Ontem tive a oportunidade de asistir a um evento da SOGAPS, uma associação solidária com a causa saarauí. Desfrutamos de um belíssimo concerto do grupo Boroa, acompanhado por aguarelas ao vivo do artista gráfico David Cuence e das apresentações de Aldara e Munina. Tudo lindo.
Durante o concerto, veio-me à cabeça um poema de Manuel António que há uns dias partilhei com Tero.
As melfas
MELFAS
flores náufragas
d’anónimos outonos
Enfiadoras de camiños infecundos
pol-a Rosa d’os Ventos
Atopadoras d’o ronsel sin dono
Cadaleito d’os cometas afogados
todal-as noites n-o hourizonte
Corazón malsán
d’o mariño suicida
ceibado d’as roseiras de Caronte
Apodrecidas melfas d’a Ría
indefensas n-o berce dás araxes!
Versos desrimados d’o Poema
que unha mañán desfollou a nordecía!
Rianxo, decembro, 1923
Segundo Xsé Luís Axetitos, melfas é como as medusas são conhecidas em Rianxo. A estes cnidários marinhos chamam-lhe os marinheiros portugueses água-viva, e os da Arousa, minha terra, com seu antónimo água-morta.
Lembrei-me deste poema porque melfa (melhfa) é também o traje tradicional das mulheres no Saara e na região do Sael. Na minha casa, Rio de Oro, Villa Cisneros e até a Marcha Verde são expressões muito familiares, porque o meu pai, e os meus dois irmãos militares, viajaram por aquela costa nos navios da Marinha Espanhola. Na minha cabeça, onde o realismo é sempre mágico, construí uma etimologia perfeita, ainda que inventada. Imaginemos que, no passado, um marinheiro de Rianxo embarcou para a o banco pesqueiro do Saara. Talvez, no convés, tenha visto o tecido colorido duma melfa a balançar ao vento nas areias da Duna Branca de Dakhla. Talvez o vestido da mulher saariana parecesse ao longe, uma água-viva sinuosa corporizada.
O marinheiro de Rianxo —como todos eles, poeta— esqueceu o nome da medusa. Desde então, e para sempre, seria melfa.
Quem sabe se Manuel António, marinheiro e poeta, como é lógico, conhecia esta história. E talvez os seus últimos versos fossem uma profecia a descrever o povo saariano e a sua luta:
Versos desrimados d’o Poema
que unha mañán desfollou a nordecía!
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