sábado, 27 de setembro de 2014

nº189 Roberto Bolaño e a Galiza II


Em Los detectives salvajes, Roberto Bolaño definiu aos moradores da Galiza como «gallegos asustados ante lo irremediable». Eu considero mais bem que somos pessoal assustado ante o remediável, de ai o nosso ADN conservador. Quando Xosé Lendoiro viaja na sua roulotte à Galiza, na realidade, está a vir ao encontro dos antepassados do Roberto, esse chileno-mexicano que escreve como um bom galego quarterão. Ele sabe que depois de mil viagens, de ir botando raízes em quanta terra fértil nos vamos encontrando, a semente volta a pátria para contemplar a mesma paisagem «umbrosa e elemental» de sempre. A roulotte, como a morada da Virgem que viajou de Nazaret a Loreto, instalou-se num camping de Castro Verde, presenciando Lendoiro ainsólita cena do poço e o menino. Mas, por que aqui? Noutra postagem já referi a minha hipótese de que a razão tem a ver com que neste concelho se encontra a única paróquia cujo nome coincide com o apelido do escritor chileno: Santa Baia de Bolanho. 
Segundo a wiki, neste lugar moravam em 2004 cento trinta e dois habitantes (69 mulheres e 63 homens). Numa viajem recente por terras de Lugo decidi achegar-me com a família até esta pequena paróquia castroverdiana, no que constituiu um périplo rianjeiro-bolañês, que de sermos ianques, já estaria nos roteiros freaqui.
Sabemos que a presença da Galiza na obra de Bolaño não é apenas um território literário. Além das suas fílias, Valle Inclán, Dieste... há razões de tipo familiar, pois —como ele mesmo comentou em várias entrevistas— era neto de galego. Este dado, tal vez por sabido, parece não interessar muito aos estudiosos da obra de Bolaño, sendo para mim um elemento fulcral para explicar cenas como a acontecida no camping de Castro Verde. Mas quem era este avô galego? Como se chamava?
Desconheço se já se tem publicado nalgum lugar, mas eu não dei encontrado nenhuma publicação que faça menção a identidade deste homem que um dia abandonou a sua terra para dirigir-se a república chilena. Na procura das raízes galegas do autor de 2666 contactei com o Dr. Leon Enrique Bolaño, deputado do PAN em México, o qual, muito amavelmente, verificou-me o nome do seu avô e o lugar do seu nascimento.
As raízes do Roberto não estão em Castro Verde, senão em Becerreá. O nome do seu avô era Ricardo Bolaño Morán, morto em 1940, na mitologia bolanhesa —ainda por confirmar— a consequência da queda dum cavalo. Este casa com a catalana Eugenia Carné com a que terá nove filhos. Um deles, León Boláño Morán casará com Victória Ávalos Flores, professora, pais do escritor Roberto Bolaño Ávalos. Posteriormente, León vai casar em segundas núpcias com María Irene Mendoza, pais do Dr. León Enrique Bolaño Mendoza, o político mexicano.
Agora, toca ir a Becerreá na procura dalgum dos descendentes dos Bolaño Morán. Já irei contando.

 © Tero Rodríguez

 © Tero Rodríguez

Mais sobre Roberto Bolaño neste blogue:

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

nº 188 Filgueira Valverde em Lisboa.


A professora e grande pianista Helena Mariño enviou-me um artigo sobre Filgueira Valverde que ela mesma encontrou no espólio do compositor português Frederico de Freitas, depositado na Universidade de Aveiro. Trata-se duns recortes de jornal sem cabeçalho e sem data, motivo pelo que preferi não publicar na altura à espera de ter toda a informação sobre o evento do que se informa. Por fortuna, na imprensa galega pude encontrar a notícia que me permite completar todos os dados duma palestra-concerto que pelas suas caraterísticas considero do máximo interesse. Graças a notícia publicada em La Noche [fig.4], sabemos que a intervenção do Dr. Filgueira Valverde em Lisboa foi, com toda certeza, em maio de 1948.   
Um dos detalhes que primeiro me chamou a atenção é o formato que teve o evento. Um conferente, o Filgueira Valverde, ilustrado por um pianista, nada menos que o grande Luis de Freitas Branco (Lisboa, 12 de outubro de 1890; Lisboa, 27 de novembro de 1955);e uma cantora lírica, a soprano Elsa Penchi Levy (Lisboa, 4 de janeiro de 1911; ?). Este formato recorda muito ao utilizado por António Fernández-Cid de Temes, o mesmo modelo que desenvolverá nas conferências-concerto no quadro do Festival de la Canción Gallega de Ponte Vedra. É possível que o Fernández-Cid influíra no Filgueira por quanto dois anos antes do ato em Lisboa, o crítico de ABC ofereceu no Teatro Principal pontevedrês a palestra La música contemporánea en España, acompanhado da soprano Carmen Pérez Durias e o pianista José Cecilia Tordesillas.
A palestra lisboeta teve lugar no salão do jornal Século, razão esta pelo que o conferente foi apresentado pelo redactor em chefe do rotativo, Acúrcio Pereira. Segundo conta o cronista, Filgueira falou dos Elementos populares originarios en la lírica de los cancioneros «em espanhol, com o [seu] doce acento galego». 
Deixo para quem tenha vontade de os ler os artigos [fig. 2,3,4] que motivaram esta postagem.
Por último, gostaria de referir-me a dois aspectos que não estão directamente relacionados com o contido da conferência, mais sim com os galegos em Portugal e o seu papel significado durante a Guerra Civil e na posterior ditadura do General Franco.
O evento celebrado no salão do Século foi retransmitido pela emissora Rádio Clube Português. Esta sociedade radiofónica estava dirigida pelo capitán Jorge Botelho Moniz, um militar que imediatamente depois do alçamento das tropas nacionais pôs as ondas do Rádio Clube a disposição dos sublevados. Sobre este aspecto recomendo o trabalho titulado La guerra del eter de Alberto Pena Rodríguez. O capitão Botelho contratou speakers espanhóis, como a popular Marisabel de la Torre de Colomina. Esta locutora chegou a dizer diante do microfone do Rádio Clube que os rojos queimaram os móveis do seu andar madrileno. «Para una mujer española, son los muebles de su casa algo íntimo y familiar que guarda y quiere con singular complacencia y amor porque ellos son depositarios de preciados recuerdos que constituyen la vida y porque alli como ella dice invdadida de amor maternal "se guardan las ropas de los hijitos por los que se daría la vida» El Compostelano, 06/X/1936 Esta alocução provocou uma imediata colecta promovida pelos japistas (Juventudes de Acción Popular) de Compostela, para comprar-lhe a Marisabel um mobiliário novo. Na Galiza houve outras iniciativas para render homenagem ao Rádio Clube Português, chegando a deslocar-se a Lisboa uma comissão de galegos, como demonstra a fotografia [fig.1] conservada no Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

fig. 1

A emissora de Botelho, como a Emissora Nacional, não só serão parciais nas suas notícias sobre o frente de batalha, senão que entrarão na tolémia pan-galaica guerracivilista. 
Em Lisboa há uma embaixada legal, com Sánchez Albornoz à frente, e uma outra dos sublevados, conhecida como embaixada negra, criada, com a conivência de Salazar, pelo sinistro Nicolás Franco. Resulta engraçado imaginar aos conspiradores franquistas e salazaristas de mãos dadas por enquanto o galego Franco desejava Portugal e o falangista Rolão Preto pedia a Salazar a anexãção da Galiza. Tal vez isto último que acabo de contar faz parte da lenda galego-portuguesa, mas o certo é que Portugal foi um aliado eficaz dos sublevados e as emissoras, uma arma que resultou letal.
Neste contexto não espanta que em 1939 a Orquestra de Câmara da Emissora Nacional que dirigia Frederico de Freitas estreara a suite Chucurruchú de Iglesias Vilarelle, um dos cindidos da Direita Galeguista chefiada por Filgueira Valverde. O máximo responsável das orquestras da Emissora Nacional era o Pedro de Freitas Branco, irmão do pianista que acompanhou ao conferente pontevedrês. 
Ao final do artigo do Século há uma nominata do pessoal que assistiu ao evento, entre os quais um homem várias vezes citado no texto do jornal, o poeta e político Eugénio Montes. Outro galego a estar onde há que estar, concretamente na Embaixada de Lisboa como agregado cultural —nos filmes de espiões sempre aparece um agregado cultural— e director do Instituto Español de Lisboa (1943-1950). Este unionista, como lhe chama Eduardo Javier Alonso Romo em Lusitanistas Españoles, escreveu Interpretación de Portugal: «España y portugal son naciones paralelas, y las paralelas se encuentran en el infinito». Quiçá um destino en lo universal. Também em Lusitanistas Españoles Alonso Romo faz uma pergunta agora de máxima actualidade: «Y donde situar a un hombre como José Filgueira Valverde, preferentemente dedicado a los estudios gallegos, pero autor de un excelente estudio sobre Camões (Barcelona, Labor,1958)» Pois que sei eu, a mim que não me perguntem. 

fig.2

fig.3

fig.4

domingo, 3 de agosto de 2014

nº 187 As pantufas de Filgueira Valverde.

As pantufas de Filgueira Valverde.

Teve a oportunidade de falar com o Dr. Filgueira Valverde só uma vez, nos tempos em que cursava primeiro de carreira na escola normal de Ponte Vedra. Na altura visitava assiduamente o Museo de Pontevedra cujas instalações, salas e arquivo, foram a minha universidade, o lugar onde me formei e me apaixonei pela história cultural do meu país.
Um dia, ao entrar no edifício Castro Monteagudo, reparei na prateleira onde se mostravam os livros à venda. Entre eles salientava um exemplar do Cancionero Musical de Galicia de Casto Sampedro. Para mim, aquele era um livro quase mitológico que conhecia graças aos créditos dos discos de Milladoiro. Perguntei o preço. Custava, se não estou em erro, três mil pesetas, que ainda parecendo-me uma barateza era um dinheiro que não tinha. Juntei pesinho a pesinho. Alguns companheiros do grupo Leixaprén —no que daquela eu tocava— encomendaram-me vários exemplares.
Com o bolso cheio de bilhetes fui à banca do museu e pedi os cancioneiros a um funcionário que anotou a minha compra num livro, algo que na altura já me resultou um bocadinho démodé. Foi nesse instante que pela porta vi entrar ao Dr. Filgueira. O empregado saudou-o muito respeitosamente, mesmo com certo boato, e ele acercou-se a onde nós estávamos e cravou os seus olhos nos cancioneiros que acabava de comprar. Depois olhou para mim e disse-me algo acerca de que aqueles livros eram uma joia, um tesouro da nossa cultura. Eu assentia e deixava-o falar sem ser cônscio do papel jogado por ele na edição do dito cancioneiro. Finalizado o seu elogio sobre a obra de Casto Sampedro —e em parte também dele— o Dr. Filgueira dirigiu-se ao funcionário perguntando-lhe quantos exemplares ficavam ainda em stock. Deviam ser poucos, pois o velho professor ordenou que fossem retirados da venda de imediato.

 O encontro terminou com uma anedota quase de vaudeville. Outro empregado apareceu de dentro do museu e dirigiu-se ao ex-diretor:

— Don José! Ya están preparados los canapies.

D. José olhou para mim e sorriu, caminhando na direção em que viera o funcionário hipercastelhanista. E foi nesse momento em que reparei como embora ele vestisse traje, gravata e uma gabardina tipo Bogarth, nos pés levava umas pantufas de flanela a quadros, as pantufas dos avós de toda a vida. Com o passo do tempo, a lembrança dum ex-diretor de museu idoso, trajado e com pantufas é a melhor imagem que se me ocorre dos últimos anos do Dr. Filgueira. Um homem que apôs quase cinquenta anos a frente do Museo de Pontevedra andava por aquelas instalações como pela sua própria casa.

*

Graças ao Cancionero Musical de Galicia de Casto Sampedro aprendi entre alalás, moinheiras e gotas a ler música. Mas, por cima de tudo, foi com a extraordinária introdução historiográfica de José Filgueira Valverde que conheci o universo musical do nosso país, com a sua visão holística do folclore onde se misturam as artes, os estilos, os géneros, as épocas... Também descobri graças a ele a existência dum homem em Vilancosta que a mediados dos anos quarenta do século XIX começou a recolher música tradicional, sendo nisto —como em tantas outras coisas— um autêntico pioneiro. Esse homem, Marcial Valladares Núñez, foi o meu objeto de estudo principal durante anos, chegando a editar, em parceria com Isabel Rei Samartim, o seu cancioneiro Ayes de mi pais.
Os folclorista sabem que o Dr. Filgueira Valverde foi o fazedor que possibilitou a edição dos dois grande cancioneiros galegos, o mencionado de Casto Sampedro e o Cancioneiro Galego de Bal y Gay e Torner. Essas duas grandes coletâneas do nosso folclore foram concebidas antes da Guerra Civil mas publicadas durante a ditadura, em 1942 e 1973 respectivamente. O Cancioneiro Galego é a obra de dois republicanos que tomaram o caminho do exílio.  Jesús Bal y Gay retornou a Espanha em 1965 e foi com ele com quem o Dr. Filgueira tratou a publicação das fichas elaboradas junto a Eduardo Martínez Torner nas suas viagens por Galiza. Aquela obra concebida pelo Centro de Estudos Históricos vinha a ser editada pela franquista Fundação Barrié de Maza. O retornado Bal y Gay colaborando com o franquista Filgueira Valverde. Tal vez isto aconteceu assim por Torner ter falecido anos antes num hospital da caridade inglês, depois de ter feito coisas no desterro tão importantes para a nossa cultura como os programas sobre folclore galego emitidos pela BBC. Lembrar, por se alguém não souber, que o Martínez Torner era asturiano, razão esta, em minha opinião, pela que se subestima tanto o seu importante papel na historiografia musical galega.

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Rematada a carreira de magistério, a minha atividade profissional no mundo da música foi-se virando mais cara ao plano teórico que ao prático. O Dr. Filgueira veio na minha ajuda numerosas vezes para trazer-me dicas, respostas, fios dos que tirar. Os seus Adral, que colecionei e li com verdadeiro interesse, foram o princípio de muitas aventuras nas que me embarquei, deitando luz sobre problemas que eu tentava resolver. Seriam intermináveis as referências utilizadas por mim cuja origem está nos escritos do velho professor.

Ultimamente, venho de publicar um Opúsculos das Artes sobre o Festival de la Canción Gallega. Este festival existiu graças ao contubérnio de dois intelectuais franquistas, o crítico do ABC Antonio Fernández Cid e o presidente da câmara de Ponte Vedra, Dr. José Filgueira Valverde. Durante as nove convocatórias celebradas entre 1960 e 1968 estrearam-se cerca de cem canções compostas por músicos espanhóis renomados, sobre poemas de escritores galegos de todos os tempos. Isto só na secção oficial, pois o número de peças para canto e piano ou para coro apresentados aos concursos paralelos ao festival são dificilmente quantificáveis. Junto com os concertos houve conferências dadas por Fernández Cid e Filgueira Valverde, mas também por outros vultos da cultura galega nada afins ao regime. Entre os palestrantes alguns velhos companheiros do Seminário de Estudos Galegos, caso de Antonio Fraguas Fraguas, novíssimos poetas, como Uxio Novoneyra, que a última hora não pode acudir ou Xosé María Álvarez Blázquez. Este último recebeu um convite pessoal do Dr. Filgueira. Há que lembrar que o poeta e editor ao que lhe dedicamos o dia das Letras Galegas no 2008 foi vítima da repressão franquista, sendo filho dum fuzilado, Dario Álvarez Limeses, e um dos muitos mestres purgados após o começo da contenda.  
O acontecido com a família Álvarez Limeses durante os anos da Guerra Civil é um exemplo claro do embrulhado, dramático e controvertido que pode chegar a ser tentar encontrar explicações ao inexplicável: o uso da violência escusando-se na defnesa duns ideais superiores.
Vejamos:

-Em 19 de abril de 1935, Xerardo Álvarez Limeses anunciava ao seu genro a sua vontade de sair do Partido Galeguista por não concordar com a política oficial de achegamento aos partidos de esquerda: «Eiqui estamos resoltos a irnos do partido Filgueira, meu hirman Xose, meu fillo Xose M.ª, os dous Caramés, Sesto e outros xovenes que non podemos ver con vos ollos a entrega do galeguismo os enemigos da Relixón.» Fonte: O galeguismo na encrucillada republicana Xavier Castro. [Deputación Provincial de Ourense; Ourense] 1985

-Em 17 de agosto de 1936 é fuzilado na Caeira, Alexandre Bóveda.

-Em 29 de setembro de 1936 morre de causas naturais José Álvarez Limeses.

-Em 11 de outubro de 1936, Xerardo Álvarez Limeses, na sua qualidade de Inspetor Chefe de primeiro ensino, pronuncia um emotivo discurso nos atos de reposição dos crucifixos nas escolas públicas de Ponte Vedra. Na comitiva que trasladou o crucifixo até a Escola Normal também formava parte o padre Fr. Luis Fernández Espinosa, músico muito relacionado com o grupo da Sociedad Polifónica de Pontevedra e confessor de Alexandre Bóveda o dia da sua execução.

-Em 30 de outubro de 1936 é fuzilado em Tui Darío Álvarez Limeses.

-Em 8 de abril de 1937, morre Casto Sampedro y Folgar, diretor do Museo de Pontevedra. Xerardo Álvarez Limeses, na altura vice-diretor, converte-se em diretor acidental na instituição arqueológica, cargo que ocupará até a sua morte em 9 de março de 1940.

-Em 23 de março de 1940 é nomeado diretor do Museo de Pontevedra o Dr. José Filgueira Valverde, que na equipa anterior ocupara o cargo de Secretário.

Vinte anos depois do fim da guerra, Xosé María Álvarez Blázquez participa no Festival de la Canción Gallega, como já disse, por convite pessoal do já na altura Presidente da Câmara Municipal. Além da sua extraordinária erudição, Xosé María mostrou, mais uma vez, o seu enorme compromisso com o nosso país, pronunciando uma das suas palestras em galego. Tratava esta sobre as Paxolinhas de Natal. No mesmo ato pronunciou uma outra palestra Filgueira Valverde, esta vez sobre a festa dos maios. O Presidente da Câmara utilizou o castelhano, suponho que para não incomodar ao seu parceiro Fernández Cid ou ao co-financiador do evento, o Ministério de Información y Turismo de Manuel Fraga Iribarne. A intervenção de Xosé María Álvarez Blázquez nesta edição do Festival de la Canción Gallega de Pontevedra —acontecida em 22 de julho de 1964 no Salão de Atos da Deputação de Ponte Vedra— devera ser considerada uma das grandes efemérides da resistência linguística galega durante os anos escuros do franquismo.

Mas neste festival aconteceu algo que merece quando menos um comentário. Como já disse, a mecânica do festival consistia em que um compositor espanhol compunha uma canção utilizando como letra um poema dum escritor galego. Foram mais de sessenta os músicos participantes, repito, todos eles de nacionalidade espanhola, a exceção de dois argentinos oriundos. Nesta ilustre nominata de compositores colaram-se sete inesperados compositores portugueses: Joly Braga Santos, Frederico de Freitas, Claudio Carneiro, Rosado Peixinho, João de Freitas Branco, Macedo Pinto e Ruy Coelho. A dia de hoje tudo faz pensar que o culpável desta participação lusa foi Filgueira Valverde. O Presidente da Câmara era um velho conhecido, tal vez amigo, de Frederico de Freitas. Este conhecimento/amizade deixou rasto nos respectivos arquivos pessoais em forma de dedicatórias, recortes de jornais, programas de mão, etc. Considero ao Dr. Filgueira indutor da presença do Freitas e, porque não, de todos os outros compositores portugueses. Mesmo na convocatória de 10 de julho de 1967, sessão inaugural do VIII Festival de la Canción Gallega, a palestra correspondeu ao diretor do Museu de Porto, Sr. Fernando Castro Pires de Lima, com o título Elógio da cantiga popular minhota. Nem falar da importância que esta maridagem entre poetas galegos e músicos portugueses tem para uma história cultural da Galiza e para tod@s os que defendemos o reconhecimento do papel que a nossa terra deve ocupar no mundo lusófono.

 Como curiosidade, dizer que no Festival de la Canción Gallega participou como poeta Ernesto Guerra da Cal. Três poemas seus foram musicados pelos compositores valencianos Matilde Salvador, Vicente Asencio e José Evangelista. Este último contou-nos —a Isabel Rei Samartim, a Joam Trillo e a mim mesmo— que os poemas do escritor republicano e exilado Guerra da Cal chegaram-lhes da mão de Eugenio Montes. Eis outra rede de contatos curiosa. Eugenio Montes escreveu em 1930 um dos livros, a meu ver, mais formosos da literatura em galego: Versos a tres cás o neto [Ed. Nós; La Coruña, 1930]. Em 1933 é um dos fundadores da Falange e se considera um dos intelectuais mais próximos a Primo de Rivera. Este homem, que após o seu ingresso na Falange jamais volverá a escrever em galego é o portador dos versos do exilado republicano Guerra da Cal, os quais, convertidos em canções, serão finalmente estreados em 1964 no Salão Nobre da Deputação de Ponte Vedra, na que assenhoreava o tal Filgueira Valverde.

Estou a lembrar uma frase de Blaise Pascal que li num livro de Vila-Matas: «E se escrevi esta carta tão longa, foi porque não teve tempo de fazê-la mais curta.» Nestas últimas semanas andei com muito pouco tempo para ler e menos ainda para ler o que se publica na rede. Apenas li o cabeçalho de algum dos numerosos artigos publicados sobre o caso Filgueira Valverde, assim que é possível que muito do que eu contei já fosse contado nos últimos dias. Não faz mal, total a mim não me lê ninguém. Como sei, portanto, que o que escrevo apenas terá leitores, arrisco-me em último termo a dar a minha opinião —a modo de conclusão—, uma opinião que ninguém me pediu, assim que vai de graça.

***

1. Sempre fui um péssimo estudante. Nunca me adaptei ao sistema, nunca compreendi o sistema, nunca encontrei um lugar para mim no sistema. Estudei magistério e aprovei as oposições à primeira, só porque me examinei por música e me permitiram tocar. Porém escrevi quatro livros, dúzias de artigos, palestras... Ou sou uma fraude ou é que para mim existiu outra universidade, mais eficaz, menos acadêmica. É por isso que confesso que se algo do que escrevi tem algum mérito dever-lho-ei em grande medida ao Dr. José Filgueira Valverde e ao arquivo e biblioteca do Museo de Pontevedra.

2. Em minha opinião, a nomeação de Filgueira Valverde como escritor homenageado no dia das letras galegas para o 2015 é um intento de demolir a instituição desde o seu interior. Que o velho professor seja o homenageado é um problema tanto para a esquerda como para a direita. Também não lhe fazem nenhum favor ao próprio Filgueira Valverde. O melhor que podiam fazer os seus filhos e agradecer à RAG o reconhecimento, mas renunciar a ele —suponho que isso se poderá fazer—.

3. Em minha opinião, novamente, o Dr. José Filgueira Valverde não merece nenhum reconhecimento, nem tão sequer um tão desacreditado como o Dia das Letras Galegas. E não o merece não por ser um autor medíocre ou sem obra, pois para mim esta tem méritos sobrados. Está inabilitado por fazer parte do poder franquista. Os que dizem que há que dissociar a personagem política do escritor que apreendam de mim, eu o estou a fazer.

4. Em minha opinião, mais uma vez, o Dr. José Filgueira Valverde apenas teve influência na morte por assassinato de Alexandre Bóveda. Isso não quer dizer que não seja culpável da sua morte. Para mim todos os que participaram do poder franquista são cúmplices da carnificina cometida durante a guerra e, posteriormente, na ditadura.

5. Em minha opinião, por último, fica sem resolver totalmente o papel político que as sociedades pontevedresas jogaram durante os anos prévios, durante e depois da Guerra Civil. Cada vez estou mais convencido de que o culpável do assassinato de Bóveda foi o fanatismo religioso duns católicos que se agrupavam em círculos e juntas aparentemente culturais. Na Polifónica de Pontevedra, formada em boa parte por funcionários, ao igual que Bóveda, de fazenda, cantou na corda dos tenores o médico Victor Liz Quibén, chefe da Guarda Cívica e personagem sinistro ao que se lhe atribuem mais de vinte assassinatos. Também, não deixa de ter graça que o irmandinho Antonio Losada Diéguez coincidira na corda de barítonos com o caciquinho Vicente Riestra Calderón, competidores pela jurisdição de A Estrada nas eleições a Cortes. O redor da Polifónica, na que cantara Castelao, Bóveda e a sua mulher Amalia, andaram pessoas muito relacionadas com a Direita Galeguista liderada por Filgueira como o seu inseparável Iglesias Vilarelle, Lino Sánchez ou o próprio Gerardo Álvarez Limeses e o seu filho Xosé Mª Álvarez Gallego.
O tema do Museo de Pontevedra devera também revisar-se. Como é sabido, uma parte dos fundos com os que conta são fruto dos embargos decretados pelo Tribunal Regional de Responsabilidades Políticas. A Castelao, por exemplo, se lhe impus em 1940 uma multa de 75.000 pts. Como tal quantidade não foi paga, procedeu-se a confiscação dos bens que Castelao guardava nas suas vivendas de Ponte Vedra e Rianxo. Depois de negociações e acordos com a viúva e as irmãs do artista rianxeiro, com os Baltar de mediadores, chegou-se ao estado atual, sendo o Museo de Pontevedra o lugar onde podemos contemplar a maior parte da sua obra. Filgueira Valverde teve, como diretor do museu, um papel preponderante junto a Sánchez Cantón no espólio dos bens de Castelao. Resulta irónico que o património do artista rianxeiro ficasse a salvo numa instituição pública graças ao andrógeno Sánchez Cantón e ao manteigoso Filgueira —assim eram qualificados pelo próprio Castelao—.

Final

Só me resta dizer uma coisa: se a R.A.G. tiver vocação de volver a ser uma instituição séria, o Día das Letras Galegas do 2016 deveria ser dedicado ao escritor galego mais universal: Luis Vaz de Camões.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

nº 186 Arousa Folk 76 III

Encontro com Xoán Silva

Na sequência das minhas investigações sobre o Arousa Folk 76, encontrei-me em inúmeras ocasiões com o nome de Xoán Silva. Este cambadês nascido em 1951 participou no festival na modalidade de cantor e compositor, interpretando dois temas: Irmãos! Irmãos galegos! do poeta —amigo da família Silva— Ramón Cabanillas e Inverno, de Celso Emílio Ferreiro. Contam os que assistiram ao festival que o Xoán teve de enfrentar-se aos organizadores do evento, a Delegación Nacional de la Juventud, pois os seus temas, além de estar em galego, era uma provocação anti-sistema sem muita dissimulação.
Embora o Xoán Silva ter trabalhado numa entidade bancária na Ilha de Arousa durante anos, eu não o conhecia em pessoa, questão esta resolvida faz umas semanas graças às gestões do amigo Xaquín Chon Charlín. Uma vez facilitado o contacto ficamos em Cambados, havendo um bate papo muito produtivo. O Silva véu com outro amigo, Luís Costa Oubiña Falua, que no 76 estivera no festival como espectador, o qual me achegou um ponto de vista que não tinha explorado. Além de mais, Falua forneceu-me novos contactos que hão dar o seu fruto —em forma de artigo neste blogue— proximamente.
A hospitalidade de Xoán Silva e a sua generosidade para com o meu trabalho é inenarrável. Sirva esta postagem como homenagem pessoal ao seu activismo cultural, à sua dedicação por esta música que não só alimenta os espíritos, mas também abala os cérebros. Fica para mais adiante contar as experiências do Xoán, do Falua e de tantas outras pessoas com as que estou a falar. Hoje só quero que gozeis com a voz deste cantor do mar da Arousa, em cujas melodias e harmonias podemos sentir o legado do violino do seu pai  Benito Silva e as cores da paleta de seu irmão Lino. Obrigado, Xoán.

Xoán Silva no cenário do Arousa Folk
© Xosé Rañó

Xoán Silva e o acordeonista Diosiño no cenário do Arousa Folk
© Xosé Rañó

quinta-feira, 5 de junho de 2014

nº 185 Arousa Folk 76 II.


Um artigo do ABC bastante sano.

Reflexões acerca dum artigo publicado no ABC em 18 de setembro de 1976.





Da pouca bibliografia com a que contamos sobre o Arosa Folk 76, nenhum texto mais revelador e sintético que este artigo publicado só uns dias depois de se celebrar o festival. Para os não iniciados dizer que este evento teve lugar na primeira semana do mês de setembro de 1976, em a Ilha de Arousa, no rueiro de Testos. No artigo aparecido em ABC fica bem claro as tensões vividas na altura, num momento histórico de mudança no que o festival se converteu em paradigma do instinto de sobrevivência dumas instituições anacrónicas tanto no âmbito político como no social.

O título do texto de María Ángeles Sánchez, Un festival bastante sano, resume perfeitamente o acontecido naquele setembro do 76. A jornalista parece dizer: – Sei o que fizestes no verão passado, mas só vou contar um bocadinho. Durante três dias uma turba de nacionalistas, hyppies, esquerdistas espanhóis, falangistas, nacional-católicos, secretas e arousãos alucinados conviveram em sete quilómetros quadrados. Cabe lembrar que na era pré-ponte o único médio de transporte para nos comunicar com o continente era o barco. Isso sim,  a organização contou durante aquele longo weekend  com um helicóptero que não cessou de fazer viagens. E contra todo prognóstico os incidentes foram mínimos, mais fruto das ingestão massiva de álcool que da subversão política. Por isso se destaca a saúde do festival, desde um conceito dicotómico: saúde física e saúde política, como naqueles manuais de formação do espírito nacional.

Mas neste artigo o primeiro a destacar são as cifras:

- Participaram 400 músicos de 46 províncias de todo o Estado Espanhol.
- Houve 20 horas (oficiais) de música, repartidas em jornadas de manhã e tarde.
- O orçamento inicial foi de 2.000.000 de pts. chegando a ser finalmente de 7.000.000 de pts., 40.000 €, uma autêntica fortuna.
- 40 bilhetes de avião para jornalistas dos que só foram utilizados a metade.
- Dá-se a cifra de 6.000 assistentes, a qual semelha algo conservadora tendo em conta que na Arousa havia cerca de 5.000 habitantes. Em qualquer caso os músicos e público presente que entrevistei lembram uma assistência multitudinária.

Resulta fulcral para entender Arosa Folk 76 ter em conta o contexto político. Morto o ditador em novembro do 1975, os meses a seguir iam ser de paulatina descomposição do regime personalista nascido em redor da figura de Franco. Morto ele, acabou-se a raiva. Órfãs do pater familias, as diferentes polas da árvore do nacional-catolicismo procuram acomodo no estado novo, no que os imobilistas desaparecem para sobreviver só aqueles feitos de pasta moldável . Assim, em junho do 76 demite Arias Navarro e o Bourbón nomeia presidente a Adolfo Suárez, o mais hábil acomodatício.
Nesta tessitura, a Delegación Nacional de la Juventud, denominada assim desde o 1969, antes Frente de Junventudes, reivindica com Arosa Folk o seu direito a existir «frente a los que pretenden monopolizar las actitudes juveniles». De fato, o festival vai ser como o canto do cisne —um canto caríssimo— pois em 1977 sai o decreto de dissolução da Delegação Nacional de la Juventud.

Uma das perguntas à que todavia não encontrei resposta certa é o porquê de ter-se escolhido à Ilha de Arousa como cenário do macro festival. É possível que na mente dos organizadores estivesse presente a estética Woodstock ou, ainda mais, o Festival da Ilha de Wight, celebrados entre 1968 e 1970, sempre no mês de agosto: «Se trata de la mayor manifestación “folk” celebrada hasta ahora en España, capaz de rivalizar com el festival celebrado no hace muchos años —y cuyas fotos dieron la vuelta al mundo— en la isla de Wight, en el canal de la Mancha.» ABC 09/07/1976 p. 29 A Ilha permitia um isolamento interessante para manter a ordem, havia natureza virgem para fazer escoteirismo, e a península estava bem pertinho por se a guarda civil tinha de intervir. De fato, em Vila Nova houve um destacamento em previsão duns incidentes que apenas se deram. «Consideramos que era un bello marco en Galicia y con un paisaje precioso, también porque reúne una serie de condiciones favorables para llevar a buen término la consecución del certamen.» Odiel, 02/09/1976 p. 13 Quem diz isto último é Julián Granados, o director artístico do Arosa Folk e o ideólogo que propusera três anos antes à Delegación Nacional a criação dum evento destas características.

Bandeiras galegas e anarquistas apareceram penduradas o primeiro dia do festival. Isto era frequente nas concentrações populares, pelo que já era aguardado pela organização. Os do Frente de Juventudes, assim se lhe continuou a chamar a pesares do câmbio de denominação, contra-atacaram pendurando eles próprios bandeirolas galegas: «Y es cierto que el blanco y azul ondeaba junto con la bandera nacional y la enseña falangista.» O mesmo aconteceu com o hino: «Mientras que el himno gallego era cantado los dos primeros días, ya de madrugada, por los grupos que se habían distinguido como más combativos, en la clausura fueron los propios organizadores los que lo iniciaron desde el escenario. Y resultaba curioso ver como, bajo el mismo himno, puños cerrados, saludos fascistas y gestos de victoria se mezclaban entre los espectadores. Y es que de todo eso había.»

Nos cenários cantou-se a León Felipe, Alberti, etc. Xoan Silva, representante da província de Ponte Vedra, interpretou Inverno, de Celso Emílio e Acción Gallega de Cabanillas.  Os galegos foram, pelo simples feito de cantar na nossa língua, os mais vitoriados. Pela mesma razão, a apresentadora Eva Gloria  (1951-2007) foi apupada. Pedia-se-lhe que falara na nossa língua ao que ela, acima do cenário, respondia entre lágrimas que quisera faze-lo, mas não sabia. Além dos gritos teve de aguentar algum cano de verdura, vegetal emblemático do Carnaval arousão, que lhe foi presenteado por um público furioso. O outro condutor do festival foi José María Comesaña (1949-1996), que até pouco antes da sua morte trabalhou nas tardes de María Teresa Campos. Os organizadores achavam que contratando a Eva Gloria, apresentadora do musical juvenil da TVE Aplauso e a cara mais sexy do ente, estava todo feito. Mais uma vez se equivocaram e logo se arrependeram de não trazer um produto local. Todo faz pensar que a eleição de Eva Gloria e Comesaña foi uma aposta pessoal de Julian Granados.

Um dos aspectos mais controvertidos é a de se houve veto a certos cantores de intervenção. Fala-se de que a organização convidara a grandes nomes como Lluis Llach e Maria Del Mar Bonet. Também aos Vozes Ceives, tais como Benedicto, Bibiano ou Miro Casabella. De ser certo eles recusaram ir, mas é possível que existisse um veto ou que simplesmente fossem ignorados.


Como dado não carente de certo pitoresquismo, lembrar que o festival contou com um hino próprio composto pela cantora santanderina Maruca, nome artístico de Maria del Mar Quiroga de Viedma. Titulou-se dito hino Isla de Arosa, ouArousa Island, na  sua versão em inglês. A partitura chegou a ser editada em papel mas, que eu saiba, nunca em vinilo.
Por último destacar as fantásticas fotografias de Rafael Rubio  que acompanham ao artigo. Além de apresentar quatro imagens em cor, das poucas que tenho visto do festival, há uma em preto e branco na que aparece o rosto de vários carcamães assistentes ao evento. Em primeiro plano, María Suárez García, —Maria a Cuncha— e a sua filha Maria Garcia Torrado. O conhecimento da identidade das retratadas devo-lha as pesquisas do meu irmão Xoan Dopico Orjales.




Como apêndice a esta postagem quisera transcrever aqui um artigo de Juan Otero Dios, Nitucho, autor duma novela, Pregones de una caracola y narraciones de un grumete. Mesmo que nascido na Ilha de Arousa —era filho do grande Juanito de Luisa— morava em Huelva onde colaborou com o jornal Diario Odiel. O 28 de agosto de 1976 publicou um artigo titulado Arosa Folk 76, no que amostra a sua surpresa pela celebração deste evento na sua ilha natal. Sirva esta achega como reconhecimento à família dos Otero da Arousa, uma saga de escritores ainda não suficientemente reconhecida pelos seus conterrâneos.

AROSA FOLK 76

(Con mi recuerdo mas entrañable para los bravos marineros isleños, eternamente empapados por las olas y quemados por el Sol).

Con mayúscula sorpresa, leo en la prensa haber sido elegida mi cuna, la Isla de Arosa, como escenario del «Festival Arosa Folk 76».
Nunca más acertada elección para ello, habida cuenta de las bellezas naturales atesoradas por ese puñado de tierra, anclada en el casi matemático centro de la ría del mismo nombre, cuyas ondas mecieran los sueños literarios de don Ramón del Valle Inclán y los Camba, amén de otros grandes literatos y poetas que vieron las primeras luces en las privilegiadas riberas arosanas.
Como digo al comienzo, leo la noticia bajo la influencia de la sorpresa, habida cuenta de que la Isla de Arosa siempre ha sido como una cenicienta comarcal, que si algo posee de valor es totalmente intrínseco y no por obra y gracia de concesiones gratuitas de los gobiernos que se han sucedido a lo largo de su historia.
Por ejemplo, la Isla de Arosa, es el emporio conservero más importante de la Península en razón a su geografía. En ella, ha nacido la fabricación de conservas de mariscos en el mundo y los pescados han sido conservados con antigüedad equiparable a la de cualquier destacado centro industrial conservero de la nación. En la antigüedad también fueron sus astilleros, los constructores de naves para luchar contra corsarios, y para defender la nación de fuerzas invasoras.
En cambio, la Isla de Arosa, siempre ha carecido de todo o casi todo. Una de sus necesidades más perentorias, es un puente que la una a la Península, ya que sus siete mil habitantes se hallan aislados y a merced de todas las inclemencias meterológicas, que en los inviernos de Arosa causan grandes trastornos a sus moradores. Este puente, es el sueño dorado de los isleños, súplicas que siempre fueron desoídas, tal vez por propia conveniencia de intereses creados ajenos, que se lucran masivamente a costa del aislamiento isleño.
Por eso este «Arosa Folk 76», me escama grandemente que sea ubicado en la Isla de Arosa. A no ser que sus organizadores carezcan de los suficientes medios económicos para costearlo, o que la subvención, si es que la hay, sea de tan poco valor que no pueda con ella costearse la intervención de una pareja de gaiteros. Entonces, claro, mejor escenario y mas barato, no estaría al alcance de la comisión. Y con respecto a civismo, también es casi seguro que pocos lugares podrán presumir como ella puede hacerlo. Con decir que estos 7.000 habitantes viven sin control de autoridad alguna en total armonía, creo que está más que demostrado el alto grado de humanidad y educación ciudadana.
Y como no hay buena fiesta sin buen comer, la mariscada y variedad conservera que a buen seguro la gentileza y hospitalidad isleñas aportarán gratuitamente, habrá sido un importante renglón más a favor de la elección del escenario sin par designado. Por lo menos, por una vez se ha demostrado buen gusto y hecho justicia. 
Juan Otero Dios
ODIEL Sábado, 28 de agosto de 1976 p.12 


Cartaz Arosa Folk 76
Arquivo Xoan Dopico

quarta-feira, 21 de maio de 2014

nº 184 Decálogo de Manuel Antonio


Antologia arredista e sentimental de Manuel Antonio.

DECÁLOGO 
de
MANUEL ANTONIO

I

Ti, Rodolfo Cruceiro, que eras tão galego, tinhas que ser, como bom galego, multiforme e omnímodo. PROSA p. 65 

II

Madrid, poço negro de todos os resíduos da península. PROSA p. 136 

III

Diferença entre um galego e um espanhol: ser ou não ser. PROSA p. 207 

IV

Estrangeira por estrangeira vale mais uma fala de Europa que a da Meseta. PROSA p. 140

V

Nos prostíbulos já sabem/ que a nossa moeda/ tem o anverso de ouro/ e o reverso sentimental. POESIA p. 117

VI

Topei um Alquimista/ que queria fazer terra/ e não tinha mais que ouro. POESIA p.178

VII

A mim dá-me pena cada casa nova que se faz em Rianjo. Eu quisera que todos lhe tivessem o respeito que eu lhe tenho. Não são capazes de enxergar esse desejo que ele tem de seguir sendo sempre como sempre, sem novidade. Se eu tivesse muito dinheiro havia mercar Rianjo para metê-lo debaixo dum imenso fanal e deixa-lo assim. CORRESPONDÊNCIA p. 202

VIII

A aventura espanhola. Mas falas de Espanha? Cuidado que és fúnebre. Eu não che digo nada disso, porque não gosto de fazer brincadeira dos mortos. CORRESPONDÊNCIA p. 108

IX

Uma das coisas que mais me fazem odiar todo castelhanismo é o lento assassinato que comete com todo o nosso, e cujo exemplo mais patente é a fala. CORRESPONDÊNCIA p.100 

X

Todo passa, e alguma hora chegará que quiçá abonda para justificar uma vida sem rumo. Por enquanto, recomendo-te que sejas galego, é dizer, humorista. CORRESPONDÊNCIA p. 136



BIBLIOGRAFIA:

- Manoel-Antonio, Correspondencia III; edición, limiar e notas de Domingo García-Sabell. 
Vigo : Galaxia, 1972. CORRESPONDÊNCIA

-Obra completa / Manuel Antonio ; edición e notas de Xosé Luís Axeitos Agrelo. 
[A Coruña] : Fundación Barrié : Real Academia Galega, D.L. 2012 PROSA.

- Poesía galega completa / Manuel Antonio ; edición de Xosé Luís Axeitos
Barcelona : Sotelo Blanco, D.L. 1992 POESIA.



domingo, 11 de maio de 2014

nº 183 Na casa do Conde de Aurora.


Chegamos a Ponte de Lima ao anoitecer, nessa hora em que o prioritário começa a ser encontrar alojamento. A primeira tentativa foi um Hotel & Spa que fica mesmo na entrada da cidade: luxuoso, moderno, muito europeio. Só havia quarto para uma noite, mas ficamos tranquilos; de não encontrar outra coisa, quando menos hoje teremos onde pernoitar. Continuamos até o interior do casco antigo, na beira do rio e da ponte que dão nome à vila mais antiga de Portugal. Estacionamos. Tero desceu do carro, entrou numa farmácia e a continuação num restaurante para perguntar se alguém saberia dum quarto para alugar no centro histórico, um espaço urbano cuja formosura nos fez esquecer imediatamente o pós-moderno Hotel & Spa. Na botica não houve sorte, mas o dono do restaurante saiu a rua e ligou o seu telefone, como se os móbiles precisaram de céu aberto para funcionar. Também sem sucesso. Apesar das muitas marcações ninguém contestou. Então aconteceu algo:

—Ó Dona Rosa, faça favor de vir cá! —ponhamos por caso que Rosa era o nome da pessoa alvo dos gritos emitidos pelo nosso amigo hostaleiro—.

Aquela senhora véu até onde nós estávamos e perguntou amavelmente em que podia ajudar. O dono do restaurante contou-lhe apressadamente que uns espanhóis (sic) andavam a procura dum quarto com casa de banhos privativa para duas noites. Também contou que ele ligara para não sei que pessoal sem qualquer resultado. A Dona Rosa pegou no seu telemóvel e ligou por sua vez a alguém que tinha o quarto por nós sonhado. Quando já estávamos na ideia de que os 2.800 habitantes de Ponte de Lima ou alugam quartos ou levam no seu celular o número de alguma pessoa que o faz, soubemos que a tal Rosa era a funcionária de Turismo e que, mesmo fora de horas, não fazia outra coisa que o seu trabalho.

Só havia que andar uns cem metros desde onde estacionamos o carro até a hospedagem. No breve percurso pelas ruelas de Ponte de Lima, a funcionária municipal explicou que onde íamos dormir era um velho paço dedicado a turismo de habitação. 

—Vê aquela figura de bronze? —diz a Dona Rosa assinalando com seu dedo uma estátua a tamanho natural assenta num banco de pedra—. É o conde de Aurora. Vocês vão dormir no seu paço.

Impactado pela notícia e sem tempo para perguntar mais alguma coisa sobre o tal conde, chegamos até o casarão, um paço ajardinado do século XVIII —e com capela!—, algo vindo a menos, mas todavia com ar de fidalgo orgulhoso. 

O quarto pronto a ocupar não fazia parte do edifício principal. Na altura deveu ser uma dependência anexa, quiçá a vivenda para o serviço. A porta culminava um formoso patamar de pedra. Dois pregos cravados a uma viga sustinham as suas respectivas andorinhas que, mália estar a altura das nossas cabeças, semelhavam ignorarmos. Talvez aqueles passarinhos também pertenciam à aristocracia.

O quarto resultou modesto, quase franciscano, anacrónico em muitos aspectos, mas não isento de certo encanto. Uma parede meeira unia-nos a capela. Tal e como se viera desenvolvendo o drama, aquela elevadíssima cama de castanheiro presentava-se ante nós como um final feliz. Deitamos e dormimos os três na cama grande, já que a Dália nem quis saber nada da supletória.

No médio da noite acordei. Abri os olhos como se acabasse de pestanejar, sem restos de sono, estranhamente desperto. As minhas pequenas dormiam, oculto o quarto por uma escuridão sem fissuras. Na procura do mais mínimo sinal luminoso que me dera a certeza de não ter ficado cego, —é o que tem ser de natureza paranoica— girei o meu corpo 180º ficando frente da janela, o único vão, junto com a porta, aberto nos seculares muros da estância. Aconteceu então que uma minúscula partícula de luz começou a crescer, a fazer-se, lentamente, cada vez maior. Ao princípio só era luz, mas pouco a pouco fui vendo como aparecia um rosto com seu chapéu, um colo com seu laço, um corpo vestido à moda do Pessoa. Percebi que o rosto sorria, que o corpo tinha vida e antes de mais teve uma revelação: aquele ectoplasma era José António Maria Francisco Xavier de Sá Pereira Coutinho, III Conde de Aurora. 

Suponho que os fantasmas têm um poder anestesiante, ou tal vez simplesmente um bom domínio da cena porque a pesares de estar a viver o meu primeiro sucesso paranormal nem teve medo, nem houve histeria, nem teve tentação de acordar as minhas companheiras de lençóis. Outra coisa que vivi com total naturalidade foi a de como entre o Conde e mais eu estabelecer-se-ia uma cordial conversa telepática na que acabaríamos falando de literatura, de gastronomia, de futebol, de política... Nesta conversa, além de mais, ficou provado que o meu sotaque em português telepático é mais que aceitável.

—Oi, galego, você sabe que eu vivi um ano na Galiza? Teve que me exilar a Vigo em 1919, depois da derrota dos monárquicos. 

—A Monarquia do Norte, —disse eu para impressionar—.

—Pois, a mais heroica contrarrevolução, —disse o Conde silabando com-tra-rre-vo-lu-ção com um jeitinho quase daliniano—. Anos mais tarde, —continuo meu parceiro de conversa— em 1923, teve um acidente na ponte internacional de Tui. O meu carro bateu contra o dum lisboeta. A condessa de Aurora —suponho que é coisa de nobles chamar pelo título às suas mulheres— foi lançada a grande distância, sofrendo graves feridas. 

Também me contou que eu não era o primeiro galego em visitar o paço. Já lá estivera o José Maria Castroviejo na altura em que premiaram ao Conde da Aurora com o I concurso Virgen Peregrina pelo seu trabalho El camino de las peregrinaciones portuguesas a Compostela. Para ilustrar-me o evento, D. José de Sá Coutinho tirou da sua carteira fantasma um velho recorte de jornal no que aparecia retratado em animada conversa junto ao intelectual de Tirã.



Sem que eu lho perguntara confessou-me gostar mais dos escritores galegos quando estes escreviam em espanhol. Esteve a ponto de me indignar, mas com que motivo? No fundo concordávamos plenamente.

Assim passou o tempo, nem sei quanto. Do mesmo modo que a luz foi nascendo, assim também esmoreceu paulatinamente. Quando apenas tão só ficava o seu rosto acesso, o Conde disse-me algo que cheguei a ouvir apenas segundos antes de ficar novamente dormido.

—Ao acordar, olha debaixo da cama. Lá verás uma mala e no seu interior um livro. Não há é um objeto qualquer. Possível que seja o livro mais importante da tua vida. 

Volvi a abrir os olhos. Desta volta o quarto estava plenamente iluminado pelo sol duma manhã esplêndida em Ponte de Lima. Dália queria acordar e esfregava os olhos com suas mãozinhas de veludo. A mamãe aproveitava os últimos segundos de paz matinal. Levantei-me e fui à casa de banhos. Urinei e lavei as mãos, o rosto, os dentes... Vi a minha imagem refletida no espelho: olheiras mais escuras do habitual, canas mais brancas, gesto fatigado e avelhentado. Dava pena. 

Foi então que lembrei ao Conde. Com a escova ainda entre os dentes sussurrei um castiço palavrão e durante uns intermináveis segundos fiquei paralisado. Cuspi o dentífrico e enxaguei a boca. Sai da casa de banhos lentamente e me sentei no cadeirão onde na noite passada se sentara o fantasma do Conde. Estava certo de que todo fora um sonho. Não acredito em Deuses nem em Santos, muito menos em fantasmas intelectuais, —quando se tratar de intelectuais defuntos, é claro—. 

Baixei os olhos. Da cama pendurava uma colcha onde estavam bordadas duas iniciais: C.A. A rés-do-chão, quase oculta pelas roupas desarrumadas da cama, vislumbrava-se uma mala de madeira pintada de verde com os acabamentos em metal. Fiquei tão surpreso que nem me podia mexer. Neste estado catatónico andei uns instantes ata que o sangue quis volver a circular pelo seu circuito de veas e capilares, regando o meu cérebro e activando os meus paralisados músculos. 

A mala no lugar onde foi encontrada.


Quando consegui despegar-me do cadeirão fui até a mala, tirei-a de debaixo da cama e dispus-me a abri-la. Efetivamente, dentro havia um livro em oitavo encadernado em pele, com a capa nua de caracteres e ilustrações. Para enquanto, Tero e Dália já participavam da cena observando atónitas a minha busca do tesoiro. Como bom enfermo de literatura, patologia descrita pelo Vila-Matas, sou vítima dum ritual à hora de acercar-me a uma nova literária. Sempre pego no livro com uma mão e o acarinho docemente com a outra antes de abri-lo. Depois arrecendo as suas páginas e após rematar a leitura, beijo a contracapa, agradecido pelo favor recebido.

O livro que me apresentara o Conde de Aurora tinha uma peculiaridade que só descobri quando o abri para cheira-lo: as suas páginas estavam em branco. Foi nesse instante que percebi a brincadeira do meu anfitrião. Aquele livro não era uma incitação a leitura, ele sabia que eu não precisava tal coisa, era, isso sim, um desafio a escrever.  
P. S. O Conde, durante a conversa dessa noite, seica os fantasmas o sabem tudo, lembrou que a sua morte aconteceu só um mês antes de eu nascer. José António Maria Francisco Xavier de Sá Pereira Coutinho III Conde de Aurora(Ponte de Lima, 19 de abril de 1896; Ponte de Lima, 3 de Maio de 1969).


Lendo no cadeirão onde sentou o Conde.

                                           foto: © Dália do Pico Rodríguez