sexta-feira, 23 de março de 2018

nº 220 A casa do Pintor.


A casa do Pintor.
Uma história quase verdadeira.

A casa do Pintor erguia-se na rua mais cêntrica da Cidade. Uma rua cheínha de baixos comerciais com vitrinas enormes, reclamo de sapatarias, fotógrafos e lojas de roupa. Mas o prédio no que morava o Pintor era estreito e vetusto, quiçá dos tempos em que os dinheiros da emigração fizeram dum pequeno burgo marinheiro a mais grande metrópole do Reino.
Com o papelinho na mão fui contando os números ímpares até chegarem ao portal indicado. Apertei o interfone e foi nesse mesmo instante que cai na conta de que não levava nada preparado, nada razoável que lhe dizer à pessoa que falava desde o outro lado.

-Quem é? inquiriu uma voz feminina.
-Sou o Mário, está o Pintor?

Para a minha surpresa o automatismo ativou-se de imediato sem que mediara mais explicação. Uns segundos mais tarde partilhava mesa redonda com o meu admirado pintor, um velhote adorável de cabelos brancos baixo um boina puída pelo uso quase perpétuo.

-E tu a que te dedicas?
-Sou músico e estudo na Universidade.
-Pois ainda bem que és músico, senão quanto tempinho perdido, meu neno!

Passaram vários minutos dedicados pelo Pintor a me interrogar sobre as minhas afeições, a minha idade, a minha origem... até chegarem a pergunta que deveria ter sido -e não foi- a primeira:

-Então, por que você veio onda mim?
-Conheço muito bem a sua obra e agora queria conhece-lo a voçê. Enquanto nascia a resposta e a escutava tal e como saia dos meus lábios, percebia bem às claras o esquisita que soava. Mas, curiosamente, o Pintor pareceu gostar imenso do meu barroquismo durante todo o que levávamos de conversa.

A casa na que me encontrava estava decorada com sumo gosto, móveis de carvalho com linhas art nouveau muito sofisticadas, papel pintado com pássaros e motivos florais nas paredes e vários vasos com margaridas de longo talho sobre tapetes de croché. Quando a mulher do Pintor nos serviu um café e vi o seu rosto cor-de-rosa moldurado com cabelos brancos, o seu avental e a travessa de prata, pareceu-me estar ante Mrs. Hudson no 221B de Baker Street.
Foi depois de admirar alguns quadros magníficos pendurados com aparente desordem nos vãos abertos entre o mobiliário, que o Pintor colocou-me a mão no ombreiro e disse-me:

–Oi, tu não conheces a minha Lolinha?
–Acho que não, contestei, sem saber de que caráfio me estava a falar.
–Anda, pois vem que cha apresento.

Abriu uma porta e penetramos num quarto interior iluminado com a escassa claridade que penetrava por uma janela translúcida. Os meus olhos foram devagarinho afazendo-se a aquela ténue luz que me permitia perceber vultos apenas intuídos. A minha atenção concentrou-se imediatamente sobre um corpo que jazia sobre a cama. Achinei os olhos até adivinhar uma silueta, ficando paralisado ao compreender que se tratava duma mulher nua, deitada de costas, formando com os seus braços e pernas uma espécie de homem de Vitrúbio de longos cabelos. Então o Pintor se achegou a mesa de cabeceira e acendeu uma lâmpada que iluminou a estância dum vermelho prostibular.
Percebi, finalmente, que aquele vulto sobre o cobertor era uma boneca insuflável de cabelos loiros, olhos apestanados e um contínuo O nos seus beiços.

–Linda, não sim? É cuspidinha a Brigitte Bardot.
-Pois tem-che um ar, sim, disse sem vontade, ainda que o pareça, de ser irónico. 

Botamos algum tempo mais contemplando aquela bóia sexual, comentando a sua beleza, a sua paciência no posado e até a finura do seu cútis.

Depois de conhecer a Lolinha saudei a patroa da casa, dei uma aperta ao Pintor e sai esqueiras abaixo até o pé da rua, meditando o que se acontecera e compondo na minha cabeça um relato coerente para contar algum dia. Mas nunca até agora contei, quiçá porque aos poucos meses o Pintor morreu e me parecia um assunto demasiado privado para andar espalhando.

Quando a morte ocorreu, o maestro estava a trabalhar numa série de quadros figurativos, uma última etapa cheia de cor e pinceladas de grossos traços. A Junta do Reino acordou fazer uma exposição que amostrara o material, algumas obras terminadas e outras simples esboços. Acheguei-me até a sala e caminhei pelos seus corredores, saudoso do Pintor com o que apenas comparti uma tarde de conversa. 

Antes de deixar o local não pude reprimir um sorriso ao ver o retrato duma moça loira com um eterno O entre os seus lábios.
    

domingo, 11 de março de 2018

nº 219 Pilar Castillo, pianista. Alguns apontamentos biográficos. I



Esta semana comprei a partitura de Maruxiña da compositora e pianista corunhesa Pilar Castillo Sánchez (1892-1952). Não sou um colecionista, nem acostumo a comprar algo que sei que posso consultar em linha nos repositórios das bibliotecas públicas. Mas eu queria ter esta partitura pelo seu contexto histórico, por ser uma das poucas que existem com texto de Pondal e por estar composta por uma galega.
Como sempre que me achego a um texto musical teve o impulso de saber mais, quem era Pilar, qual o seu papel no contexto musical galego da primeira metade do século XX. Para a minha surpresa, as biografias que pude ler em rede são confusas, com comentários que fazem da vida de Pilar Castillo uma personagem quase misteriosa. Alguma biografia como a que aparece no Album de Mulheres do Consello da Cultura está datada em 2007 e dez anos são muitos no estado atual de investigação na música galega. E por isto que me atrevo a pôr nesta postagem algumas questões que para mim são importantes, tal vez à espera duma monografia sobre Pilar Castillo e a sua alambicada rede familiar.

1º Uma das questões mais curiosas é a discrepância sobre o seu ano e lugar de nascimento e óbito. No Álbum de Mulleres dá-se como ano da morte 1952 e na Wikipedia 1942, ignorando-se em ambos casos o lugar do falecimento. Este dato resulta singelo de comprovar, chega com pedir um certificado de defunção.
Segundo este certificado [ver] Pilar Castillo Sánchez nasceu o 10 de março de 1892 e morreu o 31 de junho de 1952, no seu andar da rua Fontán, nº 6, 1º esq. a consequência duma hemorrágea central consecutiva a hipertensión nefrógena. Não sei nada de medicina, mas soa a que foi algo renal.

O ano do seu nascimento merece um comentário. Tenho a impressão de que a data de 1895 que normalmente se maneja obedece a uma manipulação que parte da própria família da pianista. No jornal El Eco de Galicia do 23 de abril de 1913 aparece um artigo titulado "Pila Castillo. Maruxiña." Nele, o autor da resenha diz: «Nuestra insigne y genial pianista Pilar Castillo, verdadero fenómeno de precocidad musical, nos ha dado una grata sorpresa, ofreciéndonos el libreto de su celebrada composición Maruxiña [...] No podemos resistirnos al deseo de transcribir aquí la sucinta nota biográfica con que comienza el interesante folleto:
"Pilar Castillo abrió sus ojos á la luz del mundo en la Coruña, el 8 de Mayo de 1895 [...]»
Numa Galiza onde trunfa o menino Pepito Arriola e está nascendo o fenómeno Nolita Pereira, tal vez seja puro marketing mentir na idade de Pilita Castillo, conhecendo o valor que a imprensa e o público dá à precocidade. Em qualquer caso quando os concertos de Niza em 1912, a imprensa francesa falava duma moça galega de 19 anos, a sua idade real e a que com certeza apareceria no seu passaporte.
Aguardando a que me chegue do registo a ata de nascimento da nossa compositora –demora muito por culpa da folga nos julgados– há um dado mais para acreditar em 1892 como data certa de nascimento. Num padrão de 1899 [fig. 1] a família Castillo Sánchez vive na rua corunhesa de Los Olmos nº 25, a Corunha. Segundo o padrão, cujos registos etários às vezes são aproximativos, Pilar tem 8 anos. 

Fig. 1 Padrão da cidade da Corunha de 1899

Enfim, quando tenhamos a certificação de nascimento fazer-se-à público.

2º E o acostumado nos artigos sobre Pilar Castillo dizer que o seu primeiro professor foi Canuto Berea. Isto é falso já que este honor recai na mãe de Pilar, Dona Salvadora Sánchez, luguesa nascida ca. de 1867. Em 1885 termina os estudos de «maestra superior de instrução primária» com nota de sobresaliente em todas as matérias. Casa com Enrique Castillo Basoa em janeiro de 1888. Opta a professora de piano e desenho na normal de a Corunha, mas acho que nunca chegou a ocupar nenhuma destas cadeiras. O que si fez e dar aulas na sua casa do zona antiga corunhesa. As suas pupilas iam depois a examinar-se a Sociedad de Amigos del Pais de Santiago de Compostela e ao rematar esta etapa viajavam a Madrid, em muitos casos bolsista da câmara municipal ou da a deputação. Isto aconteceu com as suas filhas. Dora recebeu vários prémios fim de curso na sociedade compostelã. Na imprensa aparece o dado de que Pilar também foi aluna dos Amigos del Pais mas não encontrei o seu nome entre as matriculadas ou premiadas. O certo é que às duas irmãs e Dona Salvadora viajam em 1910 a Madrid, aprovando vários cursos numa só convocatória.

Maruxiña é uma das poucas canções compostas sobre um poema de Pondal. Esta é a razão de que fosse utilizada nos atos de celebração do centenário do bate em 1935. Mas a partitura foi composta e impressa muito antes. Em 1910 já se fala de Pilar Castillo como pianista e compositora. A estética das duas partituras que conservamos dela, Maruxiña e Durme são até um bocadinho vintage para princípios do século XX. Na minha opinião ambas foram publicadas em 1912, ano em que são doadas à Academia Galega da Língua. Em 1913 há uma solicitude de Pilar à câmara municipal de a Corunha para que lhe compre uns exemplares.
Outro fato importante é que os desenhos da capa foram feitos pelo pai de Pilar, Don Enrique Castillo Basoa (15/08/1860 Comillas, Santander; ¿/06/1924 Corunha) de profissão projetista maior de obras públicas e um dos autores de muitos dos desenhos a tinta de monumentos corunheses incluídos em enciclopédias como a Espasa, na imprensa ou nos boletins de diferentes instituições.
As partituras estão dedicadas o que nos leva a pensar que tal vez houve mecenato. Maruxiña foi dedicada a Leonor Centeno, casada com o industrial Juan Sánchez López, dono da fábrica de tijolo de São Diego na Corunha. Deles comenta a imprensa galega:
«[...] el rico sportman D. Juan Sánchez y su ilustrada y virtuosa señora, Leonor Centeno, distínguidísima dama de Buenos Aires, que habla el francés, el inglés y el alemán, como su lengua nativa; traen como chauffeur de su magnífico auto a un joven de 20 años que lleva a su servicio cuatro» El Correo gallego, 20 de agosto de 1908
Semelha evidente que eram as pessoas indicadas para financiar a impressão das partituras.
Durme está dedicada a Concepción Mesa Ramos, Concha Mesa, cantante lírica filha de Juan Mesa, abastado industrial corunhês cuja biografia resulta imprescindível na história económica herculina dos primórdios do século XX. Será por dinheiro!

4º A rede familiar dos Castillo Sánchez também resulta muito interessante. Dora Castillo casou o 12 de outubro de 1914 com Fernando Martínez Morás, catedrático de comércio e filho de Adolfo Martínez Salazar. Fernando foi membro numerário da Academia Galega da Língua e presidente da Sociedad Filarmónica da Corunha. Dora era, então, cunhada da grande pedagoga María Barbeito, casada com Juan Martínez Morás. Em 1938, quando Fernando vinha de cobrir uma informação periodística como correspondente de guerra de La Voz de Galicia teve um acidente nos montes de Leão. Num primeiro instante não parecia grave, mas umas horas depois morria a consequência dum derrame cerebral. 
Mesmo não havendo ligação familiar, Pilar Castillo tocou muito como pianista acompanhante da soprano Eloisa de la Fuente, vizinha sua e tal vez aluna da mãe. Esta mulher casou em 1918 com o pianista santiaguês Jesús Brage Villar. Fruto deste casal nasceu Luisa Brage de la Fuente que casaria com Ramón Ballester Vives, diretor de entre moitas outras bandas da santiaguesa do Regimiento de Infantería «Zaragoza».

5º Vários.
a) Pilar Castillo, além de concertista e compositora, foi uma notável pianista acompanhante. Segundo se recolhe em vários artigos de imprensa é muito possível que acompanhasse ao próprio Manuel Quiroga em 1911, num concerto organizada pela Sociedad Filarmónica da Corunha.
b) Depois da sua gira francesa Pilar esteve um tempo em Barcelona onde chegou a tocar no Palau da Música em 11 de junho de 1912. Eis o concerto que deu, um exemplo do seu reportório habitual.

1ª parte: Prelúdio e fuga em mi menor Bach-Liszt; «Fuegos fatuos» y «Mazeppa», Liszt.
2ª parte: «Sonata» num. 21, op. 53. Beethoven.
3ª parte: «Triana», Albéniz; «Les jeux d'eaux á la Villa d'Este», «Saint Francois de Paule marchant sur les flots», Liszt: «Obertura de Tanhauser», Wagner-Liszt. Fonte La Vanguardia.
Como se pode apreciar um reportório exigente e profusamente lisztiano.

c) Em 1926 a Sociedad Filarmónica convoca o prémio Francisco Ponte y Blanco, em memória do que fora presidente da entidade filomusical. Estava dotado com 500 pesetas e premiava ao autor duma Sonata Galega. O jurado era presidido pelo diretor do conservatório madrileno Antonio Fernández Bordás e fazia parte do mesmo Conrado del Campo. O primeiro ganhador foi o burgalês Antonio José, fuzilado pelo exército de Franco no monte de Estépar. É muito provável que Pilar Castillo fizera a estreia absoluta desta obra no Teatro Rosalia da Corunha o 23 de março de 1927, uns dias depois de cumprir 35 anos. Em qualquer caso, paga a pena escoitar a Sonata de Antonio José, na minha opinião uma das melhores obras para piano compostas jamais com temática galega.

Por agora é tudo, mas prometo continuar. 

Apêndice I: Dossier gráfico:

Pilar Castillo Sánchez
La Ilustració catalana, 20/04/1912


Pilar Castillo Sánchez
Heraldo de Madrid 24/05/1911

Pilar Castillo, Eloisa de la Fuente e Honoria Goica
Vida Gallega, nº 82 20/02/1917

Salvadora Castillo
Vida Gallega, nº 23 15/07/1910 

Apêndice II:

O autor da letra de Durme é Bernardo Bermúdez Jambrina (1887-1918), ator e diretor da Escuela Regional de Declamación. A amizade de Pilar e Bernardo vinha de velho já que de 1904 são os seguintes versos:

A la precoz e inspirada compositora
Pilita Castillo
----

De la vida los pasos primeros
tranquila vas dando,
sin sentir amarguras ni penas
riyendo, gozando.

Tu recorres del mundo el sendero
sembrado de flores,
donde están prodigadas las dichas
triunfos y honores.

Yo recorro la senda escabrosa
sembrada de abrojos,
donde están las penas
desdichas y enojos.

 Tu en la frente brillante, ostentando
el sello explendente
de los genios, la vida comienzas
tranquila y sonriente.

Yo, llevando conmigo del duelo
el signo pesado,
aunque joven, terminó la vida,
herido y cansado.

Sigue recto el sendero, que arriba
te espera la gloria.
¡Ay! feliz del que alcanza la palma
cantando victoria.

Sigue, sigue, y no escuches mis quejas.
El triunfo conquista
y corone el laurel de los genios
á tu alma de artista.

B. Bermúdez Jambrina.
La Coruña, 1904.
Publicado em Revista Gallega. nº 534

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

n° 218 O pano da Pimpinela.


Esta semana o meu cole excursionou à casa museu de Rosália de Castro em Padrão, espaço que visitei muitas vezes e que considero um desses lugares sagrados que todo bom galego deveria visitar. Gostaria muito de ter demorado mais tempo com os pequenos para lhes contar o muito que para mim significam algumas das peças expostas, como o retrato de Rosália de Castro de Modesto Brocos, pintor e escritor a quem tanto admiro.
Entre os objetos mais emotivos tanto para mim como para o resto d@s rianxeiro@s está um pano bordado que à atriz Maruxa Villanueva levou posto na estreia de Os velhos não deveram de namorar-se. Ela mesma conta a história da sua feitura:

«Mirade. Castelao díxonos que comprásemos un pedazo de tela negra, que fose seda ou cousa semellante; era un triángulo, o que é un mantón, e tendémolo nunha mesa; compramos tamén varios cachos de paño militar, de moitas cores, sobre todo encarnado, amarelo, verde, non recordo que máis... [...] Entón o señor Castelao ía facendo os trisquiños e colocándoos, debuxando os rosetós, e dona Virxinia hilvanábaos: por último, Maruja Iniesta coseunos a máquina, un por un, entusiasmada, a toda velocidade, con ese nervio que ela ten» POCIÑA, Andrés &; LÓPEZ, Aurora Maruxa Villanueva (Hércules ed.; s.l) p.77

O mais interessante para @s rianxeir@s está umas linhas mais abaixo do livro de Pociña e López, onde Maruxa expressa o seu desejo a respeito da futura localização do pano:

«O mantón doneino á casa museo de Rosalía. Pero espero que cando fagan o Museo de Castelao o leven alí, como corresponde. Xa lle lo teño dito ós membros do Patronato Rosalía de Castro. Alí, no Museo de Castelao, é onde lle corresponde estar, xa que se trata dunha obra feita por el. E penso que debe estar exposto, porque é unha pintura máis del, un cuadro feito de trapo, ¿non si?» Idem.

Suponho que se alguma vez há um museu dedicado a Castelao, com certeza que este estará localizado na casa dos Castelao, na rua de abaixo rianxeira, essa milha de ouro das letras galegas da que tão orgulhosos nos sentimos os que aqui vivemos. Assim que não esqueçamos o desejo da grande Maruxa Villanueva, por se os astros se aliam e algum dia habemus museu .

Foto: Covadonga Rodriguez.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

nº 217 Aprendiz de organista.


Nos últimos meses a minha obsessão e a música para tecla, é dizer, para piano, mas também para órgão ou clave. Estou a ler muito e a procurar documentos que me permitam desvendar a minha cegueira intelectual sobre esta família de instrumentos os quais eram até agora absolutamente inapreensíveis para mim. Às vezes, este percurso pelo mundo da tecla galega leva-me a aprofundar nas coleções diplomática num intento de ir mais lá do evidente, do que se acostuma a dizer ou contar. Neste percurso teve grandes amigos e guias como Andrés Díaz, a pessoa que mais e melhor está aestudar o mundo do órgão na Galiza ou o Alejo Amoedo, conhecedor dos órgãos desde a prática interpretativa.
O meu estudo leva-me muitas vezes por caminhos cheios de tojos e silveiras, mas é sempre uma alegria quando um papel deita no teu caletre alguma luz. Esta semana descobri com assombro no arquivo histórico da U.S.C. um poder outorgado em 1536 por o ourive galego Roi Fernández a Antonio de Sant Benito, organista de Valencia de Don Juan (León). Eu achava que os organistas se formavam nas capelas, começando como meninos de coro para, posteriormente, os mais dotados e vocacionais fazer carreira eclesiástica e ocupar lugares de sochantre ou organista. Mas este documento remete-nos a um contrato de aprendiz entre partes, um documento notarial no qual Roi Fernández pai, dá um poder a António de Sant Benito para que ensine o ofício a Roi Fernández filho. O que não alcanço a saber é porque o cardeal compostelano Diego San Jurjo aparece com a mesma autoridade sobre o cativo que o próprio pai. Dada a sua importância achego aqui a minnha transcrição literal [ou isso espero].

«En la ciudad de Santiago a veinte y cuatro dia del mes de mayo, ano del nascimiento de nuestro señor Jesucristo de mil e quinientos y treynta e seys a nos en presencia de mi escrivano e notario publico y testigos de yuso escriptos parescio presente Roy Fernandez platero vecino de la dicha ciudad e dixo que por quanto Antonio de Sant Venito organista vecino de la villa de Valencia de don Juan que estaba ausente se abia encargado de llebar consigo a Roi Fernandez su hijo para el fin de tenerle en su poder y abezarle ansi a buena criança como al oficio de tanner e cantar y a otras cosas del necesario hexercicio por ende que el como padre del dicho Roi Fernandez su hijo e como mejor podia e debia de derecho daba e dio todo su poder anpliado libre lleno bastante suficiente segundo lo había e tenia e segundo que mejor e mas complidamente lo podía e debia de derecho al dicho Antonio Sant Benito que estaba ausente como sy fuese presente especial y espresamente para que pudiese tener e llebar consigo al dicho Roi Fernandez su hijo todo el tiempo que fuese su boluntad del Roy Fernandez platero e del señor Diego San Jurjo cardenal en esta santa yglesia de Santiago con qualquier dellos y para que el dicho Antonio de Sant Benito pueda durante el dicho tiempo tener en su compania e poder del dicho Roi Fernandez el moço y castigarlo y dotrinarlo como a el le paresciese e así mismo le dio poder e comysion para que si el dicho Roi Fernandez el moço se fuere o ausentare de su poder lo pueda el dicho Antonio de Sant Benito retener e yr en seguimiento del y tenerlo a su poder de las partes e lugares donde se fuere y ausentase y castigarle e dotrinarle segundo e como dicho es todo el tiempo hansi fuere voluntad del dicho Roi Fernandez platero e del dicho cardenal Diego San Jurjo e quan cumplido e bastante poder como dixo que abia e tenia para todo lo que dicho es y para cada una cosa y parte dello otro tal e tan complido e ansi mismo dixo que daba e dio a dicho Antonio de San Benito con todas sus yncidencias e dependencias emergencias anexiones e conexión del A. con libre e general administracion e se obligo con su persona e bienes de aber lo susodicho por firme e baledero y de no yr Antonio ello agora ni en tiempo alguno so obligación de sus bienes so lo qual sy necesario fuera rellebacion lo relebo de toda carga de satisfacion obligacion e fiadoria so la clausula del derecho quel dicho en latin judicio syste indicatun solbi [judicium sisti judicatum solvi] con todas sus clausulas acostumbradas en testimonio de lo qual otorgo ante mi el dicho escribano y testigos de yuso scriptos en cuyo registro lo firmo de su nonbre estando a ello presente por testigos Andres de Moron criado de mi notaria Fzº [Francisco] Besaza? Bachero vecino de la dicha ciudad e Santiago Chaves criado asimismo de my dicha notaria. Yo el notario ynformado doy fee que conosco al dicho otorgante y que es el mismo.» Arquivo Historico U.S.C. Registro de Escritura. PROTOCOLOS S-191 Fol.760v-761r Transcripção José Luís do Pico Orjais

760v
761r

domingo, 11 de fevereiro de 2018

nº 216 Faustino Rei Romero no Castelo de Sobroso


Foi na sede da Academia Galega da Língua na Corunha que por vez primeira, o meu grande amigo Alejo Amoedo, mostrou-me este extraordinário documento. Ele era consciente do importante que para mim é Faustino Rei Romero, ao que li e cantei com admiração e respeito pela sua singular existência. 
Padre durante o franquismo, Faustino teve de combinar o peso da sotana com a sua militância galeguista e o seu compromisso cristiano-social. Foi dionisíaco, mais que apolíneo, hedonista, antes que estoico, e ai reside, para mim, o seu grande valor: amar a vida presente. 
A película pertenceu ao fundo documental do Castelo de Sobroso e do seu proprietário e restaurador Alejo Carrera Muñoz, sendo resgatado dum antiquário pelo pianista e colecionista Alejo Amoedo, quem o mandou digitalizar para a sua exibição pública. A ele devemos e agradecemos poder ver estas imagens na atualidade.
Entre as pessoas que aparecem na película distinguimos a Alejo Carrera Muñoz (1893-1967) vestido com o uniforme da Ordem de Santiago e a Espada, da que era oficial, a Celso Emilio Ferreiro e a Faustino Rei Romero. Com certeza, entre os restantes atores da curta, há pessoalidades da nossa cultura ainda por identificar que com o tempo e a colaboração dos usuários da rede iram tendo nome e apelidos. 

Ficha técnica:

Faustino Rei Romero no Castelo de Sobroso.
Todas as imagens são do arquivo particular de Alejo Amoedo.
Data da gravação da película: ca. 1957
Música original: Ondas do mar de Isorna.
Autor e intérprete: José Luís do Pico Orjais.
Técnico de som: José Lara Gruñeiro.
Produção: –Abuim Road– Abuim, Rianxo.


quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

nº 215 O síndrome de Sherlock ou a guitarra de Strindberg.


O síndrome de Sherlock ou a guitarra de Strindberg.

Quando Sherlock (1854-?) abandonava o seu mundo de caçador de assassinos e trapaceiros, mergulhava-se no estudo, nas drogas ou/e na música. Quando pegava no violino para tocar A barcarola de Hoffmann ou qualquer uma das suas improvisações, a música resultava uma pomada para as queimaduras do tédio. Violino, xícara de chá e sanduíches, o seu coquetel anti-aborrecimento. E postos a escolher, melhor isto que o cachimbo ou a cocaína dissolvida ao sete por cento. Mas o que acabamos de dizer coloca-nos na sequência de qualificar a Sherlock numa categoria de músico –ou melhor ainda– procurar uma definição à sua atitude fronte a música. Ele pode ser um diletante ou músico amador, ambas as duas palavras cheias de conotações tantas vezes pejorativas e inexatas. No dicionário Priberam encontramos algumas definições turbadoras do verbete Diletante:

1. Amador de um arte ou literatura.
2. Que ou quem é entendedor ou apaixonado de uma arte ou a ela se dedica por gosto, especialmente à música.
3. Que ou quem se dedica a algo por prazer e não como modo de ganhar a vida.
4. Que ou quem procura o prazer ou tem uma atitude superficial, sem mostrar maturidade, profundidade ou responsabilidade. [O negrito é meu]

A série de definições parecem ir de mal em pior e dão para uma tese sobre a visão que sobre o músico e a música tem a sociedade ou quiçá apenas os académicos da língua. Assim, a definição nº 1 fala do diletante como amador de um arte ou literatura. Parece excluir, portanto, a quem exerce o ofício de jeito não remunerado. Não haveria, com justiça, que incluir no epígrafe de músico profissional a quem com vontade de cobrar pelo seu trabalho não encontra onde? Mas a coisa piora na segunda aceção. Diletante é aquele, disse-nos, quem entendendo ou apaixonando-se por uma arte, dedica-se a ela por gosto. Um músico apaixonado que desfrute do seu trabalho será, ou isso nos conta o dicionário, sempre amador, independentemente de quanto cobre pelo show. A definição 3 aprofunda nesta triste visão pecuniária do ofício: o amador dedica-se por prazer à música e não como modo de ganhar a vida. Vaia! E não será que os não amadores nos dedicamos a música também por prazer e o fato de ganhar-nos a vida é como consequência de exercer a profissão com certo decoro? Mas é o epígrafe 4 o que mais me confunde. O amador quase aparece como uma espécie de depravado musical, um hedonista superficial, infantil e profundamente irresponsável. Meu Deus! Parece que está a definir a imagem que temos de, por exemplo, o amador Mozart.

Com todo este circunlóquio queria chegar a onde? Pois a quanto há de relativo nisso de falar de músicos amadores e profissionais e por essa relatividade, quanto de injusto pode haver numa taxonomia de personagens históricos catalogados em função deste dualismo. A seguir quisera falar da relação que poetas, dramaturgos, pintores, escultores, médicos, advogados… tiveram com a música através do contacto, quase sempre doméstico, com um instrumento e como este contacto é sintoma ou terapia, em muitos casos, dos seus desequilíbrios emocionais.

A terapia de Sherlock.

«Meu amigo era um músico entusiasta, e não só tocava muito bem, como ainda era compositor de grande mérito. Passou a tarde inteira na poltrona mergulhado na mais perfeita felicidade, movendo delicadamente os longos dedos finos no compasso da música, enquanto seu rosto sorridente e seus olhos lânguidos e sonhadores eram totalmente diferentes dos de Holmes, o cão de caça; Holmes, o implacável, de mente aguçada, perseguidor de criminosos.» A Liga dos Ruivos. Arthur Conan Doyle.

Uma terapia é um tratamento de doenças ou distúrbio psíquicos. A música –como aparece testemunhado quando menos desde os papiros de Lahum– é utilizada em medicina com diferentes fins mas fundamentalmente para melhorar a qualidade de vida dum paciente. Às vezes esta melhora e curativa, outras apenas paliativa; a música pode ser placebo ou panaceia; estimulante ou narcótico… Para muitos, a música é uma medicina que devemos tomar diariamente como antídoto contra a mediocridade e auxílio fronte os ataques despiedados da fealdade. Esta ideia de tábua de salvação está em Sherlock.

«Puxe sua cadeira para perto e dê-me meu violino, pois nosso único problema agora é como passar essas noites sombrias de outono.» O nobre solteiro. Arthur Conan Doyle.

Os afetados polo Síndrome de Sherlock não são simples diletantes, senão que a música é uma necessidade vital, um sintoma dos seu esteticismo exacerbado, do seu desequilíbrio emocional ou do seu transbordamento artístico. Sempre uma contradição: a música é um break criativo num contínuo criar.

Nietzsche vs Rosseau. 


«La conversación se anima. Nuestro músico, que resultó ser profesor, há conseguido concentrar la atención de todos. ¿Cómo? ¿Nietzsche compositor? Acaso ejerció la música en forma profesional? ¿Cuál fue su carrera en este ámbito? Se estrenaron sus obras? Ninguna respuesta parece satisfacer a la tertulia. Se origina entonces una discusión alrededor de las categorías "profesional/aficionado". El profesor, enojado, pregunta si alguien conoce algún "poeta profesional". "Es más –dice casi enrojeciendo– Nietzsche ni siguiera fue un filósofo profesional. Lou Andreas Salomé, su discípula, la mujer que él amó y que lo dejó sufriendo en carne viva al rechazarlo, sabía mucho más de filosofía que él. Pero él era el filósofo, y no ella. En rigor, ni la poesía, ni la filosofía ni la música son «profesiones» en el sintido corriente del término (por lo que mal puede alguien convertirse en «profesional»). Las profesiones sirven para conseguir algo bien concreto y estas actividades son completamente inútiles para eso. Entiéndase: no son utilitarias. En el momento en que «sirven» a un fin ulterior a sí mismas, (cualquiera que sea: sustento, reconocimiento, etc.), se contaminan y se marchitan. Es por eso que prefiero pensar que en este terreno nadie pasa el nivel de aprendiz. O, si ustedes quieren: de "aficionado".» SCHULKIN, Claudio Nietzsche compositor in A parte rei. Revista de filosofia. Ano 2002, nº 19 [http://serbal.pntic.mec.es/~cmunoz11/nieto.pdf]

Parece que Nietzsche teve uma educação musical muito básica, mas ele sempre teve vocação de músico. Quando aprendeu a falar, a escrever, a pensar, desenvolveu além disso, um mecanismo de imunização chamado música: «A minha melancolia quer descansar em sítios escondidos e em abismos de perfeição. É por isso que preciso de música.» A Gaia Ciência. A crítica musical tende a desvalorizar a obra de Nietzsche, em oposição ao contexto no que nasce. Comparar o talento musical do filósofo com o de Listz ou Wagner resulta sumamente injusto, pois quantos há, na altura, comparáveis a estes? Disse que a sua gramática e sintaxe musical continha erros que resultavam insuportáveis para Hans vön Bülow, primeiro marido de Cósima. Mas se escutamos as composições de Nietzsche sem prejuízos –nem positivos, nem negativos– estou certo que podemos apreciar a beleza e inspiração de muitas das suas composições como as tituladas Herbstlich Sonnige Tage 1867 [para quarteto vocal misto com acompanhamento de piano], So lach doch mal ca. 1862 [para piano], Das “fragment an sich” 1871 [para piano]… Esta última peça é para mim todo um tratado de filosofia escrito sobre um pentagrama. O título que poderíamos traduzir como Fragmento em si  –«assaz esquipática tradução» em expressão de Lopes Graça– resulta do mais eloquente. Para Nietzsche, ao igual que para o seu mestre Schopenhauer, a música é a mais elevada das artes. A música não precisa de levar associado um texto, nem sequer uma correspondência com um tema ou motivo concreto. Dizia Shopenhauer

«Com certeza, em geral, se uma correspondência entre uma composição e uma apresentação intuitiva é possível, deve-se a que ambas constituem somente expressões inteiramente distintas da mesma essência interna do mundo. Quando, em um caso individual, uma tal correspondência realmente procede, portanto o compositor soube exprimir os movimentos da vontade, que formam o cerne de um evento, na linguagem geral da música, então a melodia da canção, a música da ópera, são expressivas. Porém a analogia encontrada entre ambos pelo compositor deve ter-se originado do conhecimento imediato da essência do mundo, inconsciente de sua razão, e não deve se constituir em reprodução, mediatizada numa intencionalidade consciente por conceitos, pois neste caso a música não expressaria a essência interna, a vontade ela mesma, mas somente copiaria de modo imperfeito o seu fenómeno; como aliás ocorre em toda música imitativa, p. ex.: “As estações do ano” de Haydn, e também a sua “Criação” em muitas passagens, em que fenómenos do mundo intuitivo são reproduzidos diretamente; da mesma forma, todas as peças de batalhas, o que deve ser rejeitado totalmente. » O mundo como vontade e representação. L.III; § 52.

O Fragmento de Nietzsche começa com a indicação Sehr langsam, muito devagar, em piano, até o final do pentagrama, só modificado no compasso 13 pela indicação anschwellend, algo assim como inchaço, com a que tal vez o artista pretendia dar mais corpo aos seguintes compassos sem abandonar o espírito saudoso geral da composição. A última recomendação do autor está no final onde podemos ler Da capo com malinconia. Não era por causa da melancolia que Nietzsche precisava da música? Esta peça termina com o pentagrama aberto como prova definitiva de ser um simples fragmento. Uma beleza!


Henri Rousseau (1844-1910) andou, em certo modo, o caminho contrário ao filósofo alemão. O Aduaneiro foi músico militar, na armada francesa, onde tocou o cornetim. Também sabia tocar a mandolina, a flauta... mas o instrumento que lhe ajudou a ganhar a vida foi o violino. Em realidade o seu percurso vital tem muito a ver com o do nosso Eugénio Granell (1912-2001). Ambos eram violinistas e os dois se fizeram pintores com certa idade: Rousseau com mais de quarenta e Granell cerca dos trinta. O pintor francês decidiu em certo momento da sua vida deixar a sua atividade profissional de aduaneiro e dedicar-se em exclusividade à pintura. Em realidade, o de em exclusividade é um bocado exagerado: para ajudar à economia familiar Rousseau dava aulas de violino e passava o chapéu no Jardin das Tuileries.
1906

Num livro fantástico, um dos que assenhoream a prateleira dos meus sonhos, titulado El París de Kiki, Artistas y amantes. [Barcelona; Tusquets] 1990, aparecem algumas fotografias belíssimas de escritores e pintores abraçados ao seu instrumento. Uma série extraordinária estaria constituída por um grupo de autorretratos realizados pelo dramaturgo sueco August Strindberg (1849-1912) em 1886.


Autoretrato, August Strindberg 1886 


Autoretrato, August Strindberg 1886

O multiartista Strindberg era uma pessoa com esquizofrenia paranoica, vitima de mania persecutória. Numa etapa na que estava obsesso pela alquimia e vivia no Paris pós-impressionista, participava de festas na casa de Gauguin onde «tocaban la guitarra, la mandolina y el piano; se vestían com trajes de época y recitaban fragmentos de teatro.[…] Alfred Jarry traía a su amigo Heri Rousseau, quien en ocasiones improvisaba animados conciertos de violín.» El París de Kiki...
Em 1893 Strindberg estava casado com uma mulher fascinante: Frida Uhl (1872-1943). Dela fala num opúsculo que constitui um formoso arrazoado à importância do azar na criação artística e cujo título podemos traduzir como: As novas artes ou o azar na criação artística. Setrindberg conta-nos aqui um episódio autobiográfico a respeito da sua faceta como guitarrista: 

«Eu estava procurando uma melodia para uma peça chamada Samum, que está ambientada na Argélia. Com tal motivo, afinei meu violão aleatoriamente, afrouxando as cravelhas ao azar, até encontrar um acorde que transmitia a impressão de algo extremamente bizarro, sem ultrapassar os limites da harmonia.
A melodia foi aceite pelo ator que desempenhou o papel; mas o diretor, sumamente realista, exigiu uma melodia autêntica ao saber que a minha não era genuína. Então encontrei uma coleção de músicas árabes e as mostrei ao diretor, mas ele as rejeitou todas e, finalmente, concordou em que a minha pequena música era mais "árabe" do que as genuínas.
A canção foi executada e me trouxe uma certa dose de sucesso, e, todavia, um compositor, então em voga, veio pedir minha permissão para escrever uma composição baseada na minha pequena música "árabe", a qual o tinha impressionado
Aqui está a minha melodia, composta ao azar: Sol, #, Sol ♮ (sic), Sib, Mi.
Eu conheci um músico [parece que se trata do escritor e pianista Przybyszewski] o qual gostava de afinar o seu piano de qualquer jeito, tocando depois, de memória, a Pathétique de Beethoven. Foi um prazer incrível ouvir essa velha peça agora rejuvenescida. Durante vinte anos, escutei a este pianista tocar essa sonata, sempre idêntica a si mesma, fixa, incapaz de evoluir, sem esperança de vê-la desenvolver-se. Desde então, eu faço o mesmo na minha viola com as melodias gastadas. Os guitarristas invejam-me e me perguntam onde encontrei essa música; Eu lhes digo que não sei e eles acreditam em mim como compositor.
Uma ideia para os fabricantes de realejos atualmente muito em voga! Façam alguns furos aleatoriamente arredor do disco que porta a melodia e vocês terão um caleidoscópio musical.» Des arts nouveaux ! ou Le hasard dans la production artistique Revue das Revues. 15/11/1894 [s.n;Paris] Tradução do original em francês pelo autor deste trabalho.

O texto de Strindberg é divino e amostra, alem da importância que para ele o azar devera ter nas artes, a sua relação quotidiana com a guitarra na que mesmo experimenta afinações alternativas, chegando a influir na encenação duma das suas peças teatrais. 

Algum exemplo galego.

«Al suscrito se le olvidaba una interesante cosa de tu afecto: el piano donde reproducías frases celestes de la música universal entrenando tus ágiles dedos para las cirugías, retemplando a un tiempo el espíritu contra el dolor humano y la ingratitud; dile a tu clave que ya oyes en el órgano inmenso de los cielos, el magníficat de tu glorificación...» El Compostelano: Diario independiente: Año XV nº 4151 2 de Abril de 1934 

Estas palavras foram escritas por J. Mª Moar num panegírico feito em louvor do cirurgião compostelano Ángel Baltar (1868-1934). Na altura, havia a crença de que a prática instrumental era uma fenomenal ginástica de dedos para os cirurgiões. Ángel Baltar foi o nosso Theodor Billroth (1829-1897), pioneiro da cirurgia e grande pianista, amigo íntimo de Johannes Brahms. Billroth escreveu um livro (1895) titulado Wer ish musikalish? [Quem é musical?] onde «el autor asocia de un modo muy espiritual los problemas musicales estéticos con los conocimientos fisiológicos de su tiempo, si bien es verdad que no llega a conclusiones positivas.» Médicos músicos y amigos de la Música por el Dr. Reich. in Actas Ciba 9, setembro de 1941. p. 249

Dizem que a princípios do século XX, era frequente que os passeantes da praça compostelã do Toural escutaram o piano de Ángel Baltar nos seus ensaios diários. Em 1908, o ilustre cirurgião pede ao arquiteto Eduardo Rodríguez-Losada Rebellón (1886-1973) que lhe construa um palacete de verão ao pé da praia rianxeira de Tanxil. O arquiteto corunhês, além de ser o desenhador de alguns dos mais formosos edifícios da capital herculina do século XX é autor de quatro óperas e quatro sinfonias, entre outras muitas composições musicais. Contam que quando a Torre de Baltar estava terminada e servia de residência estival da família, às vezes sacavam o piano ao jardim e realizavam serões onde com certeza se tocariam as sonatas de Mozart, Haydn e Beethoven, nos dedos dos seus invitados, entre os quais não faltariam duas grandíssimas piantistas: Olegaria (1890-1981) e Mireya (1915-2015) Dieste . Esta última, casou com um herdeiro da Torre, o também médico Antonio Baltar (1906-1970).


Torre de Tanxil


Vida Gallega 30/11/1932

Vida Gallega 20/09/1932

Poderíamos fazer uma catolagação de intelectuais galegos e galegas em relação ao instrumento que tocavam: Rosália de Castro, Avelina Valladares, Castelao... guitarra; João Pintos, Marcial Valladares, Viqueira, Granell, García Sabel... violino; Rafael Dieste, Isidoro Brocos, Xosé Manuel Beiras... piano; e inclusive falar do interesse de Manuel Antonio por aprender a tocar a gaita ou o gosto de Celso Emilio por cantar acompanhado dum adufe. Com certeza a lista seria interminável, mas há que ir concluíndo.

Como corolário a esta desordenada coletânea de dados, um último exemplo que tenho guardado no meu almário -palavra que aprendi de Lorca, outro poeta-músico– esse armário da alma onde guardamos as melhores lembranças e sentimentos. A sequência dos fatos aconteceram tal que assim:

- No Natal de 1921 nascia Jacinto Viqueira Landa, o segundo filho do casal formado por João Vicente Viqueira e Jacinta Landa Vaz. 
-Uns meses depois, (1922) o pedagogo e galeguista Viqueira compõe para ele uma formosíssima canção titulada Cantar de Berço. 
-Em agosto de 1924 João Vicente morria vítima duma antiga doença que lhe provoca uma septicémia. 
-Desta cantiga só se conhecia a letra, mas na década dos 70 o compositor ferrolano Miguel Varela põe-lhe música, sendo gravada em 1979 pela cantora María Manuela. 
-A fins dos 90, eu entro a fazer parte do grupo musical que acompanha a María Manuela, sendo o Cantar de Berço de Viqueira/Miguel Varela um fixo no nosso reportório.
-Em 2013 leio numas notas biográficas feitas por Viqueira que o pedagogo corunhês era intérprete (violino, piano...) e compositor. Depois de contactar com a família mexicana soube que não se conserva nenhuma partitura, mas há umas gravações a capela feitas por Jacinta Landa Vaz nos anos 50 em México D.F.
-Nessas gravaçoes estão incluídas três composições com música original de João Vicente Viqueira, entre as quais o Cantar de Berço.
-Finalmente a editorial aCentral Folque em 2017 edita um estudo crítico destas gravaçoes com textos meus e dos professores Domingos Morais (Universidade Nova de Lisboa) e Pilar Barrios (Universidade de Extremadura). 

Final

Ao igual que no livro do cirurgião e pianista Theodor Billroth esta postagem é uma sequência de dados certos mas sem qualquer indício de conclusões. Dizia o Antropólogo inocente que não são dados o que falta, mais bem algo inteligente que fazer com eles. Em Instrumental, o atual best-seller e livro do ano de James Rhodes, o virtuoso pianista inglês conta como a música lhe salvou a vida. Para muitos intelectuais e profissionais dos mais diversos ofícios, a música foi um lugar de descanso, um lugar onde desconetar do quotidiano, em certo modo um tipo de dissociação necessária. Para cada um destas personagens históricas tal vez a música pode ser um sintoma de algo, um paliativo, um remédio ou um placebo, mas em qualquer caso, a música é um excelente exercício para ser humano.


«Não há nada mais a dizer ou fazer hoje à noite; portanto, dê-me meu violino e vamos tentar esquecer por meia hora esse tempo miserável e o comportamento ainda mais miserável de nossos semelhantes.» Os cinco caroços de laranja. Arthur Conan Doyle.