quinta-feira, 20 de maio de 2010

nº 84 Ayes de mi país

Já está a venta Ayes de mi país. Trata-seCor do texto do primeiro cancioneiro de música tradicional galega do que temos constância, elaborado por Marcial Valladares no 1865. O estudo que acompanha às partituras do escritor estradense estivo ao meu cargo em parceria com a professora e guitarrista Isabel Rei. Ela centrou-se fundamentalmente no aspecto analítico, correndo eu com o historiográfico.

Para mim supõe cerrar um ciclo na minha vida. Depois de tantos anos dedicado aos arquivos e nomeadamente à figura de Marcial Valladares, já tinha gana de ver o Ayes... na rua, ver que repercussão tem os muitos dados e documentos encontrados no casa de Vilaencosta, se damos recuperados de vez a Valladares como músico e recompilador de música tradicional.

Aproveito este espaço para agradecer ao editor, Javier Jurado (Dos Acordes) ter a vontade e a confiança em mim para fazer realidade esta publicação assim como à família herdeira do legado dos Valladares, por custodiar os documentos tão primorosamente e ao mesmo tempo ser tão generosos com os investigadores.

Para mais informação e pedidos: Dos Acordes.


quinta-feira, 6 de maio de 2010

nº 83 O folclore musical da Arousa.



Esta cantiga aparece no Cancioneiro Popular Galego de Dorothe Schubarth e Antón Santamarina. É uma formosa melodia com um estribilho que já cantara o Santalices junto com a sua sanfona. Nada teria, portanto, de especial de não ser que foi recolhida na Arousa em 1979 a uma mulher chamada Maria, de 73 anos, trabalhadora da fábrica de conservas e padeira.
Depois de muito ler nos cancioneiros galegos acho que esta é a única peça recolhida na nossa ilha e que foi publicada em papel. Fez anos, tentei saber quem podia ser esta senhora, mais não dei com ela. O certo é que o património musical arousão com o que contamos até hoje reduz-se a esta simples partitura e ao fantástico disco Foliada nas Rias Baixas, gravado em agosto do 1969 por uma equipa italiana de investigadores dirigida por Roberto Leydi.
Na página http://folkloregalego.blogspot.com/ podes baixar os audios (premer aqui). Esta digitalização está feita dum cassete. Eu tenho o LP que achega um interessante libreto em italiano e inglês onde se dão algumas informações muito interessantes da festa na Island of Arosa. Como exemplo o seguinte comentário:

Carry Me, Carry Me. (É dizer: leva-me, leva-me)

Right after lunch, in one of the taverns on the island, a group of fishermen start singing. The example is quite interesting because of its plifonic structure (in thirds).

Embora chegar-mos com décadas de atraso, acho que ainda é possível recolher algumas formosas peças de esse folclore marinheiro de quando na Arousa havia tabernas e ganhas de cantar. Se existir, que bom seria transcreve-las para que ficaram a salvo da desmemória.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

nº 82 Os rostos de Santa Columba

Um dos meus lugares preferidos de Rianjo é a atalaia que sobre a praça de Rafael Dieste forma o adro da igreja. Esta plataforma permite-nos ver o varandão do paço de Martelo à altura dos nossos olhos, estar por cima do cruzeiro e ter uma perspectiva única do conjunto da praça.

A igreja é uma autêntica jóia, uma mistura de estilos bem engastados formando um conjunto harmónico e de indubitável beleza. Mália não ser um templo muito grande há numerosos elementos ornamentais que impressionam ao visitante, emanando como um perfume a mistério sem desvelar. Não conheço muitos trabalhos em profundidade sobre a igreja rianjeira; destacar, se calhar, o de Begoña Fernández Rodríguez, El Tema del Juicio Final : el ejemplo de Santa Columba de Rianxo.

Quem visite Santa Columba tem a obriga de prestar atenção na cruz cumial que pintara Castelao; na decoração duma janela na parede norte com imagens de São Blas e Santa Águeda; numa Piedade possivelmente do s. XII que se encontra no interior, conservando parte da policromia original e sobre tudo, ao meu ver, deambular ao redor do templo gozando da maravilhosa colecção de modilhões que povoam a cornija. Paga a pena jogar a ser Panofsky e tentar adivinhar que representam esses rostos que nos contemplam desde as alturas, perguntar-se que pretendeu ensinar-nos o artista com a sua lição pétrea. Com a minha câmara compacta tirei umas fotos de não muita qualidade mas suficiente como invitação a contemplação e entretenimento da imaginação. Eis as fotos.


domingo, 21 de fevereiro de 2010

nº 81 Brisas Rianjesas de Felipe Paz Carbajal

Numa lista dos mais grandes compositores galegos para banda de todos os tempos, deveria figurar sempre o nome de Felipe Paz Carbajal (Ponte Vedra, 23 de agosto de 1850 – Noia, 1918). Isto não só pela qualidade das suas partituras, senão também pela recorrência constante da sua assinatura nos reportórios das bandas galegas mais clássicas.

O compositor pontevedrês teve uma vida musical muito intensa que poderíamos resumir nos seguintes itens(1):

- Foi discípulo de José Carnicer, Lorenzo Castro, Antonio Licer, Isidro Fernández e José Gómez.
- 1868. É nomeado director da Banda do Hospício de Ponte Vedra.
- 1878. Funda a Banda Popular de Ponte Vedra.
- 1890-1918. Dirige a Banda de Nóia, na que continua até a sua morte.
- 1892. Dirige a Banda de Vila Garcia e Travanca.
- 1894. É nomeado organista da Sê compostelana pelo cardeal-arcebispo de Santiago, José María Martín de Herrera.
- 1909. Dirige desde a sua fundação o orfeão La Aurora Noyesa.
- 1912-1914. Dirige a banda de Ponte Areias.


O mestre Paz Carbajal tem-se cruzado muitas vezes na minha vida ao revisar os velhos arquivos das bandas populares do nosso país, ou o falar sobre compositores galegos com os membros mais idosos destas bandas.
Ultimamente, teve um encontro muito afortunado com ele na forma duma preciosa partitura dedicada às gentes de Rianjo.
Por gentileza de Sofia, bibliotecária da B.P.M. Castelao de Rianjo, pudem consultar um maço de partituras que foram encontradas na casa petrucial de Manuel António. Entre os numerosos documentos impressos e manuscritos estava uma partitura assinada por Felipe Paz Carbajal titulada Brisas Rianjesas. Havia mais obras do compositor pontevedrês, mas esta é a única cujo título não estava incluído no catálogo do autor que eu manejava.

O texto musical:

O texto musical manuscrito, vinha apresentado numas folhas pautadas (7 p.) de 20 X 30 cm aprox. encabeçado do seguinte modo: «Brisas Rianjesas» Vals coreado por Felipe Paz Carbajal. Cada sistema consta de cinco pautas. As três primeiras estão ocupadas pela vozes tenor 1ª, tenor 2ª e baixo e as duas últimas por guitarras 1ª e 2ª. Esta indicação de guitarra não obedece ao que depois aprece no pautado, pois na realidade trata-se dum acompanhamento para piano.
Do compasso 33 ao 60 há uma pauta para frauta que semelha escrita a posteriori.

O contexto:

Graças ao livro Biografia de Arcos Moldes (2), sabemos que Brisas Rianjesas era uma comparsa que saiu à rua no Entrudo de 1906. Foi para esta agrupação que Felipe Paz compôs a obra do mesmo nome.

A relação do mestre pontevedrês com Rianxo vinha já de velho já que no mesmo livro antes citado vemos outro texto por ele musicado e datado em 1894, com o título Ayer del alma.

O texto poético:

O texto poético resulta um bocadinho brega, incluso para a época em que foi escrito, pelo que semelha estar feito com este fim, de propósito para uma entroidada. Na nossa partitura só temos os primeiros dezasseis versos, mas na Biografia de Arcos Moldes os autores oferecem-nos outros dezasseis encabeçados com o título Pasacalle.

Brisas Rianjesas

«Brisas Rianjesas»
llegan aquí
tu amor buscando,
sin par hurí;
tu, la corola
del corazón,
abre y que oreen
su hermosa flor.

De jardín del mundo
el adorno eres
y entre las mujeres,
bella sin igual;
por eso estas «Brisas»
de puros amores
hoy tantos primores
vienen a admirar.

Pasacalle

Flota en la atmosfera
serna y plácida,
envuelta en túnica
de blanca luz,
la brisa tenue
que cruza ligera
sus anchos ámbitos
del cielo azul.

Igual que aquellas
«Rianjesas Brisas»
amor brindando
van por doquier,
acariciando
com sus cantares
la flor más bella,
que es la mujer.

Para descarregar Brisas Rianjesas premer aqui.

Primeira folha do manuscrito.

(1) Dados obtidos do artigo VARELA DE VEGA, Juan Bautista. Felipe Paz Carbajal, un gran músico del XIX gallego. El Museo de Pontevedra, ISSN 0210-7791, Nº 55, 2001 , pags. 317-336

(2) SANTOS, Xesús & COMOXO, Xosé Biografia de Arcos Moldes (Rianxo: Apuntes dunha vila marinheira) 1865-1944 [Concelho de Rianjo; Rianjo], p. 176-177

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

nº 80 Feijão branco com mexilhões.

Não teria mais de oito ou nove anos. Meu pai erguera-me cedo para ir com ele navegar pela ria num barco bateeiro. O barco percorreu os polígonos, suponho que vendo se cada bateia estava no seu sítio ou qualquer outra gestaõ da que naqueles tempos correspondia à marinha espanhola.
Eu fiz quase que toda a travessia deitado boca abaixo sobre a proa, recebendo o ar frio da ria no rostro como um patrão de pesca da ardora ou numa cena do filme Titánic.

Nalgum momento, o dono da embarcação encostou-se a uma bateia e veio a tona, com a única força dos seus braços, uma corda densamente povoada de mexilhões. Ao instante, ofereciam-nos à inusual tripulação uma dúzia de mexilhões crus abertos, com uma carne branca que enchia a concha. O patrão colheu a valva cheia e usando a vazia como colher, catou o rico manjar com evidentes mostras de deleite e orgulho.
Aquele dia eu não me atrevi a comer o que para mim não deixava de ser um alimento cru, mas acho que começou então o meu idílio com o mexilhão, ao que considero, com todo merecimento, o rei dos mariscos.

Nutricionalmente o mexilhão achega ao nosso organismo iodo, vitaminas B12, ferro, zinco ou manganês, pelo que é muito bom contra a anemia. Além disso, uma porção de 100 gramas apenas aportam 65 calorias ao prato.
Ontem, a minha mãe dou-me uma saca de mexilhões arousãs esplêndidos, que decidi cozinhar com feijões brancos. Os feijões utilizados foram cultivados em Catoira pelos meus sogros, os quais denominam a esta legume como lentelhas, toda vez que para as que a maioria da gente conhece como lentilhas usam o termo castelhano lentejas. Das suas propriedades sempre se destaca o poder diurético.

Deixo aqui a receita por se gostareis de a preparar.
Feijão branco com mexilhões.

Numa panela com azeite põe-se um pimento mediano e quatro ou cinco tomates também medianos, tudo bem picado. Deixa-se fritar um pouco e acrescenta-se-lhe um copo de vinho branco e sal, aguardando que se faça um molho jeitoso.
Escorrem-se os feijões da água na que previamente estiveram a remolho, e deitam-se na panela completando com abundante água. Cozer arredor de 45 minutos, até que os feijões vaiam estando.
À parte, fazer um refogado com cebola e alho. Acrescenta-se os mexilhões previamente cozidos ao vapor e sem concha. Retirar do lume e pôr algo de pimentão doce.
Quando os feijões estejam quase prontos juntamos o refogado da sertã à panela e deixam-se outros 15 minutos. Provar o sal e modificar se for preciso.
Bom proveito.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

nº 79 Novo documentário de Lukas Santiago.

O amigo Lukas Santiago vai presentar o seu novo documentário o dia 20 de fevereiro, às 20 horas, no Teatro Principal de Ponte Vedra. Titula-se “Galeg@s Universais. Historias do mar”, e trata de entrevistas realizadas a gentes do mar, concretamente a José Santiago Pazos, María Miranda García e María de las Nieves García Cid, e Manuel López Souto.

Deles o autor diz que são:

“Galeg@s, porque son persoas nas que desborda a sabiduría popular, que representan o espírito do pobo galego, a fala, a retranca, as lendas...

Galeg@s, porque son portadores da cultura tradicional galega, rural e mariñeira, últimas testemuñas dese mundo que xa non volverá...

Universais, porque son persoas anónimas, que non soen ter a palabra, pero que teñen moito que contar... e son especiais, aquí i en Australia...

Universais, porque coñeceron unha época de pobreza, de carencias... na que seguen a vivir no presente a maioría dos seres humanos do mundo...

Historias do mar porque son persoas do mar, desa cultura mariñeira que moldeou a alma das xentes da nosa costa durante séculos...

Esta é unha homenaxe a tod@s eses galeg@s universais, que ninguén coñece, pero que tod@s coñecemos...”

Lukas Santiago


Podeis ver o trailer aqui.

domingo, 31 de janeiro de 2010

nº 78 Simbologia fascista.

O meu irmão Xoán introduziu-me desde bem pequeno no mundo da filatelia e todos os seus segredos. Comprou-me os primeiros álbuns, ensinou-me a descolar os selos dos envelopes, classifica-los, manipula-los, etc. Quando comecei a estudar na universidade, a minha colectânea ficou interrompida, custodiada no fundo duma gaveta na casa arousã da minha irmã.

Ontem teve a curiosidade de revisar aquele velho tesoiro feito com o desordem próprio dum cativo, e levei agradáveis surpresas.
Num lugar destacado da colectânea estavam algumas postais que foram remetidas a um fabriqueiro da Ilha de Arousa nos anos da Guerra Civil e da Mundial. Guardara aquelas cartas porque tinham carimbos com simbologia fascista que na altura me causaram grande impressão.
Visto com a perspectiva que dão os meus quarenta anos não deixa de surpreender-me pensar naquele menino colocando os velhos postais ao lado da série comemorativa do mundial de futebol do 1982.

O primeiro documento remetido por Centro Comercial Ramiro Caamaño López, representante da azeiteira malaguenha Moro, foi datada o 25 de Abril do 1939, poucos dias depois do final da Guerra Civil espanhola. No frente vemos um carimbo com os lemas do novo regime: Una, grande y libre e ¡Arriba España!.

No invés, ao lado do carimbo de Establecimientos Moro, o jugo e as setas franquistas, flanqueadas pelo fascio italiano e a esvástica de Hitler.



Oberkommando der Wehrmacht ou OKW era "a mais alta instância de planejamento e gerenciamento das forças armadas nazistas durante a Segunda Guerra Mundial." Wikipédia.

A carta foi enviada desde Amsterdão em 1941, uma cidade ocupada, como todos os Países Baixos, desde 1940 pelo exército nazi. O texto da missiva é muito interessante por ser um intento de mediação para fomentar o comércio entre a Espanha da pós-guerra e a Holanda ocupada. Só como curiosidade, é lindo ver como o mecanógrafo teve certa habilidade para evitar palavras com ñ, uma tecla inexistente na sua máquina de escrever.

Por baixo da águia imperial e a esvástica, está carimbado em vermelho o rótulo da censura gubernativa de Vigo.


A primeira guerra mundial foi muito produtiva para as fábricas de conservas que exportaram a maior parte da sua produção com uma grande entrada de divisas. Por contra, a segunda das guerras mundiais colheu a indústria em plena crise, com uma pós-guerra que deixou uma grande carestia de lata e com grande parte da produção confiscada para consumo interior.
Temo-me muito que o intento do mediador holandês por abrir pontes comerciais deveu ficar em nada, mas a mim a águia e a esvástica segue a produzir-me os mesmos arrepios de quando menino.

JL