sexta-feira, 27 de maio de 2011

nº 112 Graffiteiros do passado II

II
O moinho do Rio do Mar em o Rial.
O moinho do Rio do Mar, no lugar de O Rial, merece uma visita por muitos motivos. Em primeiro lugar, e quiçá o mais importante, porque o conjunto formado pelo moinho e a ponte que está ao seu carão e simplesmente belíssimo.

28



29
A primeira notícia que teve da singularidade desta edificação foi por um artigo publicado em 1981 titulado Dous grabados de embarcacións nun muiño de Rial BRIGANTIUM. Boletín do Museo Arqueolóxico e Histórico da Coruña nº 2 da autoria do professor corunhês Fernando Alonso Romero. Dito artigo é muito breve e tão só avisa da existência duns desenhos na porta do velho moinho do Rial. Também achega um calco dos mesmos, isolados de outras marcas interessantes, como são algumas cruzes feitas com a mesma técnica de incisão que os barcos.
30

31
Fernando Alonso Romero diz, acho que dum modo puramente intuitivo, que quiçá se trate da estilização dum daqueles barcos dos que noutros tempos podiam avistar-se desde a baía do Rio do Mar.
Já disse que esta série de artigos só procura documentar, nunca teorizar, sobre marcas que não foram apenas estudadas com anterioridade e que merecem ser objeto da atenção de pessoas mais sabidas do que eu. Mas não me podo resistir a amostrar-vos algumas imagens verdadeiramente surpreendentes. Quando vi estes desenhos do moinho do Rio do Mar lembrei de imediato as conhecidas como "siglas poveiras" definidas como "uma forma de proto-escritura primitiva, já que se trata de um sistema de comunicação visual rudimentar; [que] eram usadas como brasão ou assinatura familiar para assinalar os seus pertences". fonte
32

Siglas poveiras fonte
Em Portugal disse que a origem destas marcas estaria nas invasões vikingas das nossas costas, mas o interessante é o caráter marítimo das mesmas. Outra referência a ter em conta encontrá-la-iamos nos muros da fortaleça de Brouage, na França. Nas Actas del V coloquio internacional de gliptografia, II Vol. Ponte Vedra, Julio de 1986, podemos ler um artigo fascinante: Les graffiti des remparts de Brouage. (Charente-Maritime-France). p. 539-563. Como uma imagem vale mais que mil palavras, eis uma ilustração do artigo.
33

Como se aprecia nos mastros e velas dos barcos têm certas analogias com Rio do Mar. Na ilustração de Brouage, vemos, na parte superior, uma linha de cruzes que estariam disseminadas pelos mesmos muros que os barcos. Pois bem, na porta do moinho do Rial há também cruzes como esta:

34
Remarcado digital

A porta do moinho está muito deteriorada sendo uma autêntica milagre que sobrevivera até hoje. Acho que uma medida oportuna seria a de que o concelho negociara com os proprietários a cessão da dita porta a câmbio doutra nova, para ser conservada no Museu do Mar. Se não se tomam medidas urgentes, qualquer dia ficamos sem ela.
No dintel do moinho podemos ver uma inscrição em pedra que diz:


ME HIZO D.N BALTASAR BLANCO.
EN EL AÑO DE 1832.

Na agulha esquerda da porta há uns gravados nos que se aprecia claramente uma cruz e uma letra P, mas pode haver alguma outra inscrição hoje muito erodida.
35

Um dado muito bom que nos achega Fernando Alonso Romero é a hipótese de que a pintura da porta, e quiçá também das paredes, esteja feita a base de casca de pinheiro, a mesma que se usava quando eu era criança para encascar as redes. Acho que esta técnica de tingir abandonou-se com a chegada dos aparelhos de fio sintético. Alguma vez tenho lido que também os hábitos franciscanos se tingiam a sua vez empoçando o pano neste líquido.
A passadeira ou pontezinha ao pé do moinho é uma delicada obra de cantaria onde a lógica é o conhecimento do médio resultam evidentes. Os piares têm a forma arredondada por um extremo, o que se enfrenta a corrente e quadrada pelo outro. Com isto conseguem que haja uma menor resistência ao rio e, ainda mais, uma menor acumulação da ramada arrastra pela água.
36

Em previsão das cheias, as lousas dos peitoris, têm um buracos quadrados por onde escorrer a água.

37


A CASOTA DE LEIRO
O meu amigo Carlos Collazo levou-me até uma casota das utilizadas pelos marinheiros para guardar os seus aparelhos e demais utensílios do ofício. Está na praia de Leiro e é uma edificação de blocos de concreto sem qualquer interesse mais que o anedótico de ter-se encontrado no seu interior nada menos que o Casco de Leiro.
Na mesma linha de praia onde se levantou esta casota há muitas outras feitas de tijolo ou com os surrealistas bombos de bateia.
Mas ao par de todas elas há uma singularíssima que guarda inúmeros gravados, os quais deveram ser visitados quanto antes pela comunidade científica.
Sobre o dintel há um símbolo que poderia ser uma marca de propriedade, quiçá o emblema da família dona da casa.
38


Nos muros encontramos gravuras de difícil interpretação. Há, por exemplo, uma cifra, 1823 ou 1828, que imediatamente sugere um ano, uma data, mas quem sabe...
39


Também podemos encontrar iniciais e algum outro risco pouco claro. Mas de entre todos os que nos identificamos há dois que chamaram especialmente a minha atenção. Em primeiro lugar uma pedra do muro norte, um pequeno rebo quase triangular com duas covinhas como orbitas duma cara sem olhos. Quando a vi por primeira vez fiquei um instantinho a olhar para ela, e mesmo que a foto não lhe faz muita justiça, certamente logrou, por algum motivo que desconheço, seduzir-me.
40

A outra é um perpianho que contem uns riscos que me fizeram dar-lhe muitas voltas a cabeça pensando na sua possível origem.

Separados por uma diaclase vemos no lado esquerdo um grupo de letras onde se lê claramente F A I. No lado direito, ao lado duns riscos e pontos nada claros, uma figura antropomorfa esquemática.
41
Disimulem o meu vandalismo ao pintar com grafito preto os riscos, mas quando comecei a traçar não contava com encontrar coisa de tanto interesse. Sinto-o.
Continuaremos...

sexta-feira, 20 de maio de 2011

nº 111 Graffiteiros do passado I

I


Esta série de postagens quero-a dedicar ao amigo Carlos Collazo, grande conhecedor da geografia arqueológica de Rianjo e que me acompanhou na visita a alguma destas marcas.

*

O meu amigo e ilustre rianjeiro Joam Evans Pim acaba de publicar Traditional Marking Systems: A Preliminary Survey. Dunkling Books, London & Dover, 2010, 518 pp, ISBN 978-0-9563478-1-7, em parceria com Sergey A. Yatsenko e Oliver T. Perrin. Este livro resultou um grande descobrimento para mim. Conhecia alguns trabalhos sobre marcas de propriedade, marcas de término, etc. na Galiza, mas nenhum tão sistemático e exaustivo como este. A sua leitura ativou a minha memória, agudizou-se-me a olhada e fez com que o que antes passava desapercebido, agora seja do máximo interesse.
Nesta postagem vou fazer um percurso por algumas marcas que fui encontrando, deixando bem claro que não pretendo teorizar sobre elas nem lançar qualquer juízo ou hipótese, tão só fazer um trabalho desc
ritivo apoiado nalgumas fotografias e desenhos.

MARCAS DE PROPRIEDADE

O casco velho de Rianjo conta com numerosos gliptogramas fáciles de localizar, apenas com manter a vista atenta aos muros dos prédios. Um exemplo da acessibilidade a este tipo de arte esquemático, encontramo-lo em duas casas localizadas na Costinha da Igreja e na Rua Paio Gomes Charinho.



1


2
O primeiro está colocado no dintel duma das janelas que dão a rua. O desenho esquemático semelha uma representação antropomórfica, existindo numerosa bibliografia onde se representam exemplos quase idênticos.
O segundo está constituído por uma pedra incrustada numa edificação moderna. O símbolo da esquerda pudera ser também uma marca de propriedade, ainda que eu não encontrasse nenhum exemplo parecido nos repertórios editados. O interessante desta pedra está na sua datação certa, 1645.
CRUZES
Algo verdadeiramente curioso para mim é a quantidade de cruzes gravadas nas paredes exteriores das casas de Rianjo e também, nalguns casos, em muros e valados.
3

4


5

6

7

8

A cruz número 3 está no topo da Rua do Médio, fronte a igreja e o número 4 no Campo de Abaixo. O resto, da número 5 ao 8, fui-as encontrando no caminho que sobe por Rio de Sima, ou devera ser Cima?, até o Campo das Cartas. Por suposto há um grande número de cruzes nas igrejas de Santa Columba e da Guadalupe, mas quis trazer aqui só as que encontrei fora de templos católicos. Desconheço a utilidade que possam ter estas cruzes. O mais doado é pensar que houvera um fim profilático de salvaguarda das pessoas que moram no interior das vivendas. Mas então porque há tantas em muros como os que formam as paredes da ruela do Rio de Sima?.
De todas as que até o de agora tenho registadas, nenhuma tão espetacular como a que adorna o pé direito duma porta no lugar de Leiro.

9

MARCAS DE CANTEIROS

Nas paredes de Santa Columba, sem ter em conta as cruzes, há um interessante repertório de gliptogramas, cuja maioria podem ser denominados marcas de canteiro, mesmo que o seu uso e finalidade não fique de todo clara. Até agora só fiz inventário das exteriores, pois o interior é de difícil acesso, tendo em conta o pouco que o templo abre as suas portas e que quando o faz é para celebrar ofícios.

10

11

12

13

14

15

16

17

Os "amigos da nave do mistério", que de todo há, podem comparar a última dos sinais dos canteiros como a chamada Cruz de Satão.

18

Mas há outras marcas muito mais enigmáticas, quando menos para mim que não faço ideia que podem significar.
Podem ser representações de ferramentas? Emblemas dalgum grémio? O curioso é que estão situados no mesmo muro, orientado ao norte, a uma altura similar.

19

20

21

22

Mas os riscos para mim mais enigmáticos estão num contraforte, já muito degradados e difíceis de transcrever.

23
In situ, eu desenhei algo semelhante a isto.

24

Todavia, numa pedra das escadas do sul pelas que se acede ao adro, há uma pedra que contem o que parecem letras, mas que não dou decifrado.

25

São muito conhecidos as marcas de canteiro do Castelo da Lua, na praia da Torre. Diz a gente de Rianjo que muitos perpianhos do castelo foram reutilizados na construção de vivendas pelos vizinhos de todo o concelho rianjeiro. Quiçá seja esta a razão do porquê ás vezes encontramos alguns riscos em lugares onde não devera havê-los. Num local da Praça de Dieste encontramos este símbolo muito semelhante a outros de Santa Columba ou do próprio Castelo da Lua.

26

Um caso excepcional constitui-o a parede exterior duma vivenda aparentemente construída no século vinte, cheia de marcas de canteiro numa quantidade tal que não me arrisco sequer a aproximar. Na fotografia que adjunto marquei umas quantas com círculos azuis. Deixo para outra ocasião um relato mais certo do que amostra esta vivenda.

27

domingo, 8 de maio de 2011

nº 110 A Câmara de Ugia IX.

Soneto.

Se o velho Simbad volta-se à Ilha
Atracaria sua dorna num areal do sul,
Longe do escuro, procuraria a luz
Acesa nos primórdios da sua vida.

Esqueceria Bagdade e tal vez seria
Um marujo mais a pescar no azul,
Lembraria a casa na que moras tu
E quereria morrer contigo a vida.

Se o velho Simbad volta-se à Terra
Encher-te ia o coração de agoras
Para compensar ausências velhas.

Serias a rainha da Arousa toda;
para a mais formosa gradicela
um tule de pétalas de ardora.

Fotos: Ugia Pedreira ©; Texto: Orjais ©

quarta-feira, 4 de maio de 2011

nº 109 Um conto de Lugrís Freire

Caricatura de Lugrís Freire por Cebreiro.

A ILLA MILAGREIRA

A dorna, que n-aquela mañán de primaveira, tiña que levarme á illa d' Arosa, foise pouco á pouco enchendo de mulleres, mozas e vellas, que traían os foles (sacos) [1], cheos de trigo mundo.
Levouse o risón, izouse a cuadrada vela é puxémonos camiño d' Arosa.
- ¡Salvora á vista [2]! -berrou o vello patrón cando íbamos pol-a mitá do camiño.
E todal-as mulleres mozas, solteiras ou casadas, puxeron a man enriba da barriga é moularon unha oración.
- ¿Qué terá que ver -pensei para en contra mín-, a illa de Sálvora co-as barrigas d' estas mociñas? E cavilando n-esto desembarquei no areal do sul [3], frente da vila de San Xulián, é dirixinme á fábrica de Goday [4].
Alí fixen amistá c' un vello mariñeiro.
- ¡Vosté! -díxenlle-, xa levará moito tempo aquí.
- ¿Moito tempo? ¡Recontra!... dendes que nacín. Cando a guerra d' Africa, xa servía eu a-o rei na Berenguela...[5]
- E dígame, meu vello... é dispense.
Cando pasan as dornas frente de Sálvora, ¿por qué as mulleres mozas poñen á man sobre da barriga?
- Xa non é o primeiro que me' o pergunta, recontra. Se tén vagar é me quer oir contareille unha historia.
- Conte canto queira que ll' o agradecerei.
O vello sentouse n-unha pedra das que sirven para as palancas de prensal-a sardiña, é comenzou á falar, a-o mesmo tempo que picaba tabaco para un pitillo.
- Pois verá, señor, pois verá. A illa de Sálvora, aló pol-o ano de 1860, se mal non me lembro, era propiedade do Conde Malvar[6]. Non quitaba d' ela un ichavo, porque alí non vivían mais que as gaivotas. O maordomo do Conde, un tal D. Visente, mercou a illa, é mandou á ela quince familias de labregos[7], para as que fixo dinantes unhas cachoupiñas. Pasados dous meses, presentáronse todol-os viciños da illa no Caramiñal, diante da casa de D. Vicente, é un d' eles falou en nome dos demáis.
- Don Visente, que me non coma unha sentella se podemos vivir en Sálvora.
- ¿E logo? ¿non é bon o terreo?
- O terreo non é malo, non señor, qu' está folgado é medra ben o froito... ¡pero haille tantos conexos [8]! ¡furaron de tal xeito o chán! ¡Vaya! decímoslle que alí non se pode vivire, é imonos.
- De ningunha maneira. Eu vos mandarei unha casta de gatos que acabarán c' os conexos.
Aos catro meses volveron os labregos de Sálvora, e dixéronlle á D. Visente.
- Don Visente: non pode ser. Malos burases [9] me non coman no fondo do mar salado se podemos vivir. Os conexos xa foron mortos pol-os gatos, que nos mandou vosté, pero agora son tantol-os gatos que hai, que non pode haber cristiano que non perda o xuicio co a baragunda qu' eles aman. Ademáis, como estamos no Xaneiro, pol-a noite andan os gatos á xaneira, con perdón..., e... D. Visente, aquelo elle o inferno.
- Boh! boh! Eso remédiase con solimán, ou con pan de vidro. Eu vos mandarei con qué matal-os gatos.
Volveron os labregos para a illa. Pasaron tres anos sin novedade, e cando xa D. Visente coidaba que a colonia de Sálvora estaría satisfeita, sinteu un barullo na rua como se a vila estivera en revolución. Abreu a ventana; fora estaban os colonos rodeados de criaturas.
- ¡Don visnete! ¡Don Visente! -berrou un dos labregos., non tornamos a illa inda que adoezamos co a fame. Agora xa non se trata de conexos, nin de gatos, nin de cousa semellante. Non hay solimán que poida remedial-a nosa desgracia. ¿Non repara, D. Visente? ¡Estamos inzados de fillos! N-aquela terra nacen do mesmo xeito que os sapos cando cai orballo de tronada. ¡Mala sentella coma a illa!... ¡Eia, que non tornamos inda que nos esfolen vivos!
E non volveron máis á illa.
- ¡Demontre! -dixen eu d' estonces-, a cousa era seria.
- Pero ainda non arremata aquí o conto, Sr. Asieumedre. Despois d' esto, o goberno puxo un faro en Sálvora [10]. Inaugurouno un vizcaiño de sentent' e cinco invernos ben cumpridos, que levaba mais de vinte anos de casado c' unha muller que pesaba como catro amas ben mantidas, con perdón. Aos dez meses d' estaren na illa, pareu a muller...
- ¿Neno ou nena?
- As duas cousas, señor, macho e fermia coma dous soles. Dendes d' aquela as xentes dín qu' en Sálvora hai un demo maliño e criador... ¿Vosté rise? Eu teño nove fillos, e a culpa está en que dendes da miña casa vese a illa. Xa pechei á ventana que da ao mar, pero á miña dona debe mirar algunhas veces para esa terra milagreira...
Asieumedre.

En: El barbero municipal. Sada, A Coruña: Ediciós do Castro, D.L. 2000. Nº 28 (1911). P. 2.

O divertido texto de Lugris Freire, achega-nos informações muito valiosas e demonstra como da literatura em aparência mais banal, podem tirar-se dados do maior interesse histórico.
O autor começa o relato contando-nos como para cruzar para a Arousa serve-se duma dorna na que vai acompanhado dum grupo de mulheres. Estas trazem sacas de trigo [1]. É possível que como em muitas outras vilas e aldeias galegas, os muínhos da Arousa, as Azenhas e o Moinho de Vento, só moeram milho e que para o trigo se deslocaram a outra localidade. Também puderam vir vende-lo mas, onde embarcaram?
A resposta devera da-la um marinheiro, pelo que eu só me atrevo a sugerir uma possível rota. Para passar por frente a Sálvora [2], acho que a dorna desatracou em algum lugar de Ribeira é, como se nos diz, tomou rumo a um areal do sul [3]. Dado que o destino era a fábrica de Goday [4], o ponto de atraque pode ser a Ribeira do Chaço ou o próprio Mole de Pau.
Que Lugris Freire fora visitar aos Goday é um dado também a ter em conta. Noutra ocasião, com motivo do bota-fora do vapor Teresa, (ver postagem aqui) outro ilustre literato galego, Alfredo Branhas, visitou à família de fabriqueiros catalães.
Já na Arousa, Lugris Freire fez amizade com um velho marinheiro, cujo discurso inicial dá verossimilitude ao relato. Segundo conta era ilhéu de nascimento, e fora soldado da marinha real a bordo do Berenguela [5]. A Guerra de África, ou primeira Guerra de Marruecos, teve lugar entre os anos 1859 e 1860. Na contenda interveio a marinha ao mando do almirante Segundo Díaz Herrero.
A Berenguela foi uma fragata construída nos estaleiros de Astano em 1854 e que bem pôde formar parte da frota concentrada no Estreito de Gibraltar.

"Paso da Fragata Berenguela pelo Canal de Suez"
1870 Ramón Padró y Pedret
Museo Naval de Madrid. (Wikipedia)

O relato sobre a historia da Ilha de Sálvora é o que quiçá se presenta mais difuso. Acho que estão erradas as datas e os protagonistas. A disputa entre o Conde de Malvar e o seu mordomo, supostamente encenada no 1860, semelha fazer referência a duas personagens históricas, o cura de Carreira, D. Manuel Acuña y Malvar e Don Vicente Caamaño Valera y Gayoso, Cavaleiro da ordem de São João de Malta e Brigadier da Real Armada. Este último queria instalar uma pesqueira de atuns, com uma concessão das águas circundantes que praticamente deixava sem mar aos vizinhos de Carreira.
É certo que colonos carreirães [7] montaram uma pequena colónia em Sálvora, mas pagavam tributo ao Marquês de Revilla.
O resto da história, fala-nos sobre as supostas propriedades favorecedoras da fertilidade que emanariam da Ilha de Sálvora. Os problemas começam pela proliferação incontrolada de coelhos [8], um mamífero que no imaginário colectivo ilustra perfeitamente a facilidade em engendrar e parir.
A continuação o marinheiro exclama: «- Malos burases [9] me non coman no fondo do mar salado!» A palavra burás, plural burases (acho que se devera escrever buraz), um termo muito da ria da Arousa, refere-se a um peixe da família dos olhomois ou gorazes. Quiçá Lugris Freire escutou esta palvra por vez primeira na Ilha e lhe pareceu ilustrativa da nossa fala. M. do Carme Ríos Panisse (1977): Nomenclatura de la flora y fauna marítimas de Galicia. I. Invertebrados y peces, Universidade de Santiago, Verba anexo 7, refere-se a burás nos seguintes termos:
«Pagellus bogaraveo (Brünn.) . (Quizá a este nombre científico pertenezcan todas las denominaciones vulgares que aparecen para los individuos pequeños del Pagellus acarneyPagellus centrodontus; los pescadores no suelen hacer distinciones entre las tres especies cuando éstas son jóvenes): Cangas. Etim. V. buraz.
Pagellus centrodontus (Delar.), Besugo: (al peq.) Rianxo, Portosín, Portonovo, O Grove,Vilanova de Arousa, Escarabote, Cambados, P. Morrazo, Bouzas, NI, R. B. CARRIL (reg. enPortonovo),Cesantes. (La den. de NI es Pagellus cantabricus). Plural burases en todas las localidades exploradas por mí, excepto en Cedeira, donde se dice buraces.
Pagellus erythrinus (L.), Breca: R. B. CARRIL (reg. en Vilaxán).»
Burás aparece também citado no Dicionario de Ausencias, do blogue ilhadearousa.blogspot.com
Remata-se o conto com a referência ao faro de Sálvora, construído no 1852 e que fora projectado por D. Celidónio Uribe, o mesmo engenheiro que desenhou o da Arousa.
Em definitiva, A Illa Milagreira é um relato que conta uma lenda que mistura superstições com dados históricos mais ou menos deformados em boca dum velho marinheiro carcamão. Já tenho falado da escassa historiografia sobre a cultura popular na Ilha de Arousa, pelo que textos como este têm um valor documental engadido ao puramente literário.

domingo, 1 de maio de 2011

Nº 108 Fr. Ambrósio Otero, um carcamão em Manila. III

Graças a eficaz gestão do meu irmão Xoan Dopico e da amabilíssima colaboração do padre arousão Victor Suárez, posso publicar agora a cópia literal da ata batismal de Ambrósio Otero. Não achega muita mais informação da que já tínhamos, apenas a da data do seu nascimento, dois anos antes da que vínhamos citando e o nome do padre que o batizou e mais do padrinho. Como a informação foi chegando aos bocadinhos, transcrevo todos os dados certos que sabemos até agora.

Fr. Ambrósio Otero Álvarez.

- Lugar e data de nascimento: Ilha de Arousa, 10 de maio de 1753.
- Os seus pais foram Joseph de Otero e Josepha Álvarez. Padrinho, Julián de Señoráns. Foi batizado pelo padre franciscano, presbítero Frai Joseph González.
- Tomou o hábito dos agostinhos em Valladolid o 10.9.1773.
- Professou em Valladolid o 22.9.1774.
- Chegou a Filipinas em 1778.
- Em 1783, Fr. Ambrósio exerce de pároco na igreja de a Nossa Senhora do Patrocínio de Maria em Boljoon, Cebu, Manila.

Placa informativa na Igreja de Boljoon, onde se cita a Ambrósio Otero.

- De 1788 a 1802 é pároco de São Nicolás Tolentino.
- De 1802 a 1808 passará por diversos cargos no convento do Santo Menino (Santo Niño) de Manila até ser nomeado prior em 1806.
-Em 1808 é prior do convento de Manila.
- Em 1814 é nomeado Provincial.
- Morreu em Filipinas o 09.06.1819.

Copia literal da ata bautismal de Ambrósio Otero.