segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

nº 156 Um gaiteiro na fachada do Paço de Rajoy.




Não sei as vezes que olharia esta fotografia do Batalhão infantil na praça do Obradoiro, tirada em 1912 pelo fotógrafo Manuel Chicharro Bisi (1849-1924). Dá-me arrepios ver tanta criança ataviada de soldado, com as suas correias e quepes, firmes com os rostos olhando para a Sé compostelana.
Tão pouco engraçada me pareceu sempre esta foto, que nunca a olhei com o interesse que deve pôr um bom documentalista. A semana passada, repassando Galicia en blanco y negro de Ramón Pernas, Xosé Enrique Acuña e José Luis Capo, ed. Espasa; Madrid, 2000, encontrei-me novamente com a instantânea de Chicharro e cai na conta que na parede direita do primeiro vão das galerias do Paço de Rajoy há um cartaz. É difícil de distinguir, mas ampliando a foto vê-se bem que era o que anunciava.


É evidente que se trata do desenho que Castelao fiz para as festas do Apóstolo de 1912. Esse foi um grande ano para o artista rianjeiro, já que expõe em Madrid, no salão Iturrioz e em outubro casa com Virginia Pereira. Como se pode ver no gráfico, o desenho da parede e o da imagem a cor têm o mesmo motivo, um gaiteiro com a silhueta das torres ao fundo, mas não estão as colunas que suportam o arco e a grinalda. A imagem a cor, vem referenciada, aliás, como o programa de mão das festas com um tamanho de 33,2x23,4 cm. A foto de Chicharro amossa um papel de grandes proporções, calculo que de 100x140. Eu nunca vi uma imagem deste cartaz, e nem sei se existe. De momento conformo-me com saber que um dia houve um grande lençol com um gaiteiro pintado por Castelao no Paço de Rajoy. O atual presidente da câmara municipal de Compostela colgaria hoje um desenho do grande rianjeiro na fachada do consistório? De ser assim eu recomendaria-lhe aquele que diz: Mexam por nós e temos que dizer que chove.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

nº 155 A Ilha de Arousa no NO-DO


Estou começando a trabalhar com as imagem do NO-DO que já se podem ver na web de RTVE. As da Arousa em 1951 são breves mas fantásticas. Tal vez sejam as únicas imagens duma fábrica de conservas carcamão em movimento. Agora haveria que procurar identificar pessoas, lugares... ou simplesmente desfrutar dum paraíso perdido, o da nossa insularidade.



sábado, 19 de janeiro de 2013

nº 154 O Sillón dos Moros.

Ser profe nestes dias resulta bem durinho, mas, de vez em quando, acontece alguma alegria. Ontem, duas crianças de sexto, Marcos e Alonso do Aranho, disseram-me que cerca da sua casa, havia um rochedo chamado O Sillón dos Moros, um lugar ao que gostavam de ir nas suas expedições pelo mato. Ao escutar o nome soube que naquele lugar tinha de haver algo bom e perguntei-me como até agora não soubera da sua existência. Tenho que dizer que desde que lhes escutei falar do lugar fiquei preso pela ansiedade de ir lá, olhando pela janela se a ciclogénese ia embora e deixava raiolar o sol.
Hoje, ao meio-dia, enviei um correio ao amigo Carlos Collazo por ver se vinha comigo e a resposta foi imediata. As quatro e meia, aproximadamente, púnhamos rumo ao Sillón dos Moros.
Seguimos todas as indicações de Marcos e Alonso, que resultaram ser singelas e precisas, sem nenhuma possibilidade de perda. Depois de passar o centro cultural da Capela subimos cara ao monte pela estrada até colher uma pista repleta de caçadores. Baixo fogo amigo, ou quando menos essa era a nossa esperança, fomos caminhando sem ter muita certeza de estar pelo caminho certo. Quando já começávamos a duvidar, vimos um homem e a sua espingarda encostado a um 4X4, assim que decidimos achegar-nos a ele para lhe perguntar. Foi desnecessário. A poucos metros vimos uns cons que formavam um balcão ao rio, como pendurados a um vale de aparência glacial formado por um rio entre duas montanhas.
Nesse instante o Carlos e mais eu olhamo-nos para disser a um tempo:

- É aí.

Comecei a tirar fotos e uma vez mais comprovei o difícil que é transmitir em imagens estáticas o que vemos na realidade. O promontório vê-se desde o caminho como uma espécie de grande mámoa com um acesso lógico pelo que te vai levando a senda que se abre entre os cons. Teve a sensação de que o chão está todo ferrado de pedra [foto 1], quiçá o refugalho dos pedreiros ou quem sabe...


 
 foto 1

Para chegar ao Sillón entra-se por uma plataforma entre dois cons redondeados [foto 2] que vem sendo como o pórtico ao grande monumento paisagístico. Sempre gosto de lembrar que os galeguistas do manifesto de Lugo incluíam a defesa da paisagem na sua estratégia para lograr a soberania estética da nação galega.

foto 2

Depois deste primeiro patamar, descemos por um canal [foto 3] perfeitamente traçado que leva directamente ao Sillón.

foto 3

O Sillón dos Moros [foto 4] é exactamente isso, um cadeirão de pedra, com o seu espaldar e umas maravilhosas vistas aos montes da redonda, os mais próximos o Cerqueiro, o monte do Aranho, o Treito... Também se vê algo da ria e os picos dos altos montes barbações. Magnífico. 
A pedra em questão é branca, destacando no meio do mato, mesmo no conjunto pétreo, tendo no assento umas caçoletas pequenas.

foto 4

Sentado na pedra fiz esta instantânea [foto 5] que, como disse, apenas dá uma ideia da sensação que um sente ocupando tão privilegiada atalaia.

foto 5

O lugar merece visitas mais demoradas que com certeza serão dadas proximamente, mas uma vista de olhos rápida e arriscada, os disparos dos caçadores cada vez soavam mais perto, permitiram-nos descobrir alguma coisinha de interesse.
Eu gostei imenso duma pedra [foto 6], novamente esquisitamente branca, com duas pias cumpridas e comunicadas semelhando como algibes feitos de propósito para reter a água. Ainda que na foto pareça pequena, a pedra é de consideráveis proporções.

foto 6

Como não podia ser doutro modo, os graffiteiros do passado deixaram lá também a sua marca. Quando voltemos faremos uma descrição mais detida destas gravuras, mas por enquanto, fiquem estas imagens [foto 7-8].

foto 7
 
foto 8

Quisera, para concluir, fazer uma reflexão final. Nos anos que levo de mestre, cumpri em dezembro dezassete, venho observando como cada vez, os profissionais do ensino estão melhor preparados, mais especializados, com melhores recursos. Por contra, na minha modesta opinião, cada vez escutamos menos ao nosso alumnado. Sempre pensei que @s profes podemos ajudar aos noss@s alun@s a apreender algo, mas é de estúpidos não aproveitarem os ensinamentos que eles nos dão todos os dias. Tenho a impressão que nestes dezassete anos fui eu o aprendiz. Por certo, se eles me examinaram como eu os examino a eles, aprovaria?


P.S. Depois de publicado esta postagem recebi uma foto que me tirou o Carlos Collazo com o seu móbil. Acho que é a imagem que melhor transmite o que um sente nesse lugar. 

    

sábado, 12 de janeiro de 2013

nº 153 Por buscar um tesouro...

No concelho de Verim foram descobertas estelas funerárias tais como a do Muinho de São Pedro, que além do seu grande interesse arqueológico, resulta bem bonita para pessoas que como a mim a história nos entra pelos olhos (e pelos ouvidos). Lendo prensa antiga encontrei esta notícia que, perdoe-me o paisano do Espinho, resulta do mais cómica. Fica claro que se a avareza é perigosa, a arqueologia amadora não o é menos.
Aproveito para recomendar o artigo sobre o livro de São Cipriano do meu amigo, o culto advogado de Ourense, Felix Castro Vicente. 
Por certo, que seria da estela?

«Por buscar un tesoro

Una desgracia


En Espiño, pueblo del Ayuntamiento de Verín, hay una terrible monomanía entre el vecindario, crédulo y supersticioso, por los tesoros escondidos, que han de ser desenterrados por virtud del empecatado libro de San Cipriano o de otros mágicos conjuros y a fuerza de desembolsos y paciencia.
A algunos inocentes que antes eran allí labregos acomodados les ha costado ya una friolera la pícara idea de hacerse ricos por arte de birlibirloque.
Ahora nos escriben de allí dándonos noticia de un lamentable suceso de que fue víctima otro buscador de tesoros.
Dedicábase al laboreo de tierras en una finca de su propiedad cuando advirtió que la reja del arado que empleaba tropezaba con un obstáculo.
Suspendió la tarea, cavó, arañó la tierra y no tardó en descubrir una gran piedra, semejante á una lápida sepulcral.
Llamó en su ayuda a dos hijos que no lejos trabajaban y entre los tres levantaron la losa, que tiene, según dicen, particularidades curiosas.
Tratábase al parecer de los restos de una tumba que sabe Dios de que tiempo data. En la fosa abierta aparecieron algunos cacharros de barro cuya importancia está por determinar.
Se sobresaltó extraordinariamente el bueno del hombre. Se imaginó en presencia de uno de los tesoros del tiempo de los moros o de los de María Castaña con que sueñan sus convecinos y despidiendo a sus hijos y suspendiendo las faenas agrícolas puso manos decididamente al desentierro del hallazgo.
Trabajó con furia y la cueva fue ahondandose cada vez más.
Ni una moneda, ni una alhaja aparecería pero el labriego no se daba a partido. De pronto... la pesada losa que había quedado en alto, mal asegurada, rodó hasta el fondo del hoyo cogiendo debajo al infeliz.
A sus desesperados gritos acudieron varias personas que lo salvaron de una muerte cierta. Con todo, resultó con las dos piernas fracturadas.
Quizás haya que amputárselas.» La correspondencia gallega. 13/06/1905

Possível estela numa vivenda de Rianjo.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

nº 152 Uma molheira da Luftwaffe.

Em janeiro do 2010 escrevia alguma coisa sobre a história da simbologia fascista na Galiza (ver aqui), concretamente dos carimbos impressos na correspondência dum fabriqueiro arousão. A iconografia nazi produz certo estremecimento quando a temos tão cerca, entre as mãos, como se revivêramos os horrores que na altura provocaram os fanáticos alemães, sofrimento muito similar ao que hoje provocam outros fanáticos por causa duma ideologia, duma religião ou dum território.
Nos dias prévios ao Natal, fui ao Ferrol à casa familiar e um irmão meu indicou-me que olhara uma molheira antiga que a minha mãe guardava entre outras velharias. Ao dar-lhe a volta surpreendeu-me a marca da fábrica:


Trata-se duma peça de louça fabricada nos fornos de Plankenhammer, Floss Bavaria, tal e como se pode ler no emblema da firma.


O curioso da molheira da minha mãe é que junto ao emblema da marca Plankenhammer, aparece o da Luftwaffe, a águia imperial assegurando uma suástica. A cada lado da cruz gamada lemos FI. U.V., iniciais de Flieger Unterkunft Verxalting, uma marca de inventario da lufwaffe que vem a significar algo assim como «administração dos quartéis dos voos». Suponho que devia ser material do serviço em terra dos aviadores do exército alemão. 
A sopeira chegou à minha casa nos anos oitenta, na mala dum irmão militar que a encontrou no seu destino por terras espanholas. Outra caraterística da peça é a data junto a suástica: 1936. Neste ano, como é sabido, começava a Guerra Civil espanhola. Tal vez com esta baixela comeu algum dos aviadores da Legião Cóndor? Quiçá algum dos que deitaram bombas sobre Guernica? O dito,ter nas mãos esta peça de louça continua a produzir arrepios setenta e seis anos depois.

sábado, 24 de novembro de 2012

nº 151 Um artigo sobre Faustino Rei Romero musicado.

O passado verão pediram-me um artigo para a revista das Festas da Guadalupe de Rianjo, uma publicação com contidos locais duma grande qualidade e tradição. É para mim uma honra compartilhar publicação com amigos como Brea Rei ou Jesus Santos e não deixa de ser um jeito de me apresentar como rianjeiro, sem por isso renunciar a minha patente de carcamão. O meu trabalho fala dum poema, Canta, passarinho, canta e do seu autor Faustino Rei Romero. A minha achega ao autor está feita desde um ponto de vista musical, já que se dá a circunstância que de sobre este poema fizeram-se magníficas canções por autores tão importantes como Frederico de Freitas, Rogélio Grova ou o rianjeiro Manuel Vicente Figueira.
Se quereis dar-lhe uma vista de olhos ao meu artigo aqui vos deixo o PDF.  

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

nº 150 O neno e o velho

É sabida a minha admiração por Manuel António, quase diria que devoção por aquele que foi mestre de poetas, navegante profissional e músico amador. Gostava da sua poesia e agora estou louco pela sua prosa a qual chegou a nós graças ao volume editado para a R.A.G. por Xosé Luís Axeitos.
O trabalho do académico rianjeiro é fantástico, presentando-nos os textos tal como os escreveu no seu dia Manuel António e com breves notas eruditas, e não mais das necessárias.
Suponho que hei tornar a esta publicação para dar a minha opinião sobre os textos manuelantonianos, mas hoje, próximos ao dia de defuntos, quero publicar um conto gráfico, abusando dum texto extraído deste volume de prosas, concretamente da página 63, por se alguém quer consultar o texto completo e na grafia original.


Para quem quiser o pdf: aqui