segunda-feira, 23 de julho de 2012

nº 139 A sanfona de J. M. Pintos e uma ilustração de Francisco Herrera.

Quando dava aulas no Conservatório de Música Tradicional e Folque de Lalim, trabalhei com meus/minhas alun@s o famoso texto de J. M. Pintos, dado a conhecer por Casto Sampedro, no que se recolhe um pequeno catálogo de vocábulos referentes às partes da sanfona. O léxico do Pintos resulta muito valiosa, por quanto além de lexicógrafo era músico, violinista, sendo uma voz, por tanto, muito acreditada.

Estes termos não vêm acompanhadas das respectivas definições que o Casto Sampedro considerava óbvias e eu não tanto. Por mais que procurei o original utilizado pelo antiquário pontevedrês, não dei com ele, nem sei se ainda existe. Num intento de criar a polémica necessária que nos leve ao conhecimento do significado real de cada item proponho as que seguem, fruto mais da intuição que de qualquer método científico.

Convido-vos a que participeis com as vossas sugestões.

ASAS ALZAS: Alça é sinónimo de presilha como a que serve para passar o cinturão nas calças em redor da cintura. Asas são a parte pela que se pega nalguns utensílios, assim que asas alças, acho que fez referência aos apêndices da sanfona as que se amarra a correia ou correão.

BORDÓN: Bordão: "Corda grossa que nalguns instrumentos musicais, produz sons graves" (P.E.) Em Coromines podemos ler: 1463, "del fr. Faux-bourdon id., compuesto de faux "falso" y bourdon tono bajo en ciertos instumentos musicales, propte. Abejorro, zángano (por el zumbido de estos insectos), voz onomatopéyica. Origen parecido tiene bordona "cuerda de la guitarra". Nas sanfonas em G fundamental do teclado produziria um som contínuo em C.

BORDONETA OU QUINTILLA: O sufixo -eta provem do latim -itta, vivo em palavras como pandeireta. Com tudo hoje está em uso bordoncinho. Esta corda fez uma quinta do bordão, origem da segunda acepção. Quintilha, usa-se para a forma poética de cinco versos, pelo que de empregar esta acepção e por correspondência com prima e terceira preferimos quinta.

CAIXONCIÑO OU SECRETIÑA: Compartimento pequeno situado na parte que toca ao músico entre o cravelhame e a tampa traseira.

CASTILLETE: Parece referir-se ao compartimento provido de tampa com dobradiças que protegem as cordas desde o cravelhame até a roda, cujas paredes laterais estão furadas transversalmente para ser atravessadas pelos barrotes das teclas. É uma palavra castelhana que significa "s.m. Armazón de materiales y formas diversas que sirve como soporte de algo". Também dim. de castillo. Dado que não é palavra galega pode ser substituída por castelinho ou castelejo. Por similitude preferimos a mais comum estojo.

CHAVE: Esta palavra refere-se entre outras acepções aos pistões de alguns instrumentos de metal que ao preme-los permitem dar a nota desejada. Acho que na sanfona se refere as teclas que para o mesmo fim preme a mão esquerda do executante.

CORDAS: "s.f. Fio de tripa ou de metal para produzir sons em alguns instrumentos" (P.E.)

CORDEEIRO: Pintos (D.D.) no seu dicionário recolhe esta palavra: "Cordelero, tirante en instrumentos de cuerda". A tradução ao castelhano mais correcta seria cordal. Em galego podemos usar a palavra estandarte, que é o nome empregado para o elemento similar na família dos violinos.

CORREDORES: Em quanto que corredor pode ser uma viela estreita ou um carreiro, possa que esta palavra faça referência a o espaço pelo que transitam as cordas entre os tempereiros.

CORREÓN: Correão: "Correia larga e grossa" (P.E.)

CRAVIXAS: Cravelha: "s.f. Peça com que se retesam as cordas de certos instrumentos musicais para afinação" (P.E.)

CRAVIXEIRO: Cravelhame: "s.m. O conjunto das cravelhas; a parte onde estão as cravelhas". (P.E)

ESPECAS: Em (E) Espeque: "s.m. 1º Estaca ou pau com que se estea algunha cousa. 2º Pau que manten erguida a cabezalla do carro." Parece fazer referência as almas e passaria a denominar a estas especificamente na sanfona.

FERRO DO CORDEEIRO: Nos instrumentos de corda friccionada como a sanfona ou o violino, botão ou saliente a que vai fixada por duas finas cordas o estandarte ou cordoeiro e que na sanfona forma parte do veio.

FOLLA DE DIAPASÓN: O diapasão no violino é uma peça, geralmente de ébano, sobre a que dedilha a mão esquerda através da que se pode desenvolver a gama completa da voz do instrumento. Na sanfona o diapasão viria dado pelo tamanho do estojo e o número de teclas que este suportara. Sobre folha lemos em (E): "s.f. (13) Cada unha das palletas, lascas ou partes delgadas en que se divide un todo. (16) Cada unha das partes que se abren e fechan nas portas, xanelas ou biombos." Acho que a folha do diapasão pode ser a tábua do estojo, furada com o fim de que ao seu través passem as chaves.

GARDAPOLVOS: Guarda-pó: Forro de madeira que se põe sobre a roda para a proteger do pó.

PIA: O vocábulo pia é utilizado em náutica como sinónimo de carlinga, " Encaixe na sobrequilha para receber a extremidade do mastro." (P.E.) No caso da sanfona poderia tratar-se dalguma das peças que recebem o eixo, quiçá a entrada a caixa sonora onde se situa o veio.

PONTE: Para a palavra ponte, preferimos a galego-potuguesa cavalete, que é a peça que separa o tampo superior das cordas, transmitindo o som do primeiro ao segundo para que o amplifique. Esta ponte, nas sanfonas clássicas ia sobre uma peça de madeira que impedia que fosse directamente sobre o tampo.
PORTA: Quiçá a tampa do estojo ou castillete.
PRIMAS: As duas cordas cantantes, afinadas ao uníssono e na mesma oitava.

PUNTOS: Pontos, pensamos que podem ser uns ouvidos abertos nos aros da sanfona cujo uso é ainda de difícil interpretação.

RECINA: Resina: "s.f. Producto natural, viscoso, que se extrai de alguns vegetais (especialmente coníferas), de alto valor industrial." (P.E.) A resina utilizada pelos músicos de instrumentos de corda friccionada tira-se do aceite de trementina e serve para oferecer resistência na fruição do arco ou roda sobre a corda.

RODA: Objecto circular, geralmente de nogueira, comunicada através dum eixo metálico ao veio que ao ser accionado fez mover a esta. Tem a função do arco nos instrumentos da família do violino.

SEGUNDA PONTE: Acaso um barrotinho de madeira que vai próximo aos primeiros tempereiros e logo da ponte principal.

TAMPO DE DIANTE: Tampo sobre o que vai situado o estojo e o cavalete, e menos próximo ao executante.

TAMPO DE TRAS: Tampo mais próximo ao executante.

VEO OU AGULLA: A agulha é o objecto metálico que usamos para coser e parece fazer referência ao eixo. Veio e a manivela com a que transmitimos movimento à roda, através do eixo.

TECLAS OU TÉCOLAS: "s.m. Peças de madeira sobre as que se pulsa para que os tempereiros cheguem a encurtar a corda."

TEMPEREIROS: Cada uma das pecinhas de madeira que a forma de tangente pulsam a corda, encurtando a longitude da mesma a diferentes alturas.

TERCEIRA: Corda cantante que acompanha às primas, em uníssono com esta na oitava inferior.

ZAPATILLA: Sapatilha: Camurça de alguns instrumentos de vento para que nas chaves não escape o sopro. É de supor que na sanfona servira para aperfeiçoar o som no roce dos tempereiros com as cordas, podendo ser neste caso de borracha.

(D.D.) 2003 SANTAMARINA, ANTÓN ed. Dicionario dos dicionários.
(P.E): 1990 Dicionário da Língua Portuguesa. (Porto; Porto Editora).
(E): 1995 ALONSO ESTRAVIS, ISAAC Dicionário Sotelo Blanco da língua galega. (Compostela; Sotelo Blanco)

Outro tema, que deixarei para mais adiante, é o do vocábulo veio: manivela com a que se acciona a roda da sanfona. Dará para muito.

Por último, e como ilustração a este artigo, uma reprodução dum quadro de Francisco Herrera (Sevilha, c. 1590 - Madrid, c. 1656).


É uma das representações de cego com lazarilho menos conhecidas das pintadas por artistas da península Ibérica. Pertence ao Kunsthistorisches Museum Wien, que achega a data  de c.1640. Ficha.
O que resulta mais curioso e o próprio instrumento. Parece ter um teclado diatónico e as cravelhas dispostas na parte superior do cravelhame, e não lateralmente como na sanfona ibérica. As ilhargas tendem a ser rectas, com uma pequena curvatura muito afastada da sanfona em forma de guitarra. Eu diria que é um instrumento muito semelhante ao do cego de La Tour, que foi pintado só uns trinta anos antes que o de Herrera. Também é de destacar os pregos cravados na tampa e a postura tão sanfonística das mãos do músico.
Uma beleza.

Para mais referências iconográficas da sanfona ver neste blogue a etiqueta sanfona e a nossa revista digital Opúsculos das Artes.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

nº 138 Oximoro


Oximoro

Sou a parte do teu corpo que passa frio
quando te deitas ao meu lado.
©rjais

domingo, 10 de junho de 2012

nº 137 Manuel António


                                 Agasalho bicromo para Teresa e Dália,
                                  com Manuel António ao fundo.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

nº 136 A Câmara de Ugia XIII

CADEIRAS
I

II

 III

IV

Fotos: Ugia Pedreira ©; Desenho: Orjais ©


segunda-feira, 21 de maio de 2012

Nº 135 Uma foto que cumpre 100 anos.

Faz uns dias, com motivo dum concerto que se celebrou no Conservatório de Música Profissional de Compostela, visitaram a Galiza o compositor José Evangelista, a sua esposa Matilde Asencio e a violinista Tânia Camargo Guarnieri, filha do grande compositor brasileiro Motzar Camargo Guarnieri. Acompanhados da organizadora do evento, a guitarrista Isabel Rei, visitaram Rianjo, sendo recebidos na casa do concelho pelo presidente da câmara Adolfo Muiños. Por sugestão de Adolfo, a comitiva dirigiu-se ao Museu de Manuel António, onde pudemos ver as magníficas instalações e escutar os interessantes comentários dos nossos visitantes. 
José Evangelista e a sua esposa, ficaram namorados das grandes fotografias do fotógrafo Xosé Pérez, parente do Manuel António. De entre todas houve umas poucas nas que demoramos um bocadinho mais. Concretamente repararam no texto dum jornal, La correspondencia española, cujo manchete em maiúsculas dizia: «CÓMO OCURRIÓ LA CATÁSTROFE.»

Fonte: Casa Museu de Manuel António 

Acho foi Matilde a que comentou que aquela catástrofe deveu ser bem grande para se publicar a toda página.
Picou-me a curiosidade, e depois de muito buscar, dim com a página em questão. A data de publicação é o 20 de abril de 1912. Os afeiçoados às efemérides já saberão que essa edição de La Correspondencia de España está dedicado ao Titanic, afundido dez dias antes fronte as costas de Terranova.

Fonte: Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes

Não deixa de ter certo aquele que a fotografia de Xosé Pérez, onde se amostra um jornal com a notícia do afundamento do grande transatlântico britânico, esteja pendurada dum cravo no museu do poeta navegante. Estou certo que se lhe deram a escolher a sua morte, Manuel António preferiria ter morto afogado que de tuberculose. 

sábado, 19 de maio de 2012

nº 134 As oito covinhas do Palheiro.

Ontem, sexta 19 de maio, saímos o meu amigo Carlos Collazo e mais eu explorar o mato. Foi uma tarde de muito andar, na que desfrutar de paisagens e da conversa.
Na aldeia de Palheiro, o jardim de Rianjo, caminhamos cara a costa na procura dum pequeno petróglifo, o qual, segundo o meu caro amigo Carlos, é o mais formoso dos do nosso concelho. Andamos um bocadinho entre as lajes até dar com ele, e tenho que reconhecer que desde esse momento não o dou tirado da minha cabeça.
Trata-se dum conjunto de oito covinhas, uma central com sete mais ao seu redor, rodeado todo o conjunto por um círculo. 


O círculo externo está muito erodido pelo que não estou certo do seu desenho ser tal e como aparece no calco, mas as covinhas têm um aspecto muito próximo ao do seguinte esquema:

Botei toda a noite a pensar em quem faria esse petróglifo, como e por que o faria deste jeito. Não tenho respostas. Não sou arqueólogo, nem matemático, mas, por pura brincadeira vou construir uma hipótese, tão acientífica como sugestiva. Não me tomem a sério.

Tenho lido muito sobre os petróglifos, como se faziam, que técnicas se utilizavam e mesmo arriscadas interpretações sobre a sua utilidade ou significado, mas muito pouco sobre o processo criativo do artista rupestre. Um desenho como o da aldeia do Palheiro, precisa dum certo poder de abstracção, de conhecimentos sobre as proporções, as propriedades do círculo... Quem fiz esta agrupação de covinhas quiçá era um artista que traçou primeiro um rascunho ou copiou dum modelo que vira em algum lugar, que estava no seu cérebro por tradição, por imaginação, por alucinação...
Quiçá a forma mais doada de traçar sete círculos equidistantes entre sim e com um oitavo que se situa no centro seja colocando discos sobre a laje até conseguir que tenham uma disposição harmoniosa. Também se pode ir desenhando a mão alçada, corregendo até conseguir o modelo desejado, mas podemos pensar que o autor desta gravura fazia parte uma civilização suficientemente evoluída como para poder desenhar um heptágono inscrito numa circunferência. 

A recta AB,mediatriz do rádio, tem o mesmo tamanho que as cordas dos arcos. Resulta pois, bem doado, traçar um desenho similar ao do monte Palheiro, só com a ajuda dum compasso e sem recorrer ao número pi. 


Agora que já temos o desenho feito, haverá que buscar-lhe um significado. O mais destacável é o número de círculos, sete na contorna de um central. O sete é um número muito presente na nossa cultura, pois segundo a religião cristiana, Deus criou ao mundo em sete dias, é dizer, uma semana. Mas a divisão da semana em sete períodos de vinte e quatro horas tem a ver com a ideia do universo que tinham os antigos. 

«El sistema astronómico de Ptolomeo, que se mantuvo vigente en Occidente hasta que cuajó la revolución copernicana, estaba basado en la cosmología aristotélica, la cual estaba inspirada, a su vez, en los modelos mesopotámicos y egipcios. En este modo de concebir la estructura del universo, la Tierra ocupaba el centro, y los planetas y estrellas giraban a su alrededor. Aristóteles, haciéndose eco de las creencias de su tiempo, imaginó que todas las estrellas fijas se hallaban como incrustadas en una enorme esfera cristalina que envolvía el universo conocido, como su capa más externa. En el interior de esta esfera había otras siete, todas concéntricas a la Tierra, de forma que cada una de ellas alojaba a uno de los siete planetas conocidos (incluyendo como tales al Sol y a la Luna) y era responsable de su movimiento.»  Fonte

Seguindo este razoamento geocêntrico, o círculo externo da gravura do Palheiro poderia ser a esfera das estrelas fixas, os sete círculos exteriores o Sol, a Lua, Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter e Saturno. O círculo interior, a Terra.

Mas, falando de heptágonos, planetas e círculos, não podemos esquecer a Estrela de Sete Pontas, que podemos traçar seguindo os nodos que nos marcam o centro das esferas.



Não lembra este último desenho ao Vitriol dos mações?


Para mais enredar todo, uma última imagem tirada da web http://www.horusmedia.de. Tem um cabeçalho verdadeiramente curioso: «Línea del Grial. Dibujo según un modelo de la estrella de siete puntas de los Caballeros Templarios de Francia que indica la ubicación de las principales comandancias de su orden y la línea del Grial.»

Enfim, que o mais provável é que o petróglifo do Palheiro não seja mais que uma espécie de mancala pré-histórico. Tal vez, faz alguns milhares de anos, dois povoadores destas terras, jogaram uma partida contemplando uma vista formosíssima da nossa Ria.

Para rematar esta postagem, colo alguma imagem mais das que pudemos encontrar na mesma laje que a que vimos de comentar. Estava já a cair a tarde e não pudemos demorar mais o regresso. Para outro dia ficaram as medições, os desenhos e se estou inspirado, as fantasias.

Máis covinhas...
Pegadas que derretem rochas?
Para isto não tenho palavras...

segunda-feira, 16 de abril de 2012

nº 133 Faustino Rey Romero e os Poetas dos Melros.


Abstract:
Breve relato sobre curiosos encadeamentos históricos que nos levam a crer na existência na Galiza duma geração poética à que poderíamos chamar Ornitólogos sentimentais, ou melhor dizendo, Os poetas dos melros e a sua relação com o Festival de la Canción Gallega de Ponte Vedra.

Eu quisera ser melrinho
e ter o bico encarnado,
para fazer o meu ninho
no teu cabelo doirado.
Quadra Popular.

Tragédia com três personagens

«Amor!» «Amor!»
-assobiava o Melro
Seu assobio
tinha algo quente
que dava frio

«Amor!» «Amor!»
- A Rosa, indiferente
não respondia

«Amor!» «Amor!»
- A Lua filosófica
sorria

«Amor!» «Amor!»
-assobiava o Melro

-A Rosa, cruelmente
não respondia

Enlouquecido
o pobre Melro
botou-se ao rio

De indiferente
a Rosa
passou a presumida

-A Lua
por ser tarde
deitar-se
ia

Ernesto Guerra da Cal Lua de Alem-mar 1959

Este formoso poema de Ernesto Guerra da Cal, dedicado a Fermín Bouza Brey, pertence ao livro Lua de Alem-mar e leva por subtítulo «para ornitólogos sentimentais». Na fina ironia do escritor ferrolano parece esconder-se uma alusão a toda uma geração de poetas herdeiros da poesia de Amado Carvalho e que, por diversos motivos, vão ser protagonistas dum evento pouco ou nada estudado até o momento: o Festival de la Canción Gallega de Ponte Vedra. Este festival celebrou-se entre os anos 1960 e 1967, sendo promotores Antonio Fernández Cid, crítico musical, e Xosé Filgueira Valverde, presidente na altura da câmara pontevedresa.
A mecânica do evento consistia em que compositores espanhóis e portugueses de grande sucesso musicavam um poema dalgum autor galego. Paralelamente, havia um concurso de composição do que saíam partituras premiadas. Durante uns dias, sempre nas datas próximas à festividade de São Bento, pronunciavam-se conferências-concerto, na que se interpretavam as obras encomendadas, as do concurso e outras de carácter histórico como ilustração às palestras.
Ernesto Guerra da Cal foi o autor dalgum desses poemas musicados, sendo a sua participação estudada por mim, em parceria com Isabel Rei e Joám Trillo, em dois trabalhos que sairão do prelo em breve. Mas além do poeta ferrolano, houve outros coetâneos que também participaram com seus versos no festival e aos que poderíamos chamar os Poetas dos Melros, dado que todos eles foram rapsodas deste passarinho de plumagem escura e bico amarelo.
Comecemos pelo próprio Guerra da Cal. O poema acima transcrito e titulado “Tragédia com três personagens” está incluído num grupo de seis poemas cujo título genérico é Cançonetas do Amor em Clave de Lua. Este pequeno conjunto tem muitas das características que Méndez Ferrín atribui à por ele chamada geração do 1936, como o neotrovadorismo, influência de Bouza Brey, ou o hilozoísmo/imaginismo, de Amado Carballo. Tanto Bouza Brey como Amado Carballo foram distintos Ornitólogos Sentimentais, sobrevoando o seu parnaso particular lavandeiras, rouxinóis, pintassilgos e, como não, algum melrinho.

«Fugiram as badaladas
ao acordar a manhã,
entre xílgaros e melros
pelo mato a rebuldar.»

Amado Carballo “Romage” Proel 1927

«Que não fujam os melros que fazem o ninho
no mais mesto curruncho dos teus verdores:
esgarçar-te-ei as polas muito amodinho
p[a]ra fazer um feitiço p[a]ros meus amores»

F. Bouza Brey Nós nº 12, 1922

«Todo o que é lírio, todo o que é melro
esfolar-se-á pelos campos galegos!»

F. Bouza Brey Nau Senlheira 1933

Ambos os dois poetas, Bouza Brey e Amado Carballo, foram musicados pelos compositores do Festival de la Canción Gallega, nomeadamente este último, cujo poema Ponte Vedra tornou-se num autêntico standard. 
Porém, os mais significados melristas pertencem à geração do 36, nascidos por volta do 1910. 
De entre todos eles, Xosé Mª Álvarez Blázquez teve um especial protagonismo no Festival, sendo um palestrante fixo das conferências-concerto. Os seus relatórios versaram sobre temas muito diversos, como as cantigas medievais ou os cantos de natal, estando sempre acompanhados de exemplos musicais. Também considero que deve atribuir-se lhe ser o primeiro em pôr o foco sobre o humilde melro, humanizando-o e vestindo-o com toda a sua roupagem simbólica:

O melro poeta

Da gorja algareira
do melro lançal
fugiam as horas
colhidas das mãos.

Co[m ]as suas moinheiras
e os seus alalás
a todas as melras
ia namorar.

Na pola mais alta
do meu salgueiral
morreu o poeta:
no papo, nem grão!

Ponte Vedra, 7-VI-1932

Ainda maior presença tem o melro na obra de Emilio Álvarez Blázquez, irmão de Xosé Maria e que também estivo muito envolvido na história pública e privada do Festival de la Canción. Ele escreveu coisas tão formosas como estas:

Cantaram os melros
e haverá um arzinho
entre os amieiros.

Emilio Álvarz Blázquez “Bico” Poemas de ti e de mim 1949

Meu reino não é desta árvore,
disse o melro, e pus em cruz
as asas sobre a paisagem...

Emilio Álvarez Blázquez O tempo desancorado 1988

Contudo, o poeta mais devoto dos melros é o Rianjeiro Faustino Rey Romero, o qual mesmo escreveu uma monografia poética sobre este passarinho, Escolania de Melros. O livro consta de vinte sonetos cujo protagonista é sempre a ave de pena negra.

O Melro

Prestidigitador de melodias,
que, sem cânon saber nem seguir pauta,
cantando a reo, nunca te extravias
no ar do rimo, voadora flauta.

Diz, que arame subtil é esse em que enfias
como doas de ouro a nota exata?
De que mestre aprendes-te a que assobias,
melodia lançal, música intacta?

Foste anjo de Deus? Pude ser isso!
Ou pássaro cantor no Paraíso,
onde a dita perfeita o Senhor forja?

Anjo foras, se, em vez de negra pluma,
asas brancas tiveras como a espuma,
pois é de anjo canora a tua gorja.

Faustino Rey Romero Escolania de melros 1959

Resulta evidente a influência de O melro poeta de Xosé Maria Álvarez Blázquez neste soneto do padre nado em Isorna. Mesmo palavras como lançal ou gorja, poderiam ser os restos fósseis que demonstrem tal genealogia.

Desconheço a relação certa entre Faustino Rey Romero e Xosé Maria Álvarez Blázquez, nem sei se esta foi estudada a dia de hoje por algum dos biógrafos de ambos escritores, mas cabe supor que esta existiu e foi intensa. Uma das razões que me levam a pensar assim tem a ver com os próprios biodados do escritor rianjeiro. 
Faustino Rey Romero nasceu o 27 de outubro de 1924, pelo que por idade está algo mais próximo a Emilio Álvarez Blázquez, nado no 1919, que a Xosé María, do 1915. Depois de estudar no convento de Herbão, o seminário de Madrid e o de Ourense, ordena-se padre no de Tui em 1948. Desde esse mesmo momento a sua vida passa a se desenvolver por terras do sul da Galiza, como as freguesias de Cela (Mos), Barcala (Arbo), Tameiga (Mos), A Guia (Tui), São João de Amorim... Vários dos seus livros Doas de vidro 1951 e Quatro sonetos ao destino duma rosa, 1952, foram editados na imprensa Tip. Rexional de Tui.
Uma relação tão intensa dum poeta com a cidade de Tui não deveu ser ignorada por dois dos bates tudenses mais insignes, Xosé Maria e Emilio Álvarez Blázquez.
Algum poema de Rey Romero também foi musicado no Festival de la Canción. Eu tenho localizados duas partituras, uma do compositor português Frederico de Freitas e outra do galego Groba.
A de Frederico de Freitas faz parte dum álbum titulado 10 canções galegas, do que já falei na postagem anterior. A inclusão dum poema do Rey Romero de lado de outros de Amado Carballo, Bouza Brey, Xosé Maria Álvarez Blázquez e do seu irmão Emilio põe um trilho musical inigualável a geração dos ornitólogos sentimentais.  

Por último e como colofão a esta postagem, mais uma cadeia de casualidades melricas. Faustino Rey Romero tem um soneto titulado:

O melro que lhe cantou a eternidade a São Ero de Armenteira.

Por acalmar uma amorosa queixa,
por adoçar de fera ausência o agre,
apreixaste o tempo na madeixa
do teu canto uma noite de milagre.

Não renderam três séculos um segundo.
Tao prodigioso foi teu rechouchio,
que às ditosas estâncias do trasmundo
daquele Santo subiste o alvedrio.

Foste em comparação como a escada
que véu Jacob unindo terra e céu,
mas, em vez de anjos, de música baixada.

Tu semeavas eternal semente,
e o Santo estava de si mesmo alheio,
enquanto cantavas milagrosamente.

O logótipo do Festival de la Canción Gallega foi feito por Agustín Portela Paz, ilustrador do Museu de Ponte Vedra e pai do famoso arquiteto César Portela e nele pode ver-se ao Santo Ero de lado do pássaro cantor.



Este mesmo desenhador fez as capas do livro de Xosé Maria e Emilio Álvarez Blázquez Poemas de ti e de mim, 1949, da Editorial Benito Soto. Por sua vez, Emilio, também fez um poeminha sobre o santo durmichão da Armenteira.

Santo Ero

Louvado seja o Santo
que está no Paraíso
e não queria tanto.

Louvada seja a hora
de Armenteira, que foi
trezentos anos glória.

Louvado o passarinho,
de quem ninguém se lembra
e está no Paraíso....

Emilio Álvarez Blázquez “Tríade de Três Santos” Lar 1953

Por certo, na revista Lar, do Hospital Galego de Bos Aires, também publicou Faustino Rey Romero em 1952 os seus Quatro sonetos ao destino duma rosa.

Enfim...

Orjais ©