sexta-feira, 20 de novembro de 2009

nº 73 Desde Colómbia

Estou a escrever desde Bogotá. Teresa e mais eu viajamos a Colómbia na procura duma menina que teve a gentileza de adoptar-nos. Dália Sofia, uma pequena de sete meses e uns grandes olhos verdes, viu presentear-me a possibilidade de ser pai; que grande poder para um ser tão pequenino.

Não vou fazer um retrato em palavras da cativa porque se contara o bem que come, o bem que dorme, o muito que sorri e o gordechas que tem as pernas diriais que sou o típico pai-deita-baba. Quisera embora falar de alguém que até o de agora fiz mais méritos para sair nas crónicas: a minha mulher e mãe de Dália Sofia: Teresa.

Num princípio, aquilo de ter filhos era mais coisa dela que minha. O meu pessimismo schopenhaueriano negava-se a trazer a outro sofredor a este vale de lágrimas, no entanto ela sempre considerara que o fogar que tínhamos criado devia ser compartido. Teimou e eu fui claudicando até que em pouco tempo ser pai converteu-se no mais importante na minha vida.

No caminho fomos levando muitos paus, e não só por questões genéticas que dificilmente podíamos controlar, senão por uma comunidade médica galega pré-diluviana, opuscada na sua ilogicidade.

O meu carácter depressivo faz com que ao primeiro revês me venha abaixo, fique anulado como se levara a direita dum campeão dos pesados. Mas ela não. Se cai procura um cravo onde agarrar-se e se está ardendo, sopra-lhe até que arrefece. Por isso se sou pai o mérito é só dela.

No dia anterior a entrega teve uma enxaqueca e uma fotofobia que apenas podia abrir os olhos. No mesmo intre de ver por primeira vez a cativa levava no corpo tal overdose de paracetamol que ainda não acredito em como não teve um shock hepático. De brincadeira, à equipa que nos entregou a Dália, disse-lhe que desta volta o que tivera as dores de parto fora eu, e em verdade que assim foi. Afortunadamente não vomitei ou cai desmaiado sobre a mesa de juntas onde nos citaram.

Hoje, que passaram só um par de dias que temos a meninha, atesouro milhares de fotogramas na minha cabeça, os sorrisos de Dália cada vez que lhe dou um bico, as carícias que me faz quando a tenho no colo, como baila nos meus braços quando lhe canto alguma coisa. Mas quando estou na cama, justo antes de ficar dormido, no último que penso e nos olhos de Teresa quando viu por vez primeira à nossa filha. Só por ver essa luz, querido Schopenhauer, pagou a pena ter vivido.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

nº 72 A Câmara de Ugia VI


Um sol pôr na Arousa é tão lindo

como o colo despido dum homem,

ansioso a ver

-quando passe a noite-

o primeiro sorriso dum filho.
Fotos: Ugia Pedreira ©; Texto: Orjais ©

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

nº 71 O'Neixón, historia viva dun castro.

O próximo dia 16 de outubro, sexta feira, às 20:00 horas, teremos a oportunidade de ver no meu cole, o C.E.P. Xosé María Brea Segade de Taragonha, o documentário O'Neixón, historia viva dun castro. Além de desfrutar do filme teremos a oportunidade de conversar com dois dos seus autores, o director Lukas Santiago e o guionista Xurxo Ayán, arqueólogo do CSIC.


Já falarei do filme pelo miudo, mas recomendo que nos visiteis e vejais este formoso filme onde se amostra não só uns monumentos ou uns restos arqueológicos, senão o património humano e paisagístico dum lugar, Cespão, por outro lado tão igual a qualquer outra das nossas aldeias marinheiras. Especialmente recomendado não apenas a afeiçoados a arqueologia, senão também à antropologia cultural das gentes do mar.

domingo, 4 de outubro de 2009

nº 70 Morreu a Negra Sosa.

Na minha casa tínhamos um pick up branco, daqueles nos que o altifalante ia instalado na própria tampa. Nesse primitivo aparelho escutei desde os meus primeiros anos de vida alguma das melhores vozes da história da música popular. Jorge Cafrune, o grande Gardel, o Zeca Afonso, duos como os de Olga Manzano e Manuel Picón, os Gambino, grupos como Quilapayun ou Inti Illimani, mas sobre tudo as grandes damas da canção: Libertad Lamarque, Chabuca Granda, Soledad Bravo, Nacha Guevara...

Aqueles discos que comprava o meu cunhado Luís no Vazquez Lescaille de Vila Garcia, foram-me formando como pessoa e como músico, pois estavam compostos tanto desde a sensibilidade como dum espírito revolucionário e solidário, infelizmente em extinção na obra dos novos cantores.
Entre aquele feixe de boas vozes, quiçá a mais racial e comprometida com o folclore era a de Mercedes Sosa, a Negra Sosa, da que hoje nos inteiramos do seu passamento.

Alguma das suas canções mais populares, como Canción con todos ou Duerme, duerme negrito, foram das primeiras peças que meu irmão e mais eu apreendemos a tocar na viola. Outras, como Alfonsina y el mar, converteram-se em ícones no meu imaginário espiritual, sendo uma dessas cantigas que jamais poderei escutar com indiferença.

Faz alguns anos pude ver a Mercedes Sosa em Compostela, num cartaz que incluía à Bravo e o Silvio Rodríguez. A cantora Argentina estava em plena forma, ou quiçá só aparentava, e posso assegurar que quase em nenhuma das cantigas que interpretou, a Negra cantou sozinha.

O mais triste de que morra uma pessoa como Mercedes Sosa não é apenas que desapareça uma grande cantora, senão que com ela se apaga um dos escassos porta-vozes com que contava o povo. Muitas saudades, companheira.

www.mercedessosa.com.ar/

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

nº 69 Incêndio numa cordoaria de Boiro.

Ao passar por diante da janela do meu andar, vi que havia uma espetacular coluna de fumo preto. Achei que podia ser no cais de Rianjo, quiçá um barco, mas na rádio escutei que se tratava duma cordoaria em Boiro, sem dizer qual. Pela situação quiçá seja a de Chicolino.

Baixei até o cais e tirei esta foto, que não faz justiça à espectacularidade do incêndio nem a sensação de pânico que produz ver uma coisa assim.

Orjais ©

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

nº 68 Os cruzeiros de capela de Brião, Rianjo.

Num dos meus habituais passeios em bicicleta por Rianjo adiante, fui dar à aldeia de Brião, um lugar que ainda guarda a beleza rural e aristocrática da Galiza antiga. Lá é possível ver quintas com eiras alousadas como preparadas para a malha, um formoso pombal de tecto um bocado exótico, o paço dos Torrado e, por fim, a Capela dos Desamparados, com um escudo na sua fachada sujeito por uma sereia hoje decapitada.

Neste espaço tão particular há também dois cruzeiros de capela conhecidos como o da Aldeia e o da Fonte. Quando os vi por primeira vez, faz já muitos anos, olhei para eles com admiração pela sua formosura, por certas características que surpreendem, como a imagem que coroa o da Aldeia, mas passou-se-me pôr atenção ao seu embasamento, quiçá o elemento mais singular de ambos cruzeiros.

A questão é que os degraus de ditos embasamento estão cheios de covinhas, como as que se podem apreciar em muitos petróglifos, tal que se as pedras foram extraídas duma rocha que continha este tipo de restos arqueológicos. Como sou lego nestas questões, procurei literatura científica mas não achei nada, pelo que se algum leitor de esta postagem sabe qualquer coisa, agradeço desde já comparta comigo a informação.

Existe no Concelho de Rianjo um inventário de cruzeiros que ainda não teve a oportunidade de consultar, mas que aguardo pode-lo fazer em breve. Quem sim o utilizou para a realização de um estudo monográfico sobre os cruzeiros de Capela do Rianjo foi Clodio González Pérez para os Cuadernos de Estudios Gallegos. Neste artigo dividido em duas partes, os exemplares de Brião, como é óbvio, aparecem referenciados, mas sem nenhuma alusão a estas covinhas.
Vejamos, pois, que é o que si conta González Pérez no seu artigo.
  • Cruceiro da Aldeia.
Do embasamento diz que: “de planta cuadrangular, consta de tres chanzos, afincándose no medio do superior o fuste[...]”
Uma das características principais é a de estar sem a capela, afirmando que “a parte superior derrubouse hai moitos anos e non a volveron restaurar.” Noutro parágrafo do artigo continua: “non sabemos cando se derrubou, pero dende aquela ninguén se preocupou de recuperalo, de repoñerlle as pezas rotas ou perdidas.”

Sobre a imagem que hoje coroa a coluna diz que “últimamente puxéronlle enriba unha rústica imaxe, que coidamos representa a Virxe coas mans dereitas sobre o peito.”

[Com posterioridade a redação deste artigo apareceu em Fotos de Rianjo detalhes sobre este cruzeiro que podem aclarar alguns termos.]

Com respeito a quando foi posta a figurinha nesse lugar, não tenho nem ideia. Perguntei a alguma gente que não me soube dizer, mas tenho a esperança de que algum vizinho ponha data a esse ultimamente. Contudo, se bem não sei se será possível saber quando se colocou a imagem, o porquê se colocou e a quem representa, surpreende que si podamos saber quando foi feita. Nas costas do, para mim, frade, há uma data gravada, da que também não dá conta o senhor González Pérez. Infelizmente, a minha câmara é de faltriqueira, sem zoom ou qualquer outro aparelho que me permita fazer fotografias de maior qualidade, mas com uma esqueira e um bocadinho de tecnologia acho que seria possível ler perfeitamente os números gravados. A vista de olhos eu acho que põe 188... mas não posso afirma-lo com certeza.















  • Cruzeiro da fonte.

Concordo com González Pérez em que ambos os dois cruzeiros de Brião têm uma feitura quase que idêntica. De facto, de vermos o da Fonte, podemos saber como seria o da Aldeia de estar rematado.

Na fotografia que acompanha ao seu artigo, comprovamos como no interior da Capela há duas figuras, uma Virgem e outra, quiçá um frade. Na actualidade só está a da Virgem e por trás dela uma moreia de cascalhos, assim que me temo o pior.

No embasamento há novamente uma cheia de covinhas e numa das pedras, uma cruz gravada. Noutro trabalho de Clodio González Pérez que recomendo vivamente, Os Cruceiros, Cuadernos Museo do Pobo Galego nº 12, o autor fala-nos dum outro exemplar situado no lugar de O Sisto, Vila Garcia de Arousa. Refere-se a ele quando fala dos cruzeiros como cemitérios dos não baptizados: “Destes enterramentos actualmente o único que queda son cruciñas, letras iniciais (os mais modernos), e outros signos que grababan nos chanzos ou no pedestal os familiares (por exemplo, no do Sisto).”
No desenho que mostra deste cruzeiro arousão, vemos cruzes e também alguma covinha, concretamente um agrupamento de três e uma que fica solta. Poderiam ser as covinhas marcas feitas por familiares dos defuntinhos? (Meu Deus, estarei-me a converter num autor impressionista, e dizer, dá-me a impressão que...)
O certo é que muito perto de Brião está o chamado Cruzeiro dos Meninhos, da Veiga no artigo de González Pérez, em clara alusão aos soterramentos.











Enfim, não há muito mais a dizer. Acho que seria interessante que os profesionais na matéria deitaram luz no referente às covinhas dos cruzeiros e responderam se se trata de monumentos pré-históricos reutilizados, marcas contemporâneas dos cruzeiros, a excentricidade dalgum canteiro ou qualquer outra coisa perfeitamente razoada e historicamente demonstrável. Eu, fico a espera.

P.D.: Só por ilustrar mais uma vez o elevado bom gosto dos brionense, olhai esta escultura cimeira dum espigueiro. Um gato com seis patas?


sábado, 19 de setembro de 2009

nº 67 [de]construçom de Susana Sánchez Aríns

Faz um par de semanas peguei na bicicleta para dar um passeio pelos montes próximos ao Lioira. Estou a procura dumas rochas das que me falou um velho amigo que de moço andou o mato tudo à procura de pastos para as vacas. Dera só umas poucas pedaladas quando uma montra chamou a minha atenção, o que me fez descer da bicicleta e entrar na loja por ver se no seu interior haveria algo do meu interesse.

Naquela livraria só encontrei fome de livros. As prateleiras estavam nos ossos e mais que nenhuma, aquela que alojava a secção de poesia. Todos os volumes, quer dizer, os quatro ou cinco que lá estavam, eram da editora Espiral Maior. Peguei neles; fui dando-lhes uma ligeira vista de olhos até que na solapa dum daqueles espécimes em risco de extinção pude ler: "Susana Sánchez Arins (Vila Garcia de Arousa, 1974), licenciou-se nas filologias Hispânicas e Portuguesa na USC e na actualidade é professora de Ensino Secundário na Ilha de Arousa."
Sempre que entro numa livraria compro um livro. Às vezes tardo em escolher, pois nestas lojas pouco fornecidas não sempre é doado encontrar algo bom. Neste caso chegou com ler o de que a professora leccionava na Ilha de Arousa.

(Abro uma parêntese para dizer que a moça que atendia detrás da banca era ela mesma um formoso poema. Tinha uma beleza exótica, pouco comum nestas terras célticas de Rianjo, pelo que me permito compara-la a um verso caucano de Avilés de Taramancos.)

Meti o livro na mochila e fui caminho das alturas, numa cima desde a que podia ver a Mãe Ria com a Arousa acomodada no seu útero. Lá, sozinho, li os primeiros versos, as primeiras páginas dum poemário cujo título [de]construçom evocou-me subitamente a filosofia críptica de Derridá ou a culinária de Ferrá Adriá. Acho que a poeta Susana Sánchez tem algo de ambos os dois alquimistas.

Precisamente, a filosofia deconstructivista de Derridá proclama que não existe uma única leitura dum texto literário e que qualquer de estas leituras jamais logrará abranger o texto na sua totalidade. Portanto, não vou entrar numa análise em profundidade do livro de Susana, só direi que gostei imenso porquanto acho que se trata duma obra sincera e metodicamente alicerçada.

As vivendas, também como as pessoas, podem ser deconstruídas. Antigamente, não sei se agora se segue a fazer, os mestres canteiros numeravam as pedras para desmontar uma vivenda ou parte dela, para assim saber como encaixar novamente o quebra-cabeças. Eu tenho visto, acho que todos temos visto, alguma edificação cheia de números pintados nos perpianhos. Com este sistema tão primitivo foi possível desmontar claustros de mosteiros, como o de Toxos Outos, hoje num centro escolar privado de Noia ou a monumental igreja de S. João de Porto Marim.

As pessoas somos deconstruídas de dentro para fora, vão-nos sacando a alma pela boca, como se estivéramos ante um malvado demo gótico ou o coração, para ser dissecado e embalado num vaso canopo qualquer. A minha alma e o meu coração voaram faz tempo, mas recebi outra alma e outro coração ganhando, isso sim, com o intercâmbio.

Diz a poeta neo-carcamã que quando o mundo sobra/ os lençóis são útero. Posso perceber a solidão duma cama esvaziada como com uma trincha a lastimar a cerna dura. Posso perceber a sua angústia a lançar um grito desesperado como este: e já serás só química do adeus. Posso ser vulnerável mas nunca experimentei o des-amor, pois só amei a quem me ama, e esse nosso amor é eterno. Por isso, volvamos a Derridá, o verso é sempre polisémico, porque no poema que lemos, intuímos apenas aquilo que nos tocou viver.

E como mostra, esta Oferenda da Susana Sánchez, uma pérola de sensibilidade deconstruída:

Oferenda

e nas ruínas da minha intimidade
cinzenta e derrubada
estúpidamente continuo
a edificar palavras

que acolham na cova das maos

esse espaço

tam branco e tam calmo

que te quero destinado.


SÁNCHEZ ARÍNS, Susana (2009) [de]construçom [Espiral Maior; A Corunha] p. 66
XXI prémio nacional de poesia Xosé María Pérez Parallé.