quinta-feira, 28 de maio de 2009

nº 48 Lucha Reyes

Lucha Reyes (Lima; 1936-1973) foi uma dessas estrelas fulgurantes, difíceis de catalogar mas absolutamente imprescindível em qualquer discoteca. Eu criei-me escutando as vozes da cantoras sul-americanas como Violeta Parra, Chabuca ou Soledad Bravo, assim que quase sinto vergonha ao dizer que Lucha Reyes é para mim uma autêntica novidade.
O que mais destacaria desta versão da Flor de la Canela, além da voz da peruana, seria o formidável arranjo instrumental, nomeadamente o acordeão de César Silva.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

nº 47 Benito Vicetto

Resulta difícil explicar que significa isso do Orgulho Carcamão. Para mim é uma marca de distinção, um feito diferencial que me transporta a outra realidade, a dos velhos amigos, o cemitério onde está enterrado meu pai, os meus sobrinhos que não param de medrar... O Orgulho Carcamão é a atitude dumas crianças que quando eu também o era, ensinaram-me a construir tutelos para cuspir hedras, a saltar de com a com e a falar galego a base de hostias.
Um dia, lendo uma biografia de Benito Vicetto, soubem que ele também era carcamão, melhor dito, filho de um carcamão. Seu pai era Benito Vicetto San Beneto, natural de Genova, e contrabandista nas costas galegas. De este livro, já inapreensível nas livrarias, extracto os seguintes párrafos:

"Le gustaba hablar de él a los chiquillos del barrio, y en más de una ocasión, había tarareado una de aquellas canciones que ya no oiría cantar jamás. Sin embargo, una tarde, un muchacho grandote y de chatas narices, le apostrofó:

-¡Pero si tu padre era un carcamán!

-¡Un qué! , interrogó atónito el muchacho, mientras, si saber siquiera la causa, enrojecieron intensamente sus mejillas.

-¡Un contrabandista!

Y la palabra le hirió como una bofetada en pleno rostro.

-Sí, todos lo sabemos. Era un contrabandista.

Benito Vicetto se lanzó con furia, ciegamente, contra el que así ofendía a su padre. Pero de la pelea salió muy malparado. Su adversario era mucho más fuerte y tendría cinco o seis años más que él.

Cuando regresó a su casa, Juana, su hermana mayor, que tenía para él todas las ternuras que no le prodigaba su madre jamás, acudió angustiada, alzándole entre ambas manos el macerado rostro.

-Tú te has pegado, Benito... Pero... ¿Por qué? ¿por qué lo has hecho?

Y él, ocultando el semblante contra su hombro, lloró con profunda amargura.

-Juana, ¿qué es un carcamán?

Sorprendida la muchacha, guardó silencio ante la pregunta inesperada.

-Tú lo sabes -afirmó el chiquillo.

-Pues... a los marinos extranjeros... acostumbran a llamares así.

-¿Y también a papá?

Ella continuó callada. Había en sus ojos un brillo de lágrimas furtivas.

-Responde, Juana.

Y una energía impropia de sus pocos años gravitaba en las palabras del pequeño Benito.

-Ya sabes que él era marino... y quizás las gentes... también le llamasen así.[...] p. 10-11

Llevaba muy poco tiempo en el Colegio de Gurdas Marinas, cuando Benito Vicetto comenzó a advertir un ambiente hostil a su alrededor. Parecía como si los muchachos le rehuyesen y sostuviesen quedos diálogos entre sí. Entonces, llegó nuevamente hasta sus oídos, de un modo velado, la palabra carcamán.

Se sentía solo, aunque desde los primeros momentos había contado con la amistad de uno de los alumnos, un muchacho con decisión, atrevido e impetuoso, que se había ganado a pulso el respeto de los demás. Era lago así como el capitán de la escuela.

Se llamaba Alfredo Parga, y era alto, rubio, de ojos azules. Poseía toda la belleza de un vikingo y, no obstante, congenió desde el primer momento con aquel nuevo alumno de negros cabellos, tez morena y profundos ojos oscuros.

Una tarde, ante las insidias de sus compañeros, Alfredo irrumpió impetuoso en su defensa:

-Hablad claro. ¿Qué decís de los carcamáns?

Uno de los chicos arguyó:

-Pues... que son contrabandistas extranjeros.

Y otro, aun fue más explícito:

-Son de Génova o de Trieste.

Parado ante ellos, mirándoles de hito en hito, Alfredo explicó:

-Pues, precisamente, un hombre de esos que vosotros llamáis carcamáns, salvo la vida a mi padre.

Cesaron las murmuraciones y se hizo un silencio tenso, expectante. Entonces, Alfredo volvió a decir:

-La revolución de 1823 hizo huir a muchos compatriotas gallegos, y mi padre fue precisamente uno de ellos. Los carcamáns les ayudaron a escapar de la persecución, a huir de Galicia. Salvaron a muchos de los nuestros, a muchos. Yo era muy pequeño y nada recuerdo, pero mi padres aun es hoy el día en que los nombra con agradecimiento y emoción. Y ahora... ¿queréis repetir lo que decíais antes?" p.15-16

LÓPEZ DE SERANTES, Josefina (1978) Benito Vicetto Iñorado [Alvarellos; Lugo]

segunda-feira, 18 de maio de 2009

nº 46 Mãe Ria.

A lua,
com pincel de ardora,
faz seu retrato impressionista
sobre o teu ventre,
Mãe Ria.

Os Argonautas rompem
a machadaços as ondas
com as suas proas milenárias
de carvalho,
procurando no lance
o pão futuro.

Abençoam com isca
a água benta do Mar,
párvulos de náufragos
peritos de solidão.

Mãe Ria,
convir-te cada empopada
numa viagem perpétua deica ti.

nº 45 Lucobo Arousa

Num blogue ilhéu, http://illadearousa2.blogspot.com/2009/05/dicionario-de-ausencias.html teve oportunidade de bater o papo um bocadinho sobre a possível origem da palavra Arousa. As pessoas com as que falei, niks McMill e NaArousa, têm uma opinião um bocadinho diferente a minha que é absolutamente impressionista, é dizer, dá-me a impressão que... Naquela breve troca de pareceres eu prometi colar neste blogue a imagem duma ara encontrada em Lugo e que foi publicada na revista Larouco por A. Rodríguez Colmenero e Enrique González. A ilustração que vos ofereço é do livro A Galicia celta de Antonio Balboa Salgado, editorial Lóstrego.
Como veis há uma inscrição onde se pode ler uma AROUSA como um mundo. Semelha que não tem nada a ver com o nome da nossa ilha... ou sim?

BALBOA SALGADO, Antonio (2007) A Galicia celta [Lóstrego; Santiago] p. 122

sábado, 16 de maio de 2009

nº 44 As Minhas Descargas

Acabo de criar um vínculo, As Minhas Descargas, desde o que se vai poder baixar algum artigo meu inédito ou já publicado anteriormente em papel.
De momento há dois documentos:

1. A obra impressa galega de Eduardo Martínez Torner. (Só bibliografia e partituras) Artigo publicado na Revista Etnofolk, nº 5.

2. Música de la Misa de S. Miguel de Sarandão. Artigo sobre uma missa encontrada por Isabel Rei e eu mesmo no arquivo de Marcial Valladares em Vilancosta. Fotos do fac-símile de Tero Rodríguez.

terça-feira, 12 de maio de 2009

nº 43 Desfeita arqueológica?

Fez uns anos, dando um passeio pelos caminhos da Arousa, fui dar ao conhecido como Agro de Alonso, um pinheiral desde o que se vê o Areoso e o sul da nossa Ria. Procurando uma rocha na que sentar, dei com uma mesa natural, um bloco de granito tronco-cónico ideal para a leitura ou o desenho.
Mas ao dispor-me a subir acima, teve a sensação de que aquele rochedo não podia ser um mais dos muitos que povoam a Arousa. Falei com meu irmão Xoán, e disse-me que não tinha notícias de que nessa tojeira houvera catalogado nenhum resto arqueológico.

Tirei-lhe fotografias e meu irmão, com a intenção de que ficara constância das nossas suspeitas, aventurou-se a qualifica-la no seu livro como ara de sacrifícios. Suponho que achou que o feito de sair publicado este dado num livro, moveria algumas consciências e alguém com competências faria algo.

A semana passada fui pelo Agro de Alonso e encontrei que encostado à suposta ara há um muro que deixou o com principal mas estragou a contorna. Neste caso, as leis de património acho que não podiam ser aplicadas, porque duvido que alguma vez se catalogasse o achado.

Enviei as fotos ao amigo André Pena Graña, perito nestas coisas que disse-me:

-Não me cabe dúvida de que é um outeiro. Outeiro vem de "altarium" e esta palavra a sua vez de "arder".
A maior parte das vezes são rochas com corgos naturais feitos pela erosão. Sobre esses corgos depositavam-se oferendas.

Para que ninguém se esqueça de como era o lugar e nos perguntemos que estamos a fazer mal para que no século XXI continuem a acontecer estas coisas, deito à rede fotos do antes e do depois.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

nº 42 Ayes de mi país.

Estou a rematar as galeradas do meu próximo livro, que esta vez publicarei em colaboração com a professora de conservatório e guitarrista, Isabel Rei. Trata-se da edição do manuscrito de Marcial Valladares, Ayes de mi país, cancioneiro de música tradicional datado em 1865. É pois, a primeira colectânea de folclore musical elaborada na Galiza, uma pequena jóia que agora estamos a sacar à luz.

Resulta-me estranho desprender-me desta obra depois de tanto tempo. Durante mais duma década, levo estudando, investigando, desfrutando de Marcial Valladares e o seu contexto familiar, espacial e temporal. No percurso destes dez anos, publiquei outro cancioneiro, Cantos e Bailes da Galiza, de José Inzenga, e uma boa quantidade de discos, artículos e conferências. Nunca esteve parado, mas bem demasiado ativo, mas também em tudo momento senti a ansiedade, frustração, contrariedade ou o que for, de ter na gaveta o manuscrito do velho petrúcio da Estrada, sem hipótese de editar. Agora, graças a Javier Jurado e Dos Acordes o livro estará nas livrarias por volta do mês de junho. Que seja para bem.