domingo, 14 de fevereiro de 2016

nº 200 Lela. Uma canção à procura de um autor.

Lela

Uma canção a procura de um autor.

I

Em sábado 30 de janeiro de 2016 a companhia Fantoches Baj estreava em Ponte Vedra e Rianxo a sua adaptação de Os velhos não devem namorar de Castelao. O esquisito desta produção é que por vez primeira as personagens da peça teatral estão representadas por títeres, não sendo isto um atranco para resultar uma das montagens até hoje mais fieis à ideia originária concebida na altura pelo próprio Castelao. Os decorados, as caracterizações e vestiários dos bonecos, o clima que se cria dentro do pequeno caixão do teatrinho é o fruto de muitos anos de investigação do seu diretor Inacio Vilariño, não só da peça teatral que se representa, senão também da vida e da obra do autor e político rianxeiro, ao que tem dedicado, junto com o desenhador Iván Suárez, uma biografia gráfica em vários volumes.

A produção dos Fantoches Baj é esplêndida, com um elenco de atores veteranos no seu compromisso com o teatro popular: Inacio Vilariño e Luchi Iglesias –Fantoches Baj– e Lucho Penabade e Tero Rodríguez, da companhia amiga Os Quinquilláns. Se a isto unimos o trabalho artesanal e minucioso da desenhadora de vestiário Olga Vieites, desde um ponto de vista técnico e estético, nada a dizer. Mas é que a interpretação, ajustada ao texto originário e sem os excessos e caretas que muitas vezes acompanha a este tipo de representações, considero que foi especialmente acertada. Obviamente a minha opinião pouco importa, já que o teatro não é o meu campo e além de mais, estou muito unido às pessoas que fazem parte da produção tanto por amizade como por laços familiares: a Pimpinela é a minha mulher e mãe da minha filha Dália.

No que sim me considero perito é no referente ao apartado musical. Como músico prático e teórico levo o suficiente tempo neste negócio como para poder dizer o que penso sem qualquer tipo de limite, e assim o fiz desde que publiquei o meu primeiro artigo, já vai para vinte anos. Creiam, pois, na minha sinceridade quando lhes digo que o trilho musical desta obra –a cargo de Benjamin Otero– é duma delicadeza extrema, minimalista em muitos momentos, mesmo naïf; para noutros fazer alarde da sua sabedoria musical e do seu ofício como compositor. Benjamín Otero, oboísta da Banda de Lalim, professor no seu dia do Conservatório Folque da capital do Deza e acompanhante habitual do Germán Díaz, leva uns anos tesourando experiência como músico de Fantoches Baj –até como ator– o que sem dúvida vai a favor dum correcto emprego da linguagem musical própria do teatro. A sua achega pessoal, com músicas de continuidade ou ambientando cenas –como por exemplo a marcha fúnebre interpretada por músicos da Banda de Música lalinense– resulta justa e necessária, algo importantíssimo quando falamos duma peça teatral que conta com partituras originais. E é precisamente aqui onde reside um dos grandes acertos desta recreação histórica de Os velhos não devem namorar na sua versão em títeres: a utilização das partituras incluídas no libreto e utilizadas na estreia absoluta em agosto do 1941, na capital argentina.

Uma canção à procura de um autor.

O museu de Ponte Vedra conta com dois manuscritos de Os Velhos não devem namorar que foram elaborados por Castelao por volta de 1939. Num deles se encontram as partituras utilizadas em 14 de agosto de 1941 no Teatro Mayo de Buenos Aires, no que constituiu a estreia absoluta. Participaram na representação as atrizes Maruxa Villanueva e Maruxa Boga e os atores Fernando Iglesias, Antonio Cubelas, Enrique González e Luis Lugo. A princípios do 2014, o programa No bico un cantar da TVG realizou um monográfico sobre Lela[1], canção que D. Saturio, acompanhado dum coro de boticários, dedica à sua namorada. O programa está centrado na melodia criada por Rosendo Mato Hermida para a estreia galega em 25 de julho de 1961 e que foi definitivamente popularizada por Carlos Núñez no seu disco A irmandade das estrelas, na voz de Dulce Pontes[2]. No entanto, nesse mesmo programa fala-se da outra Lela, a que se encontra nas partituras do manuscrito do Museu de Ponte Vedra. A encarregada de amostrar os documentos ante a câmara, Ana Isabel Vázquez, presidenta executiva do museu, diz não saber nada sobre a autoria das partituras.

Mesmo para um investigador da cultura musical galega, com tantas lagoas por resolver, resulta difícil de crer que um acontecimento tão relevante coma a estreia duma obra do grande Castelao, por uma companhia profissional e numa cidade tão civilizada como Buenos Aires poda guardar algum enigma. Mais ainda, quando esse fato fulcral para o teatro galego aconteceu há apenas setenta e cinco anos.

As casualidades são as milagres dos ateus[3].

O mês passado[4] andei a trabalhar na posta em música dum conjunto de poemas de Emilio Pita que me foram encomendadas pela cantora vilagarciense  Mar Caramés. Entre o material que me enviou se encontrava a citação duma carta de Castelao que tinha como remitente a Emilio Pita (A Corunha, 15/10/1907 ; Buenos Aires, 07/12/1981)

 «Sr. Emilio Pita:
Meu querido irmán: contesto a volta de correio á túa carta. Ben, moi ben. Estou conforme co plan que fixéchedes. Debo felicitarte porque comprobo que vas a remover o fondo galego de Rosario e que axiña esa cibdade vai ser un dos nosos mellores faros.
Eu estou bastante ledo cos ensaios primeiros da miña obra. Paréceme que poderemos estrenala. Noto a túa falla, porque non sei como a parte musical se poderá arranxar sen estares tí para preparala. En fin: farase o que se poida. O conto é estrenala para que, polo menos, apareza algo diferente ás trangalladas que tanto gostan ás nosas xentes.»  Grial 47 (1975), 91-92.

A carta não tem data mas na edição de Galaxia (2000) Vol. 6 do epistolário de Castelao datam-na a fins de março ou abril do 1941.
Existe mais uma carta enviada por Emilio Pita a Fernando Iglesias, Tacholas, participante no elenco da estreia bonaerense, com data de 11 de agosto de 1941.

«Meu querido Fernando:
Dúas  liñas para saudarche e pór no teu coñecimento que, d'acordo co que vos prometín o día 26 do mes derradeiro no Teatro Mayo, estarei á vosa beira o xoves 14 para sentir a carón de todos vós a fonda emoción de ollar na escea a primeira obra teatral do noso meirande irmán Castelao.

Tí sabes ben, como foi po-lo meu intermedio que se consigueu que Castelao léra a obra á vosa Compañía (Compañía de Comedias de Maruxa Villanueva) e pareceume un soño que despois de menos de un ano poda levarse a escea grazas á vosa admirable laboura...»[5]

Tendo em conta o dito nestas cartas, o estudioso da obra poética de Emilio Pita, Xosé Anxo García López afirma que «O papel de Pita como asesor do rianxeiro polo que se refire a este particular [posta em contacto de Castelao com a companhia de Maruxa Villanueva] semella plausible mercé ás declaración de Tacholas ou de Maruxa Villanueva».[6] Mas, até que ponto Emilio Pita é responsável das partituras utilizadas na estreia do Teatro Mayo?.

O Quarteto Ultreya.

O Emilio Pita, além de poeta, foi musicólogo especializado em música tradicional galega[7]. Isto último é muito meritório, dado que emigrou para a Argentina com apenas doze anos, viajando à Galiza em contadas ocasiões.

Quando assisti a representação de Fantoches Baj e escutei por vez primeira o vira da cena do português ou a pandeirada entendi que Emilio Pita tinha que estar detrás das escolhas musicais. Mas não foi até a leitura dum artigo do jornal argentino Pueblo Gallego datado em 15 de junho de 1941 que me atrevi a escrever este pequeno trabalho sobre a autoria da primeira partitura de Lela, aquela que Castelao achegou ao seu manuscrito, junto com o texto, esboços e desenhos de decorados.

Em sábado 30 de maio do 41, Castelao deslocou-se a Rosario para palestrar num ato organizado pela Casa de Galiza e a Irmandade Nazonalista Manuel Curros Enríquez, chefiada por Xosé Ares Miramontes. O título da conferência foi: Visión de un aldeano gallego. A seguir da palestra de Castelao, houve uma «fiesta de la poesia, música y danza de Galicia» onde Emílio Pita teve um especial protagonismo. A isto parece referir-se Castelao quando na carta dirigida a ele e acima publicada lhe dizia: «Ben, moi ben. Estou conforme co plan que fixéchedes».

No ato, dividido em duas partes, participa o Quarteto Ultreya, dirigido por Emilio Pita desde 1938. Estava integrado por Luís López, Benito Rodríguez, José López e Mercedes Orgaz. O programa incluía:
«a) Romance de Don Gaiferos, siglo XIV
b) Cantigas de roda, música pop. armon.
c) Villancico, siglo XVIII
d) Mariñeira (popular)
e) Carmiña (popular)
f) Canción de berce, solo por Mercedes Orgaz
g) Alalá de Lobeira, música popu. armon.
h) Lela (serenata compostelana), música pop. arm.»


Pueblo Gallego: periódico quincenal.
nº2 15/06/1941

No transcurso do concerto ainda se interpretou alguma outra obra de Pita como a titulada Muiñeira de Vellas.

As Lelas de Castelao.

Resulta, pois, de justiça, reafirmar que a primeira interpretação conhecida de Lela foi em 30 de maio de 1941, num ato celebrado no salão do Centro Catalão de Rosario, Argentina. As canções foram todas harmonizadas por Emílio Pita, diretor do Quarteto Ultreia, mas é ele o autor da melodia original da Lela do Teatro Mayo de agosto do 41? Pois parece que não, tão só podemos atribuir-lhe a harmonização. Em realidade a pergunta mais certinha seria, é a Lela do 41 uma melodia original?

No programa da TVG, No bico un cantar, expõe-se o seu parecido com a canção de tuna Fonseca, também conhecida como Triste y sola, uma valsa estudantil que segundo o Bachiller Pérez, pseudónimo de Pérez Constanti, já era conhecida arredor do 1880 quando dirigiam a tuna os violinistas Dorado e Villaverde. O próprio Castelao foi tuno e tocava guitarra com a que acompanhava a sua voz de baixo. O feito de que no jornal arxentino El Pueblo Gallego se qualifique Lela como música popular harmonizada indica que Pita, e suponho que também o Castelao, não a consideravam tema original.

A minha opinião é que se trata duma evocação da música estudantil, de ai o seu subtítulo serenata compostelana[8], tão filiada a outras melodias consagradas no reportório da tuna que decidiram dá-la como popular.

Quando em 1961 o coro compostelano Cantigas e Agarimos põe em cena a peça de Castelao não contavam com as partituras bonaerenses e Mato Hermida teve que compor, parece que com muito estresse, a que chegaria a ser uma das canções mais emblemáticas do reportório popular galego. Novamente uma valsa estudantil, nada afastada do modelo de Fonseca ou do Lela do 41.

Em Rianxo ainda contamos com outra versão do poema de Castelao, esta vez composta pelo músico local Manuel Vicente Chapí, cantada nas históricas representações do grupo amador Airiños de Asados, Rianxo, e muito popular entre os vizinhos deste concelho corunhês. Mais uma vez uma valsa.

Noutro momento gostaria de fazer uma análise das partituras depositadas no museu de Ponte Vedra que possa, porventura, deitar nova luz sobre os enigmas que encerram.  Mas, por enquanto, vamos ficar por aqui.



[1] BERNÁRDEZ, Senén dir. 01/02/2014 Lela [Program de TV] No bico un cantar. Televisión de Galicia T.V.G. O roteiro deste programa foi escrito pela rianxeira Teresa Abuín.
[2] Sobre a Lela de Rosendo Mato Hermida ver: «Lela»: a sombra dun amor ingrato. En desagravio de Rosendo Mato Hermida, artigo escrito pola sua filha María Dolores Mato Gómez in [http://dspace.aestrada.com/jspui/bitstream/123456789/450/1/pg_291-316_estrada10.pdf]
[3] Adágio atribuído ao Barão de Orjais (1769-?).
[4] Janeiro de 2016
[5] GARCÍA LÓPEZ, Xosé Anxo. Boletín da R.A.G. nº 370 p. 172
[6] GARCÍA LÓPEZ, Xosé Anxo, op. cit. p. 172
[7] É autor do apartado dedicado à música tradicional na Historia de Galiza, V. 1, pp.763-777 Akal; Madrid (1979) dirigida por Otero Pedraio, o qual é bem significativo do grande respeito que lhe tinham as vacas sagradas do galeguismo.
[8] «Que serenatas demos!» diz o boticário quando entre assobios e postura na guitarra está a tentar recordar a melodia.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

nº 199 Where's Miss Zaida


 A Tero Rodríguez e Lucho Penabade,
cómicos da légua.
Where’s Miss Zaida?

  • Introdução.
Na sequência duma investigação qualquer encontramo-nos muitas vezes com nomes ou dados os quais, por um motivo ou por outro, resultam atrativos e nos conduzem a novos percursos investigadores. Isto foi o que me aconteceu com a bandurrista norte-americana Julia Zaida, uma pessoa cuja história –apresentaçao, desenvolvimento e desfecho– transcorre no breve intervalo que vai de 1893 a 1902. Mas, quem era esta mulher? Onde nascera? Qual era a sua formação musical? Que foi dela depois de 1902? Muitas perguntas e pouquinhas respostas.

  • On the road.
1893
31de janeiro
No casino da rua Moreno Nieto de Badajoz, tem lugar um concerto baile no que se dá a conhecer a notável bandurrista Dna. Julia Zaida acompanhada na guitarra por D. Eugenio Arredondo. O Nuevo Diario da cidade estremenha recolhe a nova tratando à bandurrista de doña, algo esquisito já que a partir de agora a imprensa referira-se a ela, principalmente como Julia Zaida ou, algo mais tarde, Miss Zaida, o qual pareceria indicar a sua origem anglo-saxônica e que na altura estava solteira.
14 de abril
O Diario de Avisos anuncia a chegada a Madrid da «notable concertista de bandurria Julia Zaida, tan conocida del público madrileño y que tantos aplausos ha cosechado em Murcia, Cartagena, Badajoz, Zaragoza y Barcelona. Julia Zaida se propone dar algunos conciertos en el café de Santa Isabel
23 de abril
Acompanhada do guitarrista Antonio Sánchez Magdalena, também um excelente violinista, toca na redação do diário madrileno El Imparcial.
22, 23 e 24 de junho
Por estas datas continua em Madrid no Café Universidad onde dirige a um «terceto de señoritas», mas uns dias depois já fazia parte da companhia cómico-dramática de José Sánchez Palma com a que dará três funções em Ferrol. A historiadora Eva Ocampo, Ocampo Vigo, Eva, [2001] comenta como a esta companhia se lhe conhecia como A Companhia dos Bandidos, devido à índole das obras que representavam: Diego Corrientes o el bandido generoso, José María o lós bandidos de Sierra Morena.
O passo da companhia de Sánchez Palma pelo Jofre ferrolano deveu-lhe valer a Julia Zaida como ponte para se achegar à Galiza, lugar no que vai atuar frequentemente nos próximos anos.
Depois de tocar em Ourense, em novembro do 93, anuncia-se a presença da bandurrista no Círculo de las Artes de Lugo. Nesta ocasião o mestre acompanhante escolhido ou disponível foi João Montes (1840-1899). O tandem Zaida & Montes citam-se para a velada do dez de novembro, mas dita atuação, devido a inconvenientes de última hora, não se celebra. Resulta curioso imaginar ao pio e solteiro Montes, ao que nunca se lhe conheceu relação alguma, partilhando cenário com uma, suponhamos, jovem norte-americana, a qual viaja com trupes de cómicos e atua em cafés cantantes. Tal vez o Montes não estava muito convencido de apadrinhar com o seu prestígio à Miss bandurrista e preferiu que a primeira atuação na cidade fosse acompanhada pelo pianista Ramón Ulloa. Finalmente, em 14 de novembro, Montes e Zaida tocam no Círculo, logrando um êxito que lhe proporcionará à concertista uma série de concertos no Café Español acompanhada do seu plano B no Círculo, o Sr. Ulloa.     
Neste café de Lugo, cuja primeira velada terá lugar o 19 de novembro, Miss Zaida deveu contemplar o nascimento do ano 1894.
1894
De 9 ao 14 de janeiro a bandurrista é contratada pelo santiaguês café Méndez Núñez. Entre o seleto repertório interpretado em Compostela, ao igual que antes em Lugo, estará já a Alvorada de Veiga, que após a sua estreia em Ponte Vedra em 1880, convertera-se numa das peças mais populares para o público galego. No café Méndez Núñez sentará ao piano o maestro Santos Ferreras.
1895-1896
No período que vai de fevereiro de 1894 até princípios de 1897 apenas temos referencias da atividade concertística de Miss Zaida. Cremos que deveu andar todo o tempo por fora da Galiza. Como exemplo dizer que em 1895 temos localizada a bandurrista no café Del Siglo de Logroño e em dezembro de 1895 no café da Marina, em Donostia, onde tocava acompanhada do laudista Sr. Olascoaga.
1897
Segundo podemos ler em Folgar de la Calle, José Mª e Letamendi Gárate, Jon [1997] é mais que provável que Marques e Azevedo fossem os empresários do cinematógrafo Lumiere que do 4 ao 9 de março do 1897 foi utilizado no teatro-circo Príncipe Real de Porto. Apontam eles a oportuna coincidência de estar na cidade lusa «a Sra. Julia Zaida, que é bandurrista distintíssima». Pois bem, Miss Zaida e a sua bandurra vão participar da estreia pontevedresa do cinematógrafo.
5 ao 19 de abril
Uns dias antes da instalação do primeiro aparelho Lumiere em Ponte Vedra, o Café Español desta cidade anuncia que Miss Zaida, junto com o tocador de guitarra Sr. Asensio, foram contratados para dar uma série de concertos.
17 ao 25 de abril
Às oito horas da tarde do sábado 17 de abril, o Teatro Principal abriu as suas portas para que o público pontevedrês visse a primeira projeção dum cinematógrafo Lumiere na Galiza. Em realidade, esta primeira vez tinha que ter acontecido em Vigo, cidade a que viajaram uns dias antes os empresários portugueses Marques e Azevedo, donos do aparelho. Mas não pudendo ser voltaram à cidade do Leres para a grande estreia. Estarão até o domingo 25 de abril, mas as representações sofreram alguns câmbios.
22 de abril
Até o dia 22 o programa da função do cinematógrafo só incluía a projeção dos filmes. Agora, os empresários ofereceram um completo programa onde além das películas o espetador poderá escutar o monólogo do rapsoda Azevedo –que recitará o poema Fiel de Guerra Junqueiro em português— e ao duo Miss Zaida e Asensio. A bandurrista será também acompanhada em dois números pelo grande pianista pontevedrês Antonio Taboada Nieto (1869-1943).
29 de abril
Ponte Vedra foi o começo dum percurso que levará à empresa de Marques e Azevedo a Corunha, Compostela, Ferrol, Lugo e Vigo. Só nesta última cidade, que nos saibamos, acompanhou-os Miss Zaida, que fiz soar no Tamberlick as notas da alvorada de Veiga.

Nota: Tenha-se em conta que os músicos na altura não acompanhavam às imagens. As películas duravam apenas um minuto e os músicos ou atores amenizavam a espera por enquanto se cambiavam as fitas.

Em sete de junho, quarta feira, Miss Zaida e Asensio voltam a Lugo, tocando no Casino, recebendo o aplauso geral dos assistentes. Este sucesso faz com que o Café Español volte a contrata-la quatro anos depois do seu debute na cidade amuralhada.
Um mês mais tarde, a parelha desloca-se a Santiago de Compostela para tocar no Café Español, homónimo do estabelecimento luguês mas cremos que sem qualquer relação empresarial entre eles. O primeiro concerto tem lugar o dia três de julho e o nove Miss Zaida parte para a Toja, sem que a imprensa aclare se a estância na ilha foi por motivos profissionais ou por descanso.
13 de setembro
Miss Zaida toca no Gimnasio de Ponte Vedra acompanhada de dois guitarristas. Não se cita os seus nomes.
14 de setembro
Actuação no café Méndez Núñez do Trio España, primeira notícia que temos desta formação composta por Miss Zaida, Rebel e Asensio. Parece óbvio que também estes dois foram os que a acompanharam no Gimnasio.
15 de setembro
No Salón Teatro Arrufana terá lugar o grande concerto que dará o notável Trío España. Está formado este conjunto «por la célebre concertista de BANDURRIA Miss Zaida y el reputado concertista de GUITARRA A. Rebel. 2º guitarrista de J. Asensio.».
Infelizmente o Trío España não deveu ter muito mais percurso que o aqui comentado. O primeiro guitarra, Agustín Rebel Fernández dedicou-se a docência em Portugal, sendo professor do violeiro fadista Martinho D’Assunção. Publicará em 1900 o livro Novo metodo elementar e progressivo para guitarra espanhola [ Música impressa] / por Agustin Rebel Fernandez. 1a ed. Lisboa : Industrias Graficas, 1900. No concerto de Cangas, dividido em três partes, a segunda estava composta exclusivamente por obras de Rebel.
1899
É provável que depois destes concertos Miss Zaida volvesse a sair da Galiza na procura de concertos pelas províncias espanholas. Em 1898 não encontramos nem rastro da sua atividade e não é até janeiro de 1899 que a localizamos tocando no Café de las Cuatro Estaciones de Salamanca. O Heraldo de Madrid faz-se eco da atuação da bandurrista com o seu inseparável Sr. Asensio e comenta a hipótese de que a parelha atue em Madrid. Haverá que aguardar até abril para que isso aconteça sobre as tábuas do Salón de Actualidades. No final de julho ainda permanecia na capital do Estado, numa gala benéfica do Salón Rouge.
1902
Mais uma vez, em 19 de abril deste ano, Miss Zaida e Asensio voltam ao Café Español de Ponte Vedra. Desta volta trazem uma novidade, a «la graciosa bailarina en miniatura niña Carmén». No breve do Diario de Pontevedra há algo que chama a atenção. O tratamento para a bandurrista é de Sra. No mesmo jornal uns dias mais tarde disse-nos que a pequena Carmencita, além de bailar, canta e recita bonitos monólogos. Em junho viajaram a Lugo, também no Café Español, para uma série de concertos e com o mesmo motivo irão a Ourense, contratados pelo Café Regional.

Depois destas atuações, Miss Zaida, agora Sra. Zaida, desaparece.

  • In conclusion... 
a) Só existe unha referencia bibliográfica que indique a nacionalidade, neste caso norte-americana, de Julia Zaida. O âmbito da bandurra é quase exclusivamente o do Estado Espanhol e o das suas antigas colónias. Fora das estudiantinas e das rondalhas, algumas comunidades como Aragão, Múrcia ou Valença o folclorizaram, fazendo parte dos seus ranchos. Uma das comunidades com maior presença da bandurra são as Ilhas Canárias. Curiosamente Zaida é um nome de mulher muito usado pelas canárias e como apelido é quase exclusivo dos habitantes de Las Palmas. Será pois uma descendente de espanhóis com nacionalidade americana? Como veremos a coisa é mais complicada.

b) Cronologicamente Julia Zaida passou a ser Miss Zaida quando saiu em 1893 de Madrid, e em 1902, quando voltou a Galiza já era Sra. Zaida. Tendo em conta que vinha com uma criança, a bailarina Carmencita, dá que pensar que a bandurrista e o guitarrista Sr. Asensio eram parelha também na vida privada, sendo a pequena artista a sua filha. Tal vez isto foi o que provocou o abandono de Julia Zaida dos cenários.
Mas um dado vem a complicar tudo ainda mais.
No final de 1887, concretamente o oito de setembro, a bandurrista Sra. Zaid e Mr. Jacobet atuam no Casino de Lugo. Na velada participa também o Sr. Courtier, que acompanhará a Sra. Zaid no piano. Entre as peças interpretadas está uma das favoritas de Miss. Zaida, Guillermo Tell.
Um mês mais tarde, dez de outubro, a prensa compostelana anuncia que «el propietário del Café Español há contratado a Mr. Zaid y su esposa, para que durante estos dias ejecuten algunos números musicales em dicho establecimiento, em las primeras horas de la noche».
Parece que Julia Zaida estava casada em 1887 com um guitarrista chamado, tal vez, Jacobet Zaid. Nos últimos dias deste ano, a parelha volta a Lugo, para participar no Círculo de las Artes num programa organizado pelo Sr. Altadill. Ademais do concerto de bandurra e guitarra a soirée incluía a intervenção de «el diablo de los salones [que] presentará a brazo limpio, alta prestidigitación, carto-mancia, doble escamoteo, taumaturgia, lós últimos esfuerzos de la Magia Blanca». Um motivo mais para pensar que o Montes pudesse recear da bandurrista.
Entre as peças interpretadas no Círculo de las Artes de Lugo encontrava-se a tanda de valsas Edla, chamada mais adiante Etla ou Ella, da autoria de Mad.[sic] Zaid, o qual confirma, por se houvesse qualquer dúvida, que Zaid e Zaida são a mesma pessoa.
Com todos estes dados aventuro a hipótese de que a bandurrista Julia Zaida nascera espanhola e obtevesse a nacionalidade americana por casamento com o guitarrista Jacobet [Zaid?]. Uma vez separada ou divorciada da sua parelha artística, continuou na profissão com o nome de Miss. Zaida, aproveitando a etiqueta de artista internacional. Porque passou de apelidar-se Zaid a Zaida seria um debate mais controvertido. Tal vez, por ser espanhola, adaptou o seu cognome de casada ao da princesa mora concubina do rei da Galiza Afonso VI. Sei lá!
Depois de vários anos tocando com acompanhantes ocasionais, a redor de 1897 conhece ao guitarrista J. Asensio, que se converte na sua parelha profissional e sentimental, com a qual pôde ter uma filha chamada Carmen.

Já tenho dito muitas vezes que cada entrada do meu blogue é como uma garrafinha deitada ao mar. Se calhar, a alguém que na malhante do seu computador encontre a minha mensagem, não se importe de perder uns instantes lendo a história de Julia Zaida. Tal vez alguém, na outra beira, possa resolver as minhas perguntas e contar-nos algo mais sobre a vida da Miss. bandurrista, uma vida, na minha opinião, digna de ser contada. Oxalá.  

Biografia:
Folgar de la Calle, José María & Letamendi Garate, Jon 1997 Imaxes para un centenario. O cine en Galicia. Cegai; s.l.
Ocampo Vigo, Eva 2001 Las representaciones escénicas en Ferrol. Uned; Madrid.


Imprensa:
Diario de Avisos: Madrid.
El Diario de Pontevedra.
El Eco de Galicia: Lugo.
El Heraldo de Madrid.
El Imparcial.
El Liberal.
El Lucense.
El Regional.
Gaceta de Galicia: Diario de Santiago.
La Correspondencia Gallega: Diario de Pontevedra.
La Opinión: Pontevedra.
La Voz de Morrazo. Marín.
Nuevo Diario de Badajoz.


  • The Repertoire.
Uma das tarefas mais interessantes para conhecer bem a um artista é o estudo do seu repertório. É claro que este nos dará uma informação exata sobre o estilo, a formação, o virtuosismo do ou da concertista. Neste caso estamos ante uma bandurrista cujo repertório é exclusivamente académico, por tanto afastado da música folclórica. Quando interpreta um aire regional é sempre desde um arranjo profissional de compositores de zarzuela ou de bandurristas –os menos– como o valenciano Carlos Terraza.

Em todos os seus concertos só encontramos um tema galego que foi recorrente nas suas intervenções na Galiza. Trata-se da Alvorada Galega de Pacual Veiga que ela interpretou quando menos desde 1893. Conhecia Miss. Zaida o arranjo para guitarra da Alvorada de Veiga de Juan Parga? O guitarrista ferrolano interpretou a sua versão em 1889 na sua vila natal, junto com alguma outra composição de caráter popular como Fiesta Gallega ou Idilio Gallego.
O instrumento acompanhante da bandurra era mormente a guitarra, mas em muitas ocasiões o músico disponível ou preferido era pianista. É de supor que Miss. Zaida contaria com arranjos para estes dois instrumentos com o fim de ser utilizados segundo as necessidades de cada atuação. Em Madrid, em 1893, dirigiu um terceto de señoritas e em 1897 fazia parte do Trio Español. Como música profissional tinha de ser flexível, ter certa diversidade de repertório e facilidade de adaptação ao médio no que fosse tocar.
Em definitiva, o reportório de Julia Zaida está composto por grandes êxitos da música clássica, como as composições de Mozart ou Boccerini, belcantísticas, repertório zarzuelístico, alguma coisa específica para bandurra como Terraza ou Lucena e composições oportunistas, como a Alvorada de Veiga.













(1) No reportório encontramos os títulos Edla, Etla e Ella, da autoria de Julia Zaida. Consideramos que são a mesma peça e que na segunda deu-se um erro de imprensa.
(2) Pensamos que Auras del Tajo e Auras de Madrid são a mesma composição.
(3) Tanto a Pavana de Lucia, 14 Rasi e a Pavana de Luis XIV deve referir-se à Pavana favorita de Luís XIV de Frédéric Brisson.
(4) O Trío Español estava formado pela bandurrista Julia Zaida e os guitarristas Agustín Rebel Fernández e o Sr. Asensio.

[g] Guitarra
[p] Piano
[a] Alaúde

terça-feira, 7 de abril de 2015

nº 198 O bandurrista Manolito Quiroga.


O violinista pontevedrês Manuel Quiroga Losada nasceu o 12 de abril de 1892. Segundo se conta nas biografias que tenho consultado, o seu primeiro instrumento foi a bandurra que logo mudou pelo violino. Eu achava que a bandurra fora para Quiroga como um brinquedo no que experimentar antes de fazer-se músico a sério, mas é possível que tenha agora que mudar a minha opinião. 
Revolvendo nas páginas dos jornais encontrei que Manolito Quiroga, uma criança de seis anos –em realidade algum mais– participou dumas veladas do Círculo Católico no que interpretou duas peças com bandurra, tendo que tocar a maiores um fado português. Um ano mais tarde faz parte duma rondalha numa serenata com a que se obsequiou ao político Augusto González Besada.
Por último, graças a uma necrológica do Diario de Pontevedra, sabemos que o seu professor de bandurra foi Fernando Rey, o Bodegas, músico cego da cidade do Leres. 

«Veladas en el "Círculo Católico"

[...]La nota más simpática, la nota distintiva, por decirlo así, fue Manolito Quiroga, niño que apenas cuenta siete años de edad y es un artista de verdad. Anoche hemos tenido el placer de oírlo por vez primera, y, ciertamente, que encantan y admiran los prodigios de ejecución que el novel artista realiza en la bandurria. Lo acompañó en la guitarra, muy bien, su hermano, entusiasmando a la concurrencia a cuyas instancias tuvo que tocar, fuera de programa, un hermoso fado portugués.»  El áncora: diario católico de Pontevedra. 12/03/1900

«Círculo Católico. Velada en el Círculo Católico para el Domingo 25 del corriente a las siete y media de la noche.
PROGRAMA.
1º Vals. L. Streabbog por el cuarteto.
2º Lectura de varias poesías por varios socios del Círculo.
3º Polka-Mazurka. L. Streabbog.
4º Cuadros disolventes.
5º Dos piezas, por el bandurrista Manolito Quiroga (de 6 años).
6º Vals. F. Paz por el cuarteto.» El áncora: diario católico de Pontevedra. 24/03/1900

«Una rondalla.
Anoche obsequió al Sr. González Besada con la ejecución de bonitas piezas musicales, una lucida rondalla compuesta de veintidós individuos.
La calle de Elduayen se vio muy concurrida con tal motivo.
El Sr. Besada, obsequió a aquellos con cigarros pastas y licores.
Llamó grandemente la atención la destreza con que el niño Manolo Quiroga Losada, de ocho años de edad, ejecutó varios números en la bandurria, y acompañando otros con pandereta.
Después recorrió las principales calles de la población seguida de multitud de curiosos la mencionada agrupación musical.» La Correspondencia Gallega: diario de Pontevedra. 21/05/1901

O 09/01/1918 morre o cego Fernando Rey, conhecido como o Bodegas. Segundo lemos na necrológica:
«Varias generaciones de pontevedreses recibieron del Bodegas provechosas lecciones de bandurria y guitarra, y es de notar que los que mejor pulsaron estos instrumentos fueron sus discípulos. 
Entre ellos tuvo el honor de contar a nuestro inconmensurable Manolo Quiroga, cuando apenas tenía los siete años de edad.
Hablando de éste le hemos oído decir muchas veces al Bodegas, que a los pocos días de darle lecciones, ya temía quedarse sin el discípulo, pues fueron tales sus progresos en ellas que ya aventajaba al maestro.» Diario de Pontevedra. 10/01/1918


À vista destes documentos poderíamos fazer algumas reflexões que eu não tenho lido, o qual não quer dizer que não fossem feitas, nas biografias por mim manejadas do mestre pontevedrês.

1º O primeiro instrumento com o que actuou em público Manuel Quiroga foi a bandurra. 
2º Nestes  concertos do Círculo Católico estava acompanhado pelo seu irmão à guitarra. Considero isto interessante pois sempre aparece a figura de Carlos Celso Quiroga Losada como o irmão que o apaixonou pelo violino, mas nada se diz de que o próprio Carlos Celso ou José, o outro irmão maior, o tivessem acompanhado num cenário.
3º Teve como professor a Fernando Rey, músico cego. Este dado serve para descartar a ideia de que Quiroga com a bandurra fosse autodidacta. 

domingo, 15 de março de 2015

nº 197 Um conto de Eduardo Dieste.


Olegaria Dieste foi a única mulher dos sete filhos do casal formado por Eladio Dieste Muriel e Olegaria Gonçalves Silveira. Em 1910, com vinte anos cumpridos, era uma boa estudante de piano que um ano mais tarde superaria o quinto curso com a máxima nota. O benjamim da família, Rafael, tinha onze e ainda haveriam de passar alguns anos mais para ver publicados na imprensa os seus primeiros artigos. Quem já encetara a sua carreira como articulista era Eduardo Dieste (1881-1954), que em 1911 vai publicar Leyendas de la Música, Madrid : Sucesores de Hernando, 1911 (Madrid : Imp. de Alrededor del Mundo). Este mesmo ano volve ao Uruguai, pais do que com o passo do tempo exercerá como cônsul em Londres, diversas cidades do Estado Espanhol, São Francisco, Santiago de Chile, Nova Iorque...Mas em dezembro de 1910, Eduardo Dieste deixou-nos um formoso conto de Natal cujos figurinos poderiam inspirar-se em Olegaria e Rafael, numa cena íntima na casa da rua de Abaixo em Rianxo. O relato que lhe conta a irmã ao pequeno doente parece o roteiro dum filme de Méliès. A visão utópica da lua que nos presenta o autor lembram-me às ideias maçónicas que enraizaram na família Dieste, nomeadamente no primogénito Eladio. Tal vez seja só a descrição do paraíso que a narradora quer para o seu irmancinho agonizante. Contudo, quero crer que o conto não é tão dramático, que a criança pechou os olhos para descansar, que sanou da sua enfermidade e que com o passo do tempo escreveu Dos Arquivos do Trasno, A fiestra valdeira, Rojo farol amante... E por certo, que bem escrevem em castelhano os escritores galegos!


«EL CUENTO DE LA HERMANA
El niño estaba fatigado por aquella larga clausura en el lecho. La tibieza de las sábanas le irritaba, lo mismo que aquella simiobscuridad que todo el día se conservaba rigurosamente en el cuarto.
El silencio se aumenta desde que las campanas, con su voz grave que se esparce quejosamente por el aire en una leve agonía, llaman á la oración.
La quieta soledad permite arribar al cuarto la greguería ruidosa de sus camaradas entregados al juego y la disputa en la calle, y esto produce al niño una codicia tan grande como la fruta y la miel cuando estaba sano y alegre. Los juguetes dispersos tienen posturas de un triste abandono y esperan resignados á que los amortaje el polvo, porque el niño, su alma de vida, se muere: lo saben por el aire que los envuelve como un aliento pestilencioso de droga y de fiebre, y por el reposo dilatado que padecen, tan distinto de aquel otro, animado por la esperanza, en las vitrinas resplandecientes del bazar. Pronto han de yacer en el desván obscuro entre ratones y arañas, en compañía de muebles mutilados, cubiertos de polvo y penetrados por la humedada que rezuman las tejas; luego la polilla los roerá con lenta crueldad muchos años, muchos años, quizás siempre...
Encima de la mesa de noche, junto á un cordel revuelto como una firma descansa el trompo, que ya no volverá á lucir su doble corona de rojo y azul, tan hermosa cuando se dormía en la voluptuosidad de la danza después de hincar victoriosamente su aguijón de acero en el trompo castigado. ¡Que hábil era su dulce amito! Gracias á esto solo tiene dos señales de estigma en su parte baja que apenas se ven.
La pelota de brillantes colores dispuestos en cascos azules, amarillos, rojos y verdes se esconde en los pliegues de la colcha y ostenta no sé por qué, una hinchazón optimista que con su pintura de Arlequín da la idea de una carcajada pronta á estallar. Aun hoy la acariciaron las manos cálidad del enfermo.
Un arco de radios de alambre con cascabeles dorados cuelga del cuello de un borrico de cartón que mira con aire estúpido hacia la cama y parece que de un momento á otro prorrumpirá en una lamento sin fin, ruidoso y doliente.
Se arrastra la penumbra por los rincones. Cada vez se percibe más clara la bulla de la calle, y el capricho da un salto con fuerza de ilusiones en el corazón del enfermo. Quiere dejar la cama al instante y salir á jugar con sus amigos. Se destapa y llora.
su hermanita mayor le reconviene con dulzura:
–Vamos –le dice– no seas tontín. –Espera á que estés bueno, que pronto será... ¡Que frío hace...! ¡Birr! ¡Que frío...!
Le arropa bien, y el niño se engruña á la idea del frío.
La hermana se extremece de nuevo para darle á entender que le tiene mucha envidia por estar en la cama.
–Así calentito... ¡Qué bien estás! ¡Birr! ¡Qué frío...!
–Cuéntame un cuento –dice el niño con vocecilla exigente.
–Si, hombre, si... Verás... Una vez...
Y el enfermo abre mucho los ojos, porque de los labios de la hermana van á brotar maravillas. La hermana mayor es una maga que sabe el por qué de todas las cosas, y extrañas historias de príncipes que luchan con dragones para robarles tesoros de pedrería y de oro, cuando no doncellas sujetas á encantamiento y bajo la custodia de maliciosos gnomos deformes; todo ello en regiones ideales, con palacios de coral y de diamantes, escalinatas de jaspes, jardines de flores dorados por el sol cuando es de día, y por la noche iluminados misteriosa y dulcemente por millones de estrellas...
Le habló de la luna, que se veia detrás de los vidrios plantada como un cuerno de oro en la cima sinuosa montaña.
–¿Parece muy pequeña, verdad? Pues no; es muy grande, muy grande, mucho mayor que este pueblo. Con los telescopios se la ve así, muy grande y todo lo que pasa dentro. Es como un globo inmenso de luz muy blanca, y por el cielo, entre nubes de plata y de púrpura corren coches preciosos de brillantes y de nácar tirados por yeguas blancas; y en ellos van mujeres de grandes ojos y dulce sonrisa que nunca se desprende de sus labios, todo el traje azul y blanco, y la cabellera rubia flotando al viento. Cuando bajan al suelo acuden muchos pájaros de pintado plumaje y cantan á porfía entre las frondas. Las arpas y cítaras llenan el aire de harmonías, y sobre alfombras de flores que despiden exquisito perfume, danzan en círculo las divinas mujeres y hermosos mancebos, entrelazadas las manos. si, también hay niños, mejor dicho, ángeles que nunca están enfermos y no hacen otra cosa que jugar á las batallas con flores y reir como locos porque bellos animalitos de piel de armiño retozan con ellos en al hierba y los pájaros les hurtan por broma las golosinas... Corren también á caballo por los bosques hasta encendérseles el rostro por la fatiga, y entonces se acuestan rendidos á la sombra de corpudos árboles y meriendan manjares muy sabrosos que les sirven las mujeres rubias que siempre están sonriendo. Se bañan con los cisnes en los lagos y se divierten con gran algazara de risas levantando espuma que se arrojan unos á otros. No hay escuela nunca, y siempre las campanas repican alegremente á fiesta. No hay duendes ni fantasmas, y los sueños son amables...
El niño cerraba los ojos dulcemente. Las últimas palabras de la hermanita resonaban en sus oídos como los ecos de una música lejana. Rozó su frente un beso y apagose la luz de sus sentidos.
La hermanita se fué á la habitación inmediata que estaba casi á obscuras. La soledad era grande. Destapó el piano y sus dedos tejieron una fantasía de la triste dicha humana. Las notas de suave pesadumbre, se deslizaban unas sobre otras para reunirse en explosiones de júbilo y de llanto. Había perdido la hermana su alma de rosa, la de los cuentos azules, pero después de narrar la quimera de la felicidad en tonos tan brillantes, quedósele endulzada la boca.
Se extinguió el crepúsculo, y la melodía corrió perezosa y triste como el hilo de agua que cae de una teja...
El niño se fué aquella noche á la luna.
Eduardo Dieste.
Rianjo. 17-XII-1910» El Eco de Galicia, 21-XII-1910

domingo, 22 de fevereiro de 2015

nº 196 As noites do Moderno.


Em 1908, o comerciante Sr. Ureña traz a Madrid um novo tipo de gramophone, cujas características principais são as de não ter buzina, ir colocado num móvel de salão e apenas produzir ruídos mecânicos.

El Sr. Ureña ha traído también preciosísima juguetería mecánica y un nuevo modelo de gramófono: el Amphion, que hace desaparecer el ruido propio de estos aparatos, con lo cual suenan las voces recogidas en el disco con una limpieza y brillantez admirables.  Nuevo Mundo, 09/01/1908

23/12/1910 El Liberal

Parece ser que os primeiros aparelhos voaram das mãos do comerciante madrileno, sendo o seu destino principal os salões da aristocracia e a alta burguesia da capital do estado Espanhol.
A Ponte Vedra o Amphion chegou a fins do 1913, como reclamo dum local, o Café Moderno, pioneiro no uso das tics, nomeadamente o gramofone e o cinematógrafo.
Nos concertos, amenizados pelo quarteto do violinista Isidro Puga, alternava-se a música da orquestra com projecções de filmes acompanhadas pelo quarteto ou audições do Amphion. Nos seus programas, em sessões de 6:30 e 9:30, dava-se uma variante para mim do mais curiosa. Em ocasiões, o quarteto acompanhava a voz dum ou duma solista reproduzido no gramofone.

07/11/1913 Diario de Pontevedra

Na altura, esta novidade permitia-lhe aos pontevedreses escutar às grandes divas e divos da ópera acompanhados pela orquestra do Isidro Puga, por enquanto tomavam a sua consumição no Moderno. Por este método foram escutados em Ponte Vedra as vozes da soprano australiana Nellie Melba, do barítono italiano Feruccio Corradetti ou a soprano catalana Maria Barrientos.

«En las sesiones cinematográficas adonde acude un público tan selecto como numeroso, un cuarteto compuesto de muy valiosos elementos dirigido por el reputado Puga, ejecuta entre otras varias páginas de músicas, algunas obras en colaboración con un espléndido amphión.
En este aparto, que es una especie de gramófono perfeccionadísimo, los cantantes de mayor nombradía, ejecutan sus obras predilectas acompañadas por el cuarteto, y es tal al afinación, tal el ajuste entre unos y otros, y tal la calidad por todo extremo excelente del amphión que hacen llegar al auditorio una sensación sorprendente, imaginándose los concurrentes que que el propio Tita Rufo o la propia Barrientos alientan cerca de ellos regalándoles con las exquisiteces de su voz prodigiosa.» 
16/11/1913 Marín: Semanário Independiente



domingo, 1 de fevereiro de 2015

nº 195 Os Papeis de Humboldt


Ao meu amigo Ernesto Vázquez Sousa, 
perito em livromancias,
em agradecimento pelo seu Sarmiento.

Os papeis de Humboldt
film noir.

Caro Roberto:

É de supor que depois de tantos anos não esperavas receber uma carta minha. O de escrever cartas resulta tão vintage! Mesmo duvidava de que continuassem a existir os selos.
A razão de que te escreva é que antes do acontecido em julho do 2004 tu eras o meu melhor amigo –quiçá o único– uma pessoa pela qual, na altura, sentia autêntica devoção. Depois de aquilo jamais voltamos a falar. Não teve a oportunidade de te dar a minha opinião e, com certeza, terás lido ou escutado muita merda sobre mim.
Como sabes, a minha paixão foi de sempre o documentalismo. Andei nos arquivos musicais na procura de velhas partituras, como um arqueólogo de sons ocultos baixo décadas –às vezes séculos– de desinteresse. Nisso ocupava as minhas vacações, verões inteiros viajando de arquivo em arquivo na procura do objeto cobiçado. Quando encontrava algo bom botava dias, às vezes semanas, transcrevendo, documentando e finalmente redigindo para logo enviar os meus artigos a revistas especializadas, portais de internet, associações, universidades... Só algum daqueles trabalhos foi publicado e destes, apenas um par tiveram certa repercussão na comunidade científica.
Considerava que ainda não dera com o documento que me catapultasse ao cume dos grandes investigadores, é dizer, esse seleto grupo de indivíduos aos que só conhece outra minoria ansiosa de acompanhá-los. Mas no meu foro íntimo sabia que nunca seria um deles. Eu não jogava na sua liga. O meu lugar ficava longe do seu mundinho académico, sendo apenas um triste funcionário, um freelancer indocumentado de baixa estofa.
Aquela manhã abri a base de dados dum dos computadores da Sala de Investigadores e bastou-me media hora para comprovar que já tinha consultado todo o fundo musical. Não dava para ir a outro lugar. Estava canso de pegar no carro e a minha incipiente migranha recomendava-me prescindir de tomar mais cafés. Far-me-ia bem sair dar um passeio pela cidade. Comecei a recolher as minhas coisas, peguei no caderno e quando procedia a fecha-lo vi umas assinaturas que remetiam a velhos livros do fundo geral ainda não consultados.
Um deles resultou ser um cancioneirinho sem qualquer interesse para mim. Li algum dos poemas anónimos que continha e comecei a inspecionar o volume quase com uma atitude forense. Suponho que todo documentalista sonhou alguma vez com encontrar-se um pergaminho Vindel nas guardas dum livro de Cícero. Eu também. Assim quando chegava as minhas mãos um velho volume procurava nele notas marginais, recortes escondidos entre as suas folhas e como não, escritos ocultos nas suas guardas. O cancioneirinho do século XVIII que estava a inspecionar não parecia guardar nenhum secreto. Então reparei no groso papel que envolvia o volume. Era um papel de tina sobre o qual escreveram o título e o autor da obra, utilizando, com tal motivo, belíssimas letras manuscritas. As dobras estavam muito ajustadas, mas não coladas, pelo que era possível desprende-las. Numa manhã de julho, na solidão da sala de investigadores, deixando-me levar pelo meu instinto, cometi a temeridade de ir à procura do meu Vindel. Na sua cara oculta, aquele papel resultou ser uma folha manuscrita pautada na que foram registadas cinco canções galegas e cinco castelhanas. Também havia um título e o nome do autor: Galizisch und Kastilisch Songs. Wilhelm Von Humboldt. 1799.
Quando vi o nome do grande linguista alemão lembrei de imediato os papeis de Humboldt, hoje conservados na Biblioteca Jagiellonska da Uniwersvtet Jagiellonski de Cracovia. Entre esses documentos encontra-se o titulado A música no País Vasco, fruto do trabalho de campo feito por Humboldt nas suas viagens a Euskadi. Mas em 1799 o alemão percorre o norte de Espanha desde Vitória até Madrid e quem sabe se no caminho se encontrou com jornaleiros galegos, cómicos da légua, com aguadeiros em Madrid... Entres as quadras recolhidas está esta que muitas vezes lembro nas minhas penosas noites de insónia:

Mininha bunita
o pé do castelo,
se levares mala noite
tamém a eu levo.

Num ato reflexo e depois de valorizar a situação brevemente, –como bom cidadão que acabava de desnudar um livro do século XVIII– fui comunicar o achado à funcionária que recolhia os pedidos detrás do balcão.
A primeira reação desta foi de espanto. Procurei explicar-me, mas as minhas tentativas resultaram infrutuosas. Com o livro numa mão e o envoltório na outra, a veterana arquivista foi onda a sua superiora, uma mocinha de aparência quase adolescente recentemente nomeada Diretora do Arquivo. Imediatamente fui conduzido onda ela que me recebeu com semblante sério e palavras graves.

–O senhor sabe o que fiz.
–Pois sim. Acabo de fazer uma grande descoberta para a historiografia musical galega, e mesmo europeia, comentei-lhe sem valorizar muito o significado exato do que acabava de dizer.
–E você um bocadinho presunçoso, não é? Falou a Chefa, e dos seus beiços assomou o seu primeiro sorriso.

Aquela careta não resolveu o meu incomodo, ainda mais, provocou que deixara de ver a diretora do arquivo como uma Lolita de bata branca para se converter num rosto calculador e dominante.

–O senhor acaba de manipular um documento sem a nossa autorização para, além disso, causar-lhe danos tal vez irreparáveis. Vou pôr o caso em conhecimento do nosso serviço jurídico e já veremos que resolução tomamos ao respeito. Pelo momento pedir-lhe-ei que abandone o arquivo e não volte até ter notícias nossas.

Durante alguns minutos mais tentei defender-me. Disse-lhe que levava décadas investigando, que era o que se denomina um rato de bilbioteca. Disse-lhe que nessa mesma casa havia muitos empregados que me conheciam de sobra e que no posto que ela ocupava eu já tivera ocasião de ver passar a diferentes pessoas. Disse-lhe que jamais deteriorara nada e que tinha que me estar agradecida por ter descoberto nada menos que um dos Papeis de Humboldt do que até agora ninguém sabia rem.

–Humboldt o naturalista? Foi a única interrupção que a Chefa do Arquivo fez ao meu desiderato.
–Não, esse é o irmão. Este é Wilhelm, filólogo e um dos primeiros folcloristas em fazer recolhas na Península Ibérica, disse esperançado de que por fim estávamos a falar ao caso.

Um silêncio valorativo para espetar-me a queima-roupa:

–Repito. Vaiasse à sua casa e já nos poremos em contacto com Você.

Fui à sala, recolhi as minhas coisas e, aturdido, caminhei pelas ruas da Zona Velha na procura do meu carro. Sentia-me eufórico de ter feito o descobrimento da minha vida, mas a conversa com a Chefa do Arquivo converteu o meu cérebro num aparelho em muito mau estado. Procurei nos petos um paracetamol e só encontrei um blíster vazio que me causou um corte diminuto no polegar e um não tão pequeno síndrome de abstinência. Numa das minhas pálpebras notei que começava a bulir o tique nervoso associado aos meus processos migranhosos.  Procurei uma farmácia, comprei uma caixinha e me traguei uma grama da minha droga favorita com um grolinho da água fresca que manava dum torno da fonte da Praza.

Aguardei uns dias uma chamada do Arquivo, mas não existiu. Uma semana mais tarde vi no jornal a grande nova. No restauro dum livro do Arquivo Provincial fora encontrado um documento cujo autor resultou ser Wilhelm Humboldt. Segundo se contava no artigo, o livro tivera de ser tratado logo de que um investigador o deteriorara selvagemmente. Assim, os restauradores decataram-se de que o volume estava protegido por um papel que continha umas partituras e uns textos. Posto o feito em conhecimento da Diretora do Arquivo, esta de seguido percebeu-se da importância do achádego.
Na foto aparecia a máxima responsável junto com o presidente da Deputação.
Para o outro dia, cheguei ao Arquivo a primeira hora depois de toda uma noite sem conseguir fechar um olho. Devido às muitas visitas que realizara a esse centro, havia entre o funcionário do controlo de entrada e mais eu uma certa cordialidade. Escrevi o meu nome e caminhei apresado até a sala de investigadores. Detrás do balcão estava a mesma mulher que me atendera o outro dia. Acheguei-me a ela e pedi ver a Diretora do Arquivo. A funcionária disse-me que não me podia atender, seica estava muito ocupada. As minhas súplicas foram elevando o seu tono até se converter em imperativos. Os gritos tinham que se escutar na oficina da Diretora. Algum usuário da Sala fazia-me gestos de que calasse ou fosse gritar fora. Quando já estava a ponto de agredir a algum dos meus colegas chegou a Chefa acompanhada do funcionário do Controlo da Entrada o qual, levantado da sua cadeira, resultou ter uma envergadura intimidante. Juntos, o vigilante simiesco e a jovem diretora lembraram-me a um Quasimodo e a sua Esmeralda.

–Acalme-se, e faça o favor de acompanharmo-nos.

Segui a estranha parelha até uma sala próxima. A Diretora, sem modificar um bocado o seu gesto hierático disse-me:

–A partir deste momento você tem proibida a entrada nesta instituição.

Não foi por medo ao gigante, mais bem foi a humilhação a que me esmagou como a um inseto e me deixou sem recursos, sem palavras. Sai daquele arquivo convencido de que as partes mais cristalinas do meu cérebro foram definitivamente feitas cacos. 
Comecei a caminhar pelo Casco Velho. Várias vezes os meus passos reconduziram-me à porta do arquivo como um penitente, atormentado pela migranha e a luminosidade dolorosa duma manhã soalheira do mês de julho. Caminhava enjoado, médio aturdido por ter consumido mais gramas do habitual. No cristal duma montra vi o meu rosto refletido. Estava avelhantado, pálido, sentia lástima de mim mesmo, de ver-me naquele estado. Então pensei em ligar para Laura. Ela sempre me cuida, sempre está para me proteger... Se a tivesse ligado ter-me-ia dito que a aguardasse nalgum bar, que fosse ao banheiro, que abrira a torneira e molhara a frente e a nuca com água fresca, que me sentasse numa mesa longe da janela, que não tomasse mais pastilhas... Mas não liguei.

Deveram passar horas e uma vez mais estava a poucos metros da porta do arquivo, encostado a uma parede protegida pela sombra do prédio vizinho. Senti que me doía o polegar. Todo o tempo que vaguei pelo empedrado a minha mão direita deveu estar a manipular o botãozinho duma caneta de inoxcrom. Só agora escutava o seu clique metálico. A dor do polegar era insignificante comparado com o da minha cabeça. Então aconteceu. Da porta do arquivo saiu a Diretora deixando trás de sim os brilhos da sua longa cabeleira loura.  Não o pensei. Não foi premeditado. Acheguei-me a ela e com um certeiro golpe cravei a minha caneta na sua garganta, tão violentamente que a atravessei como se fosse de manteiga. Os seus olhos ficaram, por sua vez, cravados nos meus. Os seus lábios deixaram ver uns dentes branquíssimos e uma língua tão amável que teve desejos de a beijar. Quiçá o tivesse feito de não brotar da sua boca um coágulo de sangue que me pareceu piche, dum preto e espessura impróprio daquela princesinha. Caiu ao chão como um peso morto, como o que era. Então eu comecei a caminhar, agora sem rumo, cara a nenhuma parte. Levaria vinte ou trinta metros percorridos quando senti um forte golpe nas minhas costas. Depois do abalo estava tirado no chão, sentindo na minha cara o calor das lousas aquecidas pelo sol.

De resto já sabes. Um juízo. Uma condena. Sei que cometi um crime terrível, mas não sinto arrependimento. Nunca antes cometera um assassinato e nunca mais volverei a cometer outro, mas desse, repito, não me arrependo.
No cárcere não se está tão mal. Estou ao cargo da biblioteca e contra o que caberia pensar, está magnificamente dotada. Leio todo o dia, algo que na rua jamais pude fazer. Laura continua a cuidar-me. Pelo meu aniversário presenteou-me Disparem sobre o pianista, edição de luxo, do meu adorado Truffeau. E seria uma fina ironia pela sua parte? Que asneira perguntar-te qualquer coisa! Bem sei que tu jamais contestarás a esta carta. Pobre Laura, como pode querer-me tanto alguém que nunca me amou.

Mais nada. Muitas saudades.

                                                                                           Mário


sábado, 17 de janeiro de 2015

nº 194 A música dos Dieste


Entre as partituras do Fondo Local de Música do Concello de Rianxo contamos com uma boa quantidade de partituras impressas que sem qualquer lugar a dúvidas pertenceram à família Dieste. Num livro factício [Reg. 103-125] que houve de ser desencadernado pelo mal estado das capas, há quatro partituras com a assinatura dos proprietários, como por exemplo, Elisa Saint Martín (1884-1974), mulher de Eladio Dieste (1880-1972) e mãe do famoso engenheiro galego-uruguaio Eladio Dieste Saint Martín (1917-2000).
Deixo-vos uma tabela completa com as referências diestinas:


Resulta-me especialmente interessante a titulada Duo de amor do compositor duranguês Francisco Fournier Salas (1879-1921). Como se pode ver no quadro, o autor dedica esta obra ao seu fino amigo Antonio Dieste, com data de 18 de decembro de 1913. Justo dois anos antes, em 11 de setembro de 1911, chegava ao porto de Tampico, em México, D. Antonio Dieste Gonçalves, a bordo do vapor correio «Reina Maria Cristina» que partira da cidade galega de A Coruña. Seis anos mais tarde, um novíssimo Rafael Dieste viaja a Tampico, permanecendo em México apenas um ano. Em quase que todas as biografias e ensaios sobre a vida do autor de Dos arquivos do trasno, disse que Rafael foi a junta seu irmão para ajuda-lo nos seus negócios. Não sei se é tão conhecido o feito de Antonio Dieste ser Cônsul de Uruguai em Tampico, tal como aparece no Diario Oficial del Gobierno Constitucionalista del Estado de Yucatán (República Mexicana) Ano XIX Nº 5696 01/06/1916


Fonte: Hemeroteca Nacional de México

O resto das partituras ilustram perfeitamente os itinerários pessoais dos membros da família Dieste: refinadas canções francesas, tangos portenhos, cantos nacionais mexicanos e até uma formosa edição de Los [sic] Segadors.

Documentando as partituras.

A última das partitura [Reg. 125] ilustra à perfeição o México que se encontrou Rafael Dieste quando foi visitar ao seu irmão Antonio. Naquela valleinclanesa Tierra Caliente lutavam as tropas de Villa, Zapata, Venustiano Carranza, o exercito constitucionalista... Um músico, José de Jesús Martínez compunha alguma das melodias mais belas desse período, entre as quais, Magdalena, uma valsa dedicada ao seu amigo Arturo Jiménez.
Em 8 de maio de 1916, nove dias antes do seu 28 aniversário, José de Jesús Martínez subiu ao comboio em direção a Cuernavaca. O Governador do Estado de Morelos encomendara-lhe escolher, comprar e transladar até lá um piano que ofereceria à sua mulher com motivo de seu aniversário. Ao chegar a Topilejo, os zapatistas interceptaram o comboio e fizeram baixar aos passageiros.

«Entre los vencidos destacaba un uniformado, José de Jesús Martínez, Inspector General de Bandas del Ejército Constitucionalista, con mueca de disgusto separó de los otros al músico y compositor, veloz ordenó que se integrara un pelotón de fusilamiento y con voz ronca ordenó: “Fusilen al militar carraclán”… la descarga se escucho en cerros y valles aledaños. Al conocer a los pocos días la noticia, el Gobernador Dionisio Carreón preguntó: ¿Donde quedó el piano? » RAMOS, Mario Arturo La voz del norte. 24/06/2012 [Edição Digital]