quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

nº 215 O síndrome de Sherlock ou a guitarra de Strindberg.


O síndrome de Sherlock ou a guitarra de Strindberg.

Quando Sherlock (1854-?) abandonava o seu mundo de caçador de assassinos e trapaceiros, mergulhava-se no estudo, nas drogas ou/e na música. Quando pegava no violino para tocar A barcarola de Hoffmann ou qualquer uma das suas improvisações, a música resultava uma pomada para as queimaduras do tédio. Violino, xícara de chá e sanduíches, o seu coquetel anti-aborrecimento. E postos a escolher, melhor isto que o cachimbo ou a cocaína dissolvida ao sete por cento. Mas o que acabamos de dizer coloca-nos na sequência de qualificar a Sherlock numa categoria de músico –ou melhor ainda– procurar uma definição à sua atitude fronte a música. Ele pode ser um diletante ou músico amador, ambas as duas palavras cheias de conotações tantas vezes pejorativas e inexatas. No dicionário Priberam encontramos algumas definições turbadoras do verbete Diletante:

1. Amador de um arte ou literatura.
2. Que ou quem é entendedor ou apaixonado de uma arte ou a ela se dedica por gosto, especialmente à música.
3. Que ou quem se dedica a algo por prazer e não como modo de ganhar a vida.
4. Que ou quem procura o prazer ou tem uma atitude superficial, sem mostrar maturidade, profundidade ou responsabilidade. [O negrito é meu]

A série de definições parecem ir de mal em pior e dão para uma tese sobre a visão que sobre o músico e a música tem a sociedade ou quiçá apenas os académicos da língua. Assim, a definição nº 1 fala do diletante como amador de um arte ou literatura. Parece excluir, portanto, a quem exerce o ofício de jeito não remunerado. Não haveria, com justiça, que incluir no epígrafe de músico profissional a quem com vontade de cobrar pelo seu trabalho não encontra onde? Mas a coisa piora na segunda aceção. Diletante é aquele, disse-nos, quem entendendo ou apaixonando-se por uma arte, dedica-se a ela por gosto. Um músico apaixonado que desfrute do seu trabalho será, ou isso nos conta o dicionário, sempre amador, independentemente de quanto cobre pelo show. A definição 3 aprofunda nesta triste visão pecuniária do ofício: o amador dedica-se por prazer à música e não como modo de ganhar a vida. Vaia! E não será que os não amadores nos dedicamos a música também por prazer e o fato de ganhar-nos a vida é como consequência de exercer a profissão com certo decoro? Mas é o epígrafe 4 o que mais me confunde. O amador quase aparece como uma espécie de depravado musical, um hedonista superficial, infantil e profundamente irresponsável. Meu Deus! Parece que está a definir a imagem que temos de, por exemplo, o amador Mozart.

Com todo este circunlóquio queria chegar a onde? Pois a quanto há de relativo nisso de falar de músicos amadores e profissionais e por essa relatividade, quanto de injusto pode haver numa taxonomia de personagens históricos catalogados em função deste dualismo. A seguir quisera falar da relação que poetas, dramaturgos, pintores, escultores, médicos, advogados… tiveram com a música através do contacto, quase sempre doméstico, com um instrumento e como este contacto é sintoma ou terapia, em muitos casos, dos seus desequilíbrios emocionais.

A terapia de Sherlock.

«Meu amigo era um músico entusiasta, e não só tocava muito bem, como ainda era compositor de grande mérito. Passou a tarde inteira na poltrona mergulhado na mais perfeita felicidade, movendo delicadamente os longos dedos finos no compasso da música, enquanto seu rosto sorridente e seus olhos lânguidos e sonhadores eram totalmente diferentes dos de Holmes, o cão de caça; Holmes, o implacável, de mente aguçada, perseguidor de criminosos.» A Liga dos Ruivos. Arthur Conan Doyle.

Uma terapia é um tratamento de doenças ou distúrbio psíquicos. A música –como aparece testemunhado quando menos desde os papiros de Lahum– é utilizada em medicina com diferentes fins mas fundamentalmente para melhorar a qualidade de vida dum paciente. Às vezes esta melhora e curativa, outras apenas paliativa; a música pode ser placebo ou panaceia; estimulante ou narcótico… Para muitos, a música é uma medicina que devemos tomar diariamente como antídoto contra a mediocridade e auxílio fronte os ataques despiedados da fealdade. Esta ideia de tábua de salvação está em Sherlock.

«Puxe sua cadeira para perto e dê-me meu violino, pois nosso único problema agora é como passar essas noites sombrias de outono.» O nobre solteiro. Arthur Conan Doyle.

Os afetados polo Síndrome de Sherlock não são simples diletantes, senão que a música é uma necessidade vital, um sintoma dos seu esteticismo exacerbado, do seu desequilíbrio emocional ou do seu transbordamento artístico. Sempre uma contradição: a música é um break criativo num contínuo criar.

Nietzsche vs Rosseau. 


«La conversación se anima. Nuestro músico, que resultó ser profesor, há conseguido concentrar la atención de todos. ¿Cómo? ¿Nietzsche compositor? Acaso ejerció la música en forma profesional? ¿Cuál fue su carrera en este ámbito? Se estrenaron sus obras? Ninguna respuesta parece satisfacer a la tertulia. Se origina entonces una discusión alrededor de las categorías "profesional/aficionado". El profesor, enojado, pregunta si alguien conoce algún "poeta profesional". "Es más –dice casi enrojeciendo– Nietzsche ni siguiera fue un filósofo profesional. Lou Andreas Salomé, su discípula, la mujer que él amó y que lo dejó sufriendo en carne viva al rechazarlo, sabía mucho más de filosofía que él. Pero él era el filósofo, y no ella. En rigor, ni la poesía, ni la filosofía ni la música son «profesiones» en el sintido corriente del término (por lo que mal puede alguien convertirse en «profesional»). Las profesiones sirven para conseguir algo bien concreto y estas actividades son completamente inútiles para eso. Entiéndase: no son utilitarias. En el momento en que «sirven» a un fin ulterior a sí mismas, (cualquiera que sea: sustento, reconocimiento, etc.), se contaminan y se marchitan. Es por eso que prefiero pensar que en este terreno nadie pasa el nivel de aprendiz. O, si ustedes quieren: de "aficionado".» SCHULKIN, Claudio Nietzsche compositor in A parte rei. Revista de filosofia. Ano 2002, nº 19 [http://serbal.pntic.mec.es/~cmunoz11/nieto.pdf]

Parece que Nietzsche teve uma educação musical muito básica, mas ele sempre teve vocação de músico. Quando aprendeu a falar, a escrever, a pensar, desenvolveu além disso, um mecanismo de imunização chamado música: «A minha melancolia quer descansar em sítios escondidos e em abismos de perfeição. É por isso que preciso de música.» A Gaia Ciência. A crítica musical tende a desvalorizar a obra de Nietzsche, em oposição ao contexto no que nasce. Comparar o talento musical do filósofo com o de Listz ou Wagner resulta sumamente injusto, pois quantos há, na altura, comparáveis a estes? Disse que a sua gramática e sintaxe musical continha erros que resultavam insuportáveis para Hans vön Bülow, primeiro marido de Cósima. Mas se escutamos as composições de Nietzsche sem prejuízos –nem positivos, nem negativos– estou certo que podemos apreciar a beleza e inspiração de muitas das suas composições como as tituladas Herbstlich Sonnige Tage 1867 [para quarteto vocal misto com acompanhamento de piano], So lach doch mal ca. 1862 [para piano], Das “fragment an sich” 1871 [para piano]… Esta última peça é para mim todo um tratado de filosofia escrito sobre um pentagrama. O título que poderíamos traduzir como Fragmento em si  –«assaz esquipática tradução» em expressão de Lopes Graça– resulta do mais eloquente. Para Nietzsche, ao igual que para o seu mestre Schopenhauer, a música é a mais elevada das artes. A música não precisa de levar associado um texto, nem sequer uma correspondência com um tema ou motivo concreto. Dizia Shopenhauer

«Com certeza, em geral, se uma correspondência entre uma composição e uma apresentação intuitiva é possível, deve-se a que ambas constituem somente expressões inteiramente distintas da mesma essência interna do mundo. Quando, em um caso individual, uma tal correspondência realmente procede, portanto o compositor soube exprimir os movimentos da vontade, que formam o cerne de um evento, na linguagem geral da música, então a melodia da canção, a música da ópera, são expressivas. Porém a analogia encontrada entre ambos pelo compositor deve ter-se originado do conhecimento imediato da essência do mundo, inconsciente de sua razão, e não deve se constituir em reprodução, mediatizada numa intencionalidade consciente por conceitos, pois neste caso a música não expressaria a essência interna, a vontade ela mesma, mas somente copiaria de modo imperfeito o seu fenómeno; como aliás ocorre em toda música imitativa, p. ex.: “As estações do ano” de Haydn, e também a sua “Criação” em muitas passagens, em que fenómenos do mundo intuitivo são reproduzidos diretamente; da mesma forma, todas as peças de batalhas, o que deve ser rejeitado totalmente. » O mundo como vontade e representação. L.III; § 52.

O Fragmento de Nietzsche começa com a indicação Sehr langsam, muito devagar, em piano, até o final do pentagrama, só modificado no compasso 13 pela indicação anschwellend, algo assim como inchaço, com a que tal vez o artista pretendia dar mais corpo aos seguintes compassos sem abandonar o espírito saudoso geral da composição. A última recomendação do autor está no final onde podemos ler Da capo com malinconia. Não era por causa da melancolia que Nietzsche precisava da música? Esta peça termina com o pentagrama aberto como prova definitiva de ser um simples fragmento. Uma beleza!


Henri Rousseau (1844-1910) andou, em certo modo, o caminho contrário ao filósofo alemão. O Aduaneiro foi músico militar, na armada francesa, onde tocou o cornetim. Também sabia tocar a mandolina, a flauta... mas o instrumento que lhe ajudou a ganhar a vida foi o violino. Em realidade o seu percurso vital tem muito a ver com o do nosso Eugénio Granell (1912-2001). Ambos eram violinistas e os dois se fizeram pintores com certa idade: Rousseau com mais de quarenta e Granell cerca dos trinta. O pintor francês decidiu em certo momento da sua vida deixar a sua atividade profissional de aduaneiro e dedicar-se em exclusividade à pintura. Em realidade, o de em exclusividade é um bocado exagerado: para ajudar à economia familiar Rousseau dava aulas de violino e passava o chapéu no Jardin das Tuileries.
1906

Num livro fantástico, um dos que assenhoream a prateleira dos meus sonhos, titulado El París de Kiki, Artistas y amantes. [Barcelona; Tusquets] 1990, aparecem algumas fotografias belíssimas de escritores e pintores abraçados ao seu instrumento. Uma série extraordinária estaria constituída por um grupo de autorretratos realizados pelo dramaturgo sueco August Strindberg (1849-1912) em 1886.


Autoretrato, August Strindberg 1886 


Autoretrato, August Strindberg 1886

O multiartista Strindberg era uma pessoa com esquizofrenia paranoica, vitima de mania persecutória. Numa etapa na que estava obsesso pela alquimia e vivia no Paris pós-impressionista, participava de festas na casa de Gauguin onde «tocaban la guitarra, la mandolina y el piano; se vestían com trajes de época y recitaban fragmentos de teatro.[…] Alfred Jarry traía a su amigo Heri Rousseau, quien en ocasiones improvisaba animados conciertos de violín.» El París de Kiki...
Em 1893 Strindberg estava casado com uma mulher fascinante: Frida Uhl (1872-1943). Dela fala num opúsculo que constitui um formoso arrazoado à importância do azar na criação artística e cujo título podemos traduzir como: As novas artes ou o azar na criação artística. Setrindberg conta-nos aqui um episódio autobiográfico a respeito da sua faceta como guitarrista: 

«Eu estava procurando uma melodia para uma peça chamada Samum, que está ambientada na Argélia. Com tal motivo, afinei meu violão aleatoriamente, afrouxando as cravelhas ao azar, até encontrar um acorde que transmitia a impressão de algo extremamente bizarro, sem ultrapassar os limites da harmonia.
A melodia foi aceite pelo ator que desempenhou o papel; mas o diretor, sumamente realista, exigiu uma melodia autêntica ao saber que a minha não era genuína. Então encontrei uma coleção de músicas árabes e as mostrei ao diretor, mas ele as rejeitou todas e, finalmente, concordou em que a minha pequena música era mais "árabe" do que as genuínas.
A canção foi executada e me trouxe uma certa dose de sucesso, e, todavia, um compositor, então em voga, veio pedir minha permissão para escrever uma composição baseada na minha pequena música "árabe", a qual o tinha impressionado
Aqui está a minha melodia, composta ao azar: Sol, #, Sol ♮ (sic), Sib, Mi.
Eu conheci um músico [parece que se trata do escritor e pianista Przybyszewski] o qual gostava de afinar o seu piano de qualquer jeito, tocando depois, de memória, a Pathétique de Beethoven. Foi um prazer incrível ouvir essa velha peça agora rejuvenescida. Durante vinte anos, escutei a este pianista tocar essa sonata, sempre idêntica a si mesma, fixa, incapaz de evoluir, sem esperança de vê-la desenvolver-se. Desde então, eu faço o mesmo na minha viola com as melodias gastadas. Os guitarristas invejam-me e me perguntam onde encontrei essa música; Eu lhes digo que não sei e eles acreditam em mim como compositor.
Uma ideia para os fabricantes de realejos atualmente muito em voga! Façam alguns furos aleatoriamente arredor do disco que porta a melodia e vocês terão um caleidoscópio musical.» Des arts nouveaux ! ou Le hasard dans la production artistique Revue das Revues. 15/11/1894 [s.n;Paris] Tradução do original em francês pelo autor deste trabalho.

O texto de Strindberg é divino e amostra, alem da importância que para ele o azar devera ter nas artes, a sua relação quotidiana com a guitarra na que mesmo experimenta afinações alternativas, chegando a influir na encenação duma das suas peças teatrais. 

Algum exemplo galego.

«Al suscrito se le olvidaba una interesante cosa de tu afecto: el piano donde reproducías frases celestes de la música universal entrenando tus ágiles dedos para las cirugías, retemplando a un tiempo el espíritu contra el dolor humano y la ingratitud; dile a tu clave que ya oyes en el órgano inmenso de los cielos, el magníficat de tu glorificación...» El Compostelano: Diario independiente: Año XV nº 4151 2 de Abril de 1934 

Estas palavras foram escritas por J. Mª Moar num panegírico feito em louvor do cirurgião compostelano Ángel Baltar (1868-1934). Na altura, havia a crença de que a prática instrumental era uma fenomenal ginástica de dedos para os cirurgiões. Ángel Baltar foi o nosso Theodor Billroth (1829-1897), pioneiro da cirurgia e grande pianista, amigo íntimo de Johannes Brahms. Billroth escreveu um livro (1895) titulado Wer ish musikalish? [Quem é musical?] onde «el autor asocia de un modo muy espiritual los problemas musicales estéticos con los conocimientos fisiológicos de su tiempo, si bien es verdad que no llega a conclusiones positivas.» Médicos músicos y amigos de la Música por el Dr. Reich. in Actas Ciba 9, setembro de 1941. p. 249

Dizem que a princípios do século XX, era frequente que os passeantes da praça compostelã do Toural escutaram o piano de Ángel Baltar nos seus ensaios diários. Em 1908, o ilustre cirurgião pede ao arquiteto Eduardo Rodríguez-Losada Rebellón (1886-1973) que lhe construa um palacete de verão ao pé da praia rianxeira de Tanxil. O arquiteto corunhês, além de ser o desenhador de alguns dos mais formosos edifícios da capital herculina do século XX é autor de quatro óperas e quatro sinfonias, entre outras muitas composições musicais. Contam que quando a Torre de Baltar estava terminada e servia de residência estival da família, às vezes sacavam o piano ao jardim e realizavam serões onde com certeza se tocariam as sonatas de Mozart, Haydn e Beethoven, nos dedos dos seus invitados, entre os quais não faltariam duas grandíssimas piantistas: Olegaria (1890-1981) e Mireya (1915-2015) Dieste . Esta última, casou com um herdeiro da Torre, o também médico Antonio Baltar (1906-1970).


Torre de Tanxil


Vida Gallega 30/11/1932

Vida Gallega 20/09/1932

Poderíamos fazer uma catolagação de intelectuais galegos e galegas em relação ao instrumento que tocavam: Rosália de Castro, Avelina Valladares, Castelao... guitarra; João Pintos, Marcial Valladares, Viqueira, Granell, García Sabel... violino; Rafael Dieste, Isidoro Brocos, Xosé Manuel Beiras... piano; e inclusive falar do interesse de Manuel Antonio por aprender a tocar a gaita ou o gosto de Celso Emilio por cantar acompanhado dum adufe. Com certeza a lista seria interminável, mas há que ir concluíndo.

Como corolário a esta desordenada coletânea de dados, um último exemplo que tenho guardado no meu almário -palavra que aprendi de Lorca, outro poeta-músico– esse armário da alma onde guardamos as melhores lembranças e sentimentos. A sequência dos fatos aconteceram tal que assim:

- No Natal de 1921 nascia Jacinto Viqueira Landa, o segundo filho do casal formado por João Vicente Viqueira e Jacinta Landa Vaz. 
-Uns meses depois, (1922) o pedagogo e galeguista Viqueira compõe para ele uma formosíssima canção titulada Cantar de Berço. 
-Em agosto de 1924 João Vicente morria vítima duma antiga doença que lhe provoca uma septicémia. 
-Desta cantiga só se conhecia a letra, mas na década dos 70 o compositor ferrolano Miguel Varela põe-lhe música, sendo gravada em 1979 pela cantora María Manuela. 
-A fins dos 90, eu entro a fazer parte do grupo musical que acompanha a María Manuela, sendo o Cantar de Berço de Viqueira/Miguel Varela um fixo no nosso reportório.
-Em 2013 leio numas notas biográficas feitas por Viqueira que o pedagogo corunhês era intérprete (violino, piano...) e compositor. Depois de contactar com a família mexicana soube que não se conserva nenhuma partitura, mas há umas gravações a capela feitas por Jacinta Landa Vaz nos anos 50 em México D.F.
-Nessas gravaçoes estão incluídas três composições com música original de João Vicente Viqueira, entre as quais o Cantar de Berço.
-Finalmente a editorial aCentral Folque em 2017 edita um estudo crítico destas gravaçoes com textos meus e dos professores Domingos Morais (Universidade Nova de Lisboa) e Pilar Barrios (Universidade de Extremadura). 

Final

Ao igual que no livro do cirurgião e pianista Theodor Billroth esta postagem é uma sequência de dados certos mas sem qualquer indício de conclusões. Dizia o Antropólogo inocente que não são dados o que falta, mais bem algo inteligente que fazer com eles. Em Instrumental, o atual best-seller e livro do ano de James Rhodes, o virtuoso pianista inglês conta como a música lhe salvou a vida. Para muitos intelectuais e profissionais dos mais diversos ofícios, a música foi um lugar de descanso, um lugar onde desconetar do quotidiano, em certo modo um tipo de dissociação necessária. Para cada um destas personagens históricas tal vez a música pode ser um sintoma de algo, um paliativo, um remédio ou um placebo, mas em qualquer caso, a música é um excelente exercício para ser humano.


«Não há nada mais a dizer ou fazer hoje à noite; portanto, dê-me meu violino e vamos tentar esquecer por meia hora esse tempo miserável e o comportamento ainda mais miserável de nossos semelhantes.» Os cinco caroços de laranja. Arthur Conan Doyle.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

nº 214 Entre Cruzes. Ranhó. Rianxo.


As últimas postagens serviram-me para achegar uma hipótese sobre a natureza de tantas cruzes como há nos muros rianxeiros, na ideia elementar de que não há uma explicação nem única, nem simples. É muito provável que nunca saibamos a razão de porque alguém decidiu colocar um sinal num pé-direito da sua porta ou numa pedra qualquer de qualquer lugar, pelo que a estas alturas só posso acreditar em que as motivações foram múltiplas, algumas genuínas e outras derivadas. Com isto quero dizer que é muito possível e mesmo provável que alguma vez, ponhamos o caso, alguém colocara na jamba uma cruz onde anteriormente estivesse pendurado o mezuzá, e que outros o imitaram na ideia elementar de que a cruz dá proteção a quem crê nela e a tem presente. 
Um passeio por uma ruela de Ranhó resulta extraordinariamente ilustrativo do que as cruzes representam na paisagem urbana de Rianxo. A rua em questão parece desenhada em função do lavadoiro, uma fonte monumental com rio para lavar ao coberto. A fonte de Ranhó é o polo de atração que faz com que o núcleo urbano se estique como uma ponta de lança.

Google maps

Onde arranca a linha de cor há uma casa belíssima, de muros muito robustos e com um feitio que a singulariza das do seu entorno. Na minha opinião é uma casa barroca, possivelmente do século XVII mas com elementos reutilizados de anteriores construções, algo muito habitual em Rianxo. Num dos muros aparece uma inscrição lindíssima:

Fotografia de Tito Ordóñez.

Resulta impossível de decrifar na sua totalidade, pois parte do texto esta incrustado no próprio muro. Do que se encontra atualmente à vista arriscamo-nos a dizer que a epigrafia está encabeçada pelo anagrama de Cristo IHS [Iesus Hominum Salvator] IYª, sem sentido para mim, ANº [Ano] æ [de] I D...
Muito pertinho desta casa, encontramos outra com um magnífico arco de cortina, s. XV?. Resulta extraordinário que ainda se conserve na sua totalidade, junto com um patamar, igualmente escassos no nosso concelho.


O arco de cortina é muito comprido, lavrado numa soa pedra que forma o lintel da porta. Nalgum momento encurtou-se o vão, acrescentando uma linha de perpianhos na jamba direita, olhando desde fora. Isto leva-me a fazer uma pergunta. Estes perpianhos são os originais movidos para a direita – reenchendo o espaço criado com cachaço– ou se lavraram ex professo para a reforma? Eu acho que são as originais já que se parecem muito às da parte esquerda. Isto resulta da maior importância pois na jamba reformada, no segundo silhar começando desde o arco, encontramo-nos com um interessante graffiti.


Não sei de muitas cruzes em Rianxo marcadas numa cartela. Esta inclusive tem um rebaixe nos cantos do retângulo. Quiçá uma representação da Vera Cruz? Tendo em conta que em Rianxo existia uma capela consagrada a Santa Cruz, agora Ermida da Nossa Senhora de Guadalupe, parece provado que existiu um culto local a este símbolo do cristianismo. Na mesma fachada há outra cruz com uma cartela menos visível por estar mais exposta a erosão. Em realidade são duas, uma acima da outra, que precisariam duma luz rasante para ser vistas com maior claridade. Eu optei por marca-las digitalmente e o resultado pode não ser exato.


Ainda, no mesmo muro, há mais uma cruz, o qual faz desta fachada um caso bem esquisito, somando quatro exemplares e todavia duas com cartelas.


Seguindo a linha marcada no mapa chegamos ao rio com o seu esplêndido lavadouro. Sempre que chego a um lugar assim procuro uma cruz inscrita nalgum lugar: uma pedra isolada, um poste, um muro pertinho... É relativamente habitual encontrar estes símbolos nos lavadouros, como no Rio de Cima, por exemplo. Aqui está num poste ao pé do muro que moldura o lavadouro.


Mas a surpresa estava na fonte ou ainda melhor, na espécie de púlpito constituído pela mureta levantada sobre a abóbeda desta. 


No canto da mureta há uma sequencia de pontos e cruzes verdadeiramente curiosos. 






Os pontos ou covinhas parecem delimitar as cruzes. Entre os signos cristiãs há um que não posso interpretar mas que poderia ser uma marca de canteiro ou propriedade.

                                     

Em resumo, estamos ante uma rua rianxeira de obrigada visita e um exemplo mais das muitas surpresas que podemos encontrar-nos simplesmente com estar um bocadinho atentos nos nossos passeios rianxeiros. 



segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

nº 213 Expediente de limpeza de sangue de Martín Torrado da Figueira, 1645.


Na anterior postagem falava da tese judia a propósito das cruzes gravadas nas jambas das casas, a qual pode ser resumida em função de como estes sinais seriam uma estratégia dos cristãos novos para ocultar a sua velha religião.

Obviamente, este ocultamento teria a ver com a pressão que os judeus sofriam para que abandonassem o país ou se convertessem ao cristianismo. Quantas destas conversões foram sinceras e quantas meras estratégias para a supervivência é algo difícil de saber. O curioso é que nos últimos tempos esta-se a pôr em questão a verdadeira dureza da Inquisição, relativizando a persecução que esta fez sobre os que professavam religiões diferentes à católica. Mesmo estão a aparecer livros que esgotam sucessivas edições negando o etnicídio espanhol nas colónias americanas e o papel exercido pela Inquisição Espanhola ao respeito. Pavero!
Os mecanismos de repressão são tão diversos -e às vezes tão subtis- que não devemos limitar as consequências do apartheid católico sobre os judeus ou muçulmanos a uma lista de executados ou expulsos. Um destes mecanismos repressores são os chamados Expedientes de limpeza de sangue, como o redigido a Martín Torrado da Figueira, padre rianxeiro nascido na paróquia de Leiro em 1621, e autor das Décimas ao Apóstolo, uma das joias literárias galegas da etapa dos mal chamados séculos escuros. Este expediente encontra-se no arquivo histórico da U.S.C. e pode ser consultado a través da sua página web.
Os estatutos de limpeza de sangre eram mecanismos de discriminação legal, já que sem um expediente favorável um não podia exercer cargos na inquisição, nem ingressar na universidade, colégios ou simplesmente ser militar ou crego. Na atualidade estes expedientes são muito valiosos à hora de traçar genealogias já que se remontam a várias gerações atrás para demonstrar que o candidato provem duma família sem nódoa hebraica, ou seja, o expedientado é cristão velho.
Graças ao documento guardado no arquivo histórico sabemos que Martín Torrado tinha a seguinte ascendência e, o que ainda resulta mais interessante, a localidade onde nasceram ditos parentes:

Linha paterna:
Bisavôs
-Pedro da Figueira (Isorna) e Elvira de Ribela (Castelo, Isorna) / Pedro Torrado (Assados) e Theressa Alonso Marinho (Paço de Vimieiro, Boiro) Theressa Alonso Mariño era filha de Fernán Marinho, senhor do Paço de Vimiero.
Avôs
- Rodrigo da Figueira (Isorna) e Mayor Torrado (Assados)
Pai
Juan da Figueira Torrado (Isorna)

Linha materna:
Triavôs
-Domingo de Tarrio (Tarrio, Lainho)
Bisavôs
-Martín Tarrío (Abuim, Leiro) e Catalina de Rial (Abuim, Leiro) / Antón de Somoça (Rianxinho, Rianxo) Francisca Rodriguez (Brião, Leiro)
Avôs
- Juan de Tarrio (Abuim, Leiro) e Dominga Rodríguez (Brião, Leiro)
Mãe
-María de Rial Somoça (Brião, Leiro)

No expediente achega-se uma transcrição literal da partida de batismo que diz:

«A dos de diziembre de seicientos y veinte y uno bautize un niño que se llama Martín hijo de Juan da Figeyra y de Mª do Rial su mujer y fueron compadres Alonso de Abuín y la mujer de Muniz de Buya que se llama Dominga de [A]buín [,,,] »

Por último, afirma-se no documento que «ni sus padres, abuelos ni visabuelos assi paternos como maternos […] jamas fueron ni han sido presos ni condenados por la Santa Inquisicion ni por otro juez por delito de herejia o judeismo […] y sabe que dicho opositor ni ascendientes arriba dichos todos juntos ni ninguno dellos en particular no son ni han sido moros ni rezien convertidos a la fé ni judios ni quemados ni reconciliados ni finalmente de ningun genero de judaismo ni de otra qualquier seta reprobada ni dellos son ni han sido informados ni en publico ni en secreto antes son y an sido buenos y chatolicos xpianos limpios de toda mala raza de moros judios confessos y marranos [,,,]»

À vista da relação de localidades e parentes de Martín Torrado podemos tirar a conclusão da importância que tem, na altura, a vizinhança e a terra nos matrimónios. Praticamente todos os cruzamentos entre diferentes famílias são feitos entre sujeitos que moram no que hoje são os limites do atual Rianxo, a uma distância a pé nunca maior a meio dia de caminhada. Polo lado materno quase que todos os parentes são da paróquia de Leiro e na paterna de Isorna. O lugar mais afastado é Vimieiro, em Boiro, casa grande de Fernán Marinho e Tarrio em Laínho, de onde viria o antropónimo Tarrio. Também sabemos que a conexão com os Torrado de Assados vem pelo matrimónio do seu pai com Mayor Torrado, do que se conclui que o crego Martín escolheu os apelidos da avó paterna de linhagem fidalga, emparentada com os senhorios de Marinho e Torrado, e ignorou os da linha materna, apenas de labradores.

O expediente do padre Martín Torrado é muito minucioso. O informante visita todos os lugares de onde procedem os devanceiros, consulta os livros de batismo e se entrevista com a gente mais idosa que todavia pode lembrar a algum destes parentes. O informe vai valer para que a Martín Torrado lhe outorguem uma bolsa de estudos, já que segundo informa a sua mãe Mayor Torrado, costear a matrícula de seminarista em Compostela acarretaria uma grande carga para a economia familiar. Obviamente que estes informes podiam estar falsificados, ou o informante subornado, mas, neste caso, a leitura  do documento faz-nos pensar que estamos ante um documento veraz.

Deixo aqui a ligação às Décimas ao Apóstolo Santiago, na versão de Romero Lema. Por certo, uma composição onde Martín Torrado faz referência numerosas vezes aos judeus, combatidos sem piedade pelo Apóstolo Santiago e a seu avô, quem lhe transmitiu o seu amor pelo santo mata-mouros. O que não aclara e se este avô foi o da casa Juan de Tarrio ou o de Isorna, Rodrigo da Figueira.
Na próxima postagem visitaremos o lugar de Ranho, em Leiro, um lugar inzado de cruzes muito interessantes, algumas em lugares bem curiosos. Tal vez alguma de conversos?

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

nº 212 Mezuzah


A gente conhece a minha afeição a observar o que me rodeia com olhos curiosos, reparando em detalhes absolutamente insignificantes que passam desapercebidos do pessoal, quiçá pelo simples facto de sempre estar ai. Assim, fui encontrando marcas, letras, símbolos gravados nos muros de templos, vivendas, valos, etc. Um repertório iconográfico que não para de crescer. 
Às vezes, algo faz que a minha cabeça, sempre fatigada, lembre uma imagem e a associe com uma citação, uma informação lida nalguma parte não sempre evocada imediatamente. A questão é que trás a visita que alguns rianxeiros fizemos ao Castelo da Lua –fortaleça rianxeira na desembocadura do rio Te– convidados por Tito –o concelheiro de património– e guiados por Mario –o arqueólogo diretor das excavações–, volvi a repassar as minhas velhas postagens agrupadas baixo a etiqueta Graffiteiros do Passado. Entre todas elas há uma belíssima, quiçá a mais monumental das que ocupam uma jamba da porta duma vivenda particular, localizada no lugar de A Igreja, Leiro. 

©Orjais

Para entender esta imagem recomendo a leitura dum artigo do Anuario Brigantino titulado Viviendas de judíos y conversos en Galicia y el Norte de Portugal. O seu autor é o arquiteto Emilio Fonseca Moretón e pode ler-se na rede [aqui]. Fonseca Moretón fala-nos das cruzes de conversos, tal e como ele as denomina, uns símbolos que os judeus conversos colocariam justo debaixo de onde estivera colocada a mezuzah. Em realidade, o oco que contém este pergaminho da tradição hebraica seria o que diferenciaria uma casa judia duma cristã:

«El modo de vida judío era en todo parecido al de los cristianos salvo en lo relativo a las prescripciones alimenticias, los usos religiosos, las fiestas, y el día de descanso semanal. No existen por tanto condiciones morfológicas singulares que diferencien la vivienda de un judío de la de un cristiano. Lo que caracterizaba y singularizaba externamente la vivienda de un judío era la mezuzá: una pequeña caja que guarda un rollo o pergamino en el que están escritos unos determinados versículos del Deuteronomio y que debe ser colocada, aproximadamente a la altura del hombro de una persona adulta, en el plano interior de la jamba, con preferencia la del lado derecho, de la puerta de entrada a la vivienda.» Vivendas de judíos y conversos en Galicia y el Norte de Portugal. Emilio Fonseca Moretón. O negrito é meu.

Fonseca Moretón fala neste artigo de algumas outras características das casas de conversos como os arcos em cortina manuelinos, tão abundantes em Rianxo, com dois exemplos magníficos na Rua de Arriba.
Mas voltando à jamba de Leiro vemos como guarda similitude com algum dos exemplos expostos pelo arquiteto Fonseca Moretón. Temos duas cruzes, uma delas monumental, e sobre elas, à altura do ombreiro, um rebaixe que bem podia ser a localização do mezuzah. Normalmente o lugar onde se encaixa o pergaminho kosher é apenas uma tira de aproximadamente 20 cm, pouco mais que a caixa que contem uma caneta-tinteiro. Mas o oco vazio seria um sinal muito evidente de que a casa foi ocupada por judeus, assim que resulta crível que optaram por fazé-lo desaparecer com um rebaixe excessivo para o tamanho da mezuzah. E a cruz monumental? Pois também no artigo que vimos comentando há exemplos similares no que se identifica o desenho desta cruz com um candelabro judaico de sete braços ou menorá. 

 ©Orjais

O feito de pôr cruzes nas jambas das vivendas ou dos moinhos explica-se normalmente por razões profiláticas, como precaução ante os maus espíritos e para livrar a vivenda do mal de olho. Eu tenho visto a várias pessoas passar a mão por estas cruzes e persignar-se. Até não faz muito era frequente as pessoas na Galiza fazer-se cruzes ao sair da casa e mesmo se colocavam pequenos crucifixos de madeira ou porcelana nos pórticos, às vezes mesmo com pequenos depósitos para água benta. 
Com certeza pôde haver casas de conversos que destruíssem os habitáculos da mezuzah e colocaram cruzes nas jambas ou anagramas de Cristo nos linteis, mas, obviamente, não todas as cruzes nas jambas têm que ser necessariamente cruzes de conversos. 

Finalmente, e vendo a impressionante quantidade de cruzes que povoam os muros de Rianxo um tem a suspeita de que não é fruto da casualidade e que o fenómeno merece ser estudado a fundo. A câmara municipal da Guarda, na Beira Alta de Portugal, enviou-me faz uns anos um formoso livro e diverso merchandising sobre as marcas mágico-religiosas da sua vila, em todo similares às de Rianxo, seguindo-se nesta publicação a tese judia. Eu não sei qual é a razão de que existam estas cruzes no nosso concelho nem vou defender a sua origem nos cristãos novos, o que sim sei é que cada vez que penso na relação entre a cultura judaica e Rianxo sempre me vem a cabeça o complexo rupestre da Foxa Velha nas abas do Pilotinho, a pouca distância da Igreja de Leiro. Sobre a grande laje da Foxa Velha e quiçá com um intervalo de alguns milhares de anos, habitantes do que hoje é Rianxo foram deixando a sua pegada em forma de espirais, labirintos, covinhas ou cruzes. E entre tanto desenho de difícil interpretação alguém sentiu a necessidade de gravar uma Estrela de David.

Estrela de David na Foxa Velha, Rianxo.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

nº 211 A fraternidade 888.


888


In Memoriam da 
A. C. Arcos de Maçarelos,
funambulistas das artes.

Conheci a Eduardo uma manhã de abril do 1983. O departamento de música da faculdade de Arte pedira-me dar uma aula magistral sobre folclore e cancioneiros. Apenas iniciada a palestra -a cuja redação dedicara inúmeras horas das últimas semanas– soou um despertador. O são do percussor a bater no sino metálico resultava anacrónico mesmo para aquela década dos oitenta. Um raparigo vestido de chapéu e capote pousou a mão sobre o relógio e de imediato saiu da sala caminhando pausadamente ante os sorrisos desconcertados do auditório.
Assim era o Eduardo. Meses mais tarde, quando já éramos íntimos amigos, pedi-lhe uma explicação ao incidente do despertador. A sua resposta foi um brevíssimo: 

Tinha coisas que fazer.

O caso é que a minha amizade com Eduardo durou apenas uns meses, intensos, com certeza, cheios de surrealismo e perigos reais para a minha pessoa.

O episódio que quero relatar hoje tem a ver com uma loja, uma irmandade ou algo semelhante, chamada a Fraternidade 888. Sei que o seu nome pode soar a maçonaria, mas não era exatamente isso, ou sim, ou que sei eu. O certo é que o 8 de agosto de 1983 fui o primeiro profano em cem anos –e derradeiro– que assistiu a um capítulo da Fraternidade.

E ali estava eu, sentado num cadeirão do Salão Amarelo do Casino de Homens. Ao redor duma mesa circular, oito fulanos, melhor, oito tipinhos, com os seus chapéus, os seus bigodes quase de adolescentes, o seu tabaco de enrolar, na altura absolutamente démodé. E eu entre eles, desportivo, com chinelos e calças curtas, bizarro de puro contemporâneo.
Então, porque é que fui eleito para fazer parte de aquela última reunião capitular da Fraternidade 888?
Oi, Mário, preciso que a próxima segunda-feira venhas comigo a uma reunião de amigos, espetou-me o Eduardo sem mais explicação.
Conhecendo o tipo de reuniões às que ia meu amigo, estava certo que não me ia aborrecer.

O capítulo durou apenas uns minutos. Os moços, todos da minha mesma idade, sentaram sem dizer palavra. O Eduardo deu os bons dias e, a continuação, cantaram o seu hino, uma peça titulada Adeus a Santiago. Esta valsa fora composta fazia exatamente cem anos pelo barítono valenciano Várvaro que chegou à cidade com o elenco duma companhia italiana de ópera. Para o empresário, também levantino, semelhante apelido resultava pouco comercial –e mesmo pouco italiano– razão suficiente para aparecer nos cartazes como Pietro Fárvaro. A letra levava a assinatura dum moço aprendiz de farmacêutico, Lisandro Barreiro, um dos padres fundadores da Fraternidade.

Partitura de Adiós a Santiago.
Fondo Local de Música
do Concello de Rianxo.

Logo de cantar o hino, os oito tiraram das correntes e colocaram sobre a mesa oito esplêndidos relógios, todos exatamente iguais: caixa de prata, três oitos gravados sobre a tampa e o que resulta mais excêntrico, as suas esferas só marcavam um ciclo de oito horas.
Aquele era o princípio fundamental da Fraternidade, o reparto alíquota do dia em terços de oito horas: um fragmento dedicado ao trabalho, outro para o estudo e o restante para o descanso. Uma divisão beneditina do tempo que era levada até as últimas consequências. Os irmãos, por exemplo, comiam três vezes ao dia: às 8, às 16 e às 24, o início de cada um dos três intervalos diários. No resto das horas, só a bebida e o tabaco estavam permitidos.
Tão logo como foram depositados os relógios sobre a mesa, Eduardo tirou duma saqueta um martelo protocolar de bronze e, um a um, escachou todas as maravilhosas esferas deixando inservíveis os aparelhos. Com uma pequena pá e uma vassourinha recolheu cuidadosamente os anacos e os meteu noutra bolsa que atou com múltiplos nós.

Assim acabou a reunião, com o meu coração a bater depois de ver como o meu amigo inutilizava os preciosos mecanismos construídos, como cheguei a saber, por um relojoeiro alquimista de Mondonhedo.
Durante os cem anos que durou a Fraternidade, por ali passaram vultos como os periodistas Labarta Posse ou o próprio Lisardo Barreiro –pais fundadores– Castelao, Pérez Lugín, Filgueira, Cunqueiro e tantos outros. Oito homens, sempre homens, que renovavam o capítulo cada quatro anos. Todos eles tinham algo em comum: o seu amor pela Tradição galeguista e o desprezo pelos seus estudos universitários, considerados um médio, mas que um fim em si mesmo. Segundo me contou o Eduardo, houve vários membros da Fraternidade que atraiçoaram os princípios fundamentais, mas foram os menos.
Em definitiva, o meu amigo, Grande Mestre da Fraternidade 888, queria que eu fosse o notário ou cronista do seu óbito, da morte duma loja inútil, absurda e elitista. Ou quem sabe….


Anotação no meu dietário de 1983.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

nº 210 Uma casa no Rianxinho.


Cada vez que vou dar um passeio pela zona alta do Rianxinho, tenho a sensação de que me adentro num burgo medieval em miniatura. Visto desde o ar [fot.1], vê-se um urbanismo compacto que tende a cerrar-se sobre sim mesmo. Em contraste, a zona baixa do bairro está construído linearmente, com ruas de aceso perfeitamente desenhas. Dado que nas proximidades há um petróglifo monumental e um castro, tal vez poderíamos traçar um contínuo habitacional ininterrompido desde épocas remotíssimas até os nossos dias. 
Se caminhades polas ruelas do interior do círculo da fotografia 1, fixáivos nas vivendas, nos muros descomunais das casas, nos diminutos vãos... Ide com os olhos bem abertos e caminhai devagarinho. Com certeza estareis a desfrutar dum dos espaços urbanos mais belos e, ao mesmo tempo, tal vez menos conhecido do nosso concelho.
fig. 1

Como exemplo deste passado medieval gostaria-me destacar uma porta. Pressenta uma única mocheta,  a esquerda, sobre o que descansa um lintel descomunal. E no lintel...

...uma cruz lindíssima. 


E mais uma perto da fechadura.


Nos pé-direitos notam-se as marcas onde encaixariam as trancas e os tarabelos.
Acho que esta vivenda, como outras do Rianxinho, mereceriam o estudo detido de peritos na matéria. Com certeza descobriríriamos grandes tessoiros.

terça-feira, 23 de maio de 2017

nº 209 Com muita fé (de erratas).


O padre José Cambeiro Rodríguez começou os seus estudos sacerdotais em 1925. Esse ano foi o beneficiário da beca Araújo Silva através da qual um neno de Rianxo podia estudar gratuitamente no seminário compostelano. Com certeza, os vicinhos de Leiro e os nossos historiadores poderam reconstruir a história deste sacerdote grande impulsor de atividades na paróquia e, pelos vistos, muito querido. E digo eu que seria querido pois o túmulo que o abriga no campo santo de Leiro é mesmo impressionante. 
Trata-se dum grande montículo de rebos no centro da praça, sobre o qual descansa a figura dum santo de pedra e uma cruz. A dia de hoje prefiro não fazer nenhuma descrição destes objetos que adornam o túmulo à espera de que alguém que conheça a sua história desvele de onde saíram.
O caso é que a obra teve de custar o seu dinheiro, e até ficou aparente. Mas, como pode ser que ninguém fizera a revisão ortográfica? Com o fácil que teria sido chamar-lhe cura!