terça-feira, 8 de setembro de 2009

nº 63 A Câmara de Ugia V

Título das fotografias: Curiosidades dos Ilheus.

Sou diferente
porque aprendi a caminhar
sobre a tona do mar e
no sangue tenho salitre em vez de colesterol.

Sou diferente
porque me iniciei com um cubata de lírios e
sementei de camisinhas o campo da Bouça.


Sou diferente
porque sou amoriscadora, é dizer,
mariscadora de amores.

Sou diferente
porque aprecio o arrecendo do abalo da maré e
o do sexo quase consumado.

E tu também és diferente,
porque possuis a sensibilidade
dum acorde de Satie.

Abençoada sejas.

Fotos: Ugia Pedreira ©; Texto: Orjais ©

terça-feira, 18 de agosto de 2009

nº 62 Arosa Folk 76. I

Arousa Folk 76, o Woodstock à moda da casa.
Faz quarenta anos que o homem pisou por primeira vez a lua. Sei-no como todo o mundo, porque os meios de comunicação não deixaram de falar do assunto, e sei-no porque eu também tenho quarenta anos. Ser do 69 tem o seu aquele. Alem do erotismo do algoritmo, fica bem ter nascido em fins da década prodigiosa, quando Ono e Lenon andavam acamados in-bed e a malta se manifestava contra a guerra do Vietname. Os glosadores de efemérides andam agora com o do festival de Woodstock, a festada hippie celebrada em Agosto de 1969. Quiçá motivado pelo impulso mediático, visionei novamente a película que Michael Wadleigh dirigira sobre o evento, só um ano após da sua celebração. Ao ver as imagens lembrei um festival no que esteve presente quando criança: o Arousa Folk 76, o nosso pequeno Woodstock.
  • Organização do evento.
Em 1976 estavam a mudar muitas coisas. A morte do ditador Franco vai provocar um câmbio de regime que terá o seu ato final na aprovação da constituição do 1978. Mas durante um tempo os organismos e as instituições do estado seguiram a ser as mesmas, algumas tentando desesperadamente ter acomodo no novo estatus quo. Isto foi o que aconteceu com a OJE que viu minguar os seus privilégios, passando de ser um organismo do Estado a uma associação pública, trás a desaparição da Delegación Nacional de la Juventud (conhecido como Frente de Juventudes).

Arousa Folk 76, foi a última oportunidade que os dirigentes da Delegación Nacional e da OJE tinham para demonstrar a sua capacidade de organização e o seu renovado espírito democrático e conciliador. Pelo festival que se celebraria na Ilha de Arousa passariam jovens artistas de todo o território do Estado Espanhol, cantores, músicos tradicionais e folques que usariam a sua própria língua, incluindo textos sociais, políticos ou de poetas silenciados. Mas, contudo, a Delegación Nacional de la Juventud, por boca do seu delegado provincial deixará as cousas claras:


«Frente a los que pretenden monopolizar las actitudes juveniles, la Delegación Nacional de la Juventud, en esta ocasión, lo único que desea es cumplir la misión de servicio que le encomienda el estado.»


O projecto no que se inscrevia esta actividade, junto com outras como os encontros internacionais GAMA-76 que foram visitados pela Rainha Sofia e os seus filhos, tinham o nome um tanto ostentoso de Operación Arco-Iris. Na equipa que vai organizar o festival decide-se que o director artístico seja Julián Granados. Este músico granadino era um autor de muito sucesso nos 70 com o seu tema “Lupita”, número um na lista de ventas. Posto em contacto com ele confessou-me ter umas boas lembranças daquele festival e numerosos documentos no seu arquivo pessoal.

Se em Woodstock o lema era Uma Exposição Aquariana: 3 Dias de Paz & Música, em Arousa folk reduzia-se a um significativo Libertad y armonía. Por ter até tinha um hino composto pela santanderina Maruca com estrofes em castelhano e estribilho em inglês, não fora que houvera visitantes estrangeiros. O título também tinha versão cañi e anglófona: Arosa Folk 76 e Arosa Island.

Para seleccionar aos participantes houve prévias por todo o Estado. Foi para isto muito importante a colaboração de Radio Cadena Española e a Cadena de Emisoras Sindicais (CES) dependentes da Secretaría General del Movimiento.
  • Aquele mágico setembro.
Os músicos participantes foram recolhidos por autocarros por rotas que percorriam toda a geografia do Reino:

«Nos dieron una bandera de la ciudad, con el escudo para ponerla allí y en un autobús que arrancaba desde Valencia y venía recogiendo a gente hasta allí hicimos el viaje, que entonces era eterno y penoso.» José Luis Gómez (Grupo Tahona)

A lista de participantes foi mesmo impresionante:




O lugar escolhido para os concertos era em Testos, num pinhal frente ao campo de futebol Salvador Otero.



Eu lembro vagamente de ir com os meus irmãos e ver algum de aqueles concertos sobre um cenário que aos meus olhos de criança e suponho que aos de qualquer espectador do ano 76, resultava muito mais grandioso do que agora se aprecia nas fotografias. O alojamento dos artistas consistiu em barracas de lona instaladas no interior do campo de futebol:

«Como sabrás el lugar de celebración era en un pinar en cuesta junto a la playa y el campo de futbol y abajo de la cuesta donde se sentaba en el suelo el público, estaba el escenario. La mayoría de los grupos actuábamos borrachos a diario pues la juerga fué de órdago ya desde el primer día pasamos de la organización de la OJE y de la SECCION FEMENINA y lógicamente dormíamos tios y tias juntos, el chico del puesto de helados nos traía "de estranjis" ginebra para mezclar con cola, había canutos a tutiplén y recuerdo el coñazo del helicoptero desde primera hora de la mañana pues aterrizaba en el mismo campamento para traer al personal del servicio, evacuar a enfermos, periodistas, la TV ...etc.» José Luis Gómez (Grupo Tahona)

O menú consistiu, segundo nos conta José Luis Gómez, em polvo com batatas no almoço e omeleta e sopa para a ceia. E assim os quatro dias...



No filme de Michael Wadleigh também se vê um helicóptero a aterrar entre os assistentes ao festival. Num desses artefactos desce Janis Joplin.

  • Final.
Esta postagem só é uma posta em conhecimento de algum dos dados recolhidos por mim até o momento, mas a pescuda só acaba de começar. A pouco que procuramos informação daquele festival aparece ante nós como um fato histórico no que à descomposição da rede social franquista se refere.

Uma curiosidade: ao ano seguinte, tentou-se fazer um segundo Arousa folk. Nalgumas comunidades já tinham feita a prévia quando receberam a nova de que o festival fora suspendido. A razão oficial era que havia outras prioridades, mas o certo é que o 1977 foi o ano do fim oficial da Delegación Nacional de la Juventud ou o que é o mesmo, o Frente de Juventudes.



O meu agradecimento a Javier do grupo Orégano por emprestar-me o seu arquivo fotográfico e a José Luis Gómez do grupo Tahona, pelos seus comentários inteligentes.
Fotografias: Arquivo Grupo Oregano.

sábado, 8 de agosto de 2009

nº 61 A Câmara de Ugia IV

Título das fotografías : Lixo na beira direita da Praia de Gradim (Ilha de Arousa).






















Rendimento ou provérbio carcamão: Que o lixo da direita não te impeça ver o formoso país no que vivemos.

Fotos: Ugia Pedreira ©; Texto: Orjais ©

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

nº 60 Um novo artigo em O Patifúndio.

Venho de publicar no portal brasileiro O Patifúndio um artigo sobre a recente criação da Academia Galega da Língua Portuguesa. Podem ler aqui.

terça-feira, 28 de julho de 2009

nº 59 O patifundio


Hoje acordei com uma surpresa muito agradável. O amigo brasileiro Michell Niero acaba de colar um artigo de Ilha de Orjais na sua web O patifúndio. Escolheu uma Orjia, a titulada O Maracanaço, suponho que pela referência carioca. Eu gosto imenso desta web e recomendo visita-la de quando em vez. O seu maior acerto é a de unir as vozes da lusofonia, poder escrever desde diferentes continentes na mesma língua, com sotaques particulares, indegenismos, etc.
Mas do que mais gosto é de que na lusofonia haja uma voz arousão. Coisas do Orgulho Carcamão.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

nº 58 De quando fui caçador...

Nunca fui um grande caçador. Se para uma criança um colega quem de caçar um pássaro com um garamilho é um ser extraordinário, eu seria, com a perspectiva que me dá a distância temporal, uma espécie de anti-herói.

Os meus camaradas guardavam como um grande tesoiro o achado dum ninho que normalmente se ocultava no alto dalgum pinheiro. O ponto exacto era um segredo inconfessável fora do círculo íntimo da turma, pelo que ir-se da língua significava para o fala-barato um grande problema. Lembro vários episódios da rapina dos ovos que, por certo, não foram nada agradáveis. Para esse ofício não estava em absoluto dotado.

Primeiro ficávamos ao pé do pinheiro, prédio dos pobres passarinhos. A algum de nós tocava-lhe gavear a árvore até a pola que suportava o ninho. Como eu sempre teve uma vertigem patológica, jamais apreendi a gavear decentemente, assim que ficava abaixo. De haver pitinhos, normalmente o ladrão descia da árvore e até outra, ainda que não sempre os neonatos ficavam incólumes. Se havia ovos recolhiam-se à espera de fazer-lhes um teste científico: o da flutuabilidade na água: se se afundavam eram óptimos para o consumo, se aboiavam, horror! estavam chocos.

O melhor que me podia passar é que estivessem chocos, já que doutro modo alguém colhia uma agulha, fazia um furado num estremo e sorvia o contido com acenos de deleite sumo. Quando me tocava a mim punha qualquer escusa para passar o turno, normalmente bem aceite pelo grupo pois assim alguém papava a minha ração.

Mas no que éramos espertos era no fabrico de armamento e munições. Construíamos arcos e setas com vimes ou varinhas de guarda-chuvas ou fundas com um gaio, duas tiras feitas da câmara dum pneumático e um quadrado de coiro. Havia armas muito complexas como aquela elaborada com uma tábua e um pregador da roupa, com um mecanismo quem de propulsar como uma bala um grau de milho e outras simples por primitivas, como o tutelo, uma cana, melhor indiana, para cuspir hedras como perdigotos.

Aquele dia fiquei na casa dum amigo para fazermos um arco e ir de caçaria. Tínhamos um guarda-chuvas dos chamados de sete paróquias, estragado pelo último temporal. Arrancamos as varinhas cuidadosamente e procedemos a atar um grosso fio de pescar a modo de corda propulsora. As setas eram também as varas metálicas apontadas contra um muro de pedra. Rematado o processo de construção entramos na casa e desde a janela da cozinha começamos a disparar contra uma figueira próxima, tentando acertar-lhe a umas iniciais gravadas pelo meu colega no interior dum coração. Meu anfitrião cravou as setas repetidamente, alguma mesmo dentro do alvo, mas as minhas, faltas de força ou de perícia, iam perdendo altura até depositar-se inofensivas ao pé da árvore.

Já estava convencido do meu novo fracasso como depredador quando, sobre o travessão duma parra, um gato destemido foi-se achegado caladamente. Sabia certo que era impossível que um inútil como eu roçara sequer àquela presa inocente, mas, quiçá por ficar de bravo ante o meu parceiro de caçaria, apontei com um olho fecho, estiquei a corda e soltei a seta num instantinho que apenas durou o tempo que tardei em colher o ar do impulso inicial. Quando abri o olho que fechara vi ante mim um quadro surrealista. O gato ficara preso duma garra ao travessão, miava com um queixume inenarrável e o meu amigo esmendrelhava-se de tanto rir tirado no chão, com uma mão na cabeça e outra na barriga.

Ao tomar consciência do feito, desfiz-me da arma e botei a correr costa acima até a minha casa, onde fui aos bocadinhos recobrando a cor.

Mas o meu grande sucesso como caçador teve como protagonista a um grilo, o meu primeiro e último bichinho por vontade própria.

A caça do grilo não é nada doada. Um tem que encontrar o buraco apropriado na terra. De errar em este ponto pode dar com a casinha dum outro bicho menos hospitaleiro. Logo há que colher uma palhinha ou uma erva e mete-la e saca-la as vezes que for necessário até que pique o grilo, coma num rito iniciático à masturbação. Se a fricção tem sucesso, o insecto sai ao exterior e já é teu.

Eu fiz esta operação milhares de vezes sem resposta alguma, até que de tanto experimentar duma volta acertei. Saiu um cabecinha negra, minúscula e brilhante, tão atenta a mim como eu a ela. Houve um amor à primeira vista.

O seu primeiro dia na minha casa passou-o numa caixinha de plástico transparente, com uns buracos feitos na sua tampa com uma agulha de tricô incandescente .

Acomodei-o numa cama de ervas e palha e o meu grilo semelhava adorar a sua nova condição de hóspede e amigo meu.

Passaram alguns dias e comecei a notar no insecto como uma melancolia desconhecida até então, quiçá a saudade do seu anterior fogar ou o limitado da sua vivenda atual. O certo é que comecei a ter mágoa dele, passando pela minha cabeça a ideia de o liberar. Mas esse impulso durou pouco e de imediato procurei um plano B: haveria que lhe trazer um parceiro.

Dado que para conseguir o meu primeiro exemplar teve que fazer inúmeros intentos, desbotei rapidamente a possibilidade de ir novamente de caçaria. Tentando atalhar, fui junta do melhor pega-grilos que conhecia, um rapazote que já ia ao mar e tinha um bigode roxo que ainda não levara a primeira ceifa. Pedi-lhe uma parelha para o meu bichinho e incrivelmente diz que sim. Andou para o mato e ao pouco tempo estava no lugar acordado com um novo grilo para a minha colecção. Este bicho, alem de ser mais grande que o meu, tinha pedigree, era dos chamados cabeções.

Fez-lhe uma covinha entre as mãos e levei-o até o meu quarto onde guardava a caixinha que ia compartir com o seu congénere.

O meu velho amigo, até esse momento a cada bocado mais taciturno, saiu do seu letargio e começou a mexer-se, correndo excitado pelo minúsculo habitáculo agora compartido. A minha ideia fora todo um sucesso.

Já era tarde assim que fui cear e me deitei certo de ter salvado a um amigo da sua doença de solidão.

De amanhã acordei com a ânsia de ir procurar mais erva para os meus convidados, sabedor de que duas bocas precisam mais que uma só. Sentei na cama e colhi o cofrezinho transparente e o que vi deixou-me horrorizado. O grilo recém chegado devorara ao meu amigo deixando o seu corpo desmembrado como se fora obra dum Jack estripador dos insectos.

Soltei a caixinha e com ela já no chão pisei-a até que teve consciência de que nada do que havia no seu interior ficara com vida.

Depois cai na cama e chorei como uma criança.

terça-feira, 14 de julho de 2009

nº 57 Manifestos na defesa da língua

A gente está a organizar-se para defender o nosso mais importante activo: a língua. Chegaram-me um par de manifestos que vos animo a assinar se concordais. Eu já assinei.

http://www.peticao.com.pt/hegemonia-social-do-galego

http://galegopatrimoniodahumanidade.blogaliza.org/