sábado, 19 de setembro de 2009

nº 66 Fernando Lopes Graça


Os adeptos à minha religião temos muito poucos santos a quem rezar. Eu peço a meu pai, santo patrão, que me transmita a sua habilidade para demonstrar tanto amor incondicional à sua família; a Castelao, meu modelo de patriota e artista e a Fernando Lopes-Graça, para que me ilumine com o seu dom de músico e pedagogo.

Este verão pude ver uns quantos documentários que recomendo fervorosamente sobre Castelao e Lopes-Graça, os meus santarrões.


Lopes-Graça, um documentário de Graça-Castanheira.

Graça Castanheira é o autor duma fita que foi passada pela RTP 2 e cujos protagonistas principais são amigos e parentes do autor de Marchas, Danças e Canções e do mítico A Canção Popular Portuguesa. Dele possuo uma dezena de livros com os seus artigos sobre música académica, folclore, biografias de músicos famosos que são a obra dum Lopes-Graça músico, português e comunista, quiçá por esta ordem.
Para os não iniciados nesta personagem cimeira da cultura portuguesa, o filme faz um esboço muito interessante da sua biografia, porquanto junto com pequenos trechos das suas obras, escutamos falar a gente que o tratou tanto como músicos ao seu serviço, como no âmbito doméstico. O guião está cheio de afectos, de cumplicidades, de comentários a jeito de confidência, etc.
Eu gosto imenso do mestre de Tomar, como compositor para grande orquestra ou para pequenos, às vezes pouco habituais, grupos instrumentais. Mas destacaria o seu labor como arranjador de melodias tradicionais para massa coral, na interpretação dos Coro da Academia de Amadores de Música ou para piano, nas mãos lisboetas de Olga Prats.

No transcurso do documentário teve a vontade de desenhar um rascunho sobre o velho mestre, feito com tudo o respeito de quem o admira devotamente.

Castelao e os irmáns da liberdade, de Xan Leira.

Esta é uma fita obrigada para quantos amamos este país. Editada no ano 2000 é a primeira das produções do multifacético documentalista argentino Xan Leira (Bos Aires; 1955), cuja obra fílmica presenta a dia de hoje os seguintes títulos:

- Castelao e os irmáns da liberdade. 2000
- Memorias dun neno labrego. 2002
- Alexandre Bóveda, unha crónica da Galiza martir. 2004
- Viceversa. 2005
- Crónica de pizarra e xiz. 2006
- Atila en Galicia. 2006
- Exilios: Lorenzo Varela. 2006
- Patagonia, utopia libertaria. 2006
- Historias de vida. 2006
- Lembranzas e reflexións de Isaac Díaz Pardo. 2007
- Crónicas da represión lingüística. 2008
- Galegos en Lisboa, a historia xamais contada. 2009

O filme tem muitos atractivos como são escutar a Teresa Castelao falar do seu irmão, a intelectuais galeguistas como Illa Couto, Pousa Antelo ou Granell e um bom feixe de imagens históricas da Galiza. Eu fiquei muito impressionado ao ver as imagens em movimento de Castelao ou a sua voz falando em castelhano para a colectividade uruguaia.

Documentários como os de Graça Castanheira e Xan Leira oferecem-nos uma biografia visual de grandes personagens da nossa história, num formato atractivo não só para os adeptos senão para ser usados com fins pedagógicos e propagandísticos. Além das afinidades ideológicas com Castelao ou Lopes-Graça, a sua obra artística e literária é tão absolutamente universal que é imprescindível continuar a brigar pela sua difusão e conhecimento. Assim seja.

sábado, 12 de setembro de 2009

nº 65 Formosa fotografia de El Correo Gallego

Hoje, em quanto comia num turco de Compostela, surpreendi-me ao ver esta fotografia na secção Hace 25 años de El Correo Gallego.

Impressionaram-me duas coisas: que já passaram 25 anos e que a ponte começara a ser feita pelo Leste. Eu tinha a impressão de que arrancara pelas duas beiras para encontrar-se no centro. Acho que é um recordo muito pueril, já que como se vê na foto, padecemos uma invasão em toda regra.

Eu tinha quinze anos, acabava de morrer meu pai e por uma ou por outras, tenho a impressão de que na altura, fiz-me adulto de vez. Em fim...



Para ver o artigo de El Correo Gallego premer aqui.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

nº 64 Novo artigo em etno-folk.

Acaba de sair publicada na Revista Etno-folk nº 13 um artigo de Isabel Rei e mais meu, com fotografias da minha mulher Tero Rodríguez. É o titulado «Música de la misa» de S. Miguel de Sarandão.
Esta missa forma parte do espólio do arquivo de Marcial Valladares e foi resgatado dos maços de documentos musicais com os que conta tal arquivo. Publicado hoje, supõe um formoso adianto à publicação em breve, já está em talheres, do aguardado Ayes de mi país, manuscrito datado em 1865 e que contém um pequeno mais importantíssimo tesoiro de temas tradicionais harmonizados para piano pelo próprio Marcial Valladares.
Vaia, pois, este artículo como adianto dos Ayes.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

nº 63 A Câmara de Ugia V

Título das fotografias: Curiosidades dos Ilheus.

Sou diferente
porque aprendi a caminhar
sobre a tona do mar e
no sangue tenho salitre em vez de colesterol.

Sou diferente
porque me iniciei com um cubata de lírios e
sementei de camisinhas o campo da Bouça.


Sou diferente
porque sou amoriscadora, é dizer,
mariscadora de amores.

Sou diferente
porque aprecio o arrecendo do abalo da maré e
o do sexo quase consumado.

E tu também és diferente,
porque possuis a sensibilidade
dum acorde de Satie.

Abençoada sejas.

Fotos: Ugia Pedreira ©; Texto: Orjais ©

terça-feira, 18 de agosto de 2009

nº 62 Arosa Folk 76. I

Arousa Folk 76, o Woodstock à moda da casa.
Faz quarenta anos que o homem pisou por primeira vez a lua. Sei-no como todo o mundo, porque os meios de comunicação não deixaram de falar do assunto, e sei-no porque eu também tenho quarenta anos. Ser do 69 tem o seu aquele. Alem do erotismo do algoritmo, fica bem ter nascido em fins da década prodigiosa, quando Ono e Lenon andavam acamados in-bed e a malta se manifestava contra a guerra do Vietname. Os glosadores de efemérides andam agora com o do festival de Woodstock, a festada hippie celebrada em Agosto de 1969. Quiçá motivado pelo impulso mediático, visionei novamente a película que Michael Wadleigh dirigira sobre o evento, só um ano após da sua celebração. Ao ver as imagens lembrei um festival no que esteve presente quando criança: o Arousa Folk 76, o nosso pequeno Woodstock.
  • Organização do evento.
Em 1976 estavam a mudar muitas coisas. A morte do ditador Franco vai provocar um câmbio de regime que terá o seu ato final na aprovação da constituição do 1978. Mas durante um tempo os organismos e as instituições do estado seguiram a ser as mesmas, algumas tentando desesperadamente ter acomodo no novo estatus quo. Isto foi o que aconteceu com a OJE que viu minguar os seus privilégios, passando de ser um organismo do Estado a uma associação pública, trás a desaparição da Delegación Nacional de la Juventud (conhecido como Frente de Juventudes).

Arousa Folk 76, foi a última oportunidade que os dirigentes da Delegación Nacional e da OJE tinham para demonstrar a sua capacidade de organização e o seu renovado espírito democrático e conciliador. Pelo festival que se celebraria na Ilha de Arousa passariam jovens artistas de todo o território do Estado Espanhol, cantores, músicos tradicionais e folques que usariam a sua própria língua, incluindo textos sociais, políticos ou de poetas silenciados. Mas, contudo, a Delegación Nacional de la Juventud, por boca do seu delegado provincial deixará as cousas claras:


«Frente a los que pretenden monopolizar las actitudes juveniles, la Delegación Nacional de la Juventud, en esta ocasión, lo único que desea es cumplir la misión de servicio que le encomienda el estado.»


O projecto no que se inscrevia esta actividade, junto com outras como os encontros internacionais GAMA-76 que foram visitados pela Rainha Sofia e os seus filhos, tinham o nome um tanto ostentoso de Operación Arco-Iris. Na equipa que vai organizar o festival decide-se que o director artístico seja Julián Granados. Este músico granadino era um autor de muito sucesso nos 70 com o seu tema “Lupita”, número um na lista de ventas. Posto em contacto com ele confessou-me ter umas boas lembranças daquele festival e numerosos documentos no seu arquivo pessoal.

Se em Woodstock o lema era Uma Exposição Aquariana: 3 Dias de Paz & Música, em Arousa folk reduzia-se a um significativo Libertad y armonía. Por ter até tinha um hino composto pela santanderina Maruca com estrofes em castelhano e estribilho em inglês, não fora que houvera visitantes estrangeiros. O título também tinha versão cañi e anglófona: Arosa Folk 76 e Arosa Island.

Para seleccionar aos participantes houve prévias por todo o Estado. Foi para isto muito importante a colaboração de Radio Cadena Española e a Cadena de Emisoras Sindicais (CES) dependentes da Secretaría General del Movimiento.
  • Aquele mágico setembro.
Os músicos participantes foram recolhidos por autocarros por rotas que percorriam toda a geografia do Reino:

«Nos dieron una bandera de la ciudad, con el escudo para ponerla allí y en un autobús que arrancaba desde Valencia y venía recogiendo a gente hasta allí hicimos el viaje, que entonces era eterno y penoso.» José Luis Gómez (Grupo Tahona)

A lista de participantes foi mesmo impresionante:




O lugar escolhido para os concertos era em Testos, num pinhal frente ao campo de futebol Salvador Otero.



Eu lembro vagamente de ir com os meus irmãos e ver algum de aqueles concertos sobre um cenário que aos meus olhos de criança e suponho que aos de qualquer espectador do ano 76, resultava muito mais grandioso do que agora se aprecia nas fotografias. O alojamento dos artistas consistiu em barracas de lona instaladas no interior do campo de futebol:

«Como sabrás el lugar de celebración era en un pinar en cuesta junto a la playa y el campo de futbol y abajo de la cuesta donde se sentaba en el suelo el público, estaba el escenario. La mayoría de los grupos actuábamos borrachos a diario pues la juerga fué de órdago ya desde el primer día pasamos de la organización de la OJE y de la SECCION FEMENINA y lógicamente dormíamos tios y tias juntos, el chico del puesto de helados nos traía "de estranjis" ginebra para mezclar con cola, había canutos a tutiplén y recuerdo el coñazo del helicoptero desde primera hora de la mañana pues aterrizaba en el mismo campamento para traer al personal del servicio, evacuar a enfermos, periodistas, la TV ...etc.» José Luis Gómez (Grupo Tahona)

O menú consistiu, segundo nos conta José Luis Gómez, em polvo com batatas no almoço e omeleta e sopa para a ceia. E assim os quatro dias...



No filme de Michael Wadleigh também se vê um helicóptero a aterrar entre os assistentes ao festival. Num desses artefactos desce Janis Joplin.

  • Final.
Esta postagem só é uma posta em conhecimento de algum dos dados recolhidos por mim até o momento, mas a pescuda só acaba de começar. A pouco que procuramos informação daquele festival aparece ante nós como um fato histórico no que à descomposição da rede social franquista se refere.

Uma curiosidade: ao ano seguinte, tentou-se fazer um segundo Arousa folk. Nalgumas comunidades já tinham feita a prévia quando receberam a nova de que o festival fora suspendido. A razão oficial era que havia outras prioridades, mas o certo é que o 1977 foi o ano do fim oficial da Delegación Nacional de la Juventud ou o que é o mesmo, o Frente de Juventudes.



O meu agradecimento a Javier do grupo Orégano por emprestar-me o seu arquivo fotográfico e a José Luis Gómez do grupo Tahona, pelos seus comentários inteligentes.
Fotografias: Arquivo Grupo Oregano.

sábado, 8 de agosto de 2009

nº 61 A Câmara de Ugia IV

Título das fotografías : Lixo na beira direita da Praia de Gradim (Ilha de Arousa).






















Rendimento ou provérbio carcamão: Que o lixo da direita não te impeça ver o formoso país no que vivemos.

Fotos: Ugia Pedreira ©; Texto: Orjais ©

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

nº 60 Um novo artigo em O Patifúndio.

Venho de publicar no portal brasileiro O Patifúndio um artigo sobre a recente criação da Academia Galega da Língua Portuguesa. Podem ler aqui.