domingo, 24 de maio de 2026

Nº 256 Agua-viva


Ontem tive a oportunidade de asistir a um evento da SOGAPS, uma associação solidária com a causa saarauí. Desfrutamos de um belíssimo concerto do grupo Boroa, acompanhado por aguarelas ao vivo do artista gráfico David Cuence e das apresentações de Aldara e Munina. Tudo lindo.

Durante o concerto, veio-me à cabeça um poema de Manuel António que há uns dias partilhei com Tero. 

As melfas


MELFAS

flores náufragas

d’anónimos outonos

Enfiadoras de camiños infecundos

pol-a Rosa d’os Ventos

Atopadoras d’o ronsel sin dono

Cadaleito d’os cometas afogados

todal-as noites n-o hourizonte

Corazón malsán

d’o mariño suicida

ceibado d’as roseiras de Caronte

Apodrecidas melfas d’a Ría

indefensas n-o berce dás araxes!

Versos desrimados d’o Poema

que unha mañán desfollou a nordecía!

                                             Rianxo, decembro, 1923


Segundo Xsé Luís Axetitos, melfas é como as medusas são conhecidas em Rianxo. A estes cnidários marinhos chamam-lhe os marinheiros portugueses água-viva, e os da Arousa, minha terra, com seu antónimo água-morta.

Lembrei-me deste poema porque melfa (melhfa) é também o traje tradicional das mulheres no Saara e na região do Sael. Na minha casa, Rio de Oro, Villa Cisneros e até a Marcha Verde são expressões muito familiares, porque o meu pai, e os meus dois irmãos militares, viajaram por aquela costa nos navios da Marinha Espanhola. Na minha cabeça, onde o realismo é sempre mágico, construí uma etimologia perfeita, ainda que inventada. Imaginemos que, no passado, um marinheiro de Rianxo embarcou para a o banco pesqueiro do Saara. Talvez, no convés, tenha visto o tecido colorido duma melfa a balançar ao vento nas areias da Duna Branca de Dakhla. Talvez o vestido da mulher saariana parecesse ao longe, uma água-viva sinuosa corporizada.

O marinheiro de Rianxo —como todos eles, poeta— esqueceu o nome da medusa. Desde então, e para sempre, seria melfa.

Quem sabe se Manuel António, marinheiro e poeta, como é lógico, conhecia esta história. E talvez os seus últimos versos fossem uma profecia a descrever o povo saariano e a sua luta:

Versos desrimados d’o Poema

que unha mañán desfollou a nordecía!

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