sábado, 1 de outubro de 2016

nº 205 Os cumiais esvaciados.


A sexta teve o prazer de dar um passeio por Isorna na companhia de Tito, o concelheiro de património de Rianxo. O nosso pequeno percurso deu para muito, partilhamos ideias e repassamos algum dos tesoiros patrimoniais com que conta esta paróquia rianxeira. Em Quintães vimos uma graneira que tem uma caraterística que faz muito tempo me tem intrigado. Eu não sou muito de escrever coisas sobre as que não posso dar dados certos, nem de lançar hipóteses que não tenham um suporte documental, por isso levo guardando estas imagens e as minhas dúvidas tempo e tempo.
Bom, o caso é que em Rianxo há um grupo de graneiras que têm uns adornos cumiais característicos, duma ousadia técnica inusitada.
Quiçá uma das graneiras mais emblemáticas de Rianxo é a conhecido como Horreo de Rodríguez. Foi construído em 1919, causando uma famosa polémica entre Mariano Rodríguez, pai de Castelao, e o então presidente da câmara municipal, Manuel Pérez. Se não me engano esse espigueiro é o que está em Fincheira, justo antes do estreitamento pelo que se sai da vila em direção a Leiro e Isorna.
Como cumiais do pinche do leste aparecem três torres, a principal esvaziada.

Figura 1

A poucos metros, na finca da Martela, uma segunda graneira tem um novo cumial furado, desta volta muito mais estilizadas, com paredes compostas por colunas e vãos.

Figura 2

Na saída de Rianxo em direção a Assados, lugar do Paço,encontramos outra com certo parecido ao anterior.

Figura 3

Por último a graneira de Quintães que parece um caminho intermédio entre a fig. 1 e a 2. 

Figura 4

E até aqui. Estes são os únicos exemplos que pude encontrar no nosso concelho. Existem mais? Tal vez. Há este tipo de cumiais em outros concelhos vizinhos? Haverá que perguntar e continuar investigando. Contudo, a mim se me apresentou uma série de questões puramente técnicas que gostaria de partilhar. 

1º Estes cumiais em forma de torres ameadas e, quiçá, torres de igreja, substituem as cruzes. Onde há estes elementos, não há cruzes. Tem isto alguma explicação? Em Brião há mesmo um cumial com forma de gato. A cruz é um símbolo profilático, combate à maldade em qualquera das suas manifestações. O gato de Brião é fácil relaciona-lo com a função de torna-ratos que tem o palafito galego. Mas esta torres? Que representam? E porque três?

2º  Uns meses atrás, perguntei-lhe a Che Golias, grande mestre canteiro, como se faziam este tipo de esvaziados. Ele comentou-me que o seu autor tinha de ser um canteiro dos melhores e que provavelmente usara algum material como escaiola para proteger as paredes já feitas. Em qualquer caso é um labor delicadíssimo, que não qualquer canteiro podia fazer.

3º Dado que estes quatro exemplos pertencem a Rianxo, estaríamos ante a obra dum único canteiro ou da sua oficina? A graneira de Rodríguez foi feita no 1919 e o de Quintães em 1935–data gravada no pinche– assim que, a falta de saber algo dos outros dois, estamos ante um intervalo de tempo relativamente breve.

4º Para poder albergar as três figuras, a cornija do pinche tem de ter muito voo. Isto todavia consegue que os cumiais apareçam como penduradas no ar.

Por último, só dizer que se alguém conhece algum outro exemplo deste tipo de cumiais agradeceria o partilhasse com nós. O saber é um bem cooperativo.

ADENDA 24/10/2016

Uns dias atrás, indo para Abuim, decidi passar por Brião, duas aldeias da paróquia rianxeira de Leiro. Em Brião encontrei-me com dois exemplares mais de graneiras com cumiais esvaziados.
O primeiro, fig. 5, parece um exemplar intermédio entre a fig. 2 e 3 e a fig. 4, mais próximo estilísticamente a este último.

 
fig. 5

O segundo, fig. 6, é um novo passo nesta história . O cumial converte-se numa autêntico campanário. A graneira está em propriedade privada e a fotografia não é boa, mas nesta ocasião parece que o cumial pode estar feito de cimento. Como se vê os pináculos dos lados não correspondem

fig. 6

Continuaremos.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

n° 204 A moinheira do Armário Musical.


A palavra castelhana musiquero refere-se a um móvel destinado a guardar partituras ou livros de música. Rafael Dieste tinha um ao lado do seu piano, quiçá com os métodos e partituras que um dia tocara a sua irmã Olegária. Um termo tão formoso e a vez claro e conciso como musiquero não tem, que eu saiba, equivalente em galego. No entanto podemos empregar, segundo convenha, móvel, armário ou prateleira para partituras. Também não conheço um nome específico nem em castelhano nem em galego para o armário destinado a guardar instrumentos musicais. Em qualquer caso existem exemplares criados exclusivamente com este fim, como acontece com um localizado na sala de professores do I.E.S. Fernando Blanco de Cee.

Ontem, 18 de agosto, a professora Isabel Rei Samartin e mais eu visitamos esta vila marinheira com a intenção de ver o conjunto de instrumentos que custódia a dita fundação, os quais constituem um grupo único nas coleções públicas galegas. Dos instrumentos e da sua importância desde um ponto de vista histórico e contextual dará, no seu dia, cumprida notícia a professora Rei Samartin. Pela minha parte, eu hoje quero colocar o foco sobre o contentor desses instrumentos, construido exclusivamente para a sua custódia e conservação.

O armário dos instrumentos do I.E.S. Fernando Blanco de Cee é um móvel de três corpos, cada um deles com portas envidraçadas de duas folhas. Segundo nos contou Dario Areas Domínguez, secretário da Fundación Fernando Blanco e coordenador do Museu, o armário foi feito no curso escolar 1908-1909 no ateliê do Colégio-Instituto, baixo a direção de Felipe Vaamonde Romero, professor titular da entidade.

O corpo central tem na parte mais alta um trabalho de marquetaria formado por três instrumentos musicais que parecem ser uma lira, uma mandolina e um clarinete, adornados com motivos florais. Mas o que me chamou a atenção foi a partitura que servia de base ao conjunto. Gravado na madeira aparece uma composição em 6/8, que permite adivinhar uma singela, mas bonita moinheira.

Uma vez na casa, e graças às magníficas fotografias que tirou Isabel Rei, pude reconstruir o motivo musical esboçado naquele pedaço de madeira de carvalho. Ao meu entender, o que se nos amostra na gravura é a segunda voz duma moinheira perfeitamente crível dentro dum contexto tradicional de música para gaita. O que eu fez foi acrescentar-lhe uma terceira inferior, voz que corresponderia à gaita 1ª, assim como umas notas para concluir a cadência final, inexistente no original. É, como disse, uma composição fácil, que pode ser perfeitamente tocável, por exemplo, pelo alunado ceense mesmo com um nível elementar como instrumentista.

A questão final seria saber se a pequena peça é tradicional, fruto da inspiração do Felipe Vaamonde ou se foi composta pelo professor de música do centro, o organista, diretor de banda e rondalhista D. Jesús García Jiménez.

P.S. O nosso agredecimento a Dario Areas, responsável do museu, pela sua hospitalidade e a informação subministrada. Também a Javier, lamento não saber o apelido, zelador do I.E.S. Fernando Blanco amabilíssimo com nós.

Em preto as notas originais.
Em vermelho as notas engadidas.
Em verde o duo por terceiras inferiores engadido.

Na direita da fotografia o armário na sua ubicación original.
1917 ©Fundació Fernando Blanco

 © Isabel Rei Samartim

 © Isabel Rei Samartim

domingo, 7 de agosto de 2016

nº 203 Os galegos em Havaí.


A gente sabe do meu namoro pela Ilha da Madeira e os seus instrumentos mais representativos: o rajão e o braguinha ou machete. Pois bem, segundo a lenda foram madeirenses os que levaram estes cordofones a Havaí, cerca do 1880, recebendo na ilha Polinésia o nome de ukelele. Em cada concerto que dou, a gente diz que gosta muito do som do meu ukelele e eu tenho que aclarar cada vez que se trata dum instrumento lusófono chamado rajão. 
Estes dias encontrei uns artigos que me fez sentir um bocado triste e ao mesmo tempo, achei um bom argumento para um romance de aventuras.
Em 18 março do 1899 aparece este surpreendente anúncio no El Correo Gallego:

«Dícese que en breve plazo tocará en Vigo un vapor extranjero para conducir, gratuitamente labradores y agricultores menores de 45 años a las islas Hawai o Sandwich, en Oceanía.»

Depois de ler isto soube que nos primeiros anos do século XX houve um importante fluxo de emigrantes peninsulares, principalmente portugueses, galegos e andaluzes às ilhas polinésias, como recambio dos emigrantes japoneses e chineses. Os primeiros moços de nacionalidade espanhola em chegar a Havaí foram os galegos embarcados no vapor Victoria que saíram do peirao de Vigo em 1899. Chegaram arredor duns 300.

Pois o caso é que nesse verão do 1899, como indica o anúncio de El Correo Gallego, o vapor Victoria terá uma viagem verdadeiramente acidentada. Paga a pena ler os artigos publicados em El diario de Pontevedra dos dias 19 e 20 de setembro desse mesmo ano. O texto periodístico é um bocado desordenado e está algo censurado como o próprio autor reconhece, mas não tem desperdício.

I
Los escándalos de la emigración.

No hace mucho tiempo que, despues de aquella campaña que hemos sotenido contra la escandalosa trata de blancos que se hacía con los emigrantes gallegos, á quienes se llevaba embaucados á las islas Hawaii, hemos publicado una relación hecha en nuestra redacción por uno de aquellos infelices , narrando los vergonzosos acontecimientos que pasaron á bordo del vapor inglés Vitoria en su viaje desde Vigo y su estancia en la isla de la Madeira, desde la cual tuvieron que regresar a España muchos de aquellos desgraciados emigrantes, pidiendo limosna y pasando todo género de privaciones y amarguras.
Hoy tenemos á la vista una carta donde se dan algunos detalles de aquellos escadalosos hechos cometidos por la empresa de la emigración á Hawaii con nuestros pobres compatriotas.
El Vitoria, como ya saben nuestros lectores, había salido de Vigo en el mes de junio último, conduciendo muchos infelices emigrantes, engañados por las mentidas ofertas de esos enganchadores sin conciencia. Lo que pasó á pocos días de salir de aquel puerto, á causa de faltar los alimentos á bordo, lo saben también nuestros lectores, porque lo hemos expuesto en aquella narración de un testigo presencial.
He aquí ahora lo que dice la carta que tenemos á la vista escrita por dos de aquellos emigrantes á Hawaii, desde Lisboa.
“Queridos hermanos: mucho nos alegramos de vuestra salud. La nuestra buena gracias á Dios.
Os remito copia de la protesta que hemos presentado al Gobernador de la isla de Madeira, la cual dice así: al excelentísimo Sr. Cónsul de España y al excelentísimo Sr. Gobernador civil de la isla de la Madeira. En el mar, á bordo del vapor inglés Vitoria, á 29 de Junio de 1899.
=Los 440 emigrantes que con dirección Sandwich hemos partido el 26 del presente mes, invocando el derecho de gentes, los nobles sentimientos de un pueblo culto y hospitalario, y la recta justicia del excelentísimo Gobierno de esta isla, protestamos con toda la fuerza que la ley en este caso nos concede, contra la prosecución del viaje, por las siguientes razones: Por incapacidad del vapor para llevar 1408 emigrantes como pretende, no habiendo comodidad para los 448 que ya venimos; por la falta en absoluto de condiciones higiénicas, no tan solo para una travesía de 80 á 90 días, sino que ni para los cinco días que traemos desde vigo, en cuyo tiempo hubo cuatro casos de asfixia; por la ineptitud del médico por todos conceptos, pues sobre no tener diploma, ni habla ni entiende el idioma de los emigrantes, por ser inglés; por hambre, por sed y por el desorden que reina á bordo desde la salida de Vigo. Todas estas razones y otras muchas que con oportunidad expondremos, y que las autoridades de Coruña y Vigo no han sabido o no han querido prever, exponemos á la consideración del Excmo, Sr. Cónsul de España y del excelentísimo Gobierno de esta isla. Dios, etc. Por todos los emigrantes: Ramón Fernández Tuñón, Genaro Ortiz de Haro, José Moiños, José Quintela.!
Presentada á las autoridades de Madeira esta protesta, dio por resultado que para averiguar si eran ciertas las razones que en ella exponiamos, el Gobernador ordenó una inspección á bordo, comuesta de once individuos, entre Cónsul, Médicos, Alcalde, Capitán de Puerto, Gobernador, Secretario e Ingeniero Naval, los cuales  después de una inspección de tres días consecutivos, y con el Código en la mano, acabaron por aprobar la protesta con todas sus razones, y después de haber desembarcado 200 y tantos, como las autoridades tuvieron conocimiento de que entre nueve individuos pagados por el contratista inglés habían querido asesinarme, salvándome por milagro, fue cuando un piquete de 50 soldados y comandante y oficiales, fueron á bordo para desarmar a los que quedaban, recogiéndoles ciento diez cuchillos y diez revólvers.
En el momento de querer asesinarme, (como son dos los que firman la carta que copiamos suponemos que se refiere al primer firmante de la misma), mi situación fue muy crítica. Derribado en el suelo y á traición, ocho de los asesinos tenían las puntas de sus dagas prontas á sepultarlas en mi, y el otro me sujetó la cara y con una navaja barbera me iba á degollar. En este crítico momento fué cuanto entre unos compañeros me salvaron precipitándose sobre los asesinos y sacándome de entre sus arras en medio del tumulto me subieron por la escala de escotilla, pudiendo así llegar á la escalera de estribor hasta el peldaño que tocaba con el agua en demanda de un bote para salvarme de los que aún me perseguían.
Estuve próximo á tirarme al agua porque el bote de los carabineros no queían atracar hasta que el Inspector les ordenó que me recogieran.
Te remito algunos diarios de Madeira y en cambio quiero me facilites El Diario que relató ahí lo acontecido.”
Aquí suprimimos algunos párrafos de la carta, que atacan duramente al Gobierno y á las autoridades de Vigo y la Coruña, por permitir tan escandalosa emigración. Y como es tan extensa, dicha carta, mañana continuaremos, pues insinúa una grave sospecha, que debe ser conocida, aunque no sabemos todo lo que de cierto tenga.
Entre tanto, pueden hacer nuestros lectores los comentarios que gusten. Nosotros hemos dicho ya bastante contra tal infame trata de esa vergonzosa emigración.

II
Los escándalos de la emigración.

Prometíamos ayer continuar publicando otros párrafos de la carta que desde Lisboa dirigen á dicha  ciudad dos de los emigrantes que tomaron pasaje para Hawaii en el vapor Victoria el 26 de junio último.
No son menos interesantes los detalles que hoy daremos á conocer á nuestros lectores, si bien tenemos que suprimir algunos párrafos en que vierten conceptos que consideramos, aunque justos, un tanto duros para algunas personas más o menos interesadas en la escandalosa trata de blancos que se verifica á ciencia y paciencia de las autoridades, en algunos puertos de Galicia.
Sigamos la narración.
“No sé si tienes conocimiento –continúa uno de los firmantes de dicha carta– de que se champurrear algo el inglés. Pues bien: debido á esto, durante los cinco días de viaje á Madeira serví de intérprete al médico y por él supe muchas cosas que me indujeron al escribir y presentar la protesta; y por un oficial de á bordo supe otras muchas más.
Me dijo éste que nosotros no íbamos a Hawaii ni á Honolulú, sinó á las islas filipinas para pelear contra los tagalos por cuenta del Gobierno norteamericano por mediación de un sidicato, y que para no despertar sospechas ni recelos haciamos el viaje por el Cabo de Hornos, en vez de hacerlo por el Canal de suez. Como yo conozco todos aquellos caminos, con más razón he creido lo que el oficial me dijo.
Otro empleado del vapor, el despensero, me dijo que nosotros y todos los europeos que fueran como emigrantes, no íbamos á trabajar la tierra, sino á trabajar en unas minas de petróleo y asfalto que estaban cerca del volcán Mounarroa, y que los chinos y los japoneses que antes trabajaban en una mina de Nafta tomaron tanto miedo, porque muchos de ellos quedaban sepultados  dentro, unos por asfisia, otros por el susto que les producía el volcán en erupción, que ahora ni japoneses ni chinos quieren trabajar allí, y los que no mueren dentro de la mina mueren fuera, a garrotazos y balazos, dándose el año pasado el caso de que 75 trabajadores, entre portugueses, chinos y japoneses, que escaparan de los trabajos, fueran perseguidos por una compañía de soldados, á tiros, y no pudiendo salvarse de arrojaron á un río de lava en donde perecieron quemados los que no cayeron a balazos.
Esta es la triste suerte que nos esperaba á todos, si yo después de escuchar tamaño relato y visto ya el trato que nos daba á bordo, no procediese como procedí.
El vapor salió de Madeira el 9 de julio, y el 8 por la noche tomando cerveza con el médico y dos oficiales, en el momento de despedirnos me dijeron que no verían mas tierra hasta las Carolinas; pues llevaban agua y carbón para tres meses.
(Volvemos a suprimir algunos párrafos que no consideramos, por los ataques que contienen, oportuno publicar).
Si de esta carta quiere hacer uso el Sr. Director de El Diario de Pontevedra, puede hacerlo, pues todo lo narrado es la pura verdad, y por lo mismo, para salvar de una infame esclavitud á mis compatriotas, el señor Director de dicho periódico hará un inmenso beneficio á todos los que piensen emigrar, dándoles á conocer estos sucesos.
Como siempre, acepta el sincero cariño de tus hermanos. –Ramón y Pura.
Hasta aquí la carta, que conservamos en nuestro poder. ¿Comentario? Ninguno. ¿Para qué? ¿No hemos hablado ya lo suficiente para que se nos atendiese por quien debía hacerlo? ¿No hemos pedido reiteradamente que se exigiesen garantías á esos embaucadoras de la emigración á Hawaii, para el cumplimiento de sus ofertas?

Nos basta pues, hacer públicos los hechos que narrados quedan, convencidos de que el mejor medio de combatir esa vergonzosa emigración, es el de desengañar á nuestros infelices labradores, haciéndoles ver todo lo que se oculta tras esas mentidas ofertas de sueños dorados conque quieren atraerlos gentes sin alma y sin conciencia que comercian con carne humana.

Na revista dominical do Faro de Vigo, Estela, publicou-se em 11 de março de 2007 uma reportagem sobre os galegos em Havaí. No mesmo lemos «Sánchez Fernández calcula que la cifra de españoles que llegaron en aquellos vapores de pasaje al paradisíaco archipiélago del Pacífico fue de unos ocho mil y que muchos de ellos eran gallegos, a pesar de que, según cuenta, “parece ser que el capitán de la nave –se refiere a la “S. S. Victoria”– no sabía que Vigo era un puerto español porque, como le parecía que todos los pasajeros hablaban la misma lengua, anotó que su barco llevaba a 343 portugueses”.»

Quando leio coisas como estas sempre penso que se fossemos um país normalizado, já se teria feito um filme. Ou não?

domingo, 22 de maio de 2016

Higinio Cambeses na revista Ritmo.

Tenho que reconhecer que depois de muito buscar para elaborar um catálogo de Higinio Cambeses desconhecia que o mestre de Antas tivesse duas séries imprensas que foram anunciadas na decana revista musical Ritmo. Para mim é uma grande notícia, pois confirma algum dos títulos do meu pré-catálogo e acrescenta outros dos que não fazia ideia. Atualizo, pois, o inventário de obras de Higino Cambeses Carrera. Pelo menos por enquanto!

Ritmo Ano V nº 74 15/11/1933

Ritmo Ano VI nº 90 15/07/1934

Catálogo Higínio Cambeses (Atualização 22/05/2016)

Agradeço a Javier Jurado e Luís Costa a leitura e ampliação deste catálogo.

1.¡Adios para siempre! [Música impresa]: célebre marcha fúnebre para banda Musical Exito: Tarragona; Pablo Ricoma Dedicado ao seu pai José. SGAE 370.096
2.¡Anda Juan!(Es Xan do Coto) [Música impresa] Melodía Nº10 Colección 12 obras. Ritmo.
3.¡Ard’o eixo carballeira! [Música impresa]: pasodoble ed. Tarragona; Pablo Ricoma Cod. SGAE 367.649
4.¡Bienvenida, tú...! Pasodoble torero [Música impresa] Nº9 Colección 11 bailables. Ritmo.
5.¡Honradez y garantía! [Música impresa]: pasodoble ed. Tarragona; Pablo Ricoma Cod. SGAE 430.490 
6.¡Libertad!: Marcha-diana [Música impresa] Nº6 Colección 12 obras. Ritmo.
7.¿Solo o con leche? Schotis [Música impresa] Cod. SGAE 4.823.120 Nº8 Colección 11 bailables. Ritmo.
8.A los toros Cod. SGAE 4.184.316
9.A noite do Santo Cristo [Música impresa] ed. Dos Acordes SGAE 370.481
10.Agarimo Banda de Música de Ordes 2004
11.Allá en Camagüey: Danzón [Música impresa] Nº9 Colección 12 obras. Ritmo.
12.Angelillo Cod. SGAE 370.454
13.Aragón y sus cantares SGAE 4.223.343
14.Aragón Cod. SGAE 4.220.527
15.Aromas campesinos: capricho popular. Grav. Banda de Música de Sober, 1984
16.Arrenégote  demo. Muiñeira.  [Música impresa] Cod. SGAE 4.917.794 Nº3 Primera Serie.  Colección 11 bailables. Ritmo.
17.Arrojo y valentía: Pasodoble [Música impresa] Cod. SGAE 370.593 Nº1 Colección 12 obras. Ritmo.
18.Aturuxos: pasodoble. Cod. SGAE 370.644
19.Bandera de mi patria Cod. SGAE 4.245.367
20.Bienvenida Cod. SGAE 4.263.955
21.Campanas de Oro: jota Cod. SGAE 392.560
22.Cantares Cod. SGAE 4.293.286  
23.Cantigas da ría Cod. SGAE 392.680
24.Carballeira: Jota Popular [Música impresa] Nº11 Colección 12 obras. Ritmo.
25.Chulos y chulerias: Fox-charlestón  [Música impresa] Nº7 Colección 12 obras. Ritmo.
26.Colección bailables Cod. SGAE 4.334.866
27.Despertad, chiquillas: Diana  [Música impresa]Cod. SGAE 4.422.314  Colección 11 bailables. Ritmo.  
28.Despistado Grav. Banda Unión de Guláns 1977
29.E si mo deches foy no muiño [E si mo diches foy no miño] [Ei si no diches foy no miño] SGAE 415.951
30.El pájaro pinto Cod. SGAE 459.175
31.El rey de los gitanos: pasodobre Cod. SGAE  467.539 
32.El vals de moda Cod. SGAE 4.885.705
33.El veterano Cod. SGAE 4.898.652
34.El amor de mis amores: Vals de moda [Música impresa] Cod. SGAE 4.199.645 Nº5 Colección 11 bailables. Ritmo.
35.En el molino: Jota popular [Música impresa] Cod. SGAE 4.472.542 Nº11 Colección 11 bailables. Ritmo.
36.Entra y resala a la virgen Cod. SGAE 4.481.983
37.Fantasia gallega Cod. SGAE 142.441
38.Flores de la calle: Gran capricho de concierto sobre cantos populares asturianos y aragoneses (muy fácil) y de enorme éxito [Música impresa] Cod. SGAE  423.036 Nº12 Colección 12 obras. Ritmo.
39.Flores y claveles Cod. SGAE 423.042 
40.Guay guay: Charlestón [Música impresa] Cod. SGAE 792.541 Nº7 Colección 11 bailables. Ritmo.
41. Héroes y mártires Cod. SGAE 4.663.636
42.Invocación Cod. SGAE 432.697
43.La cruz de moda: Pasodoble [Música impresa] Cod. SGAE 4.365.997 Nº1 Colección 11 bailables. Ritmo.
44.La sin hueso Cod. SGAE 4.575.570
45. La vida es un cabaret: Tango  [Música impresa] Cod. SGAE 4.896.410 e 4.897.261 Nº6 Primera Serie.  Colección 11 bailables. Ritmo.
46. Los héroes de Jaca. Marcha (gran éxito) [Música impresa] Cod. SGAE 4.542.867 Nº10 Colección 11 bailables. Ritmo.
47. Los zapateros ambulantes Cod. SGAE 4.926.858
48. Maruxiña a Madalada [Mafalada] Cod. SGAE  444.960 
49. Miña roxeira Cod. SGAE 4.642.812
50. Miña xoia (Mi joya): Muiñeira [Música impresa] Nº3 Colección 12 obras. Ritmo.
51. Morra o conto Cod. SGAE 445.144
52. Música Maestro. Polka.  [Música impresa] Cod. SGAE 4.663.636 Nº2 Colección 11 bailables. Ritmo.
53. Natividad Cod. SGAE 4.680.211
54. Negrita Cod. SGAE 4.667.106
55. Negrito Cod. SGAE 4.667.396
56. Nicolás..., Nicolás...,(¡Chispún!...): Pasodoble coreable [Música impresa] Nº5 Colección 12 obras. Ritmo.
57. Niña roxeira Cod. SGAE 4.673.119
58. Nosa Terra Cod. SGAE 451.770
59. Pepa Banda Unión de Guláns 1977
60. Pepita Quintana Cod. SGAE 4.709.679
61. Piropos, no: Java [Música impresa] Nº2 Colección 12 obras. Ritmo.
62. Plátano verde Cod. SGAE 459.374
63. Recordo nº 9. Grav. Banda Orquesta Municipal de la Coruña. 1977
64. San Benitiño Cod. SGAE 4.790.794
65. Si ma deches rio miño SGAE 4.811.085
66. Silencioso [silencio]: Vals Cod. SGAE 6.419 Arquivo da Biblioteca digital hispánica: http://bdh.bne.es/bnesearch/detalle/bdh0000039318
67. Te mareas: Vals [Música impresa] Cod. SGAE 4.842.131 Nº8 Colección 12 obras. Ritmo.
68. Terra a Nosa: balada. [Música impresa] Nº2 Colección 12 obras. Ritmo.
69. Tierra gitana Cod. SGAE 4.855.478
70. Una tarde en Zaragoza Cod. SGAE  484.938 
71. Una vez en la Habana Cod. SGAE 4.880.706
72. Unha noite no muíño Cod. SGAE  4.885.870
73. Viva la legión Cod. SGAE 4.900.786
74. Vivan os mariscos Grav. Os Montes de Lugo.
75. Yo Ya Cod. SGAE 4.923.403
76. Yo Yo Manía Cod. SGAE 4.924.137
77. Zumba Loureiro Grav. La Lira Ribadavia 1995 Cod. SGAE  492.004

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domingo, 6 de março de 2016

nº 201 Lela. Uma canção à procura de um autor. II

II


Na postagem anterior comentávamos como no programa da TVG No bico un cantar salientavam o parecido entre a cantiga de tuna Fonseca e a Lela de 1941. O parentesco é evidente –chega com uma simples escuta para um se aperceber dele– porém, considero que não está de mais fazer uma pequena análise comparativa para ver quanto há de imitação entre estas duas peças, assim como com a Lela de Mato Hermida. Com tal fim utilizo um método ao que denomino análise paradigmático, o qual, obviamente inspirado na linguística, vem a assinalar a relação vertical dos signos, neste caso musicais, que pela sua presença ou ausência indicam um maior ou menor parentesco entre as melodias estudadas.

Para a realização do estudo coloquei num mesmo sistema as melodias, e por esta ordem, de Fonseca, a Lela de 1941 e a Lela de Mato Hermida, transportadas a uma tonalidade comum. As fontes utilizadas para a transcrição da Lela do 1941 são as partituras depositadas no Museo de Pontevedra e para a de Mato Hermida, a publicada pela sua filha(1). De Fonseca não temos uma partitura que podamos considerar canónica, pelo que tivemos que confiar nas que circulam por internet, assim como das gravações comerciais realizadas por diversas tunas. Cabe a hipóteses de que esta Fonseca, em certo modo contemporânea, seja sensivelmente diferente à que Castelao lembrava do seu passo pela estudantina.

Com linhas verdes ficam identificadas as identidades entre Fonseca e a Lela de 1941. A linha descontínua indica que para verificar tal identidade teve de utilizar várias vozes. Com linhas vermelhas marcamos as identidades entre Fonseca e a Lela de Mato Hermida ou entre as três. 

fig.1
 
fig.2
fig3

Para uma melhor compreensão das ilustrações, dividi a partitura em três secções. As partes A e B são tão similares entre Fonseca e a Lela de 1941 que poderíamos afirmar que estamos ante a mesma peça. É na parte C onde a obra estreada na Argentina manifesta uma maior originalidade a respeito da histórica canção de tuna. Mas, que é o que acontece com a Lela de Mato Hermida? Se nos fixamos nos quadrados vermelhos há muitas células comuns às três partituras, até frases quase completas, como nos compassos que vão do 14 ao 16. Especialmente ilustrativo me parece o sol #, segundo tempo do compasso 14, o qual se repete com uma recursividade suspeitosa no 22. Curiosamente, na parte C [figura 3], parece que há um maior parentesco entre a versão de Mato Hermida e Fonseca que entre esta última e a Lela do 1941. Incluso, e isto enreda tudo ainda mais, Mato Hemida faz no compasso 41 uma variante melódica de Fonseca calcada da do Lela de 1941. 

Por se ficasse qualquer dúvida de que Mato Hermida teve presente a valsa estudantil, observe-se a figura 4 onde o sombreado indica as identidades verticais, esta vez não das notas, senão das figuras.

fig.4


Á vista da figura 4, e se só tivéssemos em conta a figuração, poderíamos agora dizer que as três peças são a mesma com apenas ligeiras variações. Mas a velha definição lembrava que a música é a combinação de sons no tempo. Baseando-me nesta elementar equação é que, na minha opinião, a Lela de Mato Hermida resulta uma melodia original inspirada na valsa estudantil Fonseca
Para uma definição do Lela de 1941, melhor escutar primeiro ao próprio Castelao.

A Lela de Castelao.

Não há qualquer dúvida de que quando Castelao fez a letra de Lela soava na sua cabeça a música de Fonseca. Pretendia fazer uma espécie de fake sem muitos dissimulação. Na própria letra resulta evidente a homenagem. 

Fonseca:
Las calles están mojadas y parece que llovió,
son las lágrimas de una niña, por el amor que perdió.

Lela:
Estão as nuvens chorando por um amor que morreu,
estão as ruas molhadas de tanto como choveu.

Manuel Rosales(2), editor da obra narrativa de Castelao, remete-nos nas suas notas a um fragmento do Diario de 1921 cujo contido resulta esclarecedor:

«Iste teatro [teatro do Morcego] é o que ocupa todolos meus pensamentos, tanto que penso faguer disto na primeira ocasión alá na nosa Terra. A côr é a que trunfa por riba de todo e logo o bó gosto do que adapta o asunto. Pensando e pensando sobor disto xa se me ocurriron algunhas cousas pra faguer en Galicia. Velahí van: a) Nunha taberna de cibdade (a decoración ten de sere unha tolería de cousas pra decoración ten de sere unha tolería de cousas dise mal gosto subrime do pobo) ármase un orfeón onde canta o barbeiro o ebanista, o zapateiro o escribente de xuzgado e ainda o mesmo taberneiro pode botar un solo. O que canten ten de sere así como unha caricatura de calquera obra de orfeón: a obra "Oh, Pepita" poño por comparanza de cousa ridícula. [...] c) Nunha noite dun azul ben fondo con estrelas de córes cantan os mariñeiros orredor do lume onde se está cocendo a caldeirada, un canto que ainda podía sere acompañado por un acordeón. d) Duas rapaciñas ben fermosas e vestidas coma no tempo do romanticismo cantan un duo galego. As figuras estarán iluminadas pola luz da lua que entra por unha fenestra. [...] f) Unha parexa ou un grupo poden cantar calquera cousa axeitada; pero han sere os personaxes dun cadro pintado que non teña máis que as cabezas de verdade e tan ben pintadas que parezan brochazos. [...] Deixo apuntadas isas cousas que se me ocurriron. Do noso folklore sairán cousas a milleiros.» p. 107 (3)

Pareceria, portanto, que Castelao procurava com a sua Lela fazer uma caricatura de Fonseca, por ser esta melodia estudantil a que melhor poderia evocar as saudades do boticário. O autor do arranjo musical do 1941 –nós continuamos a defender a tese de que foi Emilio Pita– conhecia de primeira mão o transunto melódico de Lela, que como toda boa caricatura tinha de parecer-se ao original dentro da sua meditada deformação.

A Lela do Teatro Mayo.

Tal é como demonstramos na postagem anterior, uns meses antes da estreia de Os velhos não deberam de namorar no Teatro Mayo de Bos Aires em Agosto do 1941, Lela foi interpretada na cidade de Rosario. A peça foi cantada pelo grupo Ultreya, dirigido por Emilio Pita, com a presença do próprio Castelao. Imagino a sua emoção ao escutar os seus versos naquelas terras argentinas, tão longe dos palcos para os que a obra fora criada. Chegados a este ponto cabe fazer-se mais uma pergunta. Como e quem interpretou esta peça no Teatro Mayo na première de Os vellos...? Pois o certo é que a dia de hoje este aspeto continua a ser para mim uma autêntica incógnita.

A Companhia de Comedias contava com uma boa e experimentada cantante, a própria Maruja Villanueva que deu numerosos concertos como soprano. Além disso o elenco habitual da compoanhia contava com músicos e bailarinos habituais. Não parece, de igual modo, que a ideia de Castelao fosse que cantassem exclusivamente os atores, senão que a parte musical, de grande peso na obra, tinha de estar ilustrada por músicos e dançantes. Neste sentido são fulcrais as palavras duma pessoa que acudiu ao Teatro Mayo esse 8 de agosto do 1941, Eduardo Blanco Amor. Ele aponta a importância que para Castelao tem o elemento folclórico como base do teatro galego, contando coisas tão interessantes como estas:

«Hai, sin dúbida, na obra de Castelao alento folklórico, pro tal como debe sere; ponto de partida, non de chegada; proceso de estilización; raíz e non folla. No seu folklorismo trascendente está a sua galeguidade pura, como obra realizada e tamén como guieiro e proieción. niste senso é moi eispresiva a nota  que pon Castelao ao comezo, afirmando que a escribe "pra regalía do pobo" e "como proba de teatro galego". A sua intención era de "rematar os tres lances pra dar una sesión compreta de teatro, contando coa Polifónica de Pontevedra». p. 91 (4)

O feito de que a partitura que se conserva no Museo de Pontevedra e que supostamente foi executada nessa estreia do Teatro Mayo seja um arranjo a três vozes –as três escritas em clave de sol– indica que foi composta para ser cantada por um coro polifónico. Tal vez o coro Ultreya? 
Na mesma publicação donde tiramos a cita anterior, Blanco Amor termina pronunciando um alegado final verdadeiramente impactante:

«E direi, pra remate, que os "Vellos" non deben reestrenárese senón nas condicións devanditas, na sua realización mais óptima, ou sexa; desenrolo masivo das esceas rítmicas (danza dos espantallos, muiñeira final, etc.) ilustracións musicaes derivadas dos temas folklóricos pro levadas a grandes masas sinfónicas e vocaes; reprodución fidel das carautas e telóns, cuios orixinaes detalladísimos, –liña e coor–, consérvanse de mans de Castelao, etc.

Será moi lamentábel que un apresuramento eilitista ou unha devoción mal entendida levase a alguén a tentar esta faena, desfigurando o pensamento do autor e sin conecer a fondo o que se fixo i-o que non se pudo facere no seu estreno. Por non sere a de Castelao obra común, percisa de meios pouco comúns. Botar man dela sin telos será profanar un belido intento sin froitos para ninguén.» p. 92-93 op.cit.

A grandíssima Maruja Boga, a Pimpinela de Os velhos... morreu em Buenos Aires em 2010. Ela poderia ter despejado a maioria das minhas dúvidas e não deixo de me perguntar se ficará alguém com vida a quem poder interrogar. 

E então, apareceu uma gravação.

Pois sim. O meu caro amigo Ramom Pinheiro Almuinha, depois de ler a primeira parte deste pequeno trabalho, anunciou-me a existência duma gravação americana da Lela, posterior a estreia do Teatro Mayo e anterior a versão galega de Cantigas e Agarimos. O Ramom Pinheiro é uma das maiores autoridades a respeito das gravações históricas,  assim como dos coros de aquém e além mar. Nas suas anotações estava o seguinte apontamento:

  1. (TC 127) O' gaiteiro de Soutelo /Moi ben capeal'o vento. Foliada Int.Coro del Centro Gallego de Montevideo. Dir.: Pepe Rosales y J. de María. Acordeón: D. Treglia Sondor Nº 5582 - A, matriz 3498/9 Montevideo
  2. (TC 166) Lela. "Serenata compostelana" Coro del Centro Gallego de Montevideo. Drt.Pepe Rosales y J. de María. Acordeón D. Treglia. Sondor Nº 5583 - A, matriz 3500 Montevideo
A dia de hoje, e sem descartar novos achados, podemos afirmar que esta é a primeira gravação musical da Lela de Castelao. Como se pode apreciar nos créditos, a gravação correu a cargo do Coro do Centro Galego de Montevideu, e esta circunstância obriga-nos a falar brevemente desta cidade em relação as representações de Os vellos...

Depois da estreia do Teatro Mayo em 14 de agosto do 1941 na cidade de Buenos Aires, a companhia de Maruja Villanueva cruzou o rio para i-la representar a Montevideu, no Teatro Solis, em 8 de outubro do mesmo ano. Foi com motivo deste evento que Castelao gravou uma fonopostal, que pode ser escutada online na página do Consello da Cultura Galega. Após dessas datas não há um registo das vezes que a peça de Castelao foi representada no continente americano, mas deveram ser numerosas. Já na década de 50 nasce o Coro do Centro Gallego de Montevideo, que vai ter uma relação curiosa com Os vellos...

«El Coro del Centro Gallego de Montevideo se crea en el año 1951 y, desde ese momento, serán muchas las oportunidades en que ambas instituciones: (Casa de Galicia y Centro Gallego de Montevideo) actúen juntas con sus respectivos coros y cuerpos de baile. En el año 1953 los coros de estas instituciones cierran la velada de presentación de la película "Sabela de Cambados". Al año siguiente, el Coro del Centro Gallego y el Cuerpo de Baile de Casa de Galicia participan en la comedia musical de Pepe Fernández "Tamén os vellos poden namorarse"». p. 228 (5)

Penso que os créditos do disco do Coro do Centro Galego contêm um erro. O diretor deveu ser este Pepe Fernández, pai da grandíssima cantante galego-uruguaia Cristina Fernández e não Pepe Rosales, como se indica na etiqueta. Tendo em conta, precisamente, a numeração da etiqueta da companhia discográfica Sondor, a gravação realizou-se depois da representação da comédia musical de Pepe Fernández, por volta do 1954/1955. 

Ramom Pinheiro teve a lúcida intuição de que este disco em 78 r.p.m. podia estar na coleção da Deputação Provincial de Ponte Vedra, feito que foi confirmado pelo conservador e magnífico gaiteiro Óscar Ibáñez. Aguardamos poder escutar esta gravação e comprovar se se trata da mesma dos papeis do museu pontevedrino, aquela da estreia do 1941, ou se por contra estamos ante uma nova versão.

Há mais um aspeto que resulta interessante desta gravação: a presença dum acordeonista acompanhante, e isto provoca em mim outra pergunta: houve na estreia de Os vellos... músicos para acompanhar os coros? Tal vez também nas baixadas de telão? E de ser assim, quem foram estes músicos? Infelizmente mais uma vez desconheço a resposta. O que sim sei é que Castelao contava com que os houvesse. 

«Cando a muiñeira soe, ergueranse os espantallos, virán bailando, un após do outro, cara diante, para puntear a muiñeira acompañada por timbales e que, en algúns treitos, non quede máis que un bruído rítmico.» p. 557

Em relação com a presença ou ausência de músicos na première de Os vellos... simplesmente e como colofão a esta segunda postagem –haverá uma terceira?– deixo-vos duas fotografias publicadas na rede em www.culturagalega.org. no álbum dedicado ao gaiteiro Manuel Dopazo. Nelas aparece Manuel retratado em Montevideu com a companhia de Maruja Villanueva em 5-X-1940, foto do arquivo do investigador argentino Norberto Pablo Cirio. Na outra está a Pimpinela Maruja Boga com o próprio Manuel Dopazo, os acordeonistas Moreiras e o actor Tacholas, também do elenco de Os velhos... 

Menbros da Companhia de Teatro Maruja Villanueva
Foto dos Membros da Companhia do Teatro Maruja Villanueva,
na quinta da Casa de Galicia de Montevideo. Entre outros:
1. O tenor Domingo Caamaño; 2. o gaiteiro Manuel Lorenzo; 
3 e 4 a parella de baile Héctor e Sara Dopazo; 5. Carmen Dopazo:
6. Tito Dopazo: 7. Manuel Dopazo: 8. a cantante Maruja Villanueva, 
Isaura Vázquez. Montevideo 5-X-1940 (Arq. Norberto Pablo Círio)


Remate

Terá de haver um epílogo a este trabalho meu. Quiçá um epílogo ao modo de Os velhos não deveram de namorar onde os esqueletos nos contem a verdadeira história duma estreia jamais contada. A mim resta-me falar do contido dessa gravação uruguaia, com quase total certeza a primeira Lela com registo sonoro. Também gostaria de falar doutra Lela, a mais rianjeira de todas, a composta por Manuel Vicente "Chapi" como trilho musical na encenação de "Os velhos..." levada a cabo pelo grupo Airiños de Assados no 1982. Mais isso será doutra volta. 

domingo, 14 de fevereiro de 2016

nº 200 Lela. Uma canção à procura de um autor.

Lela

Uma canção a procura de um autor.

I

Em sábado 30 de janeiro de 2016 a companhia Fantoches Baj estreava em Ponte Vedra e Rianxo a sua adaptação de Os velhos não devem namorar de Castelao. O esquisito desta produção é que por vez primeira as personagens da peça teatral estão representadas por títeres, não sendo isto um atranco para resultar uma das montagens até hoje mais fieis à ideia originária concebida na altura pelo próprio Castelao. Os decorados, as caracterizações e vestiários dos bonecos, o clima que se cria dentro do pequeno caixão do teatrinho é o fruto de muitos anos de investigação do seu diretor Inacio Vilariño, não só da peça teatral que se representa, senão também da vida e da obra do autor e político rianxeiro, ao que tem dedicado, junto com o desenhador Iván Suárez, uma biografia gráfica em vários volumes.

A produção dos Fantoches Baj é esplêndida, com um elenco de atores veteranos no seu compromisso com o teatro popular: Inacio Vilariño e Luchi Iglesias –Fantoches Baj– e Lucho Penabade e Tero Rodríguez, da companhia amiga Os Quinquilláns. Se a isto unimos o trabalho artesanal e minucioso da desenhadora de vestiário Olga Vieites, desde um ponto de vista técnico e estético, nada a dizer. Mas é que a interpretação, ajustada ao texto originário e sem os excessos e caretas que muitas vezes acompanha a este tipo de representações, considero que foi especialmente acertada. Obviamente a minha opinião pouco importa, já que o teatro não é o meu campo e além de mais, estou muito unido às pessoas que fazem parte da produção tanto por amizade como por laços familiares: a Pimpinela é a minha mulher e mãe da minha filha Dália.

No que sim me considero perito é no referente ao apartado musical. Como músico prático e teórico levo o suficiente tempo neste negócio como para poder dizer o que penso sem qualquer tipo de limite, e assim o fiz desde que publiquei o meu primeiro artigo, já vai para vinte anos. Creiam, pois, na minha sinceridade quando lhes digo que o trilho musical desta obra –a cargo de Benjamin Otero– é duma delicadeza extrema, minimalista em muitos momentos, mesmo naïf; para noutros fazer alarde da sua sabedoria musical e do seu ofício como compositor. Benjamín Otero, oboísta da Banda de Lalim, professor no seu dia do Conservatório Folque da capital do Deza e acompanhante habitual do Germán Díaz, leva uns anos tesourando experiência como músico de Fantoches Baj –até como ator– o que sem dúvida vai a favor dum correcto emprego da linguagem musical própria do teatro. A sua achega pessoal, com músicas de continuidade ou ambientando cenas –como por exemplo a marcha fúnebre interpretada por músicos da Banda de Música lalinense– resulta justa e necessária, algo importantíssimo quando falamos duma peça teatral que conta com partituras originais. E é precisamente aqui onde reside um dos grandes acertos desta recreação histórica de Os velhos não devem namorar na sua versão em títeres: a utilização das partituras incluídas no libreto e utilizadas na estreia absoluta em agosto do 1941, na capital argentina.

Uma canção à procura de um autor.

O museu de Ponte Vedra conta com dois manuscritos de Os Velhos não devem namorar que foram elaborados por Castelao por volta de 1939. Num deles se encontram as partituras utilizadas em 14 de agosto de 1941 no Teatro Mayo de Buenos Aires, no que constituiu a estreia absoluta. Participaram na representação as atrizes Maruxa Villanueva e Maruxa Boga e os atores Fernando Iglesias, Antonio Cubelas, Enrique González e Luis Lugo. A princípios do 2014, o programa No bico un cantar da TVG realizou um monográfico sobre Lela[1], canção que D. Saturio, acompanhado dum coro de boticários, dedica à sua namorada. O programa está centrado na melodia criada por Rosendo Mato Hermida para a estreia galega em 25 de julho de 1961 e que foi definitivamente popularizada por Carlos Núñez no seu disco A irmandade das estrelas, na voz de Dulce Pontes[2]. No entanto, nesse mesmo programa fala-se da outra Lela, a que se encontra nas partituras do manuscrito do Museu de Ponte Vedra. A encarregada de amostrar os documentos ante a câmara, Ana Isabel Vázquez, presidenta executiva do museu, diz não saber nada sobre a autoria das partituras.

Mesmo para um investigador da cultura musical galega, com tantas lagoas por resolver, resulta difícil de crer que um acontecimento tão relevante coma a estreia duma obra do grande Castelao, por uma companhia profissional e numa cidade tão civilizada como Buenos Aires poda guardar algum enigma. Mais ainda, quando esse fato fulcral para o teatro galego aconteceu há apenas setenta e cinco anos.

As casualidades são as milagres dos ateus[3].

O mês passado[4] andei a trabalhar na posta em música dum conjunto de poemas de Emilio Pita que me foram encomendadas pela cantora vilagarciense  Mar Caramés. Entre o material que me enviou se encontrava a citação duma carta de Castelao que tinha como remitente a Emilio Pita (A Corunha, 15/10/1907 ; Buenos Aires, 07/12/1981)

 «Sr. Emilio Pita:
Meu querido irmán: contesto a volta de correio á túa carta. Ben, moi ben. Estou conforme co plan que fixéchedes. Debo felicitarte porque comprobo que vas a remover o fondo galego de Rosario e que axiña esa cibdade vai ser un dos nosos mellores faros.
Eu estou bastante ledo cos ensaios primeiros da miña obra. Paréceme que poderemos estrenala. Noto a túa falla, porque non sei como a parte musical se poderá arranxar sen estares tí para preparala. En fin: farase o que se poida. O conto é estrenala para que, polo menos, apareza algo diferente ás trangalladas que tanto gostan ás nosas xentes.»  Grial 47 (1975), 91-92.

A carta não tem data mas na edição de Galaxia (2000) Vol. 6 do epistolário de Castelao datam-na a fins de março ou abril do 1941.
Existe mais uma carta enviada por Emilio Pita a Fernando Iglesias, Tacholas, participante no elenco da estreia bonaerense, com data de 11 de agosto de 1941.

«Meu querido Fernando:
Dúas  liñas para saudarche e pór no teu coñecimento que, d'acordo co que vos prometín o día 26 do mes derradeiro no Teatro Mayo, estarei á vosa beira o xoves 14 para sentir a carón de todos vós a fonda emoción de ollar na escea a primeira obra teatral do noso meirande irmán Castelao.

Tí sabes ben, como foi po-lo meu intermedio que se consigueu que Castelao léra a obra á vosa Compañía (Compañía de Comedias de Maruxa Villanueva) e pareceume un soño que despois de menos de un ano poda levarse a escea grazas á vosa admirable laboura...»[5]

Tendo em conta o dito nestas cartas, o estudioso da obra poética de Emilio Pita, Xosé Anxo García López afirma que «O papel de Pita como asesor do rianxeiro polo que se refire a este particular [posta em contacto de Castelao com a companhia de Maruxa Villanueva] semella plausible mercé ás declaración de Tacholas ou de Maruxa Villanueva».[6] Mas, até que ponto Emilio Pita é responsável das partituras utilizadas na estreia do Teatro Mayo?.

O Quarteto Ultreya.

O Emilio Pita, além de poeta, foi musicólogo especializado em música tradicional galega[7]. Isto último é muito meritório, dado que emigrou para a Argentina com apenas doze anos, viajando à Galiza em contadas ocasiões.

Quando assisti a representação de Fantoches Baj e escutei por vez primeira o vira da cena do português ou a pandeirada entendi que Emilio Pita tinha que estar detrás das escolhas musicais. Mas não foi até a leitura dum artigo do jornal argentino Pueblo Gallego datado em 15 de junho de 1941 que me atrevi a escrever este pequeno trabalho sobre a autoria da primeira partitura de Lela, aquela que Castelao achegou ao seu manuscrito, junto com o texto, esboços e desenhos de decorados.

Em sábado 30 de maio do 41, Castelao deslocou-se a Rosario para palestrar num ato organizado pela Casa de Galiza e a Irmandade Nazonalista Manuel Curros Enríquez, chefiada por Xosé Ares Miramontes. O título da conferência foi: Visión de un aldeano gallego. A seguir da palestra de Castelao, houve uma «fiesta de la poesia, música y danza de Galicia» onde Emílio Pita teve um especial protagonismo. A isto parece referir-se Castelao quando na carta dirigida a ele e acima publicada lhe dizia: «Ben, moi ben. Estou conforme co plan que fixéchedes».

No ato, dividido em duas partes, participa o Quarteto Ultreya, dirigido por Emilio Pita desde 1938. Estava integrado por Luís López, Benito Rodríguez, José López e Mercedes Orgaz. O programa incluía:
«a) Romance de Don Gaiferos, siglo XIV
b) Cantigas de roda, música pop. armon.
c) Villancico, siglo XVIII
d) Mariñeira (popular)
e) Carmiña (popular)
f) Canción de berce, solo por Mercedes Orgaz
g) Alalá de Lobeira, música popu. armon.
h) Lela (serenata compostelana), música pop. arm.»


Pueblo Gallego: periódico quincenal.
nº2 15/06/1941

No transcurso do concerto ainda se interpretou alguma outra obra de Pita como a titulada Muiñeira de Vellas.

As Lelas de Castelao.

Resulta, pois, de justiça, reafirmar que a primeira interpretação conhecida de Lela foi em 30 de maio de 1941, num ato celebrado no salão do Centro Catalão de Rosario, Argentina. As canções foram todas harmonizadas por Emílio Pita, diretor do Quarteto Ultreia, mas é ele o autor da melodia original da Lela do Teatro Mayo de agosto do 41? Pois parece que não, tão só podemos atribuir-lhe a harmonização. Em realidade a pergunta mais certinha seria, é a Lela do 41 uma melodia original?

No programa da TVG, No bico un cantar, expõe-se o seu parecido com a canção de tuna Fonseca, também conhecida como Triste y sola, uma valsa estudantil que segundo o Bachiller Pérez, pseudónimo de Pérez Constanti, já era conhecida arredor do 1880 quando dirigiam a tuna os violinistas Dorado e Villaverde. O próprio Castelao foi tuno e tocava guitarra com a que acompanhava a sua voz de baixo. O feito de que no jornal arxentino El Pueblo Gallego se qualifique Lela como música popular harmonizada indica que Pita, e suponho que também o Castelao, não a consideravam tema original.

A minha opinião é que se trata duma evocação da música estudantil, de ai o seu subtítulo serenata compostelana[8], tão filiada a outras melodias consagradas no reportório da tuna que decidiram dá-la como popular.

Quando em 1961 o coro compostelano Cantigas e Agarimos põe em cena a peça de Castelao não contavam com as partituras bonaerenses e Mato Hermida teve que compor, parece que com muito estresse, a que chegaria a ser uma das canções mais emblemáticas do reportório popular galego. Novamente uma valsa estudantil, nada afastada do modelo de Fonseca ou do Lela do 41.

Em Rianxo ainda contamos com outra versão do poema de Castelao, esta vez composta pelo músico local Manuel Vicente Chapí, cantada nas históricas representações do grupo amador Airiños de Asados, Rianxo, e muito popular entre os vizinhos deste concelho corunhês. Mais uma vez uma valsa.

Noutro momento gostaria de fazer uma análise das partituras depositadas no museu de Ponte Vedra que possa, porventura, deitar nova luz sobre os enigmas que encerram.  Mas, por enquanto, vamos ficar por aqui.



[1] BERNÁRDEZ, Senén dir. 01/02/2014 Lela [Program de TV] No bico un cantar. Televisión de Galicia T.V.G. O roteiro deste programa foi escrito pela rianxeira Teresa Abuín.
[2] Sobre a Lela de Rosendo Mato Hermida ver: «Lela»: a sombra dun amor ingrato. En desagravio de Rosendo Mato Hermida, artigo escrito pola sua filha María Dolores Mato Gómez in [http://dspace.aestrada.com/jspui/bitstream/123456789/450/1/pg_291-316_estrada10.pdf]
[3] Adágio atribuído ao Barão de Orjais (1769-?).
[4] Janeiro de 2016
[5] GARCÍA LÓPEZ, Xosé Anxo. Boletín da R.A.G. nº 370 p. 172
[6] GARCÍA LÓPEZ, Xosé Anxo, op. cit. p. 172
[7] É autor do apartado dedicado à música tradicional na Historia de Galiza, V. 1, pp.763-777 Akal; Madrid (1979) dirigida por Otero Pedraio, o qual é bem significativo do grande respeito que lhe tinham as vacas sagradas do galeguismo.
[8] «Que serenatas demos!» diz o boticário quando entre assobios e postura na guitarra está a tentar recordar a melodia.