquer caso, no J.S.V. 1 estão marcados os silêncios das introduções, tanto do solo de tenor como da estrofe de tenor e tiple, o que nos remete a um arranjo similar ao de J.S.V. 2.

Ainda que o arranjo da J.S.V. 2 é um bocado ingénuo e não passa dum rascunho, deixo aqui um midi [perdão pelos sons tão nefastos] para poder escutar a formosa melodia.


sábado, 11 de agosto de 2018

nº 226 Beethoven e Ponte Vedra I.


Para os que nos dedicamos a divulgar as curiosidades da história cultural da Galiza há um livro, em três volumes, de imprescindível leitura. O seu título é De mi viejo carnet de Prudencio Landín Tobío (1877-1955). Em muitas ocasiões tenho-o utilizado para argumentar alguma das minhas publicações, graças a umas velhas fotocópias que devi tirar na biblioteca da U.S.C. É agora que encontrei uma oferta interessante e comprei os originais numa livraria de velho. Do que mais gosto destas compras é que às vezes estes livrinhos vêm com surpresas muito valiosas. Dois dos volumes estão assinados pelo autor e dedicados ao seu editor, o livreiro pontevedrino Julio Antúnez.


Num capítulo do livro de Landín aparece o nome duma mulher, Tomasa Núñez Fernández (1793-1861), à qual se lhe atribui o mérito de ser uma das primeiras intérpretes de Beethoven na Espanha. Obviamente, esta afirmação parece um bocadinho exagerada, mas serve-nos para traçar um pequeno comentário sobre a recepção da obra do mestre de Bonn na Galiza.

No reino da Espanha o século XIX está totalmente contaminado pela ópera italiana sendo Beethoven um quase desconhecido. Os grandes acontecimentos históricos que se produzem em Europa vão condicionar muito os programas dos concertos futuros. Jan Swafford, na sua magnífica biografia de Beethoven (Ed. Acantilado) explica-nos: «Como muchos progresistas, Beethoven había sido optimista respecto a los resultados del Congreso de Viena, esperando paz y reformas. Como los demás, apenas podía haber imaginado el manto de represión que estaba a punto de cubrir Austria, que ya había sido un Estado policial, pero que ahora se manifestaría de manera aún más eficaz e implacable. Todo aquello tuvo sus implicaciones tanto en la música como en el resto de los asuntos de la vida cotidiana. Tras el congreso, los gustos musicales viraron hacia la música de danza, la ópera ligera, los singspiel cómicos, las óperas de Rossini. Toda esa música, escribió Stendhal, "alejaba las mentes de la plilítica y [...] resultaba menos problemática para los gobiernos». p.984

Uma vez mais Beethoven vs Rossini; apolíneo vs dionisiáco. Mesmo que estas oposições resultem muito simples, não deixam de encerrar muito de verdade.

Na historia do reino de Espanha produz-se um grande abalo com a queda do Antigo Regime e o advento da monarquia liberal. Mais uma reviravolta para perpetuar aos Bourbões na chefatura. As classes trabalhadoras tomam o poder e dá-se o paradoxo de que mesmo um filho dum carpinteiro, Baldomero Espartero, chega a ser regente da filha de Fernando VII! Mas os liberais precisam de transformar o pais para que o controlo seja absoluto. No período em que governou a rainha Isabel II, com as suas diferentes regências, um tempo no que parece que tudo foi festa na Corte de los Milagros, resulta que se colocaram os alicerces da verdadeira Espanha, a que chegou a nós como Estado e não como um reino de reinos. Institucionalizam-se símbolos identitários como a bandeira, o hino ou mesmo outros mais prosaicos como a peseta ou a Guarda Civil. A centralização do Estado constrói um alambicado sistema de controlo com instituições poderosas como a Deputação Provincial ou o Governo Civil, que saem da nova divisão territorial por províncias feita por Javier de Burgos em 1833. E nesta nova ordem a cultura tem um papel a desenvolver.

Dizia Levi-Strauss que a alfabetização é um novo modo de escravatura. A ideia argumenta-se em que para obedecer as ordens dos governos liberais, comunicadas em bandos e boletins oficiais, a gente tem que poder ler o que aparece escrito. Aquilo de que «a ignorância da lei não escusa ninguém». Além disso os novos governantes têm nas suas mãos uma arma capaz de competir com o sermão dominical dos cregos: a imprensa. Mas novamente é imprescindível que a população possa ler. Por isso se decreta a escolarização universal com leis muito progressistas como as chamadas Pidal e Moyano. O certo é que a pesares dos esforços tirar aos espanhóis do seu analfabetismo crónico não foi possível até bem entrado o século XX.

No marco desta centralização do Estado, também no plano educativo, cria-se em Madrid o Real Conservatorio de Música chamado de María Cristina, por ser um empenho pessoal da regente. O seu primeiro director foi Francesco Piermarini, quem obviamente vai trasladar ao centro o modelo educativo dos conservatórios italianos. Mas na sequência do nosso relato devemos centrar-nos no primeiro professor de piano desta instituição: o riojano Pedro Albéniz y Basanta (1795-1855).

De Pedro Albéniz à Sociedade de Concertos.

Pedro Albéniz é considerado como o introdutor do piano na España, sendo ademais o primeiro professor do Conservatório e autor do método utilizado pelos seu alunado, assim que o seu papel fulcral não precisa de mais comentário. Como pianista formou-se na Franza com mestres da talha de Herz e Kalbrenner, pelo que teve que ter aceso ao melhor repertório virtuosístico da sua época.

Sabemos que Albéniz acompanhou ao violinista Pedro Escudero –membro também do primeiro claustro do Conservatório – em concertos onde se interpretavam partituras de Beethoven. Mas também devia utilizar partituras do [ou sobre o] mestre  alemão nas suas aulas, pois já em 1834 num concerto organizado pela instituição ante a Rainha Governadora o aluno Juan Retas interpreta umas variações sobre um tema de Beethoven [Tal vez Le Tremolo de Herz?]. La revista española. 31/01/1834

Até a aparição da Sociedade de Conciertos em 1866 da mão de Barbieri apenas aparece o nome de Beethoven nos programas. Obviamente isto não supunha uma total indiferença cara a obra do autor do Fidelio, quando menos por parte das elites. Por exemplo, a orquestra da Capella Real, dirigida por Valdemosa, toca no Palácio Real –encabeçando as duas partes em que se divide o programa– primeiro o Adagio e Allegro de Beethoven e depois o Andante. Suponho que o que se tocou foi a primeira sinfonia em Dó Mayor.

A biblioteca de Adalid vs Marcial Valladares.

Mas isto tem a ver com a música institucional, a que emana dos conservatórios, as capellas, etc. Isto deixa de lado o papel de divulgação que tiveram os músicos diletantes ou mesmo profissionais, no descobrimento dos grandes nomes da música europeia, no âmbito doméstico, no salão das suas casas. A professora do conservatório de Vigo, Carolina Queipo Gutiérrez no seu magnífico artigo Boccherini, Haydn and Beethoven in Restauration Spain (1815-1848) Revista Boccherini Studies Vol. 5, faz um demorado estudo da presença da música de câmara destes três autores na biblioteca da família de Marcial Adalid, que se encontra na biblioteca da R.A.G. Segundo os dados que nos oferece a professora Queipo a obra camerística de Beethoven na biblioteca Adalid estaria em terceiro lugar, com 46 obras, por trás dos mencionados Boccherini e Haydn. As edições beethoveanas seriam todas elas francesas.

Num arquivo abastado em documentos manuscritos e impressos como o de Marcial Valladares que poderíamos datar entre fins do XVIII e primeira metade do XIX não lembro ter encontrado nem uma só obra de Beethoven. Frente à cosmopolita biblioteca dos Adalid, esta apresenta-se muito mais carpetovetónica, em pleno trânsito da guitarra ao piano, de Manuel García a Iradier, do minueto e a bolera à valsa ou a polca. Onde não há cantos patrióticos e danças populares, tudo é belcantismo com Lucia de Lammermoor ou La Gazza Ladra como títulos recorrentes. Um observador de ambas bibliotecas poderia observar que Marcial Valladares e a sua família eram músicos amadores, longe da excelência académica dos Adalid. Isto é evidente mas acho que o factor principal na diferença entre os espólios de uma e outra família está precisamente no cosmopolitismo, na possibilidade que os Adalid tiveram para viajar por Europa e ter aceso a professores e publicações dos que os Valladares nem sonhavam. Formados na música espanhola e nos gostos italianizantes, a D. Marcial uma obra de Beethoven devia de parecer-lhe uma excentricidade. Com certeza, ele não poderia tocar a maioria das obras do compositor alemão, mas as suas irmãs pequenas acho que sim, embora não mostrassem o menor interesse.

No século XIX a Galiza litoral é um lugar privilegiado de comunicação com Europa, a través dos seus portos e do transporte marítimo. Só isto pode explicar a importância dum armazém como o de Canuto Berea, fundado na cidade da Corunha em 1854. É de tudo provável que antes de que se programasse a Beethoven em qualquer teatro galego, ou em qualquer local habilitado a tal fim, já se tivesse tocado nos salões aristocráticos ou burgueses nas mãos dalgum músico viajante ou duma dama com aceso as principais editoras europeias. E um destes salões foi, isto sim, o de Tomasa Núñez.

Tomasa Núñez Fernández (1793-1861)

«Ella [Tomasa Núñez] fué quien, utilizando un piano inglés de Collard y Collard, dió a conocer en Pontevedra, y acaso por primera vez en Galicia y en la mayor parte de las poblaciones de España, las Sonatas, Rondós, Scherzos, Andantes con variaciones, etc. del Maestro inmortal [Beethoven].
Esta señora, familiarmente conocida por "Madre mia", fué quien inició y enseñó el piano a sus sobrinas, las inolvidables y distinguidas aficionadas, Carmen Babiano y Carmen Sancho; inculcándoles muy especialmente el estudio de las obras de Beethoven, que conservaron hasta su muerte entre las de Mozart, Haydn, Bach y otros clásicos.» Diario de Pontevedra, 26/03/1927

Neste artigo há um pequeno erro. Carmen Babiano e Carmen Sancho não eram sobrinhas, senão netas de Tomasa o qual me provoca uma questão: tal vez a professora beethoveniana foi Soledad Méndez Núñez, filha de Tomasa e proprietária do casarão conhecido como Palacete das Mendoza. Contudo, Prudencio Landín conta que na casa de Tomasa Núñez e José Mendez Ponce de León, [muito antes da construção da morada dos Mendoza] pais do marinho Casto Méndez Núñez, tocou o pequeno Sarasate subido a um escano para chegar-lhe com os olhos aos papeis do estante. Quando morreu Beethoven, Tomasa tinha 34 anos, pelo que na altura já tinha que estar formada como pianista. Como foi essa formação e quando se fez fanática de Beethoven é algo que desconheço.

Durante todo o século XIX as casas dos Méndez Núñez e os seus descendentes são centros de reunião da sociedade filomusical pontevedrina. A esta saga de artistas-hospitalários fazem parte os Babiano Méndez Múñez, os Sancho Mendez Núñez e as María e Concepción Mendoza Babiano, conhecidas como "as Mendoza", cujo perfil traçou com beleza Milagros Bará. Carmen Babiano, além duma grande pianista, foi uma excelente pintora, na minha opinião maltratada pela crítica, com preconceitos como sempre com as mulheres artista. No espolio seu que se conserva no Museo de Pontevedra, encontramos uma cópia que Carmen fiz dum original de Fourtuny: a máscara mortuária de Beethoven. A estas reuniões musicais vai ser convidado um advogado e pianista da cidade do Leres, igualmente adorador do maestro de Bonn e na minha opinião um dos seus grandes promotores na cidade. O seu nome é Casto Sampedro e Folgar. O seu discípulo Blanco Porto lembrava num formoso artigo obituário publicado em Diario de Pontevedra, 9 de abril de 1937, alguma confidência do antiquário diante do piano: «Al final de cada obra o de cada movimiento, D. Casto que por deficiencia de la vista se enarcaba un poco ante el papel, erguíase de pronto con aquella gallardía que no pudo abatir la ancianidad, retrepábase en la silla de alto respaldo afiligranado, y, al tiempo que acariciaba la barba, ponía, unas veces, un docto y exaltado comentario de alabanza para la calidad del pasaje interpretado, otras, una alusión cordial para los colaboradores suyos que me habían precedido. Decía, a lo mejor: —Qué donosamente, con qué gracia fraseaba este scherzo Carmen Babiano! o bien: —Cómo le gustaba al pobre Salgado este andantino!».

Em Ponte Vedra, Beethoven terá além de mais uns aliados sempre fieis: a maçonaria. Os Fonseca, os Pintos, os Pintos-Fonseca, os Armesto... Muitos deles músicos, melómanos e culturalmente hiperativos. Filgueira Valverde conta como na casa de Eulogio Fonseca em Ponte Vedra, sede da loja pontevedrina, havia vários bustos do autor da Oda à Alegria.  Beethoven é um símbolo da maçonaria chegando a ser um autêntico santo maçon, como o seu admirado Mozart ou o seu mestre Haydn, mas nunca foi um deles. Tenho a impressão de que para Beethoven os maçons eram uma turma de ociosos e ele não tinha vagar para militâncias. 

Epílogo.

Procurando em Internet uma imagem de piano Collard & Collard dei com uma web de Todocolección. Trata-se dum exemplar da época das Mendozas, construído em vida da matriarca Tomasa. Enterei-me de que alguma vivenda dos descendentes dos Méndez-Núñez foram desmanteladas nos últimos anos e o continente da mesma vendido ao melhor preço. Ao consultar quem era o vendedor do piano nesta web especializada em coleccionismo levei um supressão: trata-se de alguém de Ponte Vedra. E será este o piano das Mendozas?

sábado, 7 de julho de 2018

nº 225 Pilar Castillo, pianista. Algúns apontamentos. II

Mentir na idade. 

Seguindo o ronsel deixado pelo fenómeno Mozart, muitos tentaram imitar o seu exemplo de precocidade musical, não sempre acompanhada de talento, como alicerce duma carreira musical. O próprio Beethoven foi vítima do modelo mozartiano e de ai para a frente foram legião os meninos e meninas exibidos como fenómenos de diminutos e virtuosos dedos. O arquétipo galego foi sem dúvida Pepito Arriola, uma personagem que merece um romance ou um filme com tinturas dramáticas. Um jornalista -por certo, sem muito coração- escreveu sobre o brinquedo roto José Arriola, aos seus cinquenta e sete anos o que se segue: 

«El que ahora vuelve a España desde la Alemania en que pasó la guerra, es, sencillamente, José Arriola. Ni figura su nombre entre los grandes concertistas universales, ni creo que tenga ya posibilidades de ello.
El, no obstante, al contar la tragedia de su vida dentro de la gran tragedia alemana dice: "He salvado la vida y me encuentro en excelente forma y optimista para reemprender mi carrera de concertista, puesto que estoy en la plenitud de mis posibilidades".
La experanza es siempre un fuerte sostén del hombre.
Dios quiera hacer buenas sus palabras. Pero... muchos años antes de la fatídica guerra que acabamos de sufrir, ya José Arriola había fracasado en muchas cosas. Y el silencio envolvía su nombre.» Cartel: revista de la vida gallega: nº 6 (15/03/1946) Desnecessário qualquer comentário.

Os pais de Pilar Castillo tinham na casa uma extraordinária pianista, mas para quando decidem o lançamento da sua carreira já não era uma criança. Elaboram uma brochura com um C.V. algo pomposo e mentem na idade, simplesmente porque isso vende. Nessa brochura disse:

«Pilita nació artista, y el ambiente de su casa familiar le fue propicio para sesenvolver y fomentar las sensaciones de su alma de niña-prodigio.» Esta brochura pode ser consultada na pasta de Pilar Castillo no arquivo da R.A.G na Corunha.

Efectivamente, Pilar nasceu artista mais não foi em 8 de maio de 1895, senão em 11 de maio de 1890. Assim que quando a rapariga da rua da Sapataria da Corunha começa a sua carreira em 1911,  soprara já 21 velas. E para que ninguém duvide do que digo, eis ai a sua partida de nascimento:

"En la Ciudad de la Coruña y a las siete y cuarto de la tarde del día catorce de Mayo de mil ochocientos noventa. Ante el licenciado Don Salvador Golpe Varela Juez Municipal y Don José Patiño Pérez Secretario compareció Don Enrique Castillo Basoa natural de Comillas provincia de Santander de veintinueve años, casado, escribiente y domiciliado en la calle de los Olmos número veinticuatro, provisto de célula personal vigente número tres mil trescientos sesenta y dos, solicitando la inscripción de una niña en el Registro Civil y al efecto declara:
Que dicha niña nació en la casa del declarante a las once de la mañana del once del actual.
Que es hija legítima del declarante y de su muger Dª Salvadora Sánchez natural de Lugo de veinticuatro años.
Que es nieta por linea paterna de Don Ezequiel Castillo y de Dª Ramona Basoa ambos naturales de Ferrol y por la materna de abuelo incognito y de Dª Manuela Sanchez natural de Lugo.
Así mismo declaró que a la espresada niña se le puso de nombre María del Pilar.
Fueron testigos personales José Vega Catoira jornalero y Don Eugenio Garrido Morado empleado ambos casados mayores de edad  naturales y vecinos de esta ciudad.
Leida integramente esta acta e invitadas las personas que deben suscribirla a que lo hicieran por si mismas si lo deseaban se estampó en ella el sello del Juzgado y la firman el Sr. Juez declarante y testigos de que certifico.

Salvador Golpe. Enrique Castillo. José Vega. Eugenio Garrido. José Patiño Pérez.»

Da partida de nascimento podemos tirar várias conclusões interessantes:

- A data de nascimento que lemos aqui, 1890, discrepa em dois anos da que aparece na partida de defunção, 1892. Ao morrer disse que Pilar tinha 60 anos, quando em realidade tinha 62. Resulta curioso que na brochura da R.A.G. haja também discrepância mesmo no dia, 8 de maio por 11 de maio.
- Como curiosidade, o juiz de paz que faz a escritura é Salvador Golpe (1850-1909), autor da letra de Adeus a Galicia  [As alegres andorinhas] de Montes e Meus amores de Baldomir.

Por último uma nota a pé de página. Chegou aos meus ouvidos o rumor que circula pela cidade da Corunha de que Pilar Castillo podia ser filha ilegítima dum ilustre compositor lucense. Esta informação pareceu-me pouco sólida, posto que as datas não me quadravam. Mas na partida de nascimento disse que a mãe de Pilar, Salvadora Sánchez, nascida em 1866 era filha de Manuela Sánchez de Lugo e de pai incógnito. A professora Aurora Marco diz no seu Dicionário de Mulleres Galegas –sem fazer qualquer rodeio– que Pilar era neta de «o célebre Montes». Em qualquer caso fica claro que o compositor luguês nunca reconheceu a sua filha.
Acrescentar que Salvadora Sánchez foi mestra e professora de piano, a primeira que tiveram as suas filhas, e junto com sua irmã, de nome também Pilar, teve por algum tempo uma escola na praça do Castelo, em Lugo.
El Regional 1885

Continuará.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

nº 224 O poema mais formoso em língua galega.


O objecto da poesia é a poesia. 

Eduardo Moreiras.

Quando li este poema fiquei namorado de cada palavra. Fui ao piano e nasceu uma melodia. Mostrei-a a Helena e nasceu uma canção. Assim é a milagre da escrita feita som, assim é a minha vida, uma busca continuada da canção perfeita.

Esta semana o meu blogue Ilha de Orjais cumpria 100.000 visitas, 100.000 pessoas que se achegaram a esta Utopia que serve ao meu desejo de pôr-me em evidencia e onde acostumo a mostrar os traumas quotidianos que me acompanham. Por isso estou de celebração, porque não me sinto só na luta diária por construir.

Nenhum momento melhor que este 17 de maio do 18 para partilhar o meu amor pelo poema de Eduardo Moreiras, porque o objecto da poesia é a poesia e o da canção, encontrar um ouvido carinhoso. Vivam as nossas letras!


Letra: Eduardo Moreiras, Música: Orjais

Voz: Helena de Alfonso
Rajão e percussão: Orjais

Baixo: José Lara Gruñeiro

sexta-feira, 11 de maio de 2018

nº 223 Um pianista para a galeria.


Às vezes encontro-me com textos nos jornais que me enchem a alma, porque me fazem ver situações ou sensações que quisera ter vivido e que infelizmente jamais poderei experimentar. É o caso deste artigo  aparecido no jornal La Noche em 1961. Para que sintam o que eu senti, colo aqui o texto sem mais comentário.

Acordes
El caballero de la noche

Después de un día tipicamente canicular, la noche era unha bendición para todos. Olia a incendio fornstal y, desde la Ribera, se veían sobre el Barbanza dos pavorosos focos de fuego que producían reflejos siniestros sobre el mar inmóvil.
A aquellas horas, la temperatura era ideal y la calma absoluta. Los astros giraban en la bóveda celeste inmersos en su tremendo y eterno silencio. De pronto, brotó en el ambiente el rápido preludio de un piano.
Nos volvimos. había una gran galería que dabba a un salón de románticos cortinones y retratos de damas antiguas. Al piano, un caballero magro, alto y entrecanado, con la vista perdida en sabe Dios que recuerdos. ¿Que significaban aquellos acordes, aquella divagación musical cara a la noche rianxeira?... Quizás el caballero intentase reactivar sensaciones y sentimientos desvanecidos tras una niebla de años. O puede que quisiera expresar en bella armonía el dolor producido por algún reencuentro.
Cerró la tapa del piano y se detuvo un instante a considerar los objetos familiares: el reloj de pared, la vieja lámpara, los antiguos óleos... Después se acodó en la ventana y aspiró el aire de la noche... ¿Por qué será tan hermoso el pasado?... ¡Oh, si se pudiese revivir!
Una motora se alejaba cuando sonaron las doce en la campana del reloj parroquial y aun los incendios del Barbanza ponían un reflejo trágico sobre las aguas de la bahía.

 S.M.
La Noche, 09/IX/1961 

O jornal La Noche -que estivo nas quiosques de 1946 a 1967- pertencia ao mesmo grupo editorial que El Correo Gallego e contou com diretores como Raimundo García Domínguez Borobó, que promoveram a escritores galegos e fomentaram o uso da língua galega.
La Noche acostumava fazer um especial sobre as Festas de Guadalupe em Rianxo, páginas que hoje são um agasalho para tod@s os que amamos ao nosso povo. Segundo me conta o meu grande amigo Xosé Comoxo, meu assessor pessoal em rianxeirismo, o factotum desta impresa foi Máximo Sar, a quem lhe devemos, só por isso, uma homenagem pública. Ele procurava aos autores e os anunciantes que sufragavam a edição dessas páginas culturais.
Na minha opinião, o autor do artigo El caballero de la noche e que assina com as inicias M. S. foi o próprio Máximo Sar que evita citar o nome desse cabaleiro pianista, obviamente o Rafael Dieste, tal vez por uma precaução de orde política. Se temos em conta que o escritor do Félix Muriel retornou em agosto do 1961, o artigo foi publicado apenas uns dias, ao sumo um mês depois de recuperar o velho piano que a família comprara para a sua irmã Olegaria. Não posso nem imaginar o que deveu ser para Rafael chegar à sua casa da Rua de Abaixo, abrir a tampa do velho instrumento e começar a digitar sobre as peçinhas brancas e pretas. A pobre de Olegaria, na sua ofuscação de décadas, reconheceria aqueles sons como familiares? Do que si estou certo é de que Dieste deveu escolher muito bem aquela primeira tocata. Conhecendo a personagem e os seus genes, estou convencido de que foi uma cantiga popular, tal vez um alalá ou unha foliada marinheira improvisada, com a vista posta na saudade daquele Rianxo que lhe roubaram.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

nº 222 Anxelo, um náufrago do amor.



Alguma gente ainda não reparou, mas não duvidem que o rianxeirismo é uma religião que conta com um cântico sagrado conhecido como A Rianxeira, todavia os iniciados prefiram denomina-lo Ondinhas da Nossa Ria. Até onde pode chegar o fanatismo dos devotos pelas suas tradições e preces é algo que apenas posso chegar a vislumbrar, apesar de levar anos estudando o contexto. Para os forasteiros, o fenómeno resulta surpreendente, pois aúna tradição inventada com arcanos semi-ocultos no palimpsesto do folclore. 
O que sentem os rianxeiros quando escutam cantar Ondinhas venhem e vão é algo que só podemos explicar em termos de rito, religioso ou pagã, mas sempre devoto. É por isso que me interessou a história do Anxelo, tal vez certa, tal vez inventada pelo Emilo Álvarez Negreira (1926-2002), jornalista pontevedrês da saga dos Álvarez Limeses e por conseguinte, também dos Álvarez Blázquez.
Quisera pensar, por último, que o que se nos conta do Anxelo foi verdade e que houve uma parelha capaz de misturar sangue rianxeira e irlandesa, quiçá o coquetel genético mais primoroso da velha Europa. Sei lá!

P.S.: O trilho musical desta postagem poderia ser a versão da Rianxeira de os Chieftains, com certeza, uma ilustração que nem pintada.

Anxelo, el marinero que naufragó en Irlanda.


Yo no sé si ya les hablé a ustedes de Anxelo, el marinero de Rianxo que fue a Irlanda. No recuerdo si les conté algo de él, pero por si no fue así, tengo que decirles que Anxelo vive ahora tranquilamente en Irlanda, engordando cada día más, cada año que pasa unos kilos más de vida sedentaria.
Anxelo, cuando joven, por aquello de ver mundo, se metió en un bacaladero que ponía su proa rumbo a Terranova. El mar es una balsa de vino tinto para todo rapaz varudo, y Anxelo, con sus veinte años, apenas notó el galopar de las bravas, las azules yeguas del mar. El bacaladero hizo escala en un puerto irlandés, todo por orden del patrón, el cual permitió un día libre a la tripulación Anxelo echó un vistazo por el puerto y se quedó parado ante un letrero que decía: “The Black Cat”. Debajo del letrero había una puerta y al fondo un mostrador. Detrás del mostrador estaba una rapaza de trenzas rubias, de ojos glaucos que miraban al mar. Anxelo sin encomendarse a Dios ni al diablo entró en el establecimiento.
–¿What do you wishk? [sic] –preguntó la moza de las trenzas rubias con una voz que navegó por las venas del mozo hasta su corazón.
Si hay que beber, se bebe. Si hay que querer, se quiere; porque es viejo aquello de que en cada taberna un vaso y en cada puerto un amor. Y entre el beber y el querer, y los glauquísimos ojos y las trenzas rubísimas, se armó tal lio Anxelo, que ya no quiso saber nada del bacaladero ni de su patrón.
Al principio no le iba bien por que las palabras de la moza no las entendía, pero iba tirando con el idioma de las miradas y las caricias, hasta que un día aprendio a decir ¡adiós!
–¡God-bye![sic] –gritó alegremente desde la puerta de la taberna, y esa palabra con tanta dificultad pronunciada fue la que perdió, pues los padres concertaron rápidamente la boda. Y así fue como Anxelo, hijo de la villa marinera de Rianno, mozo de veinte años, con mucho que andar, naufragó en su primer viaje preso en las trenzas rubias de una sirena irlandesa.
Ahora, después de tantos años, acabo de recibir noticias suyas. Me las trajo su paisano el marinero Lampariñas, que en unas cuantas palabras me informó de que Anxelo, ya que sus suegros estaban viejos y cansados de aturar parroquianos, lo dejaron amo del negocio. Que como esto de tener hijos es algo así como coser y cantar, fueron viniendo a este nunca bien ponderado mundo rapaces y rapazas, ellos con el pelo negro de su padre y el habla gallega y ellas, con el cabello rubio y el decir irlandés. Pero Lampariñas me dijo algo que me conmovió: que Anxelo a veces se sienta al atardecer en una banqueta a la puerta de su taberna y suspira por su tierra. Que antes de despedirse de Lampariñas, le dijo: “Sólo pidoche una cousa, amigo Lampariñas, que no próximo viaxe que fagas me traigas un disco da “Rianxeira”.
Yo temo que Lampariñas no pueda volver a navegar, pues los años lo han dejado como un barco viejo. Por eso me permito poner aquí el siguiente
AVISO: Vosotros, los que navegáis por la costa de Irlanda, si algún día veis al anochecer a un hombre entrado en años, sentado a la puerta de la taberna «The Black Cat», mirando al mar, ese es Anxelo. El marinero de Rianjo que casó, tuvo mujer hermosa, fue feliz, pero que algunos días al anochecer sentía nostalgia de la tierra de Rianjo, donde nació, y contemplaba las innumerables olas del mar. Vosotros los que navegáis, si sabéis cantar, cantadle “La Rianxeira”, que el os lo agradecerá.

Emilio Álvarez Negreira
El pueblo gallego, 13/01/56

sábado, 5 de maio de 2018

nº 221 Uma carta de Antón Beiras.




Doctor A. Beiras

Oculista
Vigo
178-61

Sr. D. Alberte Casal.
Querido  amigo: Mirei ao teu recomendado Sr. Ramón Quintela Fisteos. Padece unha lesión no ollo dereito, consecuencia de un traumatismo (Leucoma aderente e iridociclitis) ou sea que ten inflamación crónica de tal ollo como consecuencia das lesións pasadas. Por esta sola causa ten que ser vixilado de cerca pois algunhas veces é necesario tomar determinacións serias, si se nota perigro para o outro ollo. Non é que sea necesario tomar tales determinación agora, sinon que debe ser vixilado periodicamente por si fixera falta.
Ademais as pestañas dese ollo, como consecuencia de unha operación que lle fixeron (operación ben feita) nácenlle tortas e enbisten ao medrar en contra do ollo e raspan nel facéndolle moito mal. Por eso poida que sexa perciso operar ese pálpabro para eliminar esta desviación e o mal que elo lle causa. De momento leva tratamento e xa o vixilaremos.
Unha aperta.

Esta carta apareceu no interior dum livro que acabo de comprar a um antiquário viguês. O exemplar em questão titula-se Encontros com a Galiza, do jornalista português Hugo Rocha (1907-1993) e nunca pensaria que ia vir acompanhado dum presente para mim tão valioso.
Os interlocutores da carta são o oftalmólogo Antón Beiras García (1915-1968) e o notário Alberte Casal Rivas (1921-2014). Ambos foram protagonista no nascimento da editorial Galáxia. O primeiro, que na sua juventude fora um Ultreya e membro das Mocidades Galeguistas, faz parte do conselho editorial da editora viguesa junto com Luís Viña Cortegoso, Ricardo Garcia Suárez, Emilio Álvarez Blázquez, Rufo Pérez González e Xosé Meixide González. O segundo, Alberte Casal, tem a sua notaria na rua Reconquista, a poucos metros do local de Galaxia. Na sua oficina assinaram-se os estatutos da editora e, sem qualquer lugar a dúvidas, o discreto notário deveu ser testemunha de conversas e discussões que nunca transcenderam. O curioso é que tendo um papel nada menor, Francisco Fernández del Riego omita o seu nome no opúsculo titulado A Xeración Galaxia, Ed. Galaxia, Vigo, 1996.

O interessante desta carta não é apenas as pessoas que intervêm, senão o fato de em 1961 um médico e um notário comunicarem-se em galego. Na altura, Antón Beiras andava a idear um aparelho corrector do estrabismo chamado vigoscópio e era já uma eminência no âmbito da medicina ocular. Era um intelectual de primeira divisão casado com a grande Antia Cal, proprietária e directora da escola Rosalia de Castro em Vigo, um centro à vanguarda pedagógica do nosso pais. Por certo, e isto não tem a ver com a missiva do Beiras –ou sim– resulta sintomático que havendo tantas mulheres extraordinárias nos arredores da editora, nenhuma fizera parte dos órgãos directivo e de redacção. Historicamente há aspectos nos que a esquerda e a direita, o galeguismo ou o espanholismo vão infelizmente de mãos dadas.