terça-feira, 11 de agosto de 2020

nº 246 Manuel Antonio na olhada moça de Carvalho Calero.

 

Lembranza do Ulises morto.

f.1 Grave, fremoso, profundo, sonoro e raiolante destiño o de algúns homildes lugares da terra, que ven abrirse a rosa de un ilustre nadal. De Belén virá a luz! A escondida, a sinxela, a pequena cidade de David, dormida antre palmeiras, arrolada pol-as voces pervagantes dos pegureiros que apacentan as súas cabras nos soutos verdecentes e á pomba mensaxeira do vento confían o mensaxe de unha canción... Eiquí, no nosa terra, a vila mariñeira de Rianxo sabe de esas doces maternidades. I en lembranza de un fillo seu, acendemos hoxe a lámpada do recordo.

 

f.2 Compríronse tres anos de tránsito de Manoel Antonio. No ceo dos mariñeiros, fumando a súa vella pipa, estará agora, cicáis en tranquila conversa con Neptuno1, cuias barbas fluviás, acio de xebras e de cunchas, tremarán, por ventura, unha leda risada de petrucio patrón. Verde pazo do Rei do Mar; de cristal de roca, puro e limpo! Ceo salgado! Anxos de escamadas colas, de ollos belixerantes, de redondos peitos! Alá estará Manoel Antonio, esquecido de nós, amigo de Simbad2 e amado das sireas.

 

f.3 Pero, dorna fugaz, do seu paso pol-a terra ficóunos un ronsel. Este ronsel3 é “De catro a catro”. Na cuberta da súa nao, no silenzo caviloso das guardias, araña mariñeira, ia tecendo o seu diario de abordo. Matinaba inauditas descubertas queimaba na súa pipa forte tabaco de estelares navegacións, esculcaba a dor da noiva goleta, cambeaba radiogramas estranos con estrelas descoñecidas. E todo elo nol-o dou, un bó dia de marzal, no caristel4 de un cuaderno de poemas.

 

f.4 Lírico Ulises5. “Odisea6”. Mais nosa “Odisea” tiña que ser lírica. Non podía narrar aventuras de un rei que regresa ao fogar perseguido dos deuses nemigos. Tiña que ter por héroe a un poeta; e por rapsodias, desafiadas cancións. Canciós que aboian corpos de afogados, en que as estrelas dialogan cos mastros e as gueivotas levan no peteiro as cartas dos mariñeiros namorados: un mar sulcado pol-a quilla de buques pantasmás; un mar que guarda no fondo do seu ventre de chumbo, paraisos de coral e madrépora donde os poetas náuticos fuman, xogan e xuran, parolan co Capitán Nemo7 e beben o acedorón8 que lles sirven as sireas, taberneiras de adegas sulagadas.

 

f.5 Alá estará Manoel Antonio, n-algún bar submariño, xogando as cartas con Corbiére9. Esquecido de nós, no seo dos mariñeiros. Pero nós non o esqueceremos endexamáis. Porque é o noso Ulises. Porque escribíu a nosa Odisea. E na data da súa morte, todos os que o amamos, inclinados á beira do mar, escoitamos un son lonxano, unha sombra de son. E o bronce submariño, o sino mergullados dos bretóns10, a campá dos mortos de que a Salgari11 falou o vello logo Catrame12, que dobra en lembranza e honor de Monoel Antonio. Ulises galego.

 

R. Carballo Calero. El pueblo gallego. 23 de fevereiro de 1933

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Quando o Dr. Ricardo Carvalho Calero (1910-1990) publica este artículo era um moço de vinte e dois anos recém formado em direito e acabava de cumprir-se o terceiro cabo de ano da morte do poeta rianxeiro Manuel Antonio. A peça jornalística que nos oferece o Dr. Carvalho Calero é duma beleza notável e está ch eia de referências literárias que descrevem, acho que felizmente, a imagem e personalidade do poeta do mar de Rianxo. Aínda ciente de que o artigo não precisa de ser explicado para que um possa gozar dele plenamente, deixem-me um pequeno comentário de texto para uma leitura um bocadinho mais profunda, e nunca melhor dito, poder mergulhar-nos nas profundidades do relato qual capitães Nemo.

 

f.1 Curiosa esta comparação entre a simples Belém, com o seu presépio e os seus pegureiros e a Vila marinheira de Rianxo, que sendo também um lugar muito humilde, dá a humanidade um personagem ilustre do tamanho de Manuel António. Em realidade, com Castelao e Rafael Dieste foram três os vultos da nossa cultura paridos por Rianxo. Resulta algo questionável o pensamento de Carvalho Calero, já que nenhum dos três são filhos de humildes marinheiros, mais bem da burguesia vilão com a capacidade económica suficiente para dar-lhes estudos universitários. Mas entendemos que o contexto rianxeiro das primeiras décadas do século XX tinha algo de Arcádia, propícia para a formação de intelectuais humanamente bons e por natureza galeguistas. Assim o confessava o próprio Manuel Antonio.


"Mais a miña biografía non é miña; pertence á nosa vila e é dentro d'ela coma unha d'esas horas anónimas que todol-os días c'o mesmo paso invariábel recorre a agulla insensíbel d'o reloxe d'a torre que peta n-as horas coma un sonámbulo. Eu pudera ben trocar a miña biografía pol-a d'unha pedra d'a rua, pol-a d'un árbore d'a plaza ou pol-a de moitos homes que conezo de vista." Manuel Antonio. Obra completa: V. I Prosa. Ed. Xosé Luís Axeitos Agrelo. Real Academia Galega; s.l. 2012 p.87 


 f.2    (1) Neptuno: Deus romano do mar.

 

         (2) Simbad: Marinheiro fictício do livro As mil e uma noites.

 

 f.3   Alguma vez li, lamento não lembrar a citação, que (3) ronsel era uma palavra que os poetas aprenderam dos marinheiros de Rianxo. Sei lá! Mas o caso é que não se documenta na nossa literatura antes de ca. 1922. 

 

Pescaremos nas redes d'os atlas

 

ronseles de Simbad

 

De catro a catro.

 

         (4) Caristel é uma palavra que pertence ao vocabulário literário exclusivo do Dr. Ricardo Carvalho Calero, aparecendo em versos: Rosa secreta, caristel de orballo e também em peças de teatro: A Arbre ou o Auto do prisioneiro. A palavra mais habitual no léxico galego seria canistrel: cesto de varas. 

 

 f.4    (5) Ulisses: Ou Odiseo, rei de Ítaca, personagem principal da Odisseia de Homero.


         (6) Odisseia: Poema épico grego atribuído a Homero. Século VIII a. C.


         (7) Nemo: Comandante do submarino Nautílios, do livro de Jules Verne Vinte mil léguas submarinas.


        (8) Acedorón: Tal vez se esteja a referir ao kykeon, bebida que aparece na Iliada, feita a base de água, cevada e ervas.


 O parágrafo f.4 parece-me o mais formoso do artigo porque conecta perfeitamente com todo o imaginário manuelantoniano. Tal é assim, que ao ir lendo palavras como afogados, cartas, mastros, gaivotas, evocamos imediatamente versos e poemas inteiros do poeta rianxeiro. É sugestiva (e poética em si própria) essa ideia de que a lírica galega não pode ser épica, no sentido de narrativa, senão em forma de canção. Os heróis não seriam, então, os guerreiros, mas sim os/as poetas. Já o dizia o camarada Hernández: Tristes guerras, si no es el amor la empresa.


 f.5     (9) Corbière: Tristan Corbière (1845-1875) foi um poeta bretão representante do simbolismo e pertencente ao grupo dos Malditos. Certamente o paralelismo com Manuel António é surpreendente:

 

- Ambos nasceram no mês de julho.


- Ambos enfermaram de crianças: T.C. reumatismo articular e M. A. tuberculose.

 

- Ambos tiveram um único amor re-conhecido: T.C. Amida Giuseppina e M. A. Mercedes Rodríguez Pimentel.

 

- Ambos publicaram só um livro em vida: T.C. Les Amours jaunes e M. A. De Catro a Catro.

 

Ambos colocaram ao mar no centro da sua poética.

 

- Finalmente, ambos  morreram de tuberculose a idade de 29 anos.

 

Que Manuel António era uma reencarnação do poeta bretão fica claro nos seguintes versos:

 

Eu sou o cachimbo de um poeta,

 

sua ama: que a Besta lhe aquieta.

 

De O cachimbo de um poeta. Os amores amarelos.

 

        (10) O sino mergulhado dos bretões faz referência a lenda da cidade de Ys, que ficou sob a água por culpa dos seus pecados. Os sinos da Sé, mesmo assim, continuavam a dobrar produzindo um som abafado.


        (11) e (12)  O italiano Emilio Salgari (1862-1911) publicou em 1894 Le novelle marinaresche di Mastro Catrane, como o seu nome indica, contos marinheiros dum velho lobo de mar.

 

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Em 1930, ano da morte de Manuel Antonio, o professor Carvalho Calero ainda era para muitos Ricardito, o jovem poeta do Ferrol autor de Trinitarias, livro de versos em castelhano. Mas ao tempo que madurava como pessoa ia publicando por solto os seus primeiros poemas e os seus primeiros artigos em galego. E nessa Odisseia  de aprendizagem, de toma de consciência, de militância, que tantos vivemos, o Dr. Ricardo Carvalho Calero foi-se convertendo no nosso herói, um Ulises-guia neste eterno navegar no que nunca damos chegado a porto.

 


Vida Gallega nº 367; 10 de fevereiro de 1928.


Original de Lembranza do Ulises morto.


Como ilustração musical a esta postagem recomendo-vos escutar La Cathédrale Engloutie de Debussy, baseada no mito da cidade asulagada de Ys. 

 

domingo, 9 de agosto de 2020

nº 245 Cantares de Rianxo.

 
 
Na postagem nº 238 transcrevia um arquivo do Museu de Ponte Vedra feito pelo padre Valentin Losada em 1915 que continha uma listagem de alcunhas, muitas delas ainda vivas a dia de hoje. 
Uns anos antes, em 1911, no jornal argentino Nova Galicia, apareciam uns Cantares de Rianxo, com alguns nomes mais para a coleção. Infelizmente estes Cantares foram publicados sem assinar, assim que nada sabemos de quem os coletou ou compus, mas indubitavelmente deveu de ser um rianxeiro retranqueiro.
Em qualquer caso estamos ante um documento interessante para que algum dia um antropólogo inocente redija o verdadeiro relato das linhagens de Rianxo, linhagens sem escudo na fachada, mas com grande ancestralidade. Já veremos.

                                 Nova Galicia. nº 369. 6 de agosto de 1911.

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

nº 244 O Monte das Mámoas de Catoira.


A pouca distância da nossa casa da Baiuca, em Catoira, encontra-se o Monte das Mámoas, um pequeno outeiro duma beleza muito singular. Hoje fui passear e tirar algumas fotos em torno duma dessas mámoas que dão nome ao lugar acompanhado das pequenas, sabedor de que o espaço é perfeito para uma pequena lição de história, flora autóctone, geologia...

Já na casa, procurei alguma informação na rede superficial e li espantado que a descoberta em 1956 (sic) deste conjunto arqueológico é atribuída a Ramón Sobrino Buhigas. Imediatamente compreendi que algo tinha que estar mal pois o naturalista e arqueólogo pontevedrino morrera no ano 1946. Então, o mérito só poderia corresponder a seu filho, Ramón Sobrino Lorenzo-Ruza (1915-1959) [a partir de agora R. S. L.], na altura comissário de escavações arqueológicas, entre outras muitas ocupações.

Felizmente,  contamos com uma série de publicações dum membro da família Sobrino, o professor Ángel Núñez Sobrino, que não apenas esclarece os detalhes desta descoberta, mas também achega dados sobre outros restos arqueológicos do concelho de Catoira.

Comecemos polas mámoas. Em  El trayecto vocacional de un arqueólogo, o professor Ángel Núñez publica anotações da agenda de trabalho de R. S. L. Uma dessas anotações dá-nos a data exata na que visitou Catoira e indica quem foi a pessoa que o orientou para chegar até o monumento megalítico.

"3 de abril de 1955
Excursión a Catoira. López, el de la papelería "El Sol" me habla de conchas en la Balastrera. No las encontramos. Frente a la Balastrera otro montículo también de cantos rodados y limonita. Descubro dos mámoas y las fotografío. Tienen sepultura megalítica, saqueada. Se llama "Monte das Mámoas". Pregunto y no saben decirme el porqué de este nombre." p. 23 e 24

Portanto, as webs deveriam correger o erro e dizer nas suas entradas que O Campo das Mámoas foi descoberta para a arqueologia o 3 de abril de 1955 por Ramón Sobrino Lorenzo-Ruza. Obviamente, o povo que lhe deu nome ao monte, já as descobrira muito antes.

Mas, como nos ensina o professor Núñez Sobrino, o trabalho do seu tio em Catoira não se limitou ao achado da Balastrera, senão que nas suas anotações há outros dados de interesse para nós.

Em Correspondencia europea a un arqueólogo galego podemos ler:

"Temos que indicar que todos os debuxos do arqueólogo (R. S. L.) foron utilizados en percepción directa, agora ben, con diversos procesos de presentación e de utilización: os obtidos en frescura directa cos materiais levados no cartafol, e disto temos dous claros exemplos: uns petróglifos en Catoira "150 mts. as N. del campo de fútbol de la Lomba. Granito de grano fino" e "Moraña. Lage. Outeiro das Pías I. Outeiro do Testo, Outeiro das Pías II. Camino de Longas a Rozas". p. 190 O sublinhado é meu.

Por último, em Ramón Sobrino Lorenzo--Ruza (1915-1959),  eximio arqueólogo encontra-mo-nos com algum dado mais:

"Casa de D. Ferrín Rivero, lugar de Aragunde, parroquia Ayto. Catoira. Procede de Tallarina en medio de más leiras en el mismo lugar, a unos 200 o 300 metros de la casa. En outeiro de Barral próximo a esta hay cazolestas 3 o 4 en fila". p. 24

Todos estes petróglifos são hoje conhecidos e há diversas publicações de carácter informativo ou especializado que se ocuparam deles, mas acho que os desenhos e fotografias que R. S. L. fiz nas suas excursões a Catoira devem de ficar ainda inéditos. Tal vez podamos encontrar algo no arquivo pessoal do arqueólogo doado pola sua família ao concelho de Teo. Já veremos. 

Por último achego umas fotografias minhas duma das mámoas da Balastrera. O monumento megalítico está situado numa localização imbatível para visitas com fins didáticos. Infelizmente, sobre a mámoa há um plantação de pinheiros, na atualidade exploração de resina, a qual, sem ser eu arqueólogo, acho pode danar em poucos anos este espetacular monumento megalítico. 

BIBLIOGRAFÍA

NÚÑEZ SOBRINO, Ángel

-Correspondencia europea a un arqueólogo galego. Gallaecia. V. 11; 2012.

-Ramón Sobrino Lorenzo-Ruza (1915-1959): El trayecto vocacional de un arqueólogo. Pontevedra. nº 21; 2006.

-Sobrino Lorenzo--Ruza (1915-1959), eximio arqueólogo. Separata Anuario Brigantino, nº 38; 2015.


Vista da Mámoa desde o sul.


Afundimento no alto da mámoa.

Cabeças de dois ortóstatos.


Detalhe da cabeça de um ortóstato.

Vista desde o norte da mámoa.

segunda-feira, 13 de julho de 2020

nº 243 Uma carta de Faustino Rey Romero a Gabriela Mistral.


Já aconteceu comigo muitas vezes estar a procurar algo nalgum arquivo físico ou digital e por acaso topar-me com outra coisa absolutamente inesperada. Quando isso acontece, sempre fico um bocadinho amolado porque por uns dias aparto a minha vista do tema original, centrando-me no novo achado. Assim, há umas semanas acudi à biblioteca digital de Chile seguindo o rastro duma carta de Rubén Dario, mas sem saber muito bem como, fiquei prendido noutra que um aspirante a cura enviara em janeiro de 1947 à prémio Nobel (1945) Gabriela Mistral. O remitente era o nosso Faustino Rey Romero, na altura, também aspirante a poeta.

O contexto:

Em 1947, Faustino é um moço de 25 anos e todavia terá que aguardar até março do 48 para ser ordenado padre. Encontra-se, pois, no seminário de Tui e isso não lhe impede andar a voltas com a publicação do seu primeiro livro. Em realidade, o seu noviciado como poeta começou quando apenas contava 19 anos de idade, com um poema titulado Un día de difuntos. Infelizmente não encontrei dito poema, mas sim o seu primeiro texto em prosa, publicado no jornal El Compostelano o nove de maio de 1940 e titulado Con Flores a María. Este artigo é como uma declaração de intenções que parece obedecer a uma necessidade -quem sabe se própria ou motivada por pressões externas- de justificar-se. Assim, conta-nos no artigo que trás a leitura de Manecho o da rua de Lesta Meis -um dos volumes da coleção Lar com essas capas tão formosas desenhadas por Camilo Díaz,- ocorre-se-lhe pensar porque ele nao pode ser como o protagonista da novela que trás emigrar a Cuba "mas que al trabajo, dedica preferente atención a la literatura".
Assim, o jovem Faustino pergunta-se:

" ¿Por qué yo, como el héroe de la novela, no correspondía a mi vocación literaria? ¿Para qué leí lo más granado d enuestra literatura castellana y gallega? La abeja que pasa horas y horas zumbando en su cotidiana faena de recoger el dulce néctar de las florecillas silvestres, con algún fin lo hace. Sencillamente, para trasformar ese néctar en dulces panales de miel."

O texto resulta um bocadinho ingénuo, algo inteiramente normal se pensamos que se trata dum cativo de dezanove anos, mesmo sendo esquisito que um quase adolescente escreva, independentemente do contido, duma forma tão correta.
O remate do artigo precisaria duma análise profunda dos biógrafos e peritos em Rey Romero. Na minha opinião contem alguma mensagem para navegantes, quiçá para os seus superiores e sem dúvida, toda uma declaração de intenções.

"María, madre mía: Yo te pido protejas a España y a toda la humanidad, y a mi me lleves de la mano en mi peregrinación por este valle de lágrimas."

Estamos em 1940, recém rematada a guerra provocada pelo golpe militar e em plena repressão dos vencedores. Na maioria dos artigos feitos por católicos ortodoxos falam da Santa Cruzada, pedem a Maria, a Cristo ou ao Apóstolo que proteja aos salvadores da religião e da sua pátria. Faustino implora por Espanha e por toda a humanidade, sem distingos, sem plegrárias ás divindades que ajudaram e continuavam a ajudar com a aniquilação das hordas marxistas. Mas ao mesmo tempo aclara, quiçá aqui para calar alguma boca o eliminar suspeitas, que a sua pena nunca vai ser utilizada para escrever contra a religião da que em breve será um dos seus soldados:

"Te hago asimismo ofrenda de mi pluma al consagrarte mi primera publicación (a María), y hoy, oh madre mía, que antes de que escriba una sola línea contra la religión católica, apostólica y romana, a la que me honro en pertenecer, que se seque mi brazo derecho y el cerebro que dicte tamaños dislates."

E certamente, o Faustino Rey Romero, cura heterodoxo, poeta do divino e do profano e parrandeiro doutorado, jamais faltou à sua promessa.

Também neste 1940, ano fecundo nas primeiríssimas obras publicadas por Faustino, vai ver a luz os que acho são os seu primeiros versos em galego postos em letras de molde, caso de Un día de difuntos, poema que eu não pude ler, estar em castelhano. Titula-se Spes Nostra, Salve! [El Compostelano, 18/09/1940] e a interlocutora e, mais uma vez, Maria. O bom é que este poema, com um título tão apropriado para a pós-guerra que começa, está escrito em galego. O biógrafo de Faustino, X. Ricardo Losada, aponta que uma das possíveis causas de que o poeta de Isorna tivesse que deixar o Seminário de Ourense foi o seu comportamento revolucionário e citando a Víctor Campio acrescenta:

"Faustino non pasaba desapercibido [no seminario]. Facíalle poemas a calquera cousa que vise. E tiña a teima do galego." Ricardo Losada, X. Un evanxeo bufo. Galaxia. Vigo. 2015 p. 68

Antes da aparição de Florilógio poético em 1949, o espaço habitual onde publicava Faustino Rey Romero foi a revista Spes, revista apelidada Órgano de la Juventud Católica de Pontevedra. Em realidade, vai ser um habitual até o feche da mesma em 1962. Aqui aparecem como exclusiva muitos dos poemas que vão alimentar os seus livros e também algum inédito, que tal vez por isso, acho foi esquecido polos seus antólogos, como o titulado La lámpara del sagrario.
Spes foi, além disso, a editora do Florilogio, o primeiro poemário de D. Faustino.


O texto.

Em 1947, Faustino Rey Romero tem já em mente a edição dum livro de poemas, muitos deles, como já disse, publicados por separado na revista mensal Spes. Para apadrinhar a sua entrada na Arcádia mística dos poetas franciscanos, procura a aprovação de Rey Soto e de Gabriela Mistral. Para um seminarista galego, o consagrado Antonio Rey Soto, crego, poeta, bibliófilo... parece uma pessoa acessível. Segundo me informou Xesús Santos, mesmo Faustino pensara nele para acompanha-lo quando oficiasse a primeira missa. Finalmente, Rey Soto não apareceu nem polo livro nem pola igreja. O petitório a Gabriela Mistral semelha mais ousado e cheio de candidez. A uma mulher que acaba de receber o Nóbel, a carta do seminarista galego deveu-lhe de parecer adorável, mas também não temos notícias de que houvesse resposta.
Mas o Florilogio não saiu espido do prelo; Faustino teve que se conformar com o cura-poeta catalão Miguel Melendres Rué (1902-1974), pessoa muito afastada dele no plano ideológico e até diria que no humano, polo que tal vez fosse uma escolha da revista Spes.
Cabe dizer que esta vocação epistolar do poeta de Isorna para procurar padrinhos literários deveu de ser praticada com certa assiduidade como demonstra os elogios de Juana de Ibarbourou publicados junto aos poemas Gabanza do burriño, O feno e Os Emigrantes na própria revista Spes:

"En la obra poética de Faustino Rey Romero, todo es rico, límpido, puro, poesía, agua de manantial." Juana de Ibarbourou, Spes: revista mensual, Janeiro de 1951.

O texto da carta dá alguns dados de interesse para os historiadores de Rey Romero. Em primeiro lugar, o poeta conta-lhe a Gabriela Mistral o seu projeto de publicar o Florilogio entre julho e agosto do 47, mas isto não se produz até o 49, quando D. Faustino fora já ordenado sacerdote. Também sabemos pola carta que o primeiro título que manejou foi o de Florilegio devoto, e não Florilegio poético como acabou sendo. Isto pode não carecer de importância. Um florilegio é uma seleção de textos, algo assim como uma antologia, e o adjetivo que acompanha ao nome vem a aclarar a matéria da que trata a coleção. Devoto parecia fazer referência a uma coletânea íntima, pensamentos escolheitos dum crente em diálogo permanente com seus deuses lares: São Francisco, a Virgem, Cristo, A Natureza... Poético resta protagonismo ao íntimo e qualifica a uma coletânea de poemas tirado dum conjunto maior, quiçá na ideia da editora Spes de incluir só aqueles que foram publicados com anterioridade na sua revista.

Finalmente.

Para os faustinianos, entre os que me encontro, qualquer dado que apareça sobre a vida e milagres do poeta de Isorna é sempre uma alegria e uma porta aberta a novas investigações e achados. Existem magníficos trabalhos como os de Xesús Santos, Carmen García ou X. Ricardo Losada, mas parte da sua produção está ainda por inventariar e estudar. Nada sei da sua correspondência particular, se existe ou foi destruída ou dispersada. Nessas cartas ficariam refletidas muitas coitas e lutas íntimas, mas também a construção duma geração poética magnífica que brandiu suas armas poéticas contra um Estado escuro e repressor.
Também, e este é um desejo pessoal que deito aqui e aguardo recolham futuros estudos sobre Rey Romero, fica por colecionar os seus artigos na imprensa. D. Faustino foi um grande publicista, como o qualificavam na altura, e a sua presença nos jornais da pós-guerra até a sua morte em Argentina são constantes e fundamentais para conhecer a personagem na sua totalidade. Veremos.

                                
Rey Romero, Faustino. [Carta] 1947 ene. 5, España [a] Gabriela Mistral  [manuscrito] Faustino Rey Romero. Archivo del Escritor. . Disponible en Biblioteca Nacional Digital de Chile http://www.bibliotecanacionaldigital.gob.cl/bnd/623/w3-article-136441.html . Accedido en 11/7/2020.

sábado, 18 de abril de 2020

nº 242 Genealogia do Barão de Orjais.


A última vez que vi ao Barão de Orjais eu era muito novo e ele velho de mais. Coincidimos num breve espaço de vida, um tempo de formação para mim e de despedida para ele, um tempo que agora é só meu. 
Aquela manha em que abandonou a ilha, dissemo-nos adeus sem palavras; não era necessário porque através das minhas bágoas infantis pude ver esfumado o seu olhar sonoro e percebi tudo. 
Antes do último saúdo, o Barão presenteou-me um velho cartapácio cheio de documentos heterogêneos, com tamanhos e grafias diversos. Havia um pouco de tudo: cartas pessoais, a conta dum restaurante lisboeta, a partitura duma contradança para flauta, o programa de concertos dum ballet russo em Paris, uma antologia das suas frases célebres às que pomposamente chamou Autolorjia de Aforismos...
De entre todos aqueles papelinhos houve um que me pareceu especialmente interessante pois falava das origens do Barão de Orjais.
Eis aqui esse documento que agora comparto em homenagem a um grande homem, o meu mestre.



quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

nº 241 Um rianxeiro executado no garrote vil.



Em 11 de março de 1834 está a acontecer um macabro espetáculo na madrilena Plaza de la Cebada.  A um homem muito novo vai-lhe ser aplicado o garrote vil, no mesmo lugar em que só onze anos antes fora aforcado Rafael del Riego. O acusado, –confesso e convicto– chamava-se Francisco Camaño (sic), tinha no momento de ser ejecutado 22 anos e era natural de Rianxo, partido de Santiago, Galiza. Os feitos aconteceram do seguinte modo:
Francisco Camaño saíra de instrução com a 3ª companhia do 1º batalhão do 4º regimento da guarda real de infantaria. Devia ser, portanto, um soldado de elite, já que a guarda real era o corpo militar mais próximo, como o seu nome indica, às Reales Personas. Em março de 1834 acabava de ser estreada a regência de Maria Cristina de Borbon e, como resultado, o conflito sucessório que causou a primeira guerra carlista. Mas os feitos que levaram a Francisco a sentar-se na cadeira do garrote vil tiveram lugar meses antes.

Em 14 de janeiro do 34, a companhia pernoitava em San Sebastián de los Reyes, a apenas 18 quilómetros de Madrid. As ordenanças militares recolhiam o direito de alojamento obrigatório às tropas em transito consistente em dar «hospedaje [...] a los militares estando en marcha ó en operaciones y quando en aquellas no hay cuarteles para la tropa ni pabellones para los oficiales». J. D'W. M. Diccionario Militar. [Madrid; Imp. de D. Luís Palacios] 1863
A vizinhança acostumava a protestar por esta obriga, pois em muitos casos os soldados abusavam da hospitalidade recebida e havia roubos, violência ou abusos de todo tipo, principalmente sobre as mulheres. Por isto, as camadas sociais mais privilegiadas estavam liberadas de ter que proporcionar alojamento à tropa.

O caso é que aquele dia 14 de janeiro, a senhora Anselma García apareceu morta no seu domicílio de San Sebastián de los Reyes, com claros signos de ter sido assassinada. O móbil foi, ao parecer, o roubo de 564 rs. ficando imediatamente preso o soldado Francisco Camaño a quem Anselma acolhera no seu domicílio. Ao princípio, o soldado nega-o tudo, mas finalmente confessa ter matado a Anselma de «un golpe en la cabeza con la llave del fusil, y que después la remató con un ladrillo». O acusado levava acima, num taleguito, a quantidade, supostamente subtraída à vítima, de 564 rs.

Em 11 de março, dia da execução, às 10:30 da manhã, ocupam a praça da Cebada de Madrid, «un capitán, tres subalternos y cien hombres del regimiento de infanteria de la Princesa y del de coraceros de la guardia real, un capitán, dos subalternos y 40 individuos». Diario de Avisos. 11 de março de 1834.
Desde a Real Carcel de Madrid até a praça da Cebada, Francisco Camaño foi custodiado por um oficial e vinte soldados, enquanto um sargento, um cabo e oito soldados abriam passo à comitiva. Tal despregue de efetivos, que pareceria mais próprio dum regicida que dum vulgar assassino, tem a ver, na minha opinião, com uma encenação exemplar, cujos destinatários principais são os próprios soldados. O feito de o garrote vil ser público obedece a um fim pedagógico, o de mostrar as consequências de cometer um delito de extrema gravidade. Além disso, e estando implicado o exército, acrescenta-se o fato de estarmos num momento especialmente sensível. Com a primeira guerra carlista encetada, resulta absolutamente prioritário contar com a colaboração da cidadania no alojamento das tropas de passo. Isto já é o suficientemente oneroso e vexatório para a vizinhança como para que crimes como o acontecido em São Sebastián de los Reyes fique sem o devido castigo.

Depois de ser agarrotado, o cadáver de Francisco Camaño foi entregue aos frades da Paz y la Caridad, que o conduziram ao cemitério onde foi desmembrado, como cumprimento final da condena  que lhe fora imposta. É mais que possível que um pedaço do seu corpo, acostumava a ser a cabeça, fosse cravada numa pica num lugar principal da cidade, vila ou aldeia onde foi cometido o assassinato ou de onde era originária a vítima, para escarno final do executado e para exemplo de tudo aquele tentado a cometer um crime semelhante.


Final
Resulta absolutamente repugnante entrar em detalhe de como era o espetáculo público dos cumprimentos da pena capital. Na Plaza de la Cebada queimaram-se bruxas, levantaram-se patíbulos onde hão ser enforcados ou agarrotados delinquentes comuns, salvadores da pátria, intelectuais e deficientes mentais, todos elas mortes igualmente criminais que as que se julgavam. Se alguém quer saber como era o trâmite de agarrotar a uma pessoa recomendo a leitura de Un reo de muerte, um breve relato de Mariano José de Larra, insuperável em beleza e compromisso, escrito apenas um ano depois da morte de Francisco Camaño. Permito-me terminar esta postagem com as mesmas palavras que o Fígaro culmina o seu artigo: «A sociedade, exclamei, ficará satisfeita: um homem já morreu».

Nota: A primeira notícia que teve sobre a existência do tal Francisco Camaño, granadeiro executado no garrote vil em Madrid, foi com a leitura do livro de Daniel Sueiro Los verdugos españoles, Ed. Alfaguara; Madrid. 1971.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

nº 240 A Ara de Vadoa de Santa Maria de Sacos.


O passado 21 de dezembro, Xavier Groba, Ramom Pinheiro e mais eu, tivemos o gosto imenso de apresentar o livro Antonio Fraguas. A memoria musical de Cotobade, precisamente lá, em Cotobade, acompanhados do Presidente da Câmara e do admirado historiador Xosé Fortes. Mas, o melhor de tudo foi ver a sala cheia dos verdadeiros protagonistas do livro, os vizinhos e vizinhas, os quais, novamente, amostraram-se  generosos e entregados.
Hoje, depois de digerir também a apresentação feita o 28 na Corunha, nos locais do coro Cántigas da Terra, andei a ver na rede a oferta dos museus para este natal. No de Ponte Vedra fiquei com muitas ganhas de levar as pequenas a ver Galaicos, a expo temporal onde se pode contemplar, entre outras peças icónicas, o casco de Leiro ou as espadas do Ulha. Mas a minha surpresa foi ler na lapela de Notas de Prensa o relato da doação duma ara romana feita pela vizinhança de Dorna, Cotobade ao museu! Uma ara que, e isto é o que quisera contar, não se tratava dum objeto totalmente desconhecido para mim.

Uma Ara Romana num centro social.

Numa das múltiplas visitas que fizemos a Cotobade nos meses prévios à publicação do livro, deu-nos por ir até Santa Maria de Sacos, entre outras coisas por ver os interessantes cachorros figurados da igreja paroquial. Esse dia soubemos da existência duma ara que aparecera não sei onde e que fora guardada para a sua custódia e conservação nas dependências da Casa do Povo. Obviamente, três intrépidos investigadores como o Xavier, Ramom e mais eu, não podíamos perder a ocasião de ir ver a pedrinha. O instante em que nos abriram as portas e ficamos ante ela não se me vai esquecer na vida.
A minha primeira impressão é que estava ante uma das pedras mais integramente conservadas que nunca vira. É mais, in situ, eu teve a sensação de estar ante uma ara que nunca fora utilizada, que ficara tal vez enterrada na própria oficina do pedreiro ou quem sabe. Estou convencido que futuros estudos por pessoal especialista vai deitar luz sobre este e outros assuntos e os resultados prometem ser bem curiosos.

 Xavier Groba e um servidor em plena epifania.

O pedrão no lugar de custódia.

Vadoa. Lindo nome.

A ara de Sacos mede 89 cms de alto, ocupando a parte epigráfica uns 56 cms, segundo as medidas tomadas às presas no local social onde era custodiada. As letras gravadas mantêm todo o sulco, pelo que não é difícil a sua transcrição. A minha leitura foi a seguinte:

DEOM
VADOA
FAVS.VS
L M

ou o que é o mesmo:

DEO MAXIMO
VADOA
FAVSTI VOTUM SOLVIT
LIBENS MERITO

Vaiamos por partes. D(EO) M(AXIMO) ou Deo Optimo Maximo faz referência a quem se lhe faz a oferenda, neste caso, Júpiter. Também sabemos que foi um voto privado já que o epígrafe acaba com as letras VSLM, acrónimo de Votum Solvit Libens Merito, que se traduziria por Cumpriu a promessa de bom grado. Fica então por descifrar VADOA e FAVS . Faus parece-me a contração do genitivo possessivo Fausti, que pode indicar possessão ou parentesco. Vadoa seria então um antropónimo indígena? Infelizmente não conheço antecedentes claros desta epigrafia noutras aras até agora inventariadas e estudadas. E se se trata do nome duma pessoa, tal vez uma mulher, seria da família dos Fausto ou escrava de Fausto? Em qualquer caso, ai vai a minha tradução:

Ao Deus Máximo (Júpiter) Vadoa, da família de Fausto, cumpriu a promessa de bom grado.

Na feitura duma ara participavam três pessoas: o ordinator, o calígrafo que redigia o texto e o adaptava ao espaço, o lapicida, que gravava as letras na pedra, e por último o pintor, que iluminava as letras normalmente de cor escarlata ou vermelhão. Suponho que nas obras menores ou mais baratas, este processo podia fazê-lo uma soa pessoa. O tipo de letra pouco rigorosa, algo desordenada e o acrónimo final leva-me a pensar que deveríamos datar a peça no tardo-império, quiçá no século III ou IV depois da nossa era.

Nota: Faço votos para que os arqueólogos e paleógrafos deste país não me crucifiquem. Não foi por mal.

Cotto Vadis.

Resulta que o gentilício Cotobade não vem de Couto do Abade, como pareceria a primeira vista, senão que a sua origem seria muito mais complexa. Num artigo de Gonzalo Navaza no Portal das Palabras lemos:

A sistemática ausencia de ditongo na sílaba inicial mostra que no topónimo non está presente o substantivo latino cautum (de onde couto en galego, coto en castelán). Así o advertiu Nicandro Ares, que no seu breve estudo do topónimo Cotobade do concello de Chantada suxire como étimo un composto do galego coto ‘curuto, prominencia ou elevación no terreo’ seguido do xenitivo dun nome persoal:

Cotobade débese descompoñer en coto, palabra de orixe prerromana *Cotto (…) e un nome persoal en xenitivo Bade, o cal se repite illado na toponimia galega e parece que non é aférese de abbas, -atis ‘abade’, senón o antropónimo Vatis (Ares 2001:74)

Pois nada, que para o Xavier Groba, para Ramom Pinheiro e para mim, as terras de Cotobade serão para sempre o Coto Vade ou coto de Vadoa, pois como diz o provérbio: se non è vero, è bem trovato.

Finalmente.

Como colofão a este pequeno artigo dum arqueólogo inocente, agradecer aos vizinhos e vizinhas de Santa Maria de Sacos ter custodiado esta belíssima ara romana, um exemplar que, com certeza, vai dar muito que falar. Obrigado.