sábado, 28 de dezembro de 2013

nº 177 Uma foliada rianjeira de 1955.

Na página web http://www.musicatradicional.eu estão-se a colocar digitalizadas, as transcrições do trabalho de campo realizado pelas missões folclóricas do CSIC entre 1944 e 1960. Fazia anos que vinha reclamando que a parte galega deste material, milheiros de fichas com partituras e anotações, viera para a Galiza. Se como parece este fundo estará disponível em breve para todo o mundo, poderemos gozar dum material de indubitável valor histórico, documental e, obviamente, também artístico, que nos vai permitir aos músicos contar com uma quantiosa base de melodias e de letras para futuras actualizações.
Entre o ramalhinho de registos galegos digitalizados, ainda escasso, eu encontrei uma delicatessen que, além disso, tem relação direita com a vila na que moro, Rianjo.

A história é esta:

Em 1943 o Padre Higínio Anglés começa a dirigir o Instituto Español de Musicologia dependente do CSIC. Os trabalhos de etnomusicologia correram por conta da Sección del Folklore, dirigida desde o 1944 até o 1955 por Marius Scheneider (1903-1982). A Sección de Folklore vai realizar 68 missões por todo o Estado Espanhol, recolhendo-se, como já disse, milheiros de cantigas transcritas com notação musical. 
Em 1955, o músico Pedro Echevarria Bravo (1905-1990) vem a Rianjo na sequência do que será a missão 46 e recolherá umas cantigas a Ramón Rodríguez Alcalde, marinheiro rianjeiro de 67 anos de idade. O tal Pedro Echevarria Bravo era natural de Villalmanzo, Burgos, mas desde o 1953 dirige a banda de música da Deputação da Corunha e desde o 1955 a de Compostela. Esta recolha tem um valor ainda maior se pensamos na escassíssima historiografia musical com a que conta o nosso concelho. Por exemplo, Rianjo não aparece no cancioneiro de Casto Sampedro, ainda que sim nos fundos recentemente publicados pelo Dr. Xavier Groba. Também não aparece nenhuma entrada na magna colecção de canto antigo galego da Dra. Dorothe Schubarth. Só Bal y Gay e Torner se acordaram de Rianjo no seu cancioneiro. 

Transcrição de Pedro Echevarria Bravo da cantiga Se chove, deixa chovere.


Edição com musescore (pdf)

Tal vez seja um erro irreparável pela minha parte, mas não me resisto a oferecer-vos uma actualização deste tema que fiz com minha sanfona. Eu não sou um bom sanfoneiro, nem o instrumento estava em uso, já que faz algum tempo que apenas toco. Mas hoje fui ao colégio onde trabalho e onde por acaso estava a sanfona. Tinha uma câmara a mão e sem muita preparação volveu a sonar em Rianjo, neste caso Taragonha, a velha foliada do senhor Ramón Rodríguez Alcalde. No vídeo, ao meu lado, vê-se uma maqueta da motora dos Cambeses feita pelo nosso alunado. Bom, aguardo que me desculpem o atrevimento.


sábado, 30 de novembro de 2013

nº 176 Um gaiteiro anônimo de Rianjo.

No museu Manuel Antonio de Rianjo há uma fotografia atribuída a Xosé Pérez, primo do poeta do mar, na que aparece um gaiteiro acompanhado de tambor e bombo. A foto é curiosíssima, com os homens em primeiro plano e as mulheres, muito novas, detrás. Gostaria imenso de saber quem é esta pessoa. Com seu traje e seu chapéu semelha um burguês da vila, tal vez um músico de banda, requinto ou clarinete metido a gaiteiro.

f.1

Quando vi esta imagem pensei noutra que temos no museu do meu cole, o C.E.P. Xosé María Brea Segade. Trata-se duma celebração, tal vez em homenagem a Castelao, o qual aparece no centro da fotografia justo debaixo do gaiteiro e dum padre com charuto.


f. 2


Não lembro quem nos cedeu esta fotografia, mas acho que foi Miguel Somoza e que procede das suas investigações em Bos Aires. O gaiteiro, também trajado e com chapéu, tem muito parecido com o do Museu de Manuel Antonio, mas a colocação do ronco no ombro contrário parece descartar que se trate da mesma pessoa.  

Por último, também entre as fotografias atribuídas a Xosé Pérez, há uma da banda de Piñeiro. Ao fundo vê-se o escudo da casa da Rua de Abaixo, pelo que a foto foi tirada colocando-se entre o que hoje são os estabelecimentos de congelados  Neixón e pescados Curota.

f. 3
 
No lado direito, debaixo da palavra TENDA, há um homem com barba e chapéu. Estou convencido de que  éo gaiteiro da f. 1 e que quiçá não é casual a sua presença junto aos músicos da banda.
Alguem conhece a este gaiteiro?

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

nº 175 Uma sanfona da goiva de Urbano Anido.


D. Urbano Anido (Mondonhedo,1834; Compostela, 9 de setembro 1930) foi um muito importante ebanista com oficina na rua compostelana do Hórreo. A primeira notícia que teve dele foi graças a um documento já publicado neste blogue. Segundo os dados que ele oferece, o mestre Anido construiu um «Organillo de cilindro» para ser exibido na Exposición agricola industrial y artística de Santiago de Compostela celebrada em 1858. 


Na altura, documentando-me sobre o artesão, encontrei-me com a surpreendente notícia de que uma secretária fabricada por Anido viajara a EE.UU em 1892, por iniciativa do banqueiro galego residente em Nova Iorque, Manuel García. Segundo o artigo de José Tarrío García publicado na Gaceta de Galicia, o móvel ia fazer parte da World's Columbian Exposition de Chicago a acontecer em 1893. Não dei confirmado se foi finalmente exposto.


O artigo em questão foi ficando oculto numa pasta do meu computador, junto com muitos outros documentos curiosos dos que apenas posso comentar nada. Mas, por vezes, a fortuna alia-se da nossa parte e, como por acaso, aparecem novos documentos, dados, comentários que deitam um bocado de luz sobre as velhas histórias já quase esquecidas.
O caso é que a secretária de Urbano Anido tem profusas talhas nas que se amostram cenas próprias de romarias galegas, paisagens camponesas com músicos e bailadores vestidos com o fato tradicional. Não vou descrever pormenorizadamente cada cena, tão bem descritas por José Tarrio, só vou falar daquela que me levou, na altura, a guardar este artigo. Trata-se duma tábua que pecha o corpo inferior do móvel, por trás dumas pilastras que sustêm cinco arcos de meio ponto. Talhada pela goiva de Anido, podemos ver, junto com outros instrumentos musicais do folclore galego, uma sanfona. 
Esta semana, na sequência de uma outra investigação que nada tem a ver com esta, dei com uma página de subastas http://www.liveauctioneers.com na que fora posta a leilão o móvel de Urbano Anido. Graças às imagens que aparecem na mesma podemos saber como eram as cenas e os instrumentos talhados pelo artista da rua do Hórreo.


Existem muitos pontos de contacto entre os artistas e intelectuais da Compostela de entre séculos e a sanfona, instrumento, na altura, decadente, evocatório duma época que termina. Já neste blogue dava conta de como Cándido Castro López, vizinho da rua de Pitelos, expunha em 1909, também em Compostela, uma sanfona feita por ele mesmo. Isidoro Brocos, Manuel Vidal, o próprio Castelao... nomes unidos à sanfona como símbolo, tal ve,z do saudosismo de toda uma geração.











sexta-feira, 27 de setembro de 2013

nº 174 Um duo de sanfona e frauta.

A primeira vez que vi referenciado este conto foi no histórico artigo de Julio García Bilbao, Averiguaciones sobre la zanfona de Faustino Santalices. Recentemente, Pablo Quintana cita-lo-à na palestra apresentada em Ponte Vedra para a SAGA, que já podemos ver na rede os que na altura, infelizmente, não demos assistido. [ver aqui]
O autor do relato é Manuel Vidal (Maceda, 1871-Compostela, 1941) um padre, militante agrarista primeiro e  autonomista depois, possuidor duma extensa obra narrativa, teatral e ensaística. 
Acostuma-se a citar O derradeiro xuglar de viola pelos valiosos dados que achega referente à sanfona, dados que não procedem do estudo minucioso, como no caso de Isidoro Brocos ou Casto Sampedro, senão da simples observação dum intelectual curioso. 

Num plano puramente pessoal, fiquei impressionado pela cena na que Manuel Vidal relata um concerto realizado num paço de Lalim a cargo do duo formado por dois senhoritos, um moço desconhecido de Bergondo na sanfona e Jorge Quiroga na frauta. Este concerto evocou-me muitas coisas, velhas lembranças e alguma hipótese que apenas me atrevo a esboçar. Contudo, vou expor as minhas ideias com vontade de que na rede alguém as leia e até mesmo lhes acrescente ou refute alguma coisa.

Que eu saiba, O derradeiro xuglar de viola foi publicado por vez primeira na revista Ultreia nº 4 (15/07/1919). No texto há duas cenas contrapostas que ilustram muito bem a belle epoque da cultura tradicional galega, um intre de descobrimento definitivo do folclore pelas elites culturais e abandono paulatino de certos usos e costumes pelas populares. Assim, no mesmo conto no que se nos fala do último cego compostelano, um velhote canso das misérias do seu ofício, também se descreve um concerto numa Casa Grande, evocador das soirées do século XIX como a que tivemos o privilégio de reviver em Vilancosta.
Desta cena, na que se executa um duo de sanfona e frauta, é da hoje quisera falar.

Em primeiro lugar, devemos fixar-nos no cenário, o espaço no que está a acontecer o concerto. O paço de Quintela é uma propriedade situada na paróquia de Catasós no concelho pontevedrês de Lalim. Pertencia à família de Xorxe, o frautista, cujo nome completo é Jorge Quiroga García (Banga, O Carvalhinho, ? ; Madrid, 03/02/1953),  proprietário, desde 1935, do balneário de Carvalhinho. Jorge Quiroga era filho de Eduardo Quiroga e sobrinho de José Quiroga, o marido da Pardo Bazán. Este dado é interessante já que o padre Manuel Vidal foi capelão no Paço de Meirás, propriedade da condessa, entre os anos 1914-1918, rematando este serviço um ano antes da publicação de O derradeiro xuglar da viola.
Por certo, a Pardo Bazán também retratou num conto a um sanfonista, esta vez ao Tio Amaro de Espadanela e a sua acompanhante às conchas Sidorinha Finafrol.

Mas, chegados a este ponto, sabemos ou quando menos intuímos a identidade do sanfonista?
Pois pelo que a mim respeita, não faço a menor ideia. Quando li que era um músico multi-instrumentista e espontâneo, palavra que tal vez queira significar autodidata, pensei em João Vicente Viqueira. Tudo parecia calhar bem. O Viqueira era um corunhês de Bergondo, concretamente radicado em Vixoi, na Quinta dos Cortão. Por outra banda, o Jorge Quiroga tinha relação com Paderne, nomeadamente com o Paço dos Montecelo, herdança familiar da sua mulher Amparo Quiroga Navia. Mas resulta pouco crível que de ser Viqueira, Manuel Vidal ignorara o seu nome ou o esquecera, a não ser que se trate dum "de cuyo nombre no quiero acordarme...". Também é difícil associar, mesmo para um único concerto de música, a duas pessoalidades tão dispares, a do filósofo da I.L.E. com a do sportman filhote dos Quiroga.

Bom, fique aqui o texto com a ilustração original da capa para um leitura atenta e gozosa. O desenho de Castelao amostra a um cego com os atributos próprios do seu ofício, o de músico de la legua, chapéu de aba ancha e capote, com uma sanfona ligeiramente desproporcionada para a figura do tangedor. 

Retomarei diversos aspectos de O derradeiro xuglar de viola noutras postagens quando tenha mais vagar, mas por enquanto, desfrutem do texto1.

1. Embora, o texto esteja escrito com numerosos e grosseiros erros, decidi, como sempre faço, presenta-lo na sua versão original.



O derradeiro xuglar de viola
____

A viola, conocida co nome onomatopéyico de zanfona, no nosa terra, e o instrumento de mais groriosa hestoria da civilización española, o símbolo venerable da nosa musa popular, a maiestra musical da lingua de Castela e da lingua galaica, desde fís do sécolo doce, en que deron os primeiros vaxidos poéticos as doces vibracións das suas cordas sonoras.
Acompañados da viola entonaron os xuglares castelans e os xuglares galaicos os cantares de jesta, que ensalzaban as proezas e caudillos da Reconquista, espertando e alentando nos espritos os grandes sentimentos da gran raza ibérica.
Acompañados da viola cantáronse dispoixas os romances que sucederon as jestas, estendéndose os asuntos d’ amor, de costumes e outros mais, todos eles cheos de gracia e de inxenio, de naturalidade, de frescura e de poesía.
 Os dôces acordes da viola latexaron de alegría, moitas veces, os curazóns dos nosos antepasados, cando cáxeque non había mais medios de counicación espiritual que os sempáticos xuglares, e forxáronse as virtudes românticas da y-alma española que levou a cabo empresas cen veces mais grandes que as homéricas que cantaran os xuglares da famosa Grecia.
Os melancólicos e misteriosos acordes da viola derramaron na fala gallega esa suavidade e melosidade qu’ a distingue, e lle deu a excrusiva da lírica, na mesma Castela, en todo o sécolo trece e parde do sécolo catorce.
Unha das razós con que probarse pudera a influencia da viola na fala da nos terra é a sua supervivencia nas nosas costumes populares, sendo quizáis Galicia a últema rexión de España en que inda se toca, ou que o menos se tocou polos cegos nas nosas feiras e romeirías hastra fai moi poucos anos. Eu oína moitas veces na famosa romeiría de Sainza, non lonxe de Xinxo de Limia; na festa de Don Fanque, xunto a Maceda, e na de Nosa Señora dos milagres; e non fai moitos meses inda oína on distinguido mozo coruñés, de Bergondo, múseco xenial e espontâneo que toca toda clás d’ instrumentos –sinto non recordar o nome- na casa que n’ aldea de Quintela ten o nobre patrício don Eduardo Quiroga, meu respetable amigo e compañeiro de caza.
N’ aquela casa solariega agasalloume o xenial múseco bergondense con tres concertos de viola acompañada a frauta polo sempáteco Xorxe, fillo do señor Quiroga, e xuro polo nome da miña nai, que en toda a miña vida non sentín o misterioso escalofrío da emoción da múseca, como n’ aqueles inolvidabres concertos de Quintela ¡nin cando oín tocar o violín a Sarasate e a Manolo Quiroga!
¿Qué digo violín? Nin cando oín tocar a nosa docísima e garimosa gaita galega os Trintas de Trives, a Modesto Sánchez de Rivadavia, a Elices de Celanova, a Tomás da Ponte de don Alonso, se me escaparon bágoas tan fondas, mornas e xinselas, nin me fixo sentir e querer tanto a Galicia como cando gocei dos sentimentás, melodiosos e misteriosos acordes d’ aquela meiga viola.
Non me preguntedes que tonadas tocou que non o sei; somente sei que moitas d’ elas parescían talmente ecos cercanos das melopeas meioevás con que se cantaron as jestas e as Cantigas de Sta. María do Rey Sabio, dend’ os tempos de Xelmírez hastra Xan de Padrón e Macías o Enamorado, e dospoixas os romances populares.
Un poeta castelan a quen, sen sabere por qué, faguía chorar a gaita galega, adicoulle unha trova, na que non sabe decir se canta ou chora. A cantora do Sar e de Follas Novas repricoulle com outra dicindo: Non canta, que chora. A mín pareceu-me nos concertos aqueles que a viola canta e chora.
Nos comenzos e prelúdios, coma alma atormentada por unha cuita negra e amarga, que a espertan do noso, alivio dos tristes, espertaba tamén a viola fosca e mal-humorada, renxendo dooridamente, como os chideiros dos carros da nosa terra renxen cando van cargados polas corredoiras nas noitas sereas do vran; logo iba trocando aqueles tristes queixumes en notas e acordes de suavísema armonía, hastra que olvidando as suas cuitas e tristuras, cantaba alborozada. ¡Quén poidera decir como cantaba e como choraba!
***
N’ este Santiago de Compostela, relicário de preciosas antigüedás, vive, no Carme d’ Abaixo, o últemo descendente d’ aquela ilustre xeneración de xuglares de viola, mensaxeiros entusiasiastas e ben amados do arte e da poesia, das lendas, costumes e sentimentos da nosa Patria grande e da nosa Patria feiticeira e pequeniña.
Vive inda na groriosa Compostela o últemo xuglar de viola, aunque xa non tocará mais, pois está triste, cego, cargado de anos e ulvidado, coa sua sanfona enfundada, doéndose das tristes mudanzas dos tempos, en que xa non se lle fai ningún caso, e añorando os anos felices en que era o encanto dos pelegrinos nas foliadas do Santo Apóstol, e rrecorría alegremente as feiras e as romerías de Galicia.
Non hai moito qu’ o vin pasar, cabizbaixo, co seu carís hierático, coas suas antiparras milenarias, co seu chaquetón todo remendado, sen mais guía que un can vello pola rúa do Pombal abaixo.
Levaba a zanfona colgada as costas por unha baraza averdosada, e corrín tras dél pra lle preguntar onde vivía e se podia faguerme o favor de tocarme un pouco, aunque fose na sua casa; mais contívenme pois pareceume unha sombra ancestral d’ aqueles tempos d’ amor e de relixiosidode, de patriotismo e de poesía, que pasaron pra non velveren, e que se debía respetare como se respeta unha cousa misteriosa e sagrada.
Aunque vive inda hoxe, según me dicen, como se non vivira. ¡Non volverá a tocar máis o derradeiro xuglar de viola!
Despóis que él cerre os ollos xa non nos quedará mais recordo do venerabre instrumento da nosa poesia popular que o organistrum, pai da viola, que teñen nas maus os músicos anxélicos do noso Pórtico da Groria.

Vidal Rodríguez, Manuel (1871-1941) Contos galegos d’antano e d’hogano Santiago de compostela: [s.n.], 1920 (El Eco Franciscano)

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

nº 173 Policromia no cruzeiro de As Mirães, o Aranho.

Sempre me fascinou o uso da cor nos cruzeiros e petos de ânimas e não compreendo como carecemos de uma tese de doutoramento ou algum trabalho sério que fale deste tipo de policromia ou quando menos eu não a conheço. Afortunadamente, ainda que escassos, conservamos alguma obra que nos permite saber como seriam as coisas quando cruzeiros e petos luziam suas cores em todo o seu explendor. Um dos exemplos mais formosos é o de Marrúbio, em Moimenta, bem conservado graças a estar coberto por um alpendre. Nele podemos ver e imaginar pigmentos vermelhos ou telha, cobalto, preto, como no hábito do Santo Antão, verde...

Na paróquia de Rianjo há dois cruzeiros extraordinariamente parecidos ao de Marrúbio e que ainda conservam traças da policromia original. São o cruzeiro da praça de Dieste e outro no Rianjinho, próximo ao paço de Viturro. Coloco as fotografias dos três com as suas datações:

Marrúbio. Fonte: diazelvis 1778


Praça de Dieste 1791

Rianxinho. Fonte: Fotos de Rianxo 179?

Como se pode apreciar nas fotografias o modelo compositivo é o mesmo nos três, sendo os de Rianjo praticamente gémeos. O do Rianjinho presenta entre o capitel e a cruz um prisma rectangular, antiestético e acho que desnecessário, fruto duma restauração do 1994, como consta na rudimentar inscrição.

Rianjinho. Detalhe.

Para outra ocasião deixo alguma reflexão mais sobre o modelo destes cruzeiros onde os paus da cruz presentam os nós dos ramos cortadas e as virgens são especialmente formosas, como neste outro exemplo taragonhês do que já tenho falado.

Coincido com Castelao quando afirma: «Podemos decir que non hai cruceiro que non fose pintado algunha vez - pol-o menos cando se fixo- [...]» As cruces de pedra na Galiza p. 129 Se isto é assim, o escultor devia conceber o seu trabalho para ser iluminado e só consideraria rematada a sua obra quando os drapeados, os mantos, os rostros colheram cor. Nos cruzeiros acima citados resulta evidente. As partes luminosas do fato da virgem pintavam-se de vermelho e as escuras, ocultas pelas dobras, de preto.

Mas que acontecia com os cruzeiros de capela ou Loreto? Como eram pintados? Eu faço a ideia de que o basamento, o varal e a capela eram-no de branco. Obviamente é só uma impressão motivada por fotografias e por restos de pintura que tenho observado neste tipo de cruzeiros. De ser isto certo, quiçá esta prática tenha a ver com a própria natureza do monumento, simular uma capela ou mesmo a Santa Casa da virgem de Loreto. Mas a cruz, as imagens e o interior do nicho sim eram profusamente policromadas.

Numa brochura muito interessante titulada Petroglifos cruciformes, cruceros y petos de animas dirigida por Domingo Regueira González, autor da web Petroglifos cruciformes, podemos ver o estado do cruzeiro de Santa Clara no Deão Grande ca. de 1986 [ano de publicação].


Hoje, apenas 27 anos depois, o cruzeiro de Santa Clara sofreu o ataque dos cromofóbicos, estando na atualidade em pedra viva. A maioria dos monumentos perderam as suas cores pelo efeito do passo do tempo, mas outros foram maltratados, tirando-lhes de mala maneira a sua iluminação. O exemplo de Santa Clara em Riveira é significativo. Alguém pode dizer que a pintura já não era a original, que fora repintado pelos vizinhos, que a imagem da virgem com o neno resulta grotesca. É possível. Mas também é possível que a limpeza fora feita, neste ou em tantos outros casos, por funcionários municipais sem qualquer responsabilidade, mas também sem qualquer preparação. Quem sabe o dano que puderam provocar com os seus atos!


Mas agora interessa um cruzeiro dos nossos, um que se encontra nas Mirães, paróquia do Aranho.
O do Campo do Rio é um cruzeiro de capela, em cujo interior houve outrora a imagem duma virgem orante, hoje desaparecida, como podemos observar no desenho de Castelao.

É no interior deste nicho que encontramos restos de pintura de cor vermelha sobre um revocado branco.




Uma possível interpretação da trama desenhada nas paredes interiores poderia ser esta:


Em definitiva, um cruzeiro é uma obra escultórica em pedra policromada. A razão de que na atualidade vejamos estes monumentos desprovidos de cor tem diversas explicações, resulta um tema complexo e merece da atenção de especialistas. Mas nós, o zê povinho, temos de perceber a importância que tem conservar os escassos restos de policromia na esperança de que no futuro esta pintura esvaída, fragmentada, nos permita reconstruir, mesmo que só de modo virtual, o explendor cromático original.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

nº 172 Uma fotografia de Gerda Taro.

Muitas vezes tenho olhado curioso para esta fotografia. Há algo nela que me atrai, que me atrapa, e não tem nada a ver com que os protagonistas sejam músicos, ou tal vez sim.

A fotografia achega-nos uma história dramática. A bordo do acoiraçado da armada espanhola Jaime I, navio que permaneceu fiel a república, um grupo de homens batem palmas e sorriem por enquanto um marinheiro toca um acordeão diatônico de oitenta baixos, Monferrato? e outro uma gaita de foles. A foto está assinada por Gerda Taro, fotografa de prensa companheira do também fotógrafo Robert Capa e datada em Almeria em fevereiro do 1937. 

O Jaime I é bombardeado no porto de Almeria três meses depois de tirada esta instantânea, primeiro por aviões italianos e em dias sucessivos por hidroaviões vindos de Cádiz. Embora com grandes destroços consegue chegar a Cartagena onde tem a sua base. O 17 de junho, quando o barco está a ser reparado, uma explosão no seu interior causa trezentos mortos e o fim definitivo do acoiraçado. É mais que possível que entre os falecidos estejam muitos dos que aparecem na fotografia, quiçá também os músicos.

Um mês mais tarde, em 26 de julho, Gerda Taro morre em plena batalha de Brunete a consequência das feridas provocadas pelo atropelo dum tanque.


                    

segunda-feira, 15 de julho de 2013

nº 171 Armas de destruição massiva.

Já contei neste blogue os meus terrores associados ao uso de armas. Numa família de militares eram frequente as pistolas na casa, como a astra 9 mm corto do meu pai que vi armar e desarmar muitas vezes sobre a pequena mesa da nossa sala de estar. Que nome mais horrível o de sala de estar! Supõe-se que todas as salas são para estar, ainda que bem mirado, a biblioteca e o comedor são mais bem para ser.
Pois bem, nunca fui violento e quando houve de sê-lo preferi os punhos aos artefatos, o mais sofisticado dos quais, a escopeta de ar comprimido. A minha estava quase que sempre atorada já que na troca de balins, havia-os de perdigão e de copa, eu disparava com bolinhas de papel molhadas em cuspe.
Mas igual que o cérebro humano, nomeadamente o infantil, constrói bonecos ou instrumentos musicais pobres, também faz armamento pobre com o que lutar nas, v. gr., encarniçadas batalhas interbairros. Se a escopeta era o aparelho mais elaborado, o menos era sem dúvida o tutelo, esta vez sim, que nome mais formoso!
Os melhores eram os de cana de bambu. Havia quem os queria longos, quase como cerbatanas indígenas. Eu preferia-os curtos (algo a ver com o pene e com Freud?), os quais precisavam de menos folgos para o disparo certeiro. A munição era a base de sementes de hedras, havendo, por sua vez, uma grande variedade de tamanhos e cores. Os do meu bairro íamos a um lugar que ficou com esse nome, Rua das Hedras, e, mais uma vez a madalena de Proust, o sabor de aquelas sementes na boca ficou intimamente ligado aos tempos da minha infância.
Antes de que os contrabandistas se tornaram narcos, a única pistola que havia no meu povo era a do meu pai. Com tudo, as crianças tínhamos os nossos revólveres feitos de pregadores carregados com milhos os quais saiam projectados a uma velocidade considerável. Sempre pensei que aquele artefacto tão engenhoso, a pistola de pregadores, era um invento carcamão. Pois não. Está estendido por todos os lugares onde se usam os aparelhos para assegurar a  roupa com mole de arame, um invento do mexicano Rafael Guillermo Salazar Peña, cuja vida daria para um romance de Bolaño. Este homem natural de Monterrey nasceu em 1918 e o seu invento só se popularizou após a segunda guerra mundial, assim que o nosso brinquedo tem de ser uma coisa relativamente recente.
Lembro que também existia fuzilaria, esta vez com pregadores, uma tábua, uns cravos e uma goma. Com estas espingardas atirava-se mormente às cachas, sendo o belisco uma brincadeira de mau gosto. Sei-no bem, já que eu era mais vítima que franco-atirador.
Na seção de cordas o rei era o arco feito com varetas de guarda-chuva e linha de pescar. As setas eram afiadas contra as pedras dos muros, ficando espetadas nos troncos das árvores com suma facilidade. Um bom arqueiro com varetas dum sete-paróquias podia chegar a matar, isso sim, apenas pequenos animalinhos como ratos ou pardais.
Com tudo, o nosso armamento raiava as vezes com o absurdo. Influenciados pelas películas de Bruce Lee que massivamente projectavam no Capitol começamos a utilizar nunchacos ou lunchacos, para nós unchacos, de fabricação caseira. O uso desta arma das artes marciais chinesa pode explicar muitos dos erros cometidos na vida pelos meus coetâneos. As nossas matracas eram feitas primeiramente com cabos de legonha, ganchos e umas cordas ou inclusive delgadas cadeias de ferro. A incosistência dos ganchos convertia muitas vezes ao nunchaco numa arma de arremesso, sendo frequente o voo pelos ares e sem controlo dum dos seus extremos. Imitando ao tal Bruce Lee fazíamos katas denominadas ventoinhas, moinhos... dando berros agressivos que apenas dissimulavam a dor produzida pelas frequentes autolesões. Mesmo, num alarde de estética ninja, passávamos a matraca por baixo das pernas, recolhendo a cegas um dos cabos pelas costas. Quiçá os meus problemas reprodutivos tenham origem nesta prática circense. 
Dizia ao princípio que a arma mais simples era o tutelo, mas fazendo memória tenho que dizer que estou errado. No campo de batalha, estou a lembrar as atividades extraescolares no Pombal, nada melhor que uma pinha. Se só pretendes brincar, sem causar muitas baixas, o melhor é um pinha aberta, seca, ligeira. Para amolar bem amolado, as úmidas, pinhas ensimesmadas, com pinhões introvertidos e taciturnos.
Eis a panóplia carcamão que ainda lembro. Da minha geração, tem de haver muitas cicatrizes em crânios e quiçá também nas almas, pois as derrotas sempre são dolorosas. Lamento se a descrição dos artefactos não foi de tudo precisa, mas nisso das lutas a vida ou morte, eu sempre preferi o corpo a corpo.

Já não sei cantar canções de crianças...
Manuel Antonio


As ruas todas têm fome de meninos.
Noutros tempo
o eco eram pisadas diminutas
esvaziando as poças a pontapés.
Havia amores diminutos
com custosos presentes aos namorados:
uns brincos de fúchsias
ou um colar de camomila.
Havia diminutos fatos
que nunca passavam desapercebidos,
diminutos lanches
de tijolo e chuchamel,
e um sorriso diminuto
a abrir hospitalário o seu portelo.
Mas hoje as ruas estão fomentas de meninos
quem sabe se fugidos
para um outro território sem infantários-infantívoros.

Poema já publicado neste blogue: postagem nº 09