quinta-feira, 12 de agosto de 2010

nº 88 Livros velhos

Há uns anos, um amigo ligou para mim porque tinha umas caixas de livros que salvara de ter sido deglutidos pelo camião do lixo. Resulta que uns/umas profes/as posmodernos/as deram em fazer limpeza na sua escola, uma pequena unitária do rural. Meteram em caixas dúzias de livros velhos, porém perfeitamente conservados, e decidiram que já era hora de se desfazer deles. Assim que foram direitos ao contentor. O meu amigo foi caritativo com as antiguidades, transportando-as novamente, esta vez do contentor a sua casa.
Quando abri os pacotes fiquei maravilhado. Havia livros escolares de todas as épocas, monárquicos, republicanos e franquistas, enciclopédias, contos de Calleja, manuscritos... Para mim aquilo era um tesouro, o qual está exposto agora, junto com outros volumes que fui encontrando-me, entre o fundo histórico do Museo Pedagóxico Castelao, no C.E.P. Xosé María Brea Segade.
Ultimamente estou a ler alguma coisa sobre o krausismo no Estado Español, a Institución Libre de Ensañanza, as Missões Pedagógicas... Estas últimas, as Missões, nasceram no interior do Museo Pedagógico Nacional que "desde a sua criação em 1882, a sua atividade não foi apenas o fomento do colecionismo senão que se erigiu num centro vivo de investigação educativa, de formação, assistência técnica e projeção social. Durante os 59 anos da sua existência foi um foro que desenvolveu uma notável influência na renovação da escola espanhola" (fonte wikipedia)
Para desenvolver o seu trabalho as Missões contavam com um voluntariado (missionários) que em muitos casos eram os mestres, levando aos núcleos de povoação mais isolados projeções cinematográficas, teatro, pinacotecas (reproduções), bibliotecas... Na nossa ria também estiveram presentes. Houve cinema e exposição de quadros em Rianjo e Boiro, bibliotecas em Boiro, Ogrobe e a Ilha de Arousa, nesta última, duas para a escola e outra para a agrupação socialista.
O colégio onde resgatamos os livros deveu ser uma das favorecidas no reparto de bibliotecas já que no frontispício de vários exemplares levava o carimbo das missões. Neste aparece o escudo da Espanha republicana, e dizer, sem as insígnias bourbónicas e o lema em círculo Patronato de Misiones Pedagógicas.

Por certo, e para que ninguém se leve a equívoco, a escola iconoclasta não era nenhuma das da nossa ria.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

nº 87 Novo artigo no Patifúndio.

O 25 de julho publiquei um novo artigo no blogue lusófono o Patifúndio. Trata sobre o galego literário versus galego falado e do nascimento duma coleção, Clássicos da Galiza, que está a adatar os grandes títulos da nossa literatura ao português internacional. Dai-lhe uma vista de olhos e também ao site, paga a pena.

Ver o artigo: aqui.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

nº 86 Aquele dia que recebi carta de Castelao.

Sempre me pareceu muito engraçado ver como certas personagens dos romances ou dos filmes de mistério têm uma atracção inverosímil sobre os assassinatos. Se alguém te invita a tomar um chá numa pequena vila de Inglaterra ou de Maine e resulta que ao convite acode também Miss Marple ou Jessica Fletcher, já podes começar a tremer porque tens muitos bilhetes de acabar sendo um fiambre.
Efectivamente, as heroínas de Agatha Cristie ou de Assassinato, disse ela, atraem como um imane os casos misteriosos, simplesmente porque elas estavam lá nesse momento em que aconteceu o acto criminal. Ao fim, conseguem, graças a sua inteligência natural e a grande experiência vital que acumulam, resolver o caso, mas não deixa de pesar sobre elas uma certa suspeita de azarentas.
Algo semelhante, guardando as distâncias, acontece-me a mim com os documentos históricos, arquivos, objectos singulares com certo interesse documental ou arqueológico. Padeço o que poderíamos chamar o síndrome Miss Marple, o qual provoca que sem fazer qualquer esforço, de repente um papel cai nas minhas mãos resultando ser a chave dalgum arquivo virgem; um livro que me descobre uma fantástica biblioteca; uma foto que me conduz a viver vidas já vividas.
Assim começaram muitos dos meus trabalhos, partindo dum finíssimo fio que me guiava até um pequeno ou grande novelo, mais ou menos fácil de desembrulhar.
Esta atracção fatal achegou-me o meu primeiro contacto íntimo com Daniel Castelao. Na altura eu era estudante em Compostela. Um amigo do que não consigo lembrar o nome, véu falar comigo para me amostrar um livro que com certeza eu saberia apreciar. Tratava-se duma primeira edição do Sempre em Galiza, assinada pelo seu autor, a personagem histórica que mais admirava então e que mais admiro a dia de hoje.
Abri a capa e li a dedicatória: «a Ramón Fernández Mato, con moito agarimo Castelao»

Este ilustre jornalista morrera fazia só uns anos em Vila-Garcia, e segundo me contou este amigo, seu arquivo-biblioteca não estava muito bem custodiado. O caso é que ao passar as folhas do Sempre em Galiza um pequeno papel desprendeu-se do volume e véu cair levemente ao chão. Estava dobrado em duas metades, ficando o texto oculto no seu interior:
«Querido Ramón: Escríboche pra despedirme de ti. Voume cara Europa. Vou daprender moitas cousas; vou afincar máis ainda o meu galeguismo, nado na grande fé que teño nas posibilidades da Raza.

Os homes de chaleque de fantasía coma tí poden dicir que na Galiza non hay o problema nacionalista; mais eu digoche que é unha vergonza que non-o haxa: unha vergonza pr'os intelectuaes.

Xa sei que loitaches en política cabo de D. Leonardo Rodríguez e fólgome moito de que tal fixeras. Eu tamén loitaría por il; mais pra que haxa unha política galeguista é preciso crear un estado de sentimento nacionalista que sexa o apoio moral d'aquila. ¿Ou é que a política pode facer algo de por si?

Podes ler nas verbas do noso Vicenti..., lume do século derradeiro...

Que pases ben o ano.

Teu amigo.

Castelao


Pontevedra, 2 de xaneiro de 1921»

Hoje, noventa anos após de que fosse escrita e mais de vinte de que eu a lera por primeira vez, acho que o texto segue a ter certa vigência.
A carta datou-se só uns meses antes da viagem de estudo que o mestre rianjeiro fez a Europa, no que visitaria a França, Bélgica e Alemanha. O tono da mesma tem um algo de reprovação a um amigo que não acaba de assumir os postulados nacionalistas das Irmandades. O Fernández Mato foi um homem com uma biografia cheia de cargos, algum deles mesmo curiosos, como a presidência da Tuna compostelana ou do Celta de Vigo. Outros, mais prosaicos, tais como director geral de seguridade durante a República, governador civil de Ciudad Real, Jaén, Málaga e Cáceres e deputado pelo partido de Portela Valladares por Lugo, nos comícios do 1936. Tinha fama de ser um bocado dândi, de aí a alusão ao «colete de fantasia», uma metáfora do desleigamento, do distanciamento com os problemas reais dum povo para o que se reclama a soberania nacional.
Um pouco mais abaixo aparece o nome de Leonardo Rodríguez, outro político da direita cuja cita resulta do mais oportuna.
Entre o 26 e o 31 de julho de 1918, celebra-se em Compostela, organizada pelo jornal madrileno El Debate, uma série de actos conhecidos como a Semana Regionalista. Das conclusões finais desprende-se o distanciamento do novo galeguismo, o das Irmandades, dos velhos representantes do regionalismo mais moderado. Assim, entre outras questões, os irmandinhos decidem arredar-se dos deputados besadistas, é dizer, de Rodríguez de Viguri e do próprio Leonardo Rodríguez. Resulta-me, por tanto, um bocado estranho o comentário que faz Castelao sobre o político caciquista: «eu tamén loitaria por il». A história a seguir pode, quando menos em parte, explicar tal citação?
Como já disse, Castelao está a três meses de sair para a viagem por Europa subsidiada pela Junta de Ampliación de Estudios. Segundo Paz Andrade «a asignación era cativa. Non pasaba de 425 pesetas ao mes, con o desconto do 12%.» Com um subsídio tão magro Virgínia, a mulher de Castelao, e o seu filho Alfonso, ficariam numa situação delicada. Na altura, o artista rianjeiro trabalhava como auxiliar de Estatística na Deputação de Ponte Vedra e professor de desenho no Instituto Geral e Técnico da mesma cidade. Pois bem, o tal Leonardo Rodríguez e Sánchez Cantón conseguiram que durante o percurso europeu de Castelao se lhe mantivera o ordenado que tinha estipulado em ambas instituições.
Outro dos apelidos ilustres citados em tão breve missiva é o de Vicenti. Pode tratar-se de Eduardo ou Alfredo, ambos jornalistas e de biografias muito interessantes. O primeiro Eduardo Vicenti Rigueira (13 de outubro de 1857 - 4 de maio de 1924), foi deputado por Ponte Vedra durante perto de quarenta anos nas filas do seu sogro Montero Ríos. Acho que o citado é este jornalista liberal mas também poderia ser Alfredo Vicenti Rey, nado em Compostela em 1850 e que foi retratado em diversas ocasiões pela erudita pena de Juan Durán. A sua militância natural foi o republicanismo federal, mas a complexidade duma mente tão prodigiosa dificilmente pode ser etiquetada em duas simples palavras.

Existe um texto de Alfredo Vicenti especialmente formoso e que eu descobri quando trabalhava na obra musical de Marcial Valladares. O seu título é A orillas del Ulla, e foi publicado no Heraldo gallego entre 1875 e 1878. Do capítulo titulado “La vida íntima” estrato o seguinte parágrafo:

« - El platicante tiene sus ideas. Cuando el año 46 después de lo de Solís, se refugió en esta tierra y para ganar la vida comenzó a hacer sangrías y desasnar muchachos. Frecuentaba asiduamente mi casa para comunicarme sus pensamientos o si os parece mejor, sus locuras.
- “Somos, decía él, no sé si soñando o despierto, dos millones de hombres, con lenguaje, costumbres, alimentación y gustos propios. Más tenemos de portugueses, y eso que es bien poco, que de españoles; nunca nos quejamos ni sublevamos y a pesar de ello y de nuestro aislamiento nos es preciso pagar en dinero y carne de cañón por todas aquellas provincias estrañas, que cuando gustan se declaran rebeldes o insolventes... ¿No podríamos intentar un esfuerzo para hacer que fuese nuestra, esclusivamente nuestra, esa querida y única patria...?”
- Galicia, Galicia, interrumpieron los paisanos levantándose con febril energía. -¡El platicante está loco! Añadieron enseguida; y se dejaron caer sobre los bancos, doblando tristemente la cabeza.
- Tiene razón, - murmuró el anciano -, no hay hombres.
- ¿Por qué, siendo tan reacio para los demás, preguntó una madre, cuida tanto el señor Andrés de los niños?
- Sin duda porque no tiene hijos, aventuró el cantero.
- No tal, dijo Antón de Touceda con voz profunda, es porque abriga la esperanza, de que, andando el tiempo, harán los niños lo que no hemos podido hacer nosotros.»

Remate:

Em resumo, diria que estamos ante uma carta breve, mas repleta de mensagens que nos ajudam a compreender o pensamento político de Castelao na altura em que foi escrito. O artista rianjeiro é um homem que vem de posições políticas conservadoras com as que segue a manter vínculos e que vai medrando no seu amor a pátria, sempre tendo a Galiza como eixo central do seu discurso. Na altura, Castelao já desconfia da estratégia política do seu velho amigo, um tunante (dito no bom sentido da palavra) que passou de director do jornal de Portela Valladares a Governador de várias províncias espanholas, e de nada menos que Director de Seguridade no tempo da República a retornar a Galiza, após de muitos anos de exílio, da mão do ministro franquista Manuel Fraga Iribarne.

Fernández Mato foi o destinatário real, mas, ao ler aquele papel tantos anos oculto entre as páginas dum Sempre em Galiza, senti que estava a ter uma conversa íntima com o Pai da Pátria.
Aquele dia recebi carta de Castelao.
Nota: A carta e a dedicatória na primeira página do Sempre em Galiza permaneceram nas minhas mãos escassos minutos, os suficientes para fotografa-los e ficar assim com uma cópia. Desconheço se a carta ficou até dia de hoje inédita. Nos epistolários de Castelao por mim consultados não consta.

Bibliografia mínima:

Ernesto Vazques Souza

Juan Durán

Valentín Paz Andrade

Xurxo Ayán

segunda-feira, 7 de junho de 2010

nº 85 A Câmara de Ugia VII

Acróstico

Mãe arquitecta de palavras como punhos,
Arousã devota dos abalos do mar,
Rosa sem espinhas, quer dizer, camélia,
Fanática de aquele que a apreendeu a chorar.
Última diva com voz de alvorada
Louvada sejas por sempre, irmã.



Fotos: Ugia Pedreira ©; Texto: Orjais ©

quinta-feira, 20 de maio de 2010

nº 84 Ayes de mi país

Já está a venta Ayes de mi país. Trata-seCor do texto do primeiro cancioneiro de música tradicional galega do que temos constância, elaborado por Marcial Valladares no 1865. O estudo que acompanha às partituras do escritor estradense estivo ao meu cargo em parceria com a professora e guitarrista Isabel Rei. Ela centrou-se fundamentalmente no aspecto analítico, correndo eu com o historiográfico.

Para mim supõe cerrar um ciclo na minha vida. Depois de tantos anos dedicado aos arquivos e nomeadamente à figura de Marcial Valladares, já tinha gana de ver o Ayes... na rua, ver que repercussão tem os muitos dados e documentos encontrados no casa de Vilaencosta, se damos recuperados de vez a Valladares como músico e recompilador de música tradicional.

Aproveito este espaço para agradecer ao editor, Javier Jurado (Dos Acordes) ter a vontade e a confiança em mim para fazer realidade esta publicação assim como à família herdeira do legado dos Valladares, por custodiar os documentos tão primorosamente e ao mesmo tempo ser tão generosos com os investigadores.

Para mais informação e pedidos: Dos Acordes.


quinta-feira, 6 de maio de 2010

nº 83 O folclore musical da Arousa.



Esta cantiga aparece no Cancioneiro Popular Galego de Dorothe Schubarth e Antón Santamarina. É uma formosa melodia com um estribilho que já cantara o Santalices junto com a sua sanfona. Nada teria, portanto, de especial de não ser que foi recolhida na Arousa em 1979 a uma mulher chamada Maria, de 73 anos, trabalhadora da fábrica de conservas e padeira.
Depois de muito ler nos cancioneiros galegos acho que esta é a única peça recolhida na nossa ilha e que foi publicada em papel. Fez anos, tentei saber quem podia ser esta senhora, mais não dei com ela. O certo é que o património musical arousão com o que contamos até hoje reduz-se a esta simples partitura e ao fantástico disco Foliada nas Rias Baixas, gravado em agosto do 1969 por uma equipa italiana de investigadores dirigida por Roberto Leydi.
Na página http://folkloregalego.blogspot.com/ podes baixar os audios (premer aqui). Esta digitalização está feita dum cassete. Eu tenho o LP que achega um interessante libreto em italiano e inglês onde se dão algumas informações muito interessantes da festa na Island of Arosa. Como exemplo o seguinte comentário:

Carry Me, Carry Me. (É dizer: leva-me, leva-me)

Right after lunch, in one of the taverns on the island, a group of fishermen start singing. The example is quite interesting because of its plifonic structure (in thirds).

Embora chegar-mos com décadas de atraso, acho que ainda é possível recolher algumas formosas peças de esse folclore marinheiro de quando na Arousa havia tabernas e ganhas de cantar. Se existir, que bom seria transcreve-las para que ficaram a salvo da desmemória.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

nº 82 Os rostos de Santa Columba

Um dos meus lugares preferidos de Rianjo é a atalaia que sobre a praça de Rafael Dieste forma o adro da igreja. Esta plataforma permite-nos ver o varandão do paço de Martelo à altura dos nossos olhos, estar por cima do cruzeiro e ter uma perspectiva única do conjunto da praça.

A igreja é uma autêntica jóia, uma mistura de estilos bem engastados formando um conjunto harmónico e de indubitável beleza. Mália não ser um templo muito grande há numerosos elementos ornamentais que impressionam ao visitante, emanando como um perfume a mistério sem desvelar. Não conheço muitos trabalhos em profundidade sobre a igreja rianjeira; destacar, se calhar, o de Begoña Fernández Rodríguez, El Tema del Juicio Final : el ejemplo de Santa Columba de Rianxo.

Quem visite Santa Columba tem a obriga de prestar atenção na cruz cumial que pintara Castelao; na decoração duma janela na parede norte com imagens de São Blas e Santa Águeda; numa Piedade possivelmente do s. XII que se encontra no interior, conservando parte da policromia original e sobre tudo, ao meu ver, deambular ao redor do templo gozando da maravilhosa colecção de modilhões que povoam a cornija. Paga a pena jogar a ser Panofsky e tentar adivinhar que representam esses rostos que nos contemplam desde as alturas, perguntar-se que pretendeu ensinar-nos o artista com a sua lição pétrea. Com a minha câmara compacta tirei umas fotos de não muita qualidade mas suficiente como invitação a contemplação e entretenimento da imaginação. Eis as fotos.