sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

nº 193 Um maço de notas furadas.


«Siempre imagine que el paraíso sería algún tipo de biblioteca.»
Jorge Luís Borges

A S. que me aprendeu uma história parecida.

A Prima A acariciava com a ponta do seu dedo indicador as etiquetas. AMB, AND, ANS, BOR, ANT... Olha ai! Que faz este BOR extraviado? Quem o colocaria neste lugar? Sei lá. Algum leitor não iniciado ou tal vez alguém que considerou irrelevante o cognome do poeta e tirou de estilo, de gosto pessoal, de ano ou país de nascimento para juntar este com aquele outro. A Prima A tinha bem de tempo para pensar nestas coisas por enquanto «fatigava andeis», como diria o seu adorado Borges —por acaso, aquele volume extravagante era do poeta argentino—. A citação é que tal vez não fosse dele. Lera-lha ao Vila-Matas e é sabido que desse farsante um não se deveria fiar jamais. Uma vez que o livro estava em suas mãos, a Prima A não foi quem de devolvê-lo ao seu lugar certinho sem abri-lo para ler qualquer verso.
¿Que podemos buscar en el altillo
sino lo que amontona el desorden?

Altillo soou-lhe a Prima A démodé, chegando à conclusão de os faiados hoje em dia nada ter a ver com os de antanho. Aqueles versos evocaram na Prima A o desvão da casa dos avôs, um lugar ao que subia com a Prima B quando as famílias se juntavam para celebrar ou para trabalhar nas leiras. As duas se adentravam no país das aranheiras e dos ratos, sem medos, sem fobias, na procura de tesouros no fundo das gavetas, dos armários ou das dúzias de caixas que deviam ser contemporâneas desses mouros dos que tanto nos falava a avozinha. Algumas vezes encontravam pequenas caixas de metal ou cofrezinhos de madeira. Essa sim que era boa! Dentro apareciam cartas com remites de Argentina, da Havana, de Uruguai... A nossa era uma família grande, dizia a avó, e a gente teve de emigrar a toda a parte.
Numa dessas viagens no tempo, as Primas encontraram um maço de notas dentro duma velha caixa de latão. Estavam dobradas pela metade e tinham uma singularidade que as fazia ainda mais especiais: um pequeno furado atravessava o maço permitindo olhar através dele como pelo olho duma porta. As Primas baixaram à cozinha para amostrar aos parentes aquele tesouro inesperado. O pessoal ficou admirado. Ninguém na casa sabia qual era a sua origem. Só quando o avô chegou de arrombar as vinhas, sentenciou emocionado:

- Trazei para aqui esses quartos! São meus e não quero que andeis a brincar com eles.

Os olhos vidrentos do avô desaconselharam aos parentes fazer qualquer pergunta. Só a avozinha foi sentar onde o seu homem, cônscia de que o velho não era de se emocionar por qualquer ninharia.

Passaram os anos e as meninas fizeram-se adultas. A Prima A gostava de falar com seu pai das coisas de antes, de quando era criança e matinha intacta a inocência primigênia. Foi então que o pai lembrou a história das notas furadas, sem reparar em que sua filha apenas conhecia do assunto a parte relativa ao descobrimento.
A Prima A soube então a história certa, uma história mais ou menos tal que assim:

«Na primavera do 1937, um vizinho nosso, falangista, meteu-lhe na cabeça ideias raras a um grupo de moços da redonda entre os quais estava o avô. Com pretensões de chegar a heróis, aqueles adolescentes apresentaram-se voluntários e foram enviados à frente de Vizcaya. Quando se deram conta do erro que cometeram já não havia volta atrás. Nada mais chegar, o filho do falangista, também enrolado na Santa Cruzada, morreu vítima do fogo amigo. –Justo pago, disseram muitas vozes na aldeia. Nas batalhas prévias ao assalto ao Cinturão de Ferro, os soldados dum e outro bando iam caindo em combate. Os republicanos, semiocultos em mínimas trincheiras, disparavam a chou, pelo que só algumas balas acertavam no alvo. Então, os soldados que continuavam com vida estavam na obriga de apoderar-se de quanto podia ser-lhes de utilidade: armamento, munição, alguma peça de roupa, víveres, dinheiro... O avô resistia-se a revistar aos seus companheiros mortos na procura de dinheiros, mas a ordem era contundente. No peto duma jaqueta encontrou o maço furado por uma bala republicana. As notas foram com ele o resto do tempo que botou na Guerra, para uma vez na casa terminar no fundo duma ucha velha.»

Na sua Biblioteca de Babel, a Prima A pensa no avô, agora muito velhinho e quase cego. Pensa em ele e novamente em Borges e nos seus versos:

«Ahora solo perduran las formas amarillas
y solo puedo ver para ver pesadillas.»

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quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

nº 192 José Sánchez Vázquez, o final dum ofício.




José Sánchez Vázquez [Rianxo, 14/08/1877; Padrão, 08/01/1939] é minimamente conhecido por ser o tio crego do poeta rianxeiro Manuel Antonio. Porém, o sochantre é para mim uma personagem com nome próprio, infelizmente ignorada não só pelo grande público, mas também por os próprios historiadores da música galega. Com este artigo não pretendo fazer uma biografia por extenso do mestre salmista, só dar a conhecer alguns aspectos que considero de urgente divulgação, deixando para mais adiante partilhar quanto logrei saber da sua vida e obra.






Foto: 
Arquivo X. Santos e X. Comoxo

I
Parentescos

a.- José Sánchez Vázquez era irmão de Purificação Sánchez Vázquez, mãe de Manuel Antonio.  
b.- O avó de José Sánchez Vázquez era irmão do pai de Severo Araújo Silva, Bispo Auxiliar do Arzobispado de Santiago de Compostela.

Estas ligações familiares vão ser fundamentais para que partituras até agora desconhecidas ou perdidas façam agora parte do recentemente criado Fondo Local de Música do Concello de Rianxo.

II
O Sochantre de Íria

A sua nomeação como presbítero tem lugar em janeiro de 1902 e um ano mais tarde já aparece citado na imprensa como Sochantre de Íria, pelo que deveu aceder a este cargo quase imediatamente trás a sua ordenação. Durante os trinta e sete anos que restam até a sua morte, José Sánchez Vázquez teve uma intensa vida dedicada por completo à música, bem seja como cantor, como regente ou como dinamizador e organizador de eventos culturais.
A sua actividade como cantor não se reduzia apenas a Íria Flávia, senão que acudia lá onde era reclamado, principalmente à Ponte Vedra dos seus amigos Mercadillo, Torres Creo, Isidro Puga ou o mestre de capela Manuel Taboada Nieto. Gostava de cantar cantigas galegas, como a titulada Bágoas de Puga ou Choros e Cántigas de Sanmartín, da que falarei mais adiante.

«La orquesta y voces de los Sres. Mercadillo y Torres [Creo], reforzada con el tenor de Iria D. José Sánchez, interpretó con gran maestría la hermosa misa de Gomig, el Motete de Cortina y Genitore de Guilmar.» El Diario de Pontevedra: nº 7596 06/09/1909
 
A sua sólida formação musical permitir-lhe-ia dirigir orquestras e coros os quais interpretavam música não apenas religiosa. Graças a imprensa da época, podemos saber como eram aquelas orquestras, muitas vezes reforçadas com músicos de Compostela ou de Ponte Vedra. Assim, no Diario de Galicia 20/02/1914 ou em El Barbero Municipal, 21/11/1914 encontramos uma orquestra regida pelo P. Daniel Gómez, franciscano do convento de Ervão, da que fazem parte os violinistas Srs. Rodríguez, Castro e Diéguez, nas flautas os Srs. Balado e Rey, no contrabaixo o Sr. Sánchez e no piano o Sr. Cardama. Aqui, aparece o Sochantre tocando o baixo, mas, habitualmente, era ele próprio quem dirigia a orquestra, alternando-se instrumentais e peças cantadas.
Também dirigiu os coros de meninos, as vozes participantes nas missas e nos diferentes ofícios e sobre todo, o Orfeão Antoniano.
Este último está muito relacionado com o seu papel de organizador e dinamizador de eventos entre os quais a organização da Juventud Antoniana e as celebrações do dia de Santa Cecília.
O interessante é que em todas estas celebrações havia sempre um lugar para a canção galega de concerto, assim como um espaço para os seus amigos músicos, como o guitarrista Daniel Paz Rodríguez O Rosquilheiro.
Como curiosidade dizer que depois de morto o Sochantre, a sua irmã e mãe de Manuel Antonio, Dna Pura, continuou a costear a Missa Solene da celebração de Santa Cecília à que habitualmente se associavam os músicos de Padrão.                                         


III
Os organistas de Íria Flávia

José Sánchez Vázquez viveu o declive do ofício de sochantre e organista na igreja de Íria Flávia. Acho que ele foi o derradeiro sochantre e que conviveu com os últimos organista por oposição da ex-Colegiada. Pouco antes da sua posse como cantor de Íria, o órgão foi restaurado, o qual manifesta um certo interesse por mantê-lo em óptimo funcionamento. No século XIX, alguém que tivesse vontade de escutar uma Missa Solene com órgão em Padrão podia escolher entre o do Convento de Ervão, o do Convento do Carmo, o da Escravitude ou o de Íria, e quiçá algum mais que se me passa.
Dos organistas de Íria, acho que não há nada publicado, assim que achego aqui o que sei, entendendo que a pouco que se investigue, muito de quanto digo pode ser ampliado ou mesmo rectificado. 

Em 1881, foi nomeado organista da Ex-Colegiada de Íria Flávia D. Pedro Rodríguez [1881-1887]. Só seis anos mais tarde sai publicado no Boletín del Arzobispado o edital pelo qual se convoca a vaga de organista de Íria Flávia.

«Hallándose vacante la Capellanía, ad nutum amovible, erigida en la Colegiata de Iria Flavia bajo la advocación de San Rosendo y afecta al cargo de Organista, el Excmo. y Reverendísimo Prelado, mi Señor, á quien pertenece su provisión, ha determinado anunciarla á concurso, como por el presente se verifica, por el término de veite días á contar desde el de la fecha, dentro del cual los aspirantes, que deberán ser Presbíteros, dirigirán á Su Excia. Revma. la correspondiente solicitud, acompañada de letras testimoniales de sus Prelados, si fuesen extradiocesanos.
Las obligaciones del agraciado serán: residir en Iria Flavia, asistir á las horas menores todos los días, tañer el órgano en las misas conventuales y demás funciones propias de la Colegiata ó que determinare el Párroco como Presidente, y aplicar el Santo Sacrificio todos los domintos del año por las almas é intención de los fundadores de las Obras pías, con cuyas rentas se ha constituido la Capellanía.
Su dotación anual es de cuatro mil reales, que se cobrarán por trimestres en la forma que el Estado satisfaga los intereses de la deuda pública.
Santiago 29 de marzo de 1887. –Por mandado De Su Excelencia Revma. el Arzobispo, mi Señor, Dr. D. Vicente Álvarez Villamil, Secretario.» Boletín Oficial del Arzobispado se Santiago. Ano XXVI nº 1098 31/03/1887

José María Sanmartín Catoira, [1887?-1907] Era natural de Pontecessures, onde morreu em 10 de janeiro de 1951. Foi, alem de organista por oposição em Íria, pároco em Redondela e Cangas do Morraço, sendo o seu último destino a igreja de São João Apóstolo de Santiago de Compostela.
Sabemos que foi o autor dalguma balada galega como a titulada Choros e cántigas, editada por Canuto Berea, a qual se publicitava na prensa de 1909 e continuava a ser interpretada nas festividades religiosas organiçadas por José Sánchez em 1933.

El Eco de Galicia. nº 954 13/10/1909

El Compostelano - Num. 3810 (31/01/1933)

Em 1907, convoca-se novamente a vaga de organista por translado de José Sanmartín. A dotação anual será nesta ocasião de mil pesetas. Gaceta de Galicia. nº 140 22/06/1907

- Manuel Forján Ojeros. [1907-1912] Em 1910 era aluno de Arqueología y Historia Eclesiástica da Universidad Pontifícia Compostelana. Como homenagem a Antonio Lopez Ferreiro, morto em abril desse mesmo ano, a aula organizará uma velada na que vai ser interpretada a cantiga elegíaca Pranto de Galicia, de Manuel Forján. Dois anos mais tarde, em abril de 1912, morre quando cursava terceiro ano de Teologia. 

«Era el Sr. Forján un excelente músico, autor de varias composiciones de relativa importancia. La enfermedad que le condujo al sepulcro la contrajo preparándose para la plaza de organista vacante en la catedral compostelana.
Desde hacía varios años era organista de la Colegiata de Padrón, habiendo obtenido el cargo desde bastante joven, cuando casi era un niño.
Encarecemos á nuestros lectores unan sus oraciones á las nuestras en sufragio del alma del finado.» El Eco de Galicia. nº 1746 28/04/1912 

Embora a sua juventude, Manuel Forján era organista de Iria Flavia por oposição. Durante as suas ausências, substituía-o no órgão da Colegiada o seu irmão Joaquín Forján. Na altura, dirigia a Banda de Música de Padrón um outro Manuel Forján, ao que cremos parente dos irmãos organistas. 

- Joaquín Forján Ojeros. Irmão do anterior, foi organista ocasional em ausência de Manuel Forján.

- Adolfo Cardama Cortés. Dodro, 23/06/1879- A Póvoa do Caraminhal 19/03/1942. Quiçá o organista que mais vezes aparece ao lado de José Sánchez, e do que deveu ser, além de mais, grande amigo. O primeiro dado que tenho do duo Sánchez-Cardama é de 1908, na igreja de São Julião de Requeijo. Cardama tocava principalmente o harmônio e o piano, mas é possível que tocasse o órgão em certas celebrações. As suas ocupações como funcionário em diferentes concelhos como o da Póvoa do Caraminhal, dificultou-lhe uma maior actividade como músico. Era filho de Ramón Cardama, mas ignoramos se tem alguma relação de parentesco com o organeiro compostelano do mesmo nome.

«A continuación ocupa el escenario el Sochantre de Iria Flavia, don José Sanchez, que cantó la melodía gallega Bágoas, del maestro Puga, acompañándole con el armonium D. Adolfo Cardama, siendo objeto de una ovación el Sr. Sánchez por el exquisito gusto con que interpretó la obra.» El compostelano. Nº 1290 (12/06/1924)

IV
Uma festa em Bastavales
Com um minuto de intervalo

«A las nueve, Misa cantada en la capilla, acompañada de la grandiosa Orquesta de Iria-Flavia que será reforzada con valiosos elementos de la Catedral de Santiago, compuesta de doce profesores, entre los que figuran el tenor D. José Sánchez y el barítono M. R,. Espinosa.»
«Por la tarde, a las tres, darán comienzo los grandes bailes populares amenizados por las bandas de Brión y Rianjo y por el popular cuarteto regional gallego de Soutelo de Montes, desarrollando un variado programa de bailes, los que se alternarán con un minuto de intervalo.»
«A las tres de la tarde continuarán los bailes populares estando la música a cargo del afamado director D. Ángel Bandín.» El compostelano. nº 1858 02/06/1926 Festas em São Julião de Bastabales em honor da Virgem do Carmem.

«La orquesta y voces de los Sres. Mercadillo y Torres, reforzada con el tenor de Iria D. José Sánchez, interpretó con gran maestría la hermosa misa de Gomig, el Motete de Cortina y Genitore de Guilmar.» El Diario de Pontevedra: nº 7596 06/09/1909

«La orquesta y voces de los Sres. Mercadillo y Torres reforzadas con el valioso elemento del tenor de Iria, D. José Sanchez, justificó una vez más la altura de su justo renombre, en la interpretación de los Gozos de Velardi, á solo de bajo y duo de barítonos, en el Tantun ergo de Loxvi y el Genitori de Guilma.»

V
Despedida a la Sma. Virgen
 
A única partitura das conservadas no Fondo Local de Música do Concello de Rianxo que consideramos da autoria de José Sánchez Vázquez é a titulada Despedida a la Santísima Virgen, a qual está datada em 7 de setembro de 1934. Pela sua letra trata-se duma composição semelhantes as muitas que se conservam, alguma mesmo no nosso arquivo, de Salutação e Despedida, normalmente postas em boca, a modo de hino, dos peregrinos que acodem a um santuário. Considero, pois, que se trata duma Despedida à Virgem de Guadalupe das pessoas assistentes à sua celebração.



© Fondo Local de Música do Concello de Rianxo

VI
Epílogo
O organista de Iria de José Filgueira Valverde

Ao organista de Iria, un músico vello de enterros e festas, bo bebedor, forte, roxo de moita sona en toda a terra de Padrón, viráraselle o sentido. Deixara o viño e as esmorgas, dera en se pechar polas noites na igrexa a tanxer no órgano cousas estrañas; subía ao campanario para adeprender aos mociños repiques novos, tiña longas conversas co gaiteiro de Isorna e saía cara os soutelos do río, no raiar da alba, cun feixe de papeis baixo do brazo. Sentira o proído de engaiolar unha cántiga que teimosamente se escoaba nos seus oídos e tendía a cotío o ichó para esligala como se fose un loiro paxariño.
Despois de moitos traballos, arriscouse a amostrar canto levaba composto ao oranista de Santiago. Saíu de Iria, polas oitavas de Nadal, cunha carta de presentación do Abade, con moitos papeis na alxibeira e o verme dun degoiro no peito. Nos seus oídos ecoábase aínda, con leda teimosía, o belido tema que topara e seguindo no maxín a súa obra —Op. I—, deténdose en cada acerto, á mañá do repaso que un fai do soño lonxano, deuse a cantalo, a cantalo namentres o tren repinicaba a muiñeira das costas e debullaba o alalá dos chans sobre o trémolo da paisaxe e o pedal azul do ceo.
(O crego cativiño e descoñecido que se sentara a par del en Osebe íao escoitando cos ollos pechados nas follas do breviario).
Nos altos da Catedral renxía o fol do órgano, barquín de forxa, e as mans do Organista de Santiago, mans afeitas a temperar o ferro roxente dos graves na agua xeada dos agudos, afiaba os sons a circias marteladas. Embazábase o aire dunha sutil poeira, erguíase un mesto fumeiro... De súpeto é a nidia claridade da súa cántiga a que avesca o músico de Iria, envolveita na néboa dunha fuga. O paxariño que el quixera esligar coas súas mans de labrego, afeitas a coller niños caera no ichó daquel creguiño descoñecido que cos ollos pechados nas follas non pasadas do breviario fora escoitando o seu cantar.
O organista de Iria xa non tenotu falarlle. Con ollos embazados pola poeira das bágoas, coa gorxa atuída polo fumeiro dun salaio, estrizou os papeis e tornou aos enterros, ás festas, ao viño e ás esmorgas.
Na terra de Padrón díxose que os médicos de Santiago lle arrincaran do peito un verme. Tornáranlle o sentido. 
Quintana Viva. p. 47 e 48 La Voz de Galicia, S. A.; Corunha. 2002


domingo, 16 de novembro de 2014

nº 191 Pré-catálogo de Higinio Cambeses.

Nos últimos dias, a juíza María Servini solicitava a detenção preventiva de, entre outros, José Utrera Molina e Rodolfo Martín Villa, ministros do ditador Franco. Esta solicitude é possível que não tenha percurso algum, sendo denegada com certeza pela Audiencia Nacional espanhola. Para os que levamos anos estudando as consequências da repressão franquista – no meu caso no eido da música – estas notícias servem para dar ânimos e sacar à tona uma série de nomes sinistros trasvestidos nas últimas décadas de democratas. Estes dias lembrei ao meu admirado Eduardo M. Torner, uma das pessoas mais íntegras sobre a que tenho centrado a minha atenção, considerado pela historiografia musical galega como uma espécie de assistente — ou ainda super-vilão —  do grande herói galego Bal y Gay. Torner, que era irmão do inspetor de educação e professor da normal da Corunha, o republicano Florentino Martínez Torner, foi autor duma importante obra musical sobre melodias tradicionais galegas, coletadas por mim num artigo para a revista Etno-Folk. O compositor e etnomusicólogo asturiano morreu em Londres num hospital de caridade e, como em tantos outros casos, os galegos continuamos a dever-lhe as honras que se merece. 

A juíza argentina Servini quer ver as fossas comuns e restituir a memória dos inocentes assassinados durante a ditadura, como os cento setenta e oito fuzilados em Cartagena entre o 1939 e 1945, entre os que se encontrava o rianxeiro Manuel Piñeiro Fachado, filho do diretor de banda José Benito Piñeiro Jamardo. Mas houve outros dos que quiçá nos acordamos ainda menos. Foram pessoas às que não mataram mas cercearam a sua carreira e/ou obrigaram a abandonar a sua terra para ter de começar novamente noutro lugar ou aos que simplesmente os envolveram num rodopio de terror do que já não puderam ou souberam sair. Este é o caso de Higinio Cambeses Carrera, compositor e diretor de Banda nascido em Antas da Lama em 1900 e morto em Santiago de Compostela em 1949. Recentemente, a editorial Dos Acordes publicou uma das suas obras mais célebres, A noite do Santo Cristo, rapsódia galega para banda sinfónica, com edição crítica de Luis Costa Vázquez. Segundo podemos ler em El Correo de Galicia, órgão da coletividade galega na Argentina, esta obra já estava em circulação em 1929:

«Aquella [a banda Celta Infantil de Antas] con ser una agrupación musical que maraville con su ejecución, es, sin embargo, un buen combinado, tan bueno como el mejor popular; pero no es eso lo esencial; en ella, hay una nota muy particular, y es que dicha banda ejecuta casi exclusivamente las composiciones de su director don Higinio Cambeses Carrera, un mozalbete de pequeña estatura y gordote, de figura sanchezca, con gestos[?] de "Quijote" afable de caracter; en él no se oculta nada, habla lo que siente, el cual nos hizo admirar su ya gran producción y del mérito que evidencian, entre tantas otras, obras como "Viva la legión", "El sitio de Zaragoza", "Una noche por la calle", "Ad'o [sic] eixo carballeira", "Maruxiña a mal fadada", "A noite do Santo Cristo", etc., capaces de consagrarle como meritísimo artista.» nº 1242 10/11/1929

Em 1931, Higinio Cambeses apresenta-se candidato do Partido Radical Socialista nas eleições municipais de abril de 1931, que tiveram como resultado o advento da Segunda República. Uns meses antes, em 12 de março desse mesmo ano, publica em La libertad de Ponte Vedra um formoso artigo titulado ¡La aldea despierta!.


Em 31 de julho de 1932 fazia a sua presentação a Agrupación Musical de Ordes, baixo a batuta de mestre de Antas da Lama. Esta banda esteve ativa poucos anos e já em setembro de 1933 Higinio Cambeses aparecia na prensa como regente da banda de Viveiro. Nesta vila nordestina esteve até o fatídico 18 de julho de 1936. A partir dessa data no entorno do maestro produzir-se-ão numerosas detenções. Aos poucos dias, Higinio Cambeses organizou uma Comissão de Ajuda aos Presos. 

«Sen embargo, a Comisión durou moi pouco tempo ao ser disolta por orden do comandante militar da praza, Manuel Vaamonde, que, ademais apercibiu aos seus componentes. Días despois sería detido, encausado e suspendido de emprego Hixinio Cambeses.» NUEVO CAL, Carlos A represión fascista nas terras de Viveiro in www.memoriahistoricademocratica.org

Algumas fontes dizem que esteve preso dois anos, inclusive citam a Ilha de São Simão. Eu não dei encontrado nenhum registro da sua estadia nos cárceres franquistas, a não ser essa primeira detenção em Viveiro. A dia de hoje considero que os falanxistas submeteram-no a detenções e malheiras mais que a um encarceramento continuado.
O Centro Documental de la Memoria Histórica de Salamanca custódia um suplicatório de indulto para Higinio Cambeses Carrera, Daniel Carballido Diz e Cándido Carreras Domenech. Os três foram condenados pelo tribunal da Corunha, sentença do 23 de dezembro de 1941 a pagar duzentas cinquenta pesetas por «haberse destacado como izquierdista, desempeñando cargos locales y haciendo propaganda. Daniel pagó 125 ptas de la sanción».
O indulto chegou em 1960, quarenta anos depois da morte de Cambeses. 
Entre 1943 e 1948 foi diretor da Banda de Cuntis.

«No 1948 marchou para Padrón como director da Banda Municipal, pero seguiu vindo continuamente a Cuntis, onde tiña moitos amigos. Sufría manía persecutoria. Quedara tocado debido á presión e ao medo a que fora sometido despois do alzamento militar do 36, con continuas detencións, malleiras e sancións laborais e económicas. Estando en Cuntis metíanselle cousas na cabeza, como que lle querían pegar ou matar. O certo era que lle tiña medo aos falanxistas e por iso, xa estando na banda de Padrón, cando viña a Cuntis durmía na fonda de Calveiro, pois era amigo de Baldomero Andrade, que militaba na Falanxe, e na súa casa sentíase máis seguro.» SEIXO PASTOR, Marcos A represión franquista en Cuntis. Memoria de 1936. O proceso contra Aurelio Rei e outros cuntienses. in www.aelg.org

Quando apenas levava um ano como regente da Banda de Padrão, Higinio Cambeses não aguentou mais e pôs fim a sua vida dum modo agónico. Um breve no ABC publicado em 22 de fevereiro de 1949 relatava o acontecido em Cuntis:

«En Cuntis intentó poner fin a su vida el director de la banda de música de Padrón, D. Higinio Cambeses Carrera, que sufría manía persecutoria. Para llevar a cabo su propósito se dio un corte en el cuello y otro en un brazo, y al ver que no era bastante se arrojó por una ventana de su domicilio, resultando en la caída tan sólo con la fractura del pie izquierdo. Trasladado al Hospital Provincial, fueron intervenidas sus lesiones y momentos mas tarde el herido se arrolló una sábana al cuello y se ahorcó. El suicida era un excelente compositor de música, habiendo dirigido varias bandas en Galicia.»

Em 2014 são muitas as bandas que continuam a tocar as composições de Higinio Cambeses. Em várias ocasiões, veteranos músicos de banda disseram-me que Cambeses era o melhor compositor galego de passodobles, questão esta que podendo ser considerada uma exageração, fala claramente do prestígio do maestro entre os músicos galegos. Porém, o seu nome apenas aparece nas enciclopédias e dicionários de música, não existindo um catálogo da sua obra nem edições comerciais das partituras, com exceção da já mencionada A noite no Santo Cristo. [Pode-se comprar aqui] E por isto que decidi fazer eu próprio um catálogo cônscio da dificuldade que isto acarreta e dos muitos e mais que prováveis erros ou omissões. Animaria a qualquer pessoa que tenha algum dado mais ou detetara esses erros e omissões involuntários mo comunique, para ir restituindo ao mestre de Antas da Lama o lugar que lhe pertence na nossa história.



Agradeço a Javier Jurado e Luis Costa a leitura e ampliação deste catálogo.

Catálogo Higínio Cambeses

1.      ¡Adios para siempre! [Música impresa]: célebre marcha fúnebre para banda Musical Exito: Tarragona; Pablo Ricoma Dedicado ao seu pai José. SGAE 370.096
2.      ¡Ard’o eixo carballeira! [Música impresa]: pasodobre ed. Tarragona; Pablo Ricoma Cod. SGAE 367.649
3.      ¡Honradez y garantía! [Música impresa]: pasodobre ed. Tarragona; Pablo Ricoma Cod. SGAE 430.490 
4.      A los toros Cod. SGAE 4.184.316
5.      A noite do Santo Cristo [Música impresa] ed. Dos Acordes SGAE 370.481
6.      Agarimo Banda de Música de Ordes 2004
7.      Amor de mis amores Cod. SGAE 4.199.645
8.      Angelillo Cod. SGAE 370.454
9.      Aragón Cod. SGAE 4.220.527
10.  Aragón y sus cantares SGAE 4.223.343
11.  Aromas campesinos: capricho popular. Grav. Banda de Música de Sober, 1984
12.  Arrenégoti (sic) demo Cod. SGAE 4.917.794 
13.  Arrojo y valentía. Cod. SGAE 370.593 
14.  Aturuxos: pasodobre. Cod. SGAE 370.644
15.  Bandera de mi patria Cod. SGAE 4.245.367
16.  Bienvenida Cod. SGAE 4.263.955
17.  Campanas de Oro: jota Cod. SGAE 392.560
18.  Cantares Cod. SGAE 4.293.286  
19.  Cantigas da ría Cod. SGAE 392.680
20.  Colección bailables Cod. SGAE 4.334.866
21.  Cruz de moda Cod. SGAE 4.365.997
22.  Despertar (sic) chiquillas Cod. SGAE 4.422.314   
23.  Despistado Grav. Banda Unión de Guláns 1977
24.  E si mo deches foy no muiño [E si mo diches foy no miño] [Ei si no diches foy no miño] SGAE 415.951
25.  El pájaro pinto Cod. SGAE 459.175
26.  El rey de los gitanos: pasodobre Cod. SGAE  467.539 
27.  El vals de moda Cod. SGAE 4.885.705
28.  El veterano Cod. SGAE 4.898.652
29.  En el molino Cod. SGAE 4.472.542 
30.  Entra y resala a la virgen Cod. SGAE 4.481.983
31.  Fantasia gallega Cod. SGAE 142.441
32.  Flores de la calle Cod. SGAE  423.036 
33.  Flores y claveles Cod. SGAE 423.042 
34.  Guay guay Cod. SGAE 792.541 
35.  Héroes y mártires Cod. SGAE 4.663.636
36.  Invocación Cod. SGAE 432.697
37.  La sin hueso Cod. SGAE 4.575.570
38.  La vida es un cabaret Cod. SGAE 4.896.410 e 4.897.261
39.  Los héroes de Jaca Cod. SGAE 4.542.867
40.  Los zapateros ambulantes Cod. SGAE 4.926.858
41.  Maruxiña a Madalada [Mafalada] Cod. SGAE  444.960 
42.  Miña roxeira Cod. SGAE 4.642.812
43.  Morra o conto Cod. SGAE 445.144
44.  Música Maestro Cod. SGAE 4.663.636
45.  Natividad Cod. SGAE 4.680.211
46.  Negrita Cod. SGAE 4.667.106
47.  Negrito Cod. SGAE 4.667.396
48.  Niña roxeira Cod. SGAE 4.673.119
49.  Nosa Terra Cod. SGAE 451.770
50.  Pepa Banda Unión de Guláns 1977
51.  Pepita Quintana Cod. SGAE 4.709.679
52.  Plátano verde Cod. SGAE 459.374
53.  Recordo nº 9. Grav. Banda Orquesta Municipal de la Coruña. 1977
54.  San Benitiño Cod. SGAE 4.790.794
55.  Si ma deches rio miño SGAE 4.811.085
56.  Silencioso [silencio]: Vals Cod. SGAE 6.419 Arquivo da Biblioteca digital hispánica: http://bdh.bne.es/bnesearch/detalle/bdh0000039318
57.  Solo o con leche Cod. SGAE 4.823.120 
58.  Te mareas Cod. SGAE 4.842.131
59.  Tierra gitana Cod. SGAE 4.855.478
60.  Una tarde en Zaragoza Cod. SGAE  484.938 
61.  Una vez en la Habana Cod. SGAE 4.880.706
62.  Unha noite no muíño Cod. SGAE  4.885.870
63.  Viva la legión Cod. SGAE 4.900.786
64.  Vivan os mariscos Grav. Os Montes de Lugo.
65.  Yo Ya Cod. SGAE 4.923.403
66.  Yo Yo Manía Cod. SGAE 4.924.137
67.  Zumba Loureiro Grav. La Lira Ribadavia 1995 Cod. SGAE  492.004

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sexta-feira, 10 de outubro de 2014

nº 190 O incidente de La Bombilla, Filgueira Valverde e o reintegracionismo.


Em 31 de julho de 1931 aparece publicado no jornal La Libertad o seguinte anúncio:

«A LA COLONIA GALLEGA
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Banquete-homenaje popular

El banquete a los diputados galleguistas Villar-Ponte, Castelao y Pedrayo tendrá efecto el próximo domingo, a la una y media, en el restaurante Casa Juan de la Bombilla.
Las tarjetas para asistir a dicho acto podrán adquirirse en el hotel Regina, Ateneo de Madrid, bar La Perla, Infantas, 26 y en la librería Puga, Paz, 5, en todo el día de hoy viernes.
Los entusiastas y simpatizantes de las glorias gallegas deben apresurarse a adquirir las tarjetas en el tiempo indicado.
Habrá brindis en gallego.» La Libertad. Ano XIII, nº 3.545 6ª feira, 31 de julho de 1931.

O ato teve lugar, com efeito, o domingo 2 de agosto do 1931 e o que lá aconteceu provocou uma violenta reação na imprensa madrilena. 

«En la presidencia se sentaron con los festejados el ex fiscal general de la República y magistrado del Tribunal Supremo D. Javier Elola, el presidente del Lar Gallego, Sr. García Martí: el representante de los gallegos residentes en Buenos Aires y diputado a Cortes por la Coruña Sr. Millares y otras personas.» El Sol. Ano XV, nº 4.360 3ª feira, 4 de agosto de 1931.

Tal vez por um erro da agência, os jornais batizaram a Suárez Picallo como Sr. Millares, reproduzindo, isso sim, a parte do seu discurso mais comprometido.

«Todos los presentes somos emigrantes, pues yo no se que está más lejos de Galicia: si Buenos Aires o Madrid.»
«Formaremos parte del conjunto ibérico si vamos a partes iguales: como hermanastros, no."Ibídem.

A seguir, sem maiores incidentes, falaram:

- O secretário de La Casa del Pueblo, Sr. Cortés, utilizando o galego ao princípio para posteriormente finalizar o seu discurso em castelhano.
-  D. Laureano Gómez Paratcha, deputado pelo FRG e ex-presidente da câmara de Vila Garcia (1922-1923). Fez grandes elogios dos homenageados, mais isso sim, em castelhano.
- Castelao que utiliza o galego.
- García Martí, o castelhano.
- Vilar Ponte, obviamente também em galego, lembrando-lhe aos presentes que a nossa língua e entendida por milhões de pessoas em Portugal e as suas colónias e mais no Brasil.

O ambiente de celebração que se vivia até este momento vai mudar repentinamente com a intervenção de Otero Díaz *[Em realidade Alejandro Otero Fernández (1888-1953) Socialista]:

«El señor Otero Díaz* dice que habla en castellano porque la mayoría de los oradores lo hicieron en gallego. Tiene un cálido elogio para las lenguas castellana y gallega, y afirma que Galicia unida a España, triunfó en el mundo. (Una pequeña minoría de los comensales protesta ruidosamente contra las palabras españolistas del orador. Se oyen vivas a Galicia libre, contrarrestados por los de ¡Viva España!, y alguno pide a grandes voces la cabeza de los castellanos). El señor Otero Díaz, a pesar del escándalo, no pierde la serenidad, y continuó su discurso diciendo que el rango universal de la región gallega no existirá sin la unidad española. Pide autonomía administrativa y aconseja luchar contra las opresiones sociales. (Las protestas e insultos menudean y el grupo reducidísimo de separatistas grita desaforadamente, situándose en la presidencia detrás del señor Otero Pedrayo).» El Siglo Futuro Ano LVI nº 17.209 Terça feira, 4 de agosto de 1931.

O número de indignados pelas palavras de Otero Fernández varia segundo a tendência política do jornal — El siglo futuro era um diário católico muito conservador — mas todos destacam que se tratava duma pequena minoria.
O último orador, nada menos que Otero Pedraio, protegido pela sua improvisada Guarda de Corps e no fragor da batalha, afirmará:

«[...] que si las cortes negasen a Galicia su autonomía, ella sabría ganársela, pues no le habría de faltar el apoyo entusiástico de los hermanos de raza como Portugal.
Si se nos concede la libertad, seremos hermanos: pero si la Federación no prospera, sermos enemigos de todos los pueblos hispánicos.[...]
El Sr. Otero Pedrayo fue muy aplaudido, y al finalizar su discurso entona, en unión de cinco o seis comensales, el himno regional.» El Sol Ano XV nº 4.360 Terça feira, 4 de agosto de 1931.

Com estas palavras, o catedrático ourensano fere o orgulho espanholista, fazendo que se mobilizem não só as forças mais conservadoras como as mais progressistas. Na primeira plana de El Sol aparecerá um editorial cujo cabeçalho pedirá Serenidad ante todo ao Sr. Otero.

«[...]si las cortes constituyentes —afirmó el Sr. Otero— no nos otorgan la autonomía, sabremos conquistarla, con la ayuda de nuestros hermanos de raza los Portugueses.
Medite el Sr. Otero Pedrayo la gravedad de estas palabras, que la Prensa ha difundido. No las interpretemos literalmente, ni desprendamos de ellas que el separatismo de Galicia está en pie. La realidad basta para aquietarnos por otra parte. Si el Sr. Otero Pedrayo pronunciara en Lisboa el sermón, alegato o arenga que anteayer pronunció en el banquetede la Bombilla, ¿sería tan bien comprendido como lo fue en Madrid?
Un escritor gallego y un escritor portugués no se entienden dialogando en sus idomas respectivos. Recurren siempre al castellano, y algunas veces a otros idiomas universales como el francés y el inglés. No nos negará el Sr. Otero Pedrayo que las cosas suceden así.» Ibídem.

Pois sim, o Sr. Otero Pedrayo vai negar que as coisas aconteçam desta maneira. Numa primeira página para conservar nos anais do galeguismo, o jornal El Sol publica a resposta do mestre ourensano num artigo emparedado entre os de Joaquín Poza Juncal e Bibiano F. Osorio Tafall — que deixam clara a sua distância a respeito do galeguista — e o de Eugenio Montes.
Muito brevemente, Otero Pedraio cancela qualquer debate sobre as palavras por ele pronunciadas no Café Juan.

«No quiero decir nada de la información del banquete dedicado en la Bombilla a tres diputados galleguistas. Es la misma, con sólo una excepción publicada por la Prensa del día, y el mero hecho de cambiar los nombres de los oradores y describir absurdamente hechos vistos por todos no le concede la suficiente autoridad. Sólo quiero hacer constar — y hablo exclusivamente en mi nombre — que se acabó la Galicia que venía a suplicar, y existe una Galicia que sólo aguarda una absoluta igualdad de trato para sentirse española. No soy un audaz ni busco el escándalo. Por eso al hablar de Portugal tenía que emplear palabras propias de un buen gallego, y en ellas me refería a la ayuda moral, nunca ausente, de la nación que hablando nuestro mismo idioma, es considerada en Galicia como hermana. Es extraño que un gran periódico tan bien entereado como El Sol incurra en el tremendo error de creer que los escritores gallegos y portugueses tienen que apelar al castellano para entenderse entre sí. » Ibídem.

Numa entrevista publicada no Diário de Lisboa só uns dias antes da celebração do banquete, Otero Pedraio expunha a um jornalista português a sua opinião sobre as afinidades galaico-portuguesas:

«Sim. Queremos muito a Portugal e desejamos intensificar as relações já existentes com os seus intelectuais. A literatura lusitana, verdadeiramente monumental, é muito conhecida entre nós. Em Santiago há, presentemente, uma cátedra livre de português regida por Hernani Cidade.Há vinte anos, Eça de Queiroz era mais lido na Galiza do que a própria Condessa de Pardo Bazán, a grande escritora galega. Já vê... Saúde, pois, por nós, Portugal e a sua grande colónia galega.»
Dada a importância que para nós tem a entrevista que o Diario de Lisboa faz a Otero Pedraio deixo-vos aqui o link: Diário de Lisboa

Todo o dito até agora tem a ver com a repercussão que as declarações do catedrático ourensano teve na imprensa espanhola. Mas, e na galega? Qual foi a receção das suas palavras?
Em 6 de agosto, El pueblo gallego amanecia com o seguinte titular:

Fonte: Galiciana

Com tudo, a resposta desde a Galiza, como cabia supor, não foi unânime. Jornais como El Pueblo Gallego publicaram artigos solidários com Otero Pedraio da autoria de vultos do galeguismo como Vilar Ponte ou Victor Casas, ou mais conciliadores como o de Joaquin Poza e Osorio Tafall, do teor do publicado em El Sol, do que já falei anteriormente. Noutros jornais, como El Progreso, o incidente de La Bombilla mesmo é motivo de chacota.
Em 9 de agosto do 1931 é José Filgueira Valverde quem escreve sobre as palavras de Pedraio num breve que nos vai servir para reflexionar sobre o seu reintegracionismo, ou quiçá ainda melhor, pragmatismo lusófono.
O texto de Filgueira não deixa lugar a dúvidas sobre as suas intenções:

«Andaba eu a escribir unha morta prosa hestórica sobre a nosa "boa vila", cando veu desacougarme esa barafunda que argallaron os paifocos de Madrid porque Otero Pedrayo acendeu unhas verbas na mais hispanica lusitanidade. E xa que o esprito non dá tino para enfiar hestorias falaremos un anaco de noso portuguesismo de sempre.»


Artigo completo.

Quando diz "o nosso portuguesismo" está a falar em "plural majestático", refere-se a ele e Otero Pedraio, aos galeguistas no seu conjunto? Pois parece que ao nacionalismo, esse grupo iconicamente representado pela palavra NÓS, e do que Filqueira Valverde cindirá, a partir do 1935, um oportuníssimo NOS-OUTROS.

«E precisamente nós, os nazonalistas, os que na Galicia de hoxe fixemos por amostrar os camiños novos e vellos de ese inmorredeiro "espirit europee" que a África intentou sempre arrincarnos, temos de facer de esa Santa María tan nosa e tan allea, tan vella e tan nova, un símbolo do noso futuro. Si nós lle preguntásemos hoxe o esprito de esta obra cal era a sua nacencia reposteríamos con aquelas verbas estrictas e amantes de Juan de Grajales:
—Soy portugués español.»

Eis o núcleo do seu pragmatismo lusófono: A Galiza como cavalo de Troia para recuperar à [h]espanholíssima nação portuguesa.
Em 1939, ainda não terminada a Guerra Civil, o Instituto de España publicava um manual de história  com um texto para escolares de segundo grado. Nas notas preliminares podemos ler:

«Por eso España es una península rodeada toda de mar, salvo en la parte que se une con Francia. Por donde se une a Francia, se levantan, como altísimo vallado, los Pirineos: por todo el resto de su perfil la limita el mar. Es verdad que dentro de esos límites clarísimos, hoy, además de España, existe otra nación: Portugal. Pero esto no pasa de ser una división puramente artificial y política, cuya razón ya estudiaremos. Portugal estuvo mucho tiempo unido a España; luego se separó; luego volvió a unirse y a separarse al fin. No porque sea, pues, una nación distinta, hemos de considearlo como un extraño. Es un hermano que no por vivir en un cuarto distinto dentro la misma casa, deja de ser hermano y tener nuestra misma sangre.» Manual de la historia de España. Segundo Gado.Instituto de España[Santander;Aldus S. A de Artes Gráficas] 1939. p.7-8

Como se sabe, Portugal era uma das grandes aspirações de Franco que sonhava com ser amo e senhor da península, algo que preocupou — e muito— a Salazar. Os galegos hão servir de ponte cultural, galegos como Filgueira Valverde, como Eugenio Montes, como Fraga ou como o próprio Franco. Os galegos utilizados como uma escusa, mas também uma Covadonga desde a que encenar a reconquista.
Que entre galegos andava a coisa tinha-o claro até o ex-presidente português Mário Soares:

«Fraga me aseguró que Franco, como gallego, no atacaría a Portugal.» La Voz de Galicia. 20/04/2014

Em 1958, a editorial Labor publica Camoens, um novo volume dos seus Clásicos, encomenda feita anos atrás a Filgueira Valverde. Uma vez mais, o diretor do Museu de Ponte Vedra põe toda a sua erudição — imensa — e a sua narrativa — esplêndida — ao serviço da causa ibérica. E para essa causa nada melhor que glosar a Luís Vaz de Camões, um neto de galegos que se auto-qualificava «príncipe dos poetas de hespanha». Um simples "h" que nos afasta da España Imperial e castelhana e nos achega a uma casa comum plurinacional. As palavras apócrifas de Camões, aquelas que dizem Falai de castelhanos e portugueses, porque espanhóis somos todos, resultam perfeitas. Volvendo ao artigo que Filgueira escrevera em desagravo de Otero Pedraio em El Pueblo Gallego, vemos o uso diferenciado que o autor faz dos termos Hespanha e Castela:

«Si Otero Pedrayo gozara a hipermnesia que me aponen, e pra min quixera, tomando o precedente dos galegos que pra figurar se facían pasar por portugueses na vella corte das Hespañas, tamén houbera contestado así ós "clercs" madrileños —non quero dicir casteláns— que teñen posto todo o seu empeño en decir que Portugal está no "extranxeiro".
Porque este é o esprito do nazonalismo galego que xa vai significando a derradeira espranza do "gran feito hispánico".»

Como limpo resumo a todo o pensamento filgueiriano arredor do conceito «Hespanha» e «Camões hespanhol», transcrevo integra a sua introdução ao Camoens de Clásicos Labor.

«Camoens parece ausente de las letras españolas de hoy: apenas se traduce, se lee poco, cada vez se le cita menos. Shakespeare o Goethe son más familiares a nuestros lectores, que lo clasifican, al lado de ellos, como a un extranjero. Y, sin embargo, Camoens no es un escritor ajeno a nuestras letras: es nada menos que un clásico español. Si alguna tesis se sostiene en mi libro, es ésta, que, por igual, es motivo de ufanía para las gentes de los pueblos peninsulares, cuya sangre lleva y en cuyas dos lenguas ejerció su arte. Pero ni la oriundez gallega, ni el bilingüísmo, ni siquiera el que se hubiese definido él mismo como «hespanhol»... bastarían para clasificarlo entre nuestros clásicos. La razón es mucho más honda. Camoens constituye un eslabón en la áurea cadena de la lírica peninsular, cuyo estudio no es posible fragmentar, y, sobre todo, es quien lleva a su culminación la épica. Os Lusiadas, como dijo Ramiro de Maeztu, son nuestra epopeya, y "en ellos se hallala expresión conjunta delgenio hispánico en su momento de esplendor... Donde acaban los Lusiadas comienza el Quijote". Estas frases, que sirven de acorde inicial al más sólido de los libros portugueses contemporáneos sobre su obra, tienen que ser también lema del nuestro. Porque Camoens, que fija la lengua portuguesa y "re-crea" toda una conciencia colectiva en la crisis más grave de la vida nacional de su Patria, que es el cantor de su personalidad y el exaltador de su antagonismo político y de su independencia, podría gritar, con mejores títulos que nadie, a semejanza de cierto personajede Juan de Grajales:

—¡Soy portugués español!

Por su valor de símbolo de una superior unidad espiritual, por su calidad cimera, porque en su obra confluyen las más hondas y vivificantes corrientes de la poesía de Occidente, y porque de él se nutren venas nuevas, por dominar una encrucijada de pueblos, de lenguas, de tiempos y de ideas, Camoens merece ocupar en la historia de nuestras Letras y en la estima de nuestros lectores un lugar inmediato al de Cervantes.
Para rescatarlo del muerto fichero de la Literatura universal, y traerlo al caliente hogar de las Letras propias, se ha escrito este libro, mera guía para nuevos lectores de Camoens. Nadie espere hallar en sus páginas revelaciones ni novedades. No es obra de investigación directa ni tiene, como hoy se dice, un afán exhaustivo. Si logra alcanzar sus fines, aun siendo tan poco significante y de tan corto aliento, habrá hecho algo grande en vuestro favor. El autor espera que le retribuyáis con vuestra indulgencia.
J.F.V.
Museo de Pontevedra, 1953»

Nota: Para o tema Hespanha paga a pena ler a Carlos Calvo Varela.

Em 1982, a Livraria Almedina publica a versão portuguesa do Camões de Filgueira. Na minha opinião, uma muito boa tradução feita por Albina de Azevedo Maia onde só falta uma coisa, as dedicatórias que si apareciam no texto em castelhano.

«Al Dr. Hernani Cidade de la Universidad de Lisboa
Al Dr. Costa Pimpão de la Universidad de Coimbra.
Mis maestros en Camoens. 
J. Filgueira Valverde» 

Os doutores Hernani Cidade (1887-1975) e Costa Pimpão são dois clássicos dos estudos camonianos. O primeiro, além disso, foi professor do Instituto de Estudios Portugueses da Universidade de Santiago de Compostela, fundado pelo reitor Rodríguez Cadarso em 1931.

Remate.

O autor do artigo Serenidad ante todo, publicado no jornal El Sol, atacava a Otero Pedraio dizendo-lhe que os autores portugueses e galegos não se percebiam mutuamente e tinham que recorrer a uma língua franca como o castelhano ou o inglês para poder conversar. Isto doeu-lhe especialmente ao catedrático ourensano, achacando tal opinião ao desconhecimento da nossa realidade. Numa postagem anterior, a nº 188, contava eu como o Filgueira foi dar uma palestra a Lisboa no 1948, falando ao público lá presente em castelhano. Ir a Portugal e falar em galego era em plena ditadura uma provocação na que não ia incorrer o velho professor. Já em novembro de 1934, umas semanas depois da Revolução de Outubro, Filgueira recebia uma carta do seu amigo o antropólogo português Santos Júnior:

«Quanto ao pedido que me faz sobre a língua em que devem ser feitas as conferências, troquei impressões com o Prof. Mendes Corrêa e ainda com um vosso patrício, inteligente e culto, embora nada galeguista, que foram de acordo que sendo a semana da cultura galega ninguem poderia estranhar que fôsse feita em lingua galega. Entretanto, e é essa também a minha opinião, dados os últimos acontecimentos em Espanha para que não fosse ou pudesse ser mal interpretado esse facto, é conveniente que algumas sejam feitas em castelhano.» ALONSO ESTRAVIZ, Isaac Santos Júnior e os intelectuais galegos. [Ourense;Fund. Meendinho]

Mais uma vez o pragmatismo filgueiriano. Longe de apaixonar-se, analisa tudo pormenorizadamente, pergunta, consulta, troca pareceres e ao final, atua como melhor convêm ás suas aspirações pessoais.

Outra das características no comportamento do Filgueira é a estrita hierarquização dos valores que configuram a sua pessoalidade. Era católico, de dereitas e galeguistas. Sei que há pessoas que duvidam do galeguismo do velho professor. Eu, não. A questão é que para ele a defessa da religião católica esteve por cima de qualquer outra coisa. Para ele e para os companheiros cindidos da Direita Galeguista.

«Religião.
10. Consideramos a Religião Católica como fundamental da tradição galega enxebre, coa que é consubstancial e inseparável. Declaramos que uma autêntica cultura galega tem que estar decote inspirada na conceção católica do mundo e da vida humana e no sistema de valores éticos, estéticos e científicos que o catolicismo representa.
11. Em todo caso apoiamos a liberdade da Igreja Católica como pessoalidade jurídica, em regime concordatário com o Estado e com todas as garantias jurídicas que protejam os direitos dos crentes.
Problema obreiro
15. Apoiamos nisto, todos e cada um dos pontos das Encíclicas chamadas sociais dos Romanos Pontífices.» Bases para o programa da Federação de Forças Nacionalistas e Galeguistas de direitas. Abril de 1936

Uns meses depois da difusão deste manifesto estourou a Guerra Civil espanhola. Os oportunos Nós-outros da Direita Galeguista ficaram, mormente, bem colocados. Outros galeguistas, católicos e direitistas pagaram com a sua vida inverter a ordem de prioridades.

Camoens XIX Clásicos Labor [Barcelona; Editorial Labor S. A.] 1958

 Camões 47 Colecção Novalmedina [Coimbra; Livraria Almedina] 1982