quinta-feira, 20 de maio de 2021

nº 251 Fina Galicia: Uma Diva ye-yé (1ª parte)

 

Heterodox@s Galeg@s 01

Fina Galicia: Uma Diva ye-yé (1ª parte)

De Fina Galicia sabemos mais bem pouco. No meu arquivo pessoal conto com alguns documentos onde reconheço a uma mulher formosíssima, elegante e com uma voz que às vezes acada níveis de excelência. Mas, com certeza, desconheço quase que tudo desta artista que aparece arredor de 1955; que transita pelo cimo da sua popularidade nos primeiros sessenta e cujo rastro dilui-se pouco a pouco ate se converter numa espécie de personagem legendária. Anuncio desde já que não tenho todas as respostas, mas sim quisera fazer uma primeira aproximação que conduza à descoberta duma mulher corunhesa da que fiquei, devo dizer, absolutamente fascinado.  

De Josefa López a Fina (Finita) Galicia.

Em 1958, El Pueblo Gallego (23 de agosto), publica uma entrevista feita a Fina Galicia na que a cantante achega alguns dos escassos dados biográficos que temos dela. Por uma das suas resposta sabemos que o seu nome real era Josefina López, mas ela mudou seu apelido polo de Galicia porque «nací en la Coruña, enxebre cien por cien; [y] a que tuve empeño frente a consejos de adoptar otros nombres ya tópicos, como “Granada”, “Andalucía”, etc. este de mi tierra que tanto amo». 

Também nos informa de que seu instrutor foi o maestro Quiroga (1899-1988), o popular compositor de Tatuaje ou Ojos verdes, proprietário duma editora e duma academia onde selecionava e instruía a futuras estrelas.

Porém, antes de 1958, e apesar da sua juventude, a cantante corunhesa já contava com um pequeno curriculum que incluía uma viagem a Venezuela e a México, périplo no que deveu realizar atuações nalguns canais de TV, principalmente venezolanos.

 

1955-1958. Das noites do Morocco à tournée com o Festival en Gilacolor.

 

1954. As primeiras notícias na imprensa que temos de Fina Galicia remontam-se a 1954 e a relacionam com um dos géneros onde vai concorrer nestes primeiros anos da sua carreira: o flamenco. Como se verá, compartirá cenários com alguma das primeiríssimas figuras do cante da pós-guerra, mesmo, nalgum caso, com os mais grandes: Manolo Caracol e La Paquera de Jerez.

 

“Teatros.

Price.- 7 (¡éxito!): Festival del cante. La Paquera de Jerez, Paco Isidro, Montoya, el Posaero, el Culata y todos los ases de la baja Andalucía. 11 noche, función homenaje a la Paquera de Jerez y 11 macarenos. Grandioso fin de fiesta, com intervención de Manolo Caracol, Finita Galicia, Camilín, Juanito Campos, Dolly Montenegro, Gloria y Shanfres, el Pili, Adela Borja y principales figuras de la escena. ¡Será un acontecimiento!”. Hoja del Lunes de Madrid, 27 de setembro de 1954 in https://aventurerosdelflamenco.blogspot.com

 

1955. A continuaçao de pisar as tábuas do madrileno teatro Price, a atividade da nossa biografada desloca-se a Barcelona, atuando na Alameda del Cómico e, acabada a temporada de verão, no teatro Victória com um programa de variedades. Não é até fins desse ano que volta a Madrid, esta vez para atuar em Salas de Festa como o cabaré Morocco, inaugurado só cinco anos antes.

 

Durante o biénio 1956-1957 não encontramos nenhum dado relacionado com Fina Galicia na imprensa galega e espanhola. Pensamos que neste tempo deveu ter alguma oferta, como já dissemos, para ir fazer as Américas, radicando-se em Venezuela e, quiçá, deslocando-se para algum trabalho a México.

 

1958. Manuel Gila Cuesta Gila (1909-2001) já era uma personagem muito popular em 1958, principalmente pola sua participação numa dúzia de filmes, nalgum deles como protagonista. O Festival en Gilacolor, produção de José Mª Lasso de la Vega, um dos mais grandes produtores e representante de artistas da época, vinha a ser como um espetáculo de variedades com números intercalados entre os monólogos do humorista madrileno. Portanto, um espetador podia rir com as chamadas telefónicas do Gila e a um tempo desfrutar duma vedete cantando e mostrando “palmito y salero”, um quadro de baile flamenco, um conjunto vocal ou o genuíno ballet francês (sic) “Las Gila girls”. E entre aquele elenco heterogéneo, a colaboração especial da nossa Fina Galicia. Não sabemos se a cantante corunhesa fez a gira completa de Gilacolor polo estado espanhol, mas podemos localizá-la no mês de julho no teatro Calderon de Barcelona e nos galegos García Barbón, Malvar e Rosalía de Castro em agosto. Em qualquer caso, o projeto não durou mais de uma temporada, quiçá apenas uns meses, já que neste mesmo ano Fina Galicia ingressa no elenco do madrileno Teatro Fuencarral. Desta etapa ficou para a posteridade a belíssima capa de Primer Plano, Revista española de cinematografía, com um retrato da cantante corunhesa de enigmática elegância. 

 

Arquivo do Pico Rodríguez

 

A pé de página podemos ler: “Fina Galicia. La sensación de Madrid. A su vuelta de América y parte de Europa, Fina Galicia se presentó em el teatro Fuencarral como primerísima figura de la canción, logrando ser aclamada por su arte extraordinario, juventud y belleza”. Primer Plano. 1958

 

1959-1963. A vedete.

 

1959. Em janeiro do 1959 Fina Galicia trabalha no espetáculo De lo bueno… lo mejor, de Rafael Farina. No elenco, ademais deles dois, encontramos nomes como Los Chimberos, Hermanas Bernal e Jorge Sepúlveda. 

 

1961. Não sabemos o tempo que a cantante corunhesa passou com o cantaor salmantino, mas não é até o ano 61 que volvemos encontrar anúncios com seu nome, esta vez como estrela principal no cabaré Villa Romana de Madrid.

 

Na frequente alternância ou convivência entre a vedete e a cançonetista pseudo-folclórica, Fina participa dum novo espetáculo, La sangre morena, esta vez de Ochaíta e Valerio e música de Solano. Estes três criadores de canções ostentam o duvidoso honor de ter composto nada menos que o Porompompero. La sangre morena tinha como primeiras figuras a El Príncipe Gitano, o da “icónica” interpretação de In the ghetto, e a Dolores Vargas, irmã do anterior, conhecida artisticamente como La Terremoto. 

 

1962. Durante o ano 1962 não encontramos o seu nome anunciado mais que entre as atrações dalguma sala de festas como a Teyma, situada na madrilena praça Callao. 

 

1963-1965. A época dos Festivais de la Canción.

 

1963. Do 21 ao 23 de julho de 1963 celebrou-se na Praça de Touros de Benidorm o V Festival Español de la Canción organizado pola R.E.M., ou o que é o mesmo, a Red de Emisoras del Movimiento. Neste festival o prémio principal e de maior quantia era para uma canção, não para quem a interpretava, mas obviamente o prémio para o cantor ou cantora era uma ajuda importante na procura dum espaço no competitivo mundo da canção ligeira. Por ali passaram artista como Raphael, o Duo Dinámico ou Julio Iglesias, assim que Fina Galicia deveu de ver parte dos seus sonhos feitos realidade quando lhe foi concedido um segundo prémio dotado com 20.000 pts. O No-do filmou parte do evento, graças ao qual podemos ver uns poucos segundos de imagens em movimento da cantante corunhesa.

 

 

No-Do TVE

 

Imediatamente depois do seu sucesso no Festival de Benidorm grava para Zafiro um EP com quatro das canções participantes: Viejo reloj, Suéñame, Quédate e Cuándo y dónde. Na contracapa do disco podemos ler uma nova referência ao seu périplo polas Américas:

 

“Su nombre no suena aún em España todo lo que merece por la calidad extraordinaria de su voz y por la personalidad de su estilo. Ello se debe a que Fina Galicia há venido actuando hasta ahora em Hispanoamérica.

 

Recorrió em triunfal gira artística vários de aquellos países y actuó durante una larga temporada em la televisión venezolana”. 

 

Foto de Fina Galicia na capa duma partitura de Edicones Segovia

Arquivo do Pico Rodríguez

 

Como artista exclusiva do selo Zafiro-Iberofon vai gravar uma série de E.P’s e singles promocionais que nos proporcionam um pequeno catálogo de canções da nossa artista:

 

Z-E 434 1963

Viejo reloj – Ignacio Román-Rafael Jaén

Suéñame – Rafael de León-Máximo Baratasy-Antonio Areta

Quédate – Ignacio López García-Adolfo Garcés

Cuando y dónde – Camilo Murillo-Antonio Segovia

Z-E 491 1963

Pobre Apolo - [Ignácio] Román-M[anuel]. Alejandro

Pasó el amor - Román-M. Alejandro

Cabiar de vida - Román-M. Alejandro

Desperté - Román-M. Alejandro

00-7 Promocional 1964

Ciudad solitaria – Doc Pomus-Mort Shuman

Es inutil – Pieretti-Sonna-Privitera

00-8 Promocional 1964

Copacabana – J. de Barro-A. Ribeiro

Un poncho y un sombrero – D. Oace-G. Colonello

 

Cabe destacar como nas gravações do 1963 os autores das canções são todos espanhóis: os participantes do Festival de Benidorm e o Manuel Alejandro, compositor reclamado polas grandes figuras. Embora, os temas dos discos promocionais são todos êxitos internacionais traduzidos ao castelhano. 

 

Arquivo do Pico Rodríguez

 

 

 Arquivo do Pico Rodríguez

 

1964. Zafiro deveu querer apostar por Fina Galicia ao lançar estes discos promocionais que a levaram, inclusive, a estar nas tradicionais recepções de Franco nos jardins da Granja de San Ildenfonso, na comemoração do 18 de julho. Esta recepção a que acudia o corpo diplomático acreditado em Madrid, o Governo e as altas jerarquias da nação, contava com atuações musicais em direto baixo a direção dum velho conhecido da nossa cantante: o Maestro Quiroga. No ano 64, nos jardins segovianos, cantou Fina Galicia diante de Franco e de Carmen Polo e de lado de muitos outros artistas tais como Sara Montiel, Juanita Reina, Luis Mariano ou Tony Leblanc.

 

Nesse mesmo ano acontece algo que pode significar um cambio na carreira da cantante corunhesa. Num programa da TVE emitido o 10 de maio de 1964, Fina Galicia canta Uma noite na eira do trigo. O programa era um especial dedicado a luita contra o cancro, transcorrendo parte dele em Compostela. Não consegui ver estas imagens, polo que não sei que instrumento e instrumentista a acompanhava.

 

O certo é que Zafiro, com a produção de Ignacio Roman, vai lançar um L.P. em 1965 no que Fina Galicia interpreta um repertório completamente em galego. O disco será chamado Alma gallega e a cantante corunhesa estará acompanhada pola Agrupación Coral Flolklórica de Cámara de Madrid, baixo a direção do mestre nado em Ortigueira, Domingo Martínez Vieito. Na parte instrumental participam o gaiteiro Antonio Garcia, o tambor Saturnino Clemente e na guitarra, o próprio maestro Domingo M. Vieito.

 

Este conjunto de canções serão reeditadas por Zafiro em múltiplas ocasiões e com diferentes formatos, podendo encontrar-nos com E.P’s onde se reduziram os cortes ou em L.P’s nos que as peças de Alma gallega se misturaram com outras de diferentes discos, intérpretes e géneros. Um destes pot-pourri, tal vez o mais ilustre, é o que levou por título Voces do Pobo (1976), uma cassete que viajou nos carros de todas as famílias progres da minha geração.

 

O meu exemplar de Alma gallega, um E.P. do 1966, leva no seu interior um libreto em quatro línguas: castelhano, francês, inglês e alemão. O fato de conter estas traduções fala-nos dum troco no paradigma. Agora não se faz um produto para a emigração, para os galegos e galegas em ultramar. Interessa mais aproveitar o turismo e mesmo, neste meu exemplar, aparece um autocolante em dourados muito significativo: Recuerdo de Ortigueira.

 

  ZM-18 1965

01 N’a eira/ Ala la – Domingos Martínez Vieito

02 Negra sombra – Juan Montes-Rosalía de Castro

03 Ruliño/ Villancico (Popular) - Armonización: Domingo Martínez Vieito

04 Alalá de Amoeiro (Popular) - Armonización: Domingo Martínez Vieito

05 Son o mellor mariñeiro/ Popular – Armonización: Domingo Martínez Vieito

06 Cando a terra chama – Martínez Vieito

07 Pandeirada labrega/ Martínez Vieito

08 Foliada de Ortigueira – D. Martínez Vieito

09 Alborada gallega/Fragmento - Veiga

10 Unha noite na eira do trigo – Curros Enríquez-Alonso Salgado

11 Meus amores – Golpe-Baldomir

12 Aires gallegos/Popular  

 

1965. Em 1965, Fina vai participar no I Festival Hispano Portugués de la Canción del Miño. No parque do Possio ganha um terceiro prémio, por trás da portuguesa Maria Júlia e de Esther Gloria Prieto. Esta última, filha de Julio Prieto Nespereira e sobrinha de Obdulia Prieto Nespereira, obtêm também um segundo prémio como compositora com a canção La voz del río.

 

Em setembro desse mesmo ano, volvemos a localizar a nossa cantante em Barcelona, esta vez atuando nas Ramblas, num espetáculo onde se levará a cabo a eleição de Miss Artista 1965.

 

E depois disto, mais nada. Perdo o rastro de Fina justo quando mais me apetecia saber dela. 

 

Conclusões.

 

Fina Galicia foi cupletista, vedete, cantante ye-yé e até provou sorte na canção de salão galega, acompanhada à guitarra pelo maestro Martínez Vieito. Foi uma trabalhadora do espetáculo nas boates e nos tablaos flamencos. Quis trunfar como uma Concha Piquer ou como uma Concha Velasco, mas sem ter que renunciar às suas origens galegas. Por isso mudou o nome e teve, desde um primeiro momento, o projeto íntimo de cantar em galego. A sua biografia tem muito em paralelo com outras mulheres bravas que procuraram um espaço artístico longe da Galiza. Parece óbvio lembrar aqui à Ana Kiro. Mas Fina Galicia deixa logo de ter presença nos médios e o seu nome é ignorado na atualidade polos estudiosos das nossas músicas populares. Oxalá este artigo deite alguma luz sobre Josefa López, de nome artístico, Fina Galicia.

 

Breve audição:

 

  Viejo reloj (Ignacio Román-Rafael Jaén) Zafiro (Z-E 434)

 

Pertencente ao disco com canções do Festival de Benidorm, esta peça foi composta por Ignacio Román, produtor, também para Zafiro, do disco Alma Gallega. Rafael Jaén (1915-1984) foi o compositor da famosíssima rumba Mi carro, de Manuel Escobar. Viejo reloj é um bolero cantado por Fina com uma voz muito elegante, fazendo uso dum vibrato típico da canção sudamericana. 

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    Pobre Apolo (Ignácio Román-Manuel Alejandro) (Z-E 491)

 

Esta peça faz parte do EP de canções compostas por Ignacio Román -mais uma vez- e Manuel Alejandro, criador de êxitos para Raphael ou Julio Iglesias, entre outros muitos. No áudio aprecia-se um reverb (disculpem se não é este exactamente o efecto utilizado) comumente usado nos anos 60. A voz de Fina está, na minha opinião, mais na onda de Marisol ou Rocio Durcal que na de Concha Velasco, mas, em qualquer caso, num estilo marcadamente ye-yé.

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 Unha noite na eira do trigo ZM-18 1965

Quando um escuta a voz de Fina nesta versão do poema de Curros, pode apreciar as grandes dotes dramáticas da artista corunhesa. A gravação apenas tem um par de anos de diferença a respeito das anteriores e, sem embargo, a voz parece mais avelhentada, mais madura. Além disso, a cantora interpreta o texto até quase pronunciar a última frase num contido soluço. É evidente que nalguns portamentos a afinação entra em crise, mas resolve aceptavelmente e tem momentos onde a sua interpretação resulta absolutamente convincente. 

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Um dos grandes descobrimentos para nós deste disco foi o de poder escutar as harmonizações e interpretações na guitarra de Domingo Martínez Vieito (Ortigueira, 1917-?) Este músico militar apaixonado da guitarra merece, e talvez algum dia fagamos, um trabalho de recuperação do seu legado musical. 

 

terça-feira, 2 de março de 2021

nº 250 Dez anos de Cantos Lusófonos.


Quando andava a fazer este livrinho, a minha mulher e mais eu conhecemos à pessoa mais importante das nossas vidas: a nossa filha Dália. É por isso que o livro tem na capa um desenho desta flor e uma dedicatória para ela. 

Além disso, há três mulheres mais que participaram na composição do volumem com seu alento de companheiras e amigas: Maria Manuela, ilustradora ilustre, e Ugia Pedreira e Uxía Senlle com sendos prólogos. Nunca melhor acompanhado.

O Cantos Lusófonos leva anos esgotado nas livrarias e não sei se é possível encontrar algum exemplar de velho. Eu gosto imenso de partilhar estas canções porque todas elas fazem parte dum momento importante da minha vida, e no seu conjunto, constituem o trilho musical da minha existência.

 

 
 


 Alguma das peças de Cantos Lusófonos viajou até o meu disco Poetas nas mãos carinhosas de Alejo Amoedo e na perfeição vocal de Helena de Afonso. Que eles dois interpretem uma peça arranjada por mim é um motivo para não abandoar, quando abandoar resulta tao motivador!



          

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

nº 249 Uma coleção de fotografias de Rianxo, o Museo de la Baraja e um sujeito de Vox que passava por ai.

 

Há alguns meses comprei uma pequena coletânea de fotografias de Rianxo ao Museo de la Baraja de Madrid. O seu diretor as vendeu para mim muito baratas, sabendo que o seu destino era a vila onde as instantâneas foram tiradas. Agradeço imenso, O lote tem alguma leitura curiosa e que gostaria de partilhar. É por isso que começo mostrando-vos as belas imagens.

Fig. 1
 
Fig. 2

Fig.3
 
Fig.4
 
Fig.5

A qualquer pessoa acostumada a ver fotografias históricas de Rianxo, o conjunto irá imediatamente sugerir duas questões:

1º A maioria das imagens são muito conhecidas por estar penduradas nas paredes do Museu de Manuel António e fazer parte da coleção de postais de La Colmena, estabelecimento de C. González.

2º Também que a qualidade de exposição das minhas cópias é muito baixa, tendo em conta que de alguma delas existem reproduções magníficas.

Sendo isto absolutamente verdade existem vários aspectos que tornam a este conjunto agora no meu poder em algo do maior interesse.

A primeira questão a ter em conta é a autoria das fotografias e a sua datação. No Museu de Manuel António, e em diversas publicações, insistem em atribuir-lhas todas a José Pérez González (1901-1942), músico e fotografo amador. Já no 2012, avisava numa postagem de Ilha de Orjais da improvabilidade, senão impossibilidade, de que alguma destas fotografias fossem do primo de Manuel António. Aquela da que eu falava especificamente, datada em 1912 e na que aparecia um homem mostrando um jornal coa notícia do afundimento do Titánic, teria que ser obra dum menino de apenas onze anos. Depois de um tempo, soubemos que em realidade essas primeiras fotografias foram tiradas por José Barreiro, ajudado pelo seu amigo e correligionário, José María Varela Torrado.

Distinguir quais foram feitas por Pepito Pérez e quais por José Barreiro é coisas de uma análise profunda para a que precisaríamos de ver o tipo de placas utilizadas, conhecer em profundidade a história de Rianxo e, por cima de tudo, saber ler uma fotografia. Este labor deveria ser uma tarefa colegiada, pois ninguém sabe de tudo, e nem preciso dizer que muito necessária.

O meu método de leitura duma fotografia semelha-se em tudo ao dum texto escrito. Começo no canto superior esquerdo e, muito devagar vou lendo até terminar no canto inferior direito. Simples.

Da leitura das fig. 1 e 2 apreciamos as seguintes diferenças:

1º Fig. 1 Os plátanos do Campo de Acima têm folhas.

Fig. 2 Os plátanos do Campo de Acima carecem de folhas. Portanto, as fotografias 1 e 2 foram tiradas em estações diferentes.

2º Fig. 1 No centro do Campo de Abaixo há um farol e a Escola da República parece que está sem pintar.

Fig. 2 Embora possa haver um problema de perspectiva, semelha que nesta altura na praça não havia um farol e que a Escola da República estva sem pintar.

Da fig. 2, na que se vê a Casa do Povo, podemos dizer alguma coisa mais. Na fachada ainda não fora colocada a placa dedicada a Ángel Baltar, assim que a fotografia teve que ser tirada antes de 1929. Também se aprecia o encofrado das colunas da esqueira pola que se acede à porta principal do Concelho. De saber quando se fiz esta obra, teríamos a data certa da fotografia.

Como curiosidade, na fig. 2 vê-se um grupo de nenos e nenas rodeando a um adulto que parece dizer-lhes algo. As crianças levam livros debaixo do braço, talvez o Primer Manuscrito ou a Encilopédia, e o adulto uma carteira cruzada ao peito, polo que muito possivelmente estejamos ante o mestre com seus alunos.

Nas fig. 3, 4 e 5, também podemos ver algo que nos situa em épocas diferentes na história rianxeira. Nas três notamos a presença da Capela de São Bartolomeu, um fito que nos permite situar perfeitamente a câmara do fotógrafo. Mas a capela da fig. 3 aparece no estado anterior à sua restauração, um elemento mais para datar este grupo. Na fig. 5 vê-se claramente a capela pintada de branco e com a espadana e a campá que lhe foi colocada na altura.

Noutra postal da minha coleção, da série de La Colmena, fig. 6vê-se claramente a capela branca com sua espadana e com a porta aberta olhando para Rianxo, é dizer, ao leste, portanto desorientada. Na fig. 3 esta porta aparece bloqueada.

                                                                               Fig.6

As duas dornas jeiteiras da fig. 3 são a Juanita e a San Antonio y Animas.

Fazia referência à baixa qualidade das imagens impressas. Na minha opinião poderíamos estar ante umas provas de impressão, já que as figuras aparecem desenquadradas no papel, com uma banda lateral em branco onde alguém anotou como recordatório, os lugares onde se tiraram as fotografias. Essa pessoa não devia ser rianxeira, pois usa expresoes como Plaza Mayor, pouco ou nada utilizada em galego .ou Alameda ,para um espaço que um rianxeiro denominaria Campo de Arriba ou de Abaixo. Mas o erro mais grande e o de denominar à Capela de São Bartolomeu como Ermita de Guadalupe.

Se observamos os postais pola parte de atrás fig.7, podemos ler impresso neles a frase Tarjeta Postal e o desenho dum anagrama com as siglas IFAG, as quais fazem referência a Industria Fotoquímica Antoni Garriga. 

Fig.7

Antoni e o seu irmão Rafael foram engenheiros pioneiros no desenvolvimento de produtos fotográficos. Rafael Garriga Roca (1896-1869) é o avó de Ignacio Garriga Vaz de Concicao (sic), candidato de Vox a Generalitat de Catalunya. Como é sabido, o político xenófobo é filho duma guinéu-equatoriana nascida antes da independência do seu país, portanto de nacionalidade espanhola. Se Ignacio Garriga fosse um Rei da Espanha, talvez o seu sonho, mereceria a alcunha régia de Ignacio I El Oxímoron, porque ele próprio é uma contradição em termos. Se ser catalão e ultra nacionalista espanhol a um tempo é um disparate, ser de Vox e negro, parece uma piada.

Todas as fotografias desta postagem pertecem ao arquivo do Pico Rodríguez, depositado no Fondo Local de Música do Concello de Rianxo.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

nº 248 Leyendas de la música e o nascimento da fábrica Dieste.

 

Nadie está obligado a ser genio, pero todos estamos obligados a aspirar a la obra para salvarnos.

Eduardo Dieste.

Entre as pequenas joias bibliográficas que fatigam os meus andeis -que diria Borges- encontra-se o formoso volume titulado Leyendas de la música (1911) de Eduardo Dieste (1881-1954). Formoso volume, repito, como objeto, pois como leitura resulta mais bem prescindível. Está composto o exemplar por dois relatos ou novelinhas titulados Margaritas de oro e La canción tonta, literatura romântica, folhetinesca, na que se pode entrever alguma referência paisagística ao Rianxo diestiniano. Na minha opinião, o principal valor que para os rianxeiros tem as Leyendas de la música reside em estarmos a olhar a primeira obra do que poderíamos chamar a fábrica Dieste; o primeiro dos volumes publicados por qualquer dos moradores do número 1 da rua de Abaixo.

A coleção

Leyendas de la música faz o volumem XI da coleção Biblioteca de Escritores Gallegos, editorial madrilena do bilbaíno Luis Antón del Olmet (1886-1923) e do pontevedrês Prudencio Canitrot (1883-1913). Foi impresso na Imprenta de Alrededor del Mundo -que belo nome- em Caños nº 4. 

Canitrot e Eduardo Dieste coincidiram fisicamente na Ponte Vedra de fins do século XIX, e ainda que por idade é possível que ambos não intimaram, resulta improvável as famílias não se conhecerem.

Luis Antón del Olmet também teve muita relação com os galegos e nomeadamente com Rianxo. El barbero municipal, em agosto do 1913, dá conta da visita do ilustre escritor à vila rianxeira, convidado por Castelao. 

A união de Canitrot e Olmet deu numa empresa fabulosa contando com nomes como Ramón del Valle Inclán (Las Mieles del rosal), Manuel Murguía (Desde el cielo), Linares Rivas (Mientras suena la gaita), Wenceslao Fernández Flórez (La tristeza de la paz) ou Sofía Casanova (El pecado). A estes nomes de galegos consagrados na corte madrilena, somaram-se outros quase ou absolutamente desconhecidos, como o de Eduardo Dieste. Este ex-seminarista e periodista de 30 anos publica o seu livro a consequência de ter ganhado o primeiro prémio no concurso organizado pola editorial de Olmet e Canitrot.

O texto

Abrindo o volumem de Leyendas de la música, aparece um soneto no que o seu autor, J. Ramirez Uria, descreve, belamente, ao seu amigo Eduardo:

Su alargada figura la de un Greco parece,

y hay grabado en su rostro un raro complejismo:

tristeza que sonríe... ira que languidece...

escéptica mirada con fulgor de ascetismo.

Su pelo lacio y negro de bohemio poeta

al de un prerrafaelista nazareno retrata,

Edgar Poe Compuso su extraña silueta

y Muset le hizo el lazo suelto de la corbata.

Su alma ingenua y profunda es el alma gigante

de aquel gentil modelo de caballero andante

cuya bella locura hizo flotar su airón.

Le es posible, á quererlo -y por ello alardea-

ver en cada cocota vil una Dulcinea

y ver en cada pecho vacío un corazón.

Em realidade, Ramírez Uría está a por em verso o retrato sem assinar que aparece na capa do livro, tal vez do próprio Canitrot.

 

Arquivo do Pico Rodríguez


Finalmente

No prólogo que antecede às duas noveliñas que No prólogo que antecede às duas novelinhas que compõem Leyendas de la Música, Eduardo Dieste descreve uma paisagem bem conhecida para nós: 

«Cruz berroqueña y manchada de líquenes que atalaya el mar imponiendo á los pescadores la obligación del recuerdo y de narrar su historia á los de pueblo extraño que viajen en sus naves. Y aunque su vida por tierra se extiende á poco, los que pasan por el apretado sendero que bordea temerariamente la costa de abruptos barrancos también la miran en remembranza, y las viejas se persignan y oran, acallando con misterio las preguntas en voz demasiado sonora de los rapaces prendidos á sus faldas. 

La misma piedad alimenta de aceite una lamparilla que pende en su centro. ¡Qué tristeza tiene el fulgor de la cruz cuando es de noche! Y débil como es, en ocasiones de tormenta sostuvo con su parpadeo animoso la esperanza de los marineros en peligro».

 Aos que conhecemos Rianxo, esta paisagem evoca-nos o caminho que desde Punta Fincheira percorre a costa sobrevoando os areais do Quenxo e Tanxil. Bem ali, em Punta Fincheira, existe uma pequena cruz, desrespeitosamente tratada pelo enchimento do porto e dos chalés turísticos que a sombreiam. Este caminho costeiro une a vila dos Dieste com o areal dos Baltar, como um cordão umbilical da aristocrática cultura aldeã. E mesmo agora, quando somos nós que o transitamos, ainda sentimos nele um algo de romântica literatura.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

nº 247 Caderno de Campo de Lisón Tolosana. Rianxo

 

A partir de outubro de 1963 e durante os seguintes dois anos, o professor Carmelo Lisón Tolosana (1929-2020) realizou o trabalho de campo na Galiza com o que fundamentou parte da sua importante obra antropológica. Entre os numerosos lugares que visitou nesse périplo figuram a vila de Rianxo e a paróquia de Assados. 

Não sei a data exata na que o antropólogo Lisón Tolosana e a sua mulher Julia Donald visitaram o nosso concelho, mas o que sabemos com certeza é que aqui contou com a ajuda do que na altura era um jovem professor, o grande amigo Xesús Santos. Ele foi quem convocou ao grupo de marinheiros que na taberna de Galbán, na ribeira rianxeira, contaram ao antropólogo espanhol alguma das suas tradições, fobias e filias da gente do mar.

O documento que agora achego é a transcrição literal do caderno de campo de Lisón Tolosana com algumas anotações minhas que aguardo ajudem a compreender melhor algum aspecto. 

Dividi o texto em parágrafos, para ter uma visão ordenada dos temas que tratam nas suas conversas os marinheiros convocados na taverna de Galbán.

O documento recolhido em Rianxo por Lisón Tolosana achega-nos uma visão da cultura marinheira em transição, os velhos e os novos tempos arredor duma mesa tavernária. A linguagem misógina com a que falam os informantes resulta difícil de ler -mesmo humilhante pelo seu trato as mulheres- mas entendo que transmite muito bem o que era a sociedade marinheira, tantas vezes idealizada e, por isso mesmo, com uma imagem pública muito deformada.

Na seguinte entrada deste blogue, publicarei a parte do caderno dedicado a Assados, um relato cheio de magia, trasnos e superstições. Continuamos.

Agradeço aos amigos Ramóm Pinheiro Almuinha e a Kike Estévez ter-me posto em conhecimento da existência destes valiosos documentos.

terça-feira, 11 de agosto de 2020

nº 246 Manuel Antonio na olhada moça de Carvalho Calero.

 

Lembranza do Ulises morto.

f.1 Grave, fremoso, profundo, sonoro e raiolante destiño o de algúns homildes lugares da terra, que ven abrirse a rosa de un ilustre nadal. De Belén virá a luz! A escondida, a sinxela, a pequena cidade de David, dormida antre palmeiras, arrolada pol-as voces pervagantes dos pegureiros que apacentan as súas cabras nos soutos verdecentes e á pomba mensaxeira do vento confían o mensaxe de unha canción... Eiquí, no nosa terra, a vila mariñeira de Rianxo sabe de esas doces maternidades. I en lembranza de un fillo seu, acendemos hoxe a lámpada do recordo.

 

f.2 Compríronse tres anos de tránsito de Manoel Antonio. No ceo dos mariñeiros, fumando a súa vella pipa, estará agora, cicáis en tranquila conversa con Neptuno1, cuias barbas fluviás, acio de xebras e de cunchas, tremarán, por ventura, unha leda risada de petrucio patrón. Verde pazo do Rei do Mar; de cristal de roca, puro e limpo! Ceo salgado! Anxos de escamadas colas, de ollos belixerantes, de redondos peitos! Alá estará Manoel Antonio, esquecido de nós, amigo de Simbad2 e amado das sireas.

 

f.3 Pero, dorna fugaz, do seu paso pol-a terra ficóunos un ronsel. Este ronsel3 é “De catro a catro”. Na cuberta da súa nao, no silenzo caviloso das guardias, araña mariñeira, ia tecendo o seu diario de abordo. Matinaba inauditas descubertas queimaba na súa pipa forte tabaco de estelares navegacións, esculcaba a dor da noiva goleta, cambeaba radiogramas estranos con estrelas descoñecidas. E todo elo nol-o dou, un bó dia de marzal, no caristel4 de un cuaderno de poemas.

 

f.4 Lírico Ulises5. “Odisea6”. Mais nosa “Odisea” tiña que ser lírica. Non podía narrar aventuras de un rei que regresa ao fogar perseguido dos deuses nemigos. Tiña que ter por héroe a un poeta; e por rapsodias, desafiadas cancións. Canciós que aboian corpos de afogados, en que as estrelas dialogan cos mastros e as gueivotas levan no peteiro as cartas dos mariñeiros namorados: un mar sulcado pol-a quilla de buques pantasmás; un mar que guarda no fondo do seu ventre de chumbo, paraisos de coral e madrépora donde os poetas náuticos fuman, xogan e xuran, parolan co Capitán Nemo7 e beben o acedorón8 que lles sirven as sireas, taberneiras de adegas sulagadas.

 

f.5 Alá estará Manoel Antonio, n-algún bar submariño, xogando as cartas con Corbiére9. Esquecido de nós, no seo dos mariñeiros. Pero nós non o esqueceremos endexamáis. Porque é o noso Ulises. Porque escribíu a nosa Odisea. E na data da súa morte, todos os que o amamos, inclinados á beira do mar, escoitamos un son lonxano, unha sombra de son. E o bronce submariño, o sino mergullados dos bretóns10, a campá dos mortos de que a Salgari11 falou o vello logo Catrame12, que dobra en lembranza e honor de Monoel Antonio. Ulises galego.

 

R. Carballo Calero. El pueblo gallego. 23 de fevereiro de 1933

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Quando o Dr. Ricardo Carvalho Calero (1910-1990) publica este artículo era um moço de vinte e dois anos recém formado em direito e acabava de cumprir-se o terceiro cabo de ano da morte do poeta rianxeiro Manuel Antonio. A peça jornalística que nos oferece o Dr. Carvalho Calero é duma beleza notável e está ch eia de referências literárias que descrevem, acho que felizmente, a imagem e personalidade do poeta do mar de Rianxo. Aínda ciente de que o artigo não precisa de ser explicado para que um possa gozar dele plenamente, deixem-me um pequeno comentário de texto para uma leitura um bocadinho mais profunda, e nunca melhor dito, poder mergulhar-nos nas profundidades do relato qual capitães Nemo.

 

f.1 Curiosa esta comparação entre a simples Belém, com o seu presépio e os seus pegureiros e a Vila marinheira de Rianxo, que sendo também um lugar muito humilde, dá a humanidade um personagem ilustre do tamanho de Manuel António. Em realidade, com Castelao e Rafael Dieste foram três os vultos da nossa cultura paridos por Rianxo. Resulta algo questionável o pensamento de Carvalho Calero, já que nenhum dos três são filhos de humildes marinheiros, mais bem da burguesia vilão com a capacidade económica suficiente para dar-lhes estudos universitários. Mas entendemos que o contexto rianxeiro das primeiras décadas do século XX tinha algo de Arcádia, propícia para a formação de intelectuais humanamente bons e por natureza galeguistas. Assim o confessava o próprio Manuel Antonio.


"Mais a miña biografía non é miña; pertence á nosa vila e é dentro d'ela coma unha d'esas horas anónimas que todol-os días c'o mesmo paso invariábel recorre a agulla insensíbel d'o reloxe d'a torre que peta n-as horas coma un sonámbulo. Eu pudera ben trocar a miña biografía pol-a d'unha pedra d'a rua, pol-a d'un árbore d'a plaza ou pol-a de moitos homes que conezo de vista." Manuel Antonio. Obra completa: V. I Prosa. Ed. Xosé Luís Axeitos Agrelo. Real Academia Galega; s.l. 2012 p.87 


 f.2    (1) Neptuno: Deus romano do mar.

 

         (2) Simbad: Marinheiro fictício do livro As mil e uma noites.

 

 f.3   Alguma vez li, lamento não lembrar a citação, que (3) ronsel era uma palavra que os poetas aprenderam dos marinheiros de Rianxo. Sei lá! Mas o caso é que não se documenta na nossa literatura antes de ca. 1922. 

 

Pescaremos nas redes d'os atlas

 

ronseles de Simbad

 

De catro a catro.

 

         (4) Caristel é uma palavra que pertence ao vocabulário literário exclusivo do Dr. Ricardo Carvalho Calero, aparecendo em versos: Rosa secreta, caristel de orballo e também em peças de teatro: A Arbre ou o Auto do prisioneiro. A palavra mais habitual no léxico galego seria canistrel: cesto de varas. 

 

 f.4    (5) Ulisses: Ou Odiseo, rei de Ítaca, personagem principal da Odisseia de Homero.


         (6) Odisseia: Poema épico grego atribuído a Homero. Século VIII a. C.


         (7) Nemo: Comandante do submarino Nautílios, do livro de Jules Verne Vinte mil léguas submarinas.


        (8) Acedorón: Tal vez se esteja a referir ao kykeon, bebida que aparece na Iliada, feita a base de água, cevada e ervas.


 O parágrafo f.4 parece-me o mais formoso do artigo porque conecta perfeitamente com todo o imaginário manuelantoniano. Tal é assim, que ao ir lendo palavras como afogados, cartas, mastros, gaivotas, evocamos imediatamente versos e poemas inteiros do poeta rianxeiro. É sugestiva (e poética em si própria) essa ideia de que a lírica galega não pode ser épica, no sentido de narrativa, senão em forma de canção. Os heróis não seriam, então, os guerreiros, mas sim os/as poetas. Já o dizia o camarada Hernández: Tristes guerras, si no es el amor la empresa.


 f.5     (9) Corbière: Tristan Corbière (1845-1875) foi um poeta bretão representante do simbolismo e pertencente ao grupo dos Malditos. Certamente o paralelismo com Manuel António é surpreendente:

 

- Ambos nasceram no mês de julho.


- Ambos enfermaram de crianças: T.C. reumatismo articular e M. A. tuberculose.

 

- Ambos tiveram um único amor re-conhecido: T.C. Amida Giuseppina e M. A. Mercedes Rodríguez Pimentel.

 

- Ambos publicaram só um livro em vida: T.C. Les Amours jaunes e M. A. De Catro a Catro.

 

Ambos colocaram ao mar no centro da sua poética.

 

- Finalmente, ambos  morreram de tuberculose a idade de 29 anos.

 

Que Manuel António era uma reencarnação do poeta bretão fica claro nos seguintes versos:

 

Eu sou o cachimbo de um poeta,

 

sua ama: que a Besta lhe aquieta.

 

De O cachimbo de um poeta. Os amores amarelos.

 

        (10) O sino mergulhado dos bretões faz referência a lenda da cidade de Ys, que ficou sob a água por culpa dos seus pecados. Os sinos da Sé, mesmo assim, continuavam a dobrar produzindo um som abafado.


        (11) e (12)  O italiano Emilio Salgari (1862-1911) publicou em 1894 Le novelle marinaresche di Mastro Catrane, como o seu nome indica, contos marinheiros dum velho lobo de mar.

 

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Em 1930, ano da morte de Manuel Antonio, o professor Carvalho Calero ainda era para muitos Ricardito, o jovem poeta do Ferrol autor de Trinitarias, livro de versos em castelhano. Mas ao tempo que madurava como pessoa ia publicando por solto os seus primeiros poemas e os seus primeiros artigos em galego. E nessa Odisseia  de aprendizagem, de toma de consciência, de militância, que tantos vivemos, o Dr. Ricardo Carvalho Calero foi-se convertendo no nosso herói, um Ulises-guia neste eterno navegar no que nunca damos chegado a porto.

 


Vida Gallega nº 367; 10 de fevereiro de 1928.


Original de Lembranza do Ulises morto.


Como ilustração musical a esta postagem recomendo-vos escutar La Cathédrale Engloutie de Debussy, baseada no mito da cidade asulagada de Ys. 

 

domingo, 9 de agosto de 2020

nº 245 Cantares de Rianxo.

 
 
Na postagem nº 238 transcrevia um arquivo do Museu de Ponte Vedra feito pelo padre Valentin Losada em 1915 que continha uma listagem de alcunhas, muitas delas ainda vivas a dia de hoje. 
Uns anos antes, em 1911, no jornal argentino Nova Galicia, apareciam uns Cantares de Rianxo, com alguns nomes mais para a coleção. Infelizmente estes Cantares foram publicados sem assinar, assim que nada sabemos de quem os coletou ou compus, mas indubitavelmente deveu de ser um rianxeiro retranqueiro.
Em qualquer caso estamos ante um documento interessante para que algum dia um antropólogo inocente redija o verdadeiro relato das linhagens de Rianxo, linhagens sem escudo na fachada, mas com grande ancestralidade. Já veremos.

                                 Nova Galicia. nº 369. 6 de agosto de 1911.