quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

nº 76 Baixo-relevo do Rinlo

A derradeira postagem deste ano queria que fosse este baixo-relevo lavrado no dintel da fachada duma casa do Rinlo em Rianjo. Não sei que representa, nem qual é a razão de que numa pequena vivenda alguém esculpira uma imagem tão subgerente, mas desde a primeira vez que caminhei frente a ela fiquei namorado do estranho esquematismo desta lavra popular.
A casa está já sem telhado, suponho que aguardando que alguém termine de destrui-la para fazer andares com vistas a ria. O próprio rostro de olhos esvaziados está enfermo duma espécie de lepra que escava no granito para faze-lo areia.
O meu desejo de Natal é para que este rostro não deixe de contemplar aos passeantes do Rinlo, para que o velho Rianjo não vaia a desaparecer com a destruição das suas pedras, das suas casas mais nobres que sempre são as mais populares. Bom Natal a tod@s.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

nº 75 Uma tarde na praça de Lourdes.


A praça de Lourdes, coração do bairro bogotano de Chapinero, é um dos lugares mais fantásticos nos que tenho estado. Um tem a ideia de que em qualquer momento pode acontecer qualquer coisa. Sentado nas escadas que conduzem ao templo, situas-te como um espectador duma animada obra de teatro, tal vez uma versão da Corte dos Milagres, onde tudo é possível.

Vendedores, fura-vidas, beatos, namorados, exércitos de limpa-botas, alugadores de celulares, fraudadores, etc.; um elenco variado e sempre disposto a nos deslumbrar.

Entre os trabalhadores da praça, os limpa-botas, aqui chamados emboladores, são uma espécie de aristocracia, sentados nos seus tronos, à sombra dos seus guarda-chuvas/sois, na espera de que algum transeunte peça os seus serviços. Os bogotanos cuidam muito o seu aspecto físico, mesmo que os seus fatos ou complementos sejam extremamente modestos.

Na seguinte fotografia pode-se ver ao embolador que mais me chamou a atenção. O cadeirão onde se senta o cliente é mesmo luxuoso. O espaldar lavrado e com barrotinhos elegantes que dão ao assento um aspecto colonial. Na base, umas pequenas rodinhas permitem um cómodo traslado. À esquerda, uma cadeira de plástico, quiçá por se o cliente vem com acompanhante. Por último, o limpa-botas veste uma samarra da Seguridade Privada, ofício que ocupa a milhares de pessoas em Bogotá, situando elementos intimidanteS à entrada e no interior de cada negócio.

Más na praça de Lourdes tudo está em venta. Em pequenos postos oferecem-se obreias com arequipe, abacates, cigarros por solto (com direito a fazer uso do isqueiro), cachorros-quentes (nas proximidades dum MacDonals), fruchetas (espetos de frutas banhadas em chocolate), etc.

Moços e moças alugam-te celulares a 150 pesos o minuto. Podes comprar os últimos êxitos do cinema (2012, a mais oferecida), ténis, óculos, artesanias, etc.

Nos dias que nos estivemos na praça, quadrou com uma feira do livro e diversas performances que propiciou que a minha filha Dália Sofia acudira ao seu primeiro concerto a ao seu primeiro conta contos.



Porém, o que mais me impressionou desta praça é que supõe um corte na Carrera 13. Cara ao sul, as tendas, a gente na rua, amostra-nos as quadras mais populares. As calçadas são incómodas, ocupadas por vendedores com os seus pequenos postos, milhares de pessoas a transitar, o cheirinho das modestíssimas lojas de comida. Cara ao norte, as vivendas melhoram. A cada passo descobres prédios históricos com formosas fachadas de tijolo, cujo aspecto é mesmo dublinense. A hostelaria vai melhorando, adentrando-te num mundo novo que te levará à chamada zona G, onde podes encontrar tudo quanto desejes, sempre que o possas pagar.

Para mim, esta Carrera 13 segmentada pela igreja de Lourdes é uma metáfora de Bogotá. Nesta Colómbia milionária em recursos, o 90% dos meninos e jovens pobres entre 9 e 17 anos trabalha. Resulta desolador ver grandes espaços reservados para uma minoria, uma Colómbia gourmet afastada da realidade da arepa e o tapal. Nos informativos escutas como cada dia morre gente pela violência organizada das FARC, ELN, Paramilitares, o narcotráfico que o envolve tudo. O estado de corrupção é generalizado e quando um observa a certos dirigentes tem de se perguntar como pode funcionar qualquer coisa.

No país da cor, dos sabores, da amabilidade, para mim é insuportável conviver com a carência da mais elementar justiça social. Como metáfora de todo isto, a Igreja de Lourdes estava tomada pelos cadetes da Policia colombiana. Ao perguntar o porquê de tanta presença armada no templo alguém diz que estavam à espera de uma nova vaga de desplazados (deslocados).

- Que são os desplazados? perguntei.

- São pessoas que vêm das montanhas, muitos indígenas, de onde foram expulsos pelas guerrilhas.

Por um momento fui ingénuo e achei que os polícias vieram para ajudar a acomodar às vítimas deste drama nacional. Não era assim, faziam guarda para impedir a sua entrada no refúgio. O que se diz verdadeira caridade cristã.

domingo, 22 de novembro de 2009

nº 74 A Geração pós-ponte.

Resulta muito agradável abrir o jornal, neste caso a edição digital de Galicia Hoxe, e ler uma entrevista a um criador arousão, o poeta Ramón Nieto Otero.
Ganhador da XXII edição do prémio nacional Xosé María Pérez Pallaré, é para mim uma autêntica novidadade, que vem de reafirmar o definitivo despertar cultural da Arousa.
Ramón pertence a uma geração de criadores pós-ponte que destacam em âmbitos quase inéditos na nossa ilha, fazendo que vivamos um momento histórico digno de ser estudado em detalhe.
Na poesia, antes que os de Ramón, publicaram-se os versos de Eugénio Outeiro, se bem até o de agora eu não consegui nenhum exemplar da sua obra editada. Antonio Millán continuou a que quiçá é a faceta artística mais desenvolvida pelos carcamães, a pintura, com o exemplo ilustre de Evaristo "O Mudo" ou Tito Oubiña. Na música, Iván Oubiña ou Miguel Allo, no periodismo Helena Domínguez, no cinema Marcos Nine. Da minha geração o aparelhador e bom amigo, Manuel Torres Búa, autor de A arquitectura en Galiza em NigraTrea.
Seguro que há muitos mais artistas da Arousa aos que agora não lembro e cuja importância reside em que a sua obra não tem apenas um valor local, senão que transcende para situar à nossa pequena vila no panorama cultural nacional.
Haveria que analisar a razão deste despertar. Eu acho que as causas são muitas e complexas. Só para a reflexão o seguinte:

1º Seria simplista pensar que foi a ponte a que propiciou isto. Estas pessoas das que venho de falar nasceram quase que todos nos setenta, aproveitaram as oportunidades que lhes deu a nossa continentalidade, mas também foram os descendentes duma geração prévia que pôs os alicerces para a renovação cultural.

2º Esta geração prévia foi a da transição que dotou de poder político aos vizinhos da Arousa, chegando a governar na totalidade do concelho de Vila Nova. Do seu pulo cultural nasceram instituições importantes como a Asociación Dorna ou a Universidade Popular, de quem sempre estaremos em dívida os membros do grupo Leixaprén.

3º Outro factor importante foi a solvência económica das famílias, muito limitadas na época em que a Arousa era um povo de marinheiros e trabalhadoras da fábrica. Com a aparição das bateias e outras achegas económicas tais como os capitais feitos na emigração, o turismo (desde a abertura da ponte) e incluso o negócio do contrabando ou narcotráfico, elevou muito o nível de vida dos arousães, o que favorece que o futuro das novas gerações possa não ser inevitavelmente o mar.

4º Outra das questões a ter em conta é a importância do vínculo permanente com a terra, é dizer, à Arousa, embora estejamos a falar de artistas muitos deles radicados no exterior, ou como no caso de Miguel Allo, filho, directamente, da emigração.

Seja como for, o certo é que contamos com uma grande colectânea de talentos que estão a espalhar o nome da Arousa lá por onde vão. Isto que soa a tópico é um bom resumo a esta postagem: eles são os melhores embaixadores do nosso povo. É por isto que a câmara municipal, as instituições dos ilhéus e os ilhéus mesmos deveriam sentir-se orgulhosos é o mesmo tempo comprometidos com o apoio e divulgação da obra destes artistas. De não ser assim, logo chegaram tempos escuros.

Por enquanto, continuo a aguardar pela publicação do poemário de Ramón Nieto Otero: que seja logo.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

nº 73 Desde Colómbia

Estou a escrever desde Bogotá. Teresa e mais eu viajamos a Colómbia na procura duma menina que teve a gentileza de adoptar-nos. Dália Sofia, uma pequena de sete meses e uns grandes olhos verdes, viu presentear-me a possibilidade de ser pai; que grande poder para um ser tão pequenino.

Não vou fazer um retrato em palavras da cativa porque se contara o bem que come, o bem que dorme, o muito que sorri e o gordechas que tem as pernas diriais que sou o típico pai-deita-baba. Quisera embora falar de alguém que até o de agora fiz mais méritos para sair nas crónicas: a minha mulher e mãe de Dália Sofia: Teresa.

Num princípio, aquilo de ter filhos era mais coisa dela que minha. O meu pessimismo schopenhaueriano negava-se a trazer a outro sofredor a este vale de lágrimas, no entanto ela sempre considerara que o fogar que tínhamos criado devia ser compartido. Teimou e eu fui claudicando até que em pouco tempo ser pai converteu-se no mais importante na minha vida.

No caminho fomos levando muitos paus, e não só por questões genéticas que dificilmente podíamos controlar, senão por uma comunidade médica galega pré-diluviana, opuscada na sua ilogicidade.

O meu carácter depressivo faz com que ao primeiro revês me venha abaixo, fique anulado como se levara a direita dum campeão dos pesados. Mas ela não. Se cai procura um cravo onde agarrar-se e se está ardendo, sopra-lhe até que arrefece. Por isso se sou pai o mérito é só dela.

No dia anterior a entrega teve uma enxaqueca e uma fotofobia que apenas podia abrir os olhos. No mesmo intre de ver por primeira vez a cativa levava no corpo tal overdose de paracetamol que ainda não acredito em como não teve um shock hepático. De brincadeira, à equipa que nos entregou a Dália, disse-lhe que desta volta o que tivera as dores de parto fora eu, e em verdade que assim foi. Afortunadamente não vomitei ou cai desmaiado sobre a mesa de juntas onde nos citaram.

Hoje, que passaram só um par de dias que temos a meninha, atesouro milhares de fotogramas na minha cabeça, os sorrisos de Dália cada vez que lhe dou um bico, as carícias que me faz quando a tenho no colo, como baila nos meus braços quando lhe canto alguma coisa. Mas quando estou na cama, justo antes de ficar dormido, no último que penso e nos olhos de Teresa quando viu por vez primeira à nossa filha. Só por ver essa luz, querido Schopenhauer, pagou a pena ter vivido.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

nº 72 A Câmara de Ugia VI


Um sol pôr na Arousa é tão lindo

como o colo despido dum homem,

ansioso a ver

-quando passe a noite-

o primeiro sorriso dum filho.
Fotos: Ugia Pedreira ©; Texto: Orjais ©

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

nº 71 O'Neixón, historia viva dun castro.

O próximo dia 16 de outubro, sexta feira, às 20:00 horas, teremos a oportunidade de ver no meu cole, o C.E.P. Xosé María Brea Segade de Taragonha, o documentário O'Neixón, historia viva dun castro. Além de desfrutar do filme teremos a oportunidade de conversar com dois dos seus autores, o director Lukas Santiago e o guionista Xurxo Ayán, arqueólogo do CSIC.


Já falarei do filme pelo miudo, mas recomendo que nos visiteis e vejais este formoso filme onde se amostra não só uns monumentos ou uns restos arqueológicos, senão o património humano e paisagístico dum lugar, Cespão, por outro lado tão igual a qualquer outra das nossas aldeias marinheiras. Especialmente recomendado não apenas a afeiçoados a arqueologia, senão também à antropologia cultural das gentes do mar.

domingo, 4 de outubro de 2009

nº 70 Morreu a Negra Sosa.

Na minha casa tínhamos um pick up branco, daqueles nos que o altifalante ia instalado na própria tampa. Nesse primitivo aparelho escutei desde os meus primeiros anos de vida alguma das melhores vozes da história da música popular. Jorge Cafrune, o grande Gardel, o Zeca Afonso, duos como os de Olga Manzano e Manuel Picón, os Gambino, grupos como Quilapayun ou Inti Illimani, mas sobre tudo as grandes damas da canção: Libertad Lamarque, Chabuca Granda, Soledad Bravo, Nacha Guevara...

Aqueles discos que comprava o meu cunhado Luís no Vazquez Lescaille de Vila Garcia, foram-me formando como pessoa e como músico, pois estavam compostos tanto desde a sensibilidade como dum espírito revolucionário e solidário, infelizmente em extinção na obra dos novos cantores.
Entre aquele feixe de boas vozes, quiçá a mais racial e comprometida com o folclore era a de Mercedes Sosa, a Negra Sosa, da que hoje nos inteiramos do seu passamento.

Alguma das suas canções mais populares, como Canción con todos ou Duerme, duerme negrito, foram das primeiras peças que meu irmão e mais eu apreendemos a tocar na viola. Outras, como Alfonsina y el mar, converteram-se em ícones no meu imaginário espiritual, sendo uma dessas cantigas que jamais poderei escutar com indiferença.

Faz alguns anos pude ver a Mercedes Sosa em Compostela, num cartaz que incluía à Bravo e o Silvio Rodríguez. A cantora Argentina estava em plena forma, ou quiçá só aparentava, e posso assegurar que quase em nenhuma das cantigas que interpretou, a Negra cantou sozinha.

O mais triste de que morra uma pessoa como Mercedes Sosa não é apenas que desapareça uma grande cantora, senão que com ela se apaga um dos escassos porta-vozes com que contava o povo. Muitas saudades, companheira.

www.mercedessosa.com.ar/