segunda-feira, 8 de agosto de 2011

nº 118 Meu Rianxo.

Hoje a minha parceira de aventuras, a minha bicicleta, levou-me a um lugar muito formoso de Rianjo, ao pé mesmo dum centro urbano que semelha viver de costas a ele. Quando montei na minha viatura nada suspeitava a onde esta me ia conduzir. Deixei-a ir a sua vontade, de vagar, com vocação de navegante.

Peguei em direção à praia do Tronco, ultrapassei o camping e colhi um camininho entre o mato em direção a Cortes. Ao subir uma costinha reparei que a minha direita havia uma senda de pedra que descia cara a algures, uma caminho ferrado de pedra dos que ainda ficam no nosso concelho e que são verdadeiras relíquias antropológicas.


Deixei a bicicleta e desci atento as lousas do chão que tantas coisas acostumam contar a quem sabe escutar. No topo do caminho, uma passadeira de pedra e uma contemporânea ponte de troncos dão passo a um lugar onde paga a pena ir, perder-se um bocadinho e desfrutar do momento. Mais nada.

Ao cruzar o regato, que deve ser o Grenla, ainda que não tenho a certeza, podes ver uma obra de engenharia popular incrível. São dois moinhos cuja atividade noutros tempo deveu ser muito importante. O que está mais acima no leito do rio conserva as quatro paredes, ainda que como o outro está sem o teito. Na jamba da entrada encontramo-nos novamente com cruzes gravadas, como tantas outras das que já tenho falado neste blogue na série Graffiteiros do Passado.




Numa das pedras da porta, há uma cartela onde semelha estar gravada de modo muito tosco os caracteres M 7.


O outro moinho, situado uns metros mais abaixo, pareceu-me uma obra de maior envergadura. As paredes que dão ao rio permite-nos intuir o que deveu ser este engenho em pleno funcionamento.



No entorno das edificações o mato ainda nos deixa ver toda a obra humana para canalizar a agua do regato, dar-lhe força, domesticá-la, etc.




A vegetação que nos arrodeia arrecende a loureiro. Efetivamente nesta laurisilva tão próxima ao centro urbano de Rianjo há louros, carvalhos, fentos, gilbarbeiras...

Mas quando abandonei o lugar na procura da minha bicicleta, e já menos preocupado no enlousado, percebi alguma outra coisa que não vira quando cheguei.

Toda a zona deveu ser uma canteira, onde os pedreiros foram trabalhando as rochas a flor de terra. De facto, há muitos rebos, restos do picado da pedra e marcas das cunhas e dos buris sobre as pedras refugadas. Um com semidesfeito pelos pedreiros tem uma pia dessas que de ser feitas pela natureza... pois manda truco! Não tinha com que medir, mas acho que há de ter uns 50 cms de diâmetro.


Perto desta pedra, e quase imperceptível desde o caminho, existem as ruínas doutra edificação. Deveu ser uma obra de boas dimensões, mas agora tudo está comesto pelas silvas. Os muros, de perpianhos bem lavrados, e algum deles de considerável tamanho, aproveitaram um grande rochedo como parte do paramento. Estas pedras inclusas nos muros são algo que tenho observado em várias casas de Rianjo e não deixa de ter um certo ar troglodita.



Em definitiva, que paga a pena ir até aló. Normalmente gosto de editar os meus postagens depois de documentar-me, perguntar a gente, saber quanto se pode daquelo do que vou falar. Hoje só queria transmitir a minha emoção ante a primeira olhada a um lugar tão especial.

Dada a sua proximidade a Rianjo, de praias como Tangil ou o Tronco, resulta estranho que não fosse aproveitado o seu potencial turístico. Dá para fazer percursos conectadas quiçá com Brião ou Abuim, criar um circuito etnográfico que nos leve desde aqui à eira das graneiras de Meiquiz, ao Moinho do Rio do Mar no Rial, à Aldeia mal chamada Maldita de Abuim...

Meu Rianjo, que bonito és!

sábado, 16 de julho de 2011

nº 117 Cantigas de amigo com amigos.

foto: Actus

Que surpressa mais bonitinha. Os amigos de Actus, Francisco Luengo e meu primo Xurxo Varela, incluiram na página web da associação uns áudios que graváramos na Universidade Laboral de Gijón. Teve o honor de tocar com gente do grandíssimo nível do próprio Luengo (director) e Xurxo, Paulina Ceremuzynska, Manuel Vilas e César Árias.
Podeis escutar os áudios aqui.

sábado, 9 de julho de 2011

nº 116 São Pedro de Vilas

O sábado passado sai por primeira vez na bici apôs o remate das aulas. Andei uns quinze quilómetros, todos eles no concelho de Rianjo, tendo como metas volantes as igrejas paroquiais. Foi um percurso muito produtivo já que coincidiu que todas elas tinham as suas portas abertas e pude visita-las, tirar fotografias e falar com a gente. Bom, não em todas, duma delas botaram-me fora, mas isso já o contarei noutra ocasião mais acaida.
Hoje quero contar as minhas impressões sobre a ermida de São Pedro de Vilas, um dos enclaves mais sugerentes e sugestivos nos que tenha estado. Por pura casualidade fui no dia em que se celebrava o patrão, havia gaiteiros, pouca gente e a capelinha toda para mim.
Uma das grandes surpresas, quando menos para um recém chegado a cultura rianjeira, foi o de estar ante a supervivência do rito, tendo como cenário um templo oculto no mato, no alto dum outeiro.
No adro colocaram um tapete de hortênsias, uma decoração simples mas eficaz.

fig. 1

A fachada é para ver com calma. Sobre a porta destacam o escudo dos Torrado, uma cartela e por baixo desta, uma venera cruzada por um xis. Sobre a heráldica e a genealogia dos fundadores falaram Xosé Comoxo e Xesús Santos, num livro do que tomarei prestado mais adiante alguma cita.
Mas há outros elementos que chamam muito mais a minha atenção. Primeiramente um par de cabeças de pedra fig. 2 e 3, insertas na fachada e que estão a ambos os lados da porta principal.

fig. 2

fig. 3

No muro norte, fazendo parte da cornija, há mais uma cabeça, melhor conservada e até quiçá melhor talhada em origem.

fig .4
Estas cabeças lembram muito a outras tomadas por castrejas e documentadas em Chãos de Amoeiro no interessantíssimo artigo: A APROPIACIÓN SIMBÓLICA DA CULTURA MATERIAL CASTREXA NA PAISAXE CULTURAL DOS CHAOS DE AMOEIRO (OURENSE, GALICIA) da autoria de ARIZAGA CASTRO, ÁLVARO R; FÁBREGA ÁLVAREZ, PASTOR; AYÁN VILA, XURXO M.; RODRÍGUEZ PAZ, ANXO Cuadernos de Estudos Galegos, LIII N.º 119, janeiro-dezembro (2006), pp. 87-129 Imprescindível!!!
A fig. 2 mede 28 cm. aprox. e representa uma cabeça com grandes concas oculares e também grandes orelhas. Nalguma das cabeças de Chaos de Amoeiro, como na que se encontra nos muros de São Pedro de Trasalva, destaca também o tamanho dos pavilhões auditivos.
A fig. 3 mede 15 cm aprox. Está muito erodida e resulta difícil adivinhar os rasgos.
A fig. 4 é a melhor conservada. O seu tamanho e muito semelhante ao da fig. 2.
Para completar este holocausto de cabeças cortadas, resultou-me curioso ver no lugar de Barral, aldeia muito próxima à ermida, um espigueiro com outro troféu jíbaro, dum tamanho muito aproximado ao da fig. 3.

fig. 5

fig. 6

Mas na fachada todavia podemos ver alguma outra coisa bem pavera. Debaixo da cabeça representada na fig. 3 está gravada na pedra uma cruz de calvário fig. 7 de grandes proporções para o que é habitual nestas terras. Tem aproximadamente 41 cm. de comprimento e 32 cm. de largo na sua base.

fig. 7

Curiosamente, na parede oposta, muro do leste, há outra gravura com um calvário, esta vez mais elaborada e inscrita num quadrado de 36 X 32 cm. Por certo, a pranta exótica que tapa esta gravura tem pinchos assassinos, molesta e não embelece. Que alguem a transplante já!

fig. 8
Como veremos esta figura repetir-se-á no interior.
Como disse ao princípio, na fachada podemos ver uma cartela com um texto fundacional. As suas letras foram repassadas e tem boa leitura. Porem, um bocadinho mais abaixo e a esquerda, sempre desde a perspectiva do observador, há outra pedra fig. 9,10,11 onde parecem adivinhar-se mais algum caractere. In situ, pareciam-me de estética hebreia, uns rascunhos ininteligíveis mas que acho são de feitura humana, e por tanto não fruto da erosão ou as vetas da pedra.
Tirei fotos e por mais que trabalhei com elas no computador, continuo sem ter qualquer hipótese sobre o seu significado. Achego três fotografias por se alguém pudera dar-me alguma dica.

fig. 9

fig. 10

fig. 11

Como se vê o exterior tem muito a comentar, mas é quiçá no interior onde vamos encontrar os elementos mais espetaculares. A nave da ermida está feita em dois corpos, um quadrado maior ou nave central e outro de menores proporções, a modo de abside, onde se situa o altar. Divide estas duas estâncias um arco, verdadeiro mosaico iconográfico que passo a descrever.

fig.12

No arco triunfal encontramos dois tipos de desenhos diferentes. Um primeiro grupo que puideramos chamar figurativo e outro geométrico.

Grupo figurativo:

fig. 13

fig. 13: É desenho muito esquemático, mas tremendamente expressivo. Acho que pode representar uma caveira alada e coroada. Tratar-se-ia de mostrar a ascensão das almas??

fig. 14

fig. 14: Relevo dum dragão, com cabeça de cão, cauda de serpe, orelhas pontiagudas e garras de ave. Este ser representa ao demo, ao maligno, o inimigo mais potente de Deus.

fig. 15
fig. 15 Encontra-se na parede do arco que dá para o altar. Semelha outra besta alada e com cabeça de pássaro. Poderia tratar-se dum grifo, cabeça e asas de águia e corpo de leão. De ser assim, dar-se-ia uma oposição dragão vs grifo. O primeiro é símbolo do demo, está olhando para os fregueses. O grifo, besta mistura de dois animais nobres, é o guardião, pelo que está muitas vezes representado nas janelas e nas portas dos templos. Aqui olha para o sagrado e impede o passo ao dragão.
Grupo geométrico:
São quatro elementos que ocupam a faixa interior do arco.

fig. 16
fig. 16: Roseta hexapétala inscrita num círculo. Este tipo de roseta já está presente na cultura castreja, como o formosíssimo exemplo de Santa Tegra. Às vezes, os investigadores associam estas representações com o plano celestial, o trânsito do plano material ao espiritual. Eu gosto mais da hipótese que o relaciona com o princípio filosófico de religação. As partes estão religadas umas a outras, unidas de tal jeito que não podem existir uma sem a outra. Encerradas num círculo tem o acréscimo antropológico de pertença a uma comunidade, tal como acontece com as danças de roda, não há mas que pensar na componente ideológica da sardana.

fig. 17
fig. 17: Esta roseta tetrafólia tem a curiosidade de que as pétalas partem dum trapézio e vão decrescendo no sentido das agulhas do relógio, e obviamente crescendo em sentido contrário. Resulta um bocadinho simples procurar uma interpretação associada ao tempus fugit, a um ciclo que tenha princípio e final, em definitiva, a vida.

fig. 18
fig. 18: Um novo calvário feito com quadrados e retângulos. Terá algo a ver que haja tantos calvários com o facto de ser o patrão da ermida o crucificado São Pedro? É o único desenho geométrico não inscrito na circunferência.

fig. 19
fig. 19: Nova cruz de braços desiguais inscrita num círculo.
No mesmo arco encontram-se alguns signos dos que nem faço ideia o porquê estão onde estão. No arranque, entre as esferas que formam a decoração há um S fig. 20 e na parede do arco que olha ao altar um grupo de círculos e um pequeno enxadrezado feito com pequenos vaziados de forma piramidal simetricamente colocados fig. 21.

fig. 20


fig. 21

Já na repisa da que parte o arco podemos ver mais imagens, alguma verdadeiramente formosa.

fig. 22

fig. 23

fig. 22 e 23: E a mais isenta de todas as bestas. Quiçá um leão? Não saberia dizer.


fig. 24

fig. 25
fig. 24 e 25: Duas figuras vegetais: uma folha de figueira fig. 25 e o que parace uma alcachofra.Uma última figura fig. 26. Pode representar um animal alado?

fig. 26.
Depois de ver todas e cada uma das imagens a pergunta lógica seria: obedecem estas a um programa iconográfico predefinido?
Em minha opinião, que obviamente não é a dum perito, acho que sim. Mas qual?
Xosé Comoxo e Xesús Santos no seu magnífico livro A HERÁLDICA NAS TERRAS DE RIANXO: BRASÓNS E LINAXES, editado pela Deputação da Corunha, achegam os documentos fundacionais da capela de São Pedro de Vilas. Segundo o que aqui consta, a obra foi encarregada por Don Gonzalo de Santiago Torrado ao pedreiro rianjeiro Gregorio de Somoza, cumprindo as últimas vontades expressadas no seu testamento pelo seu irmão e padre da igreja de Isorna, Don Pedro de Santiago Torrado. Considero que todas as imagens do arco triunfal obedecem à ideia do trânsito da vida terrenal a espiritual, a fronteira final que há que traspassar logo da morte. Dum lado da porta está o demo-dragão e do outro o grifo guardião e protetor. E quem tem na tradição popular as chaves que abrem as portas do céu e o livro sagrado com o nome dos escolheitos? Pois São Pedro, o patrão da capela e o antropónimo do fundador.
Mas a ermida guarda mais alguma surpresa. O carão da porta norte está a pia batismal, um exemplar extraordinário e tão cheio de mistérios como todo o anterior.

fig. 27
Novamente estamos ante um repertório de imagens nem sempre doadas de identificar. A pia esta encastrada no muro da igreja, lugar que claramente não era o originário, pelo que perdemos parte dos relevos. Situando-nos fronte a ela, vemos uma grande serpe com a cauda enroscada.

fig. 28

À esquerda da sua cabeça aparece uma ave fig. 29, uma cegonha? e a continuação uma árvore.

fig. 29

Quase oculta entre a parede e uma moldura que a separa da cena anterior, parece adivinhar-se outra ave fig. 30.


fig.3o
No extremo contrário vemos uma enigmática figura fig. 31, quiçá antropomórfica, quiçá sorridente, com uma cruz no peito. Prometo não fazer referência às cruzadas.


fig. 31
Encontrar uma pia batismal com programa é todo um descobrimento. A imagem mais visível para o espectador é o da ave e a serpe. De ser uma cegonha estaríamos ante uma simbologia tipicamente românica na que novamente brigaria o bem contra o mal, o pássaro dos bom agoiro contra a bicha, a maldade.
E chegados a este momento, fica fazer-nos alguma pergunta. Nos poucos textos que encontrei sobre São Pedro de Vilas, disse que foi reedificada por volta do 1670, mas os documentos expostos por Comoxo e Santos, apud. cit., dão a entender que se trata de obra nova. Opino que as pessoas que se achegaram a ermida de Vilas, consideraram contraditória a data de 1670 com o estilo geral que apresenta, mais renascentista que barroco. Foi construída com um ar retro evidente, adornado com bolas e pontas de diamantes, um estilo mais próprio do plateresco que do reinado do derradeiro dos Habsburgos. Se a isto sumamos uma pia que tem toda a pinta de ser românica, pois é normal que se falara de reedificação.
Porém, e tendo em conta todo o que acabamos de referir, eu acho que haveria que tender mais a falar de reutilizações, de materiais trazidos de outros lugares de onde quiçá foram desbotados na altura em que exercia de crego o Pedro de Santiago Torrado. Se a reutilização é algo habitual e toda a parte, em Rianjo resulta quase paradigmático, como venho demostrando nalgum dos meus post. A pia batismal é um bom exemplo. Por certo, como curiosidade e corolário a isto das reutilizações recomendo passar-se pela igreja do Aranho e ver a sua mega pia batismal. Nada menos que um sarcófago inteiro fig.32.
fig. 32

Por fim, caberia fazer-se uma última pergunta. Porque aqui? Que levou a estes homens do s. XVII a fazer uma capela num lugar no meio do mato em aparência tão pouco apropriado? Sabemos que as construções de santuários, ermidas ou capelas, muito poucas vezes foi deixada ao chou, assim que haverá que procurar explicações prováveis em função do que já sabemos, aguardando trabalhos sérios sobre o terreio.
A igreja está situada num autêntico lubre, uma plataforma que conforma um outeiro num claro da vegetação. Ao pé do templo, a poucos metros há um pequeno regato e uma fonte formosíssima denominada da Tijola fig. 33.
fig. 33

Separando a fonte do pequeno regato há um muro fig. 34 que se algum arqueólogo me dissera que era o muro defensivo dum castro, eu, crê-lo-ia.

fig. 34

Mas, a própria festa arrecende a ritos antigos. Na celebração do patrão, a que eu assisti, os romeiros recolhem dum cesto de bimbos uma polinha de buxo fig. 35, prévio pago dum óbolo na caixa das esmolas.
fig. 35

Saiu-me uma postagem um bocadinho cumprida, mas a causa o merece. São Pedro de Vilas é uma igreja em perigo, não só pelo lamentável estado de conservação no que está, senão também pelo pobre conhecimento que temos da sua história. Haveria que fazer em torno a ela uma investigação multidisciplinar em profundidade. Procurar nos arquivos a sua história documental; fazer trabalho de campo etnográfico para conhecer as tradições e os ritos populares que gerou; restaurar os seus muros para tentar restitui-los ao seu estado original; fazer estudos arqueológicos que nos informem sobre o lugar elegido para construir o templo; etc.
Estou certo de que São Pedro de Vilas está a custodiar com as suas chaves muitos e importantíssimos secretos.
P.D. Se esta postagem tivera som, não poderia ser outra que a Marcha Processional de São Pedro de Vilas dos Rosales.

Também sobre São Pedro de Vilas
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quarta-feira, 29 de junho de 2011

nº 115 A Câmara de Ugia X

Foto: Ugia Pedreira ©; Texto: Orjais ©

Quando te pões ante mim
luzindo teu corpo espido,
não sei se serás um anjo
ou mais bem um anticristo.

(Seica lhe disse Nietzche a uma moça...)