terça-feira, 28 de julho de 2009

nº 59 O patifundio


Hoje acordei com uma surpresa muito agradável. O amigo brasileiro Michell Niero acaba de colar um artigo de Ilha de Orjais na sua web O patifúndio. Escolheu uma Orjia, a titulada O Maracanaço, suponho que pela referência carioca. Eu gosto imenso desta web e recomendo visita-la de quando em vez. O seu maior acerto é a de unir as vozes da lusofonia, poder escrever desde diferentes continentes na mesma língua, com sotaques particulares, indegenismos, etc.
Mas do que mais gosto é de que na lusofonia haja uma voz arousão. Coisas do Orgulho Carcamão.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

nº 58 De quando fui caçador...

Nunca fui um grande caçador. Se para uma criança um colega quem de caçar um pássaro com um garamilho é um ser extraordinário, eu seria, com a perspectiva que me dá a distância temporal, uma espécie de anti-herói.

Os meus camaradas guardavam como um grande tesoiro o achado dum ninho que normalmente se ocultava no alto dalgum pinheiro. O ponto exacto era um segredo inconfessável fora do círculo íntimo da turma, pelo que ir-se da língua significava para o fala-barato um grande problema. Lembro vários episódios da rapina dos ovos que, por certo, não foram nada agradáveis. Para esse ofício não estava em absoluto dotado.

Primeiro ficávamos ao pé do pinheiro, prédio dos pobres passarinhos. A algum de nós tocava-lhe gavear a árvore até a pola que suportava o ninho. Como eu sempre teve uma vertigem patológica, jamais apreendi a gavear decentemente, assim que ficava abaixo. De haver pitinhos, normalmente o ladrão descia da árvore e até outra, ainda que não sempre os neonatos ficavam incólumes. Se havia ovos recolhiam-se à espera de fazer-lhes um teste científico: o da flutuabilidade na água: se se afundavam eram óptimos para o consumo, se aboiavam, horror! estavam chocos.

O melhor que me podia passar é que estivessem chocos, já que doutro modo alguém colhia uma agulha, fazia um furado num estremo e sorvia o contido com acenos de deleite sumo. Quando me tocava a mim punha qualquer escusa para passar o turno, normalmente bem aceite pelo grupo pois assim alguém papava a minha ração.

Mas no que éramos espertos era no fabrico de armamento e munições. Construíamos arcos e setas com vimes ou varinhas de guarda-chuvas ou fundas com um gaio, duas tiras feitas da câmara dum pneumático e um quadrado de coiro. Havia armas muito complexas como aquela elaborada com uma tábua e um pregador da roupa, com um mecanismo quem de propulsar como uma bala um grau de milho e outras simples por primitivas, como o tutelo, uma cana, melhor indiana, para cuspir hedras como perdigotos.

Aquele dia fiquei na casa dum amigo para fazermos um arco e ir de caçaria. Tínhamos um guarda-chuvas dos chamados de sete paróquias, estragado pelo último temporal. Arrancamos as varinhas cuidadosamente e procedemos a atar um grosso fio de pescar a modo de corda propulsora. As setas eram também as varas metálicas apontadas contra um muro de pedra. Rematado o processo de construção entramos na casa e desde a janela da cozinha começamos a disparar contra uma figueira próxima, tentando acertar-lhe a umas iniciais gravadas pelo meu colega no interior dum coração. Meu anfitrião cravou as setas repetidamente, alguma mesmo dentro do alvo, mas as minhas, faltas de força ou de perícia, iam perdendo altura até depositar-se inofensivas ao pé da árvore.

Já estava convencido do meu novo fracasso como depredador quando, sobre o travessão duma parra, um gato destemido foi-se achegado caladamente. Sabia certo que era impossível que um inútil como eu roçara sequer àquela presa inocente, mas, quiçá por ficar de bravo ante o meu parceiro de caçaria, apontei com um olho fecho, estiquei a corda e soltei a seta num instantinho que apenas durou o tempo que tardei em colher o ar do impulso inicial. Quando abri o olho que fechara vi ante mim um quadro surrealista. O gato ficara preso duma garra ao travessão, miava com um queixume inenarrável e o meu amigo esmendrelhava-se de tanto rir tirado no chão, com uma mão na cabeça e outra na barriga.

Ao tomar consciência do feito, desfiz-me da arma e botei a correr costa acima até a minha casa, onde fui aos bocadinhos recobrando a cor.

Mas o meu grande sucesso como caçador teve como protagonista a um grilo, o meu primeiro e último bichinho por vontade própria.

A caça do grilo não é nada doada. Um tem que encontrar o buraco apropriado na terra. De errar em este ponto pode dar com a casinha dum outro bicho menos hospitaleiro. Logo há que colher uma palhinha ou uma erva e mete-la e saca-la as vezes que for necessário até que pique o grilo, coma num rito iniciático à masturbação. Se a fricção tem sucesso, o insecto sai ao exterior e já é teu.

Eu fiz esta operação milhares de vezes sem resposta alguma, até que de tanto experimentar duma volta acertei. Saiu um cabecinha negra, minúscula e brilhante, tão atenta a mim como eu a ela. Houve um amor à primeira vista.

O seu primeiro dia na minha casa passou-o numa caixinha de plástico transparente, com uns buracos feitos na sua tampa com uma agulha de tricô incandescente .

Acomodei-o numa cama de ervas e palha e o meu grilo semelhava adorar a sua nova condição de hóspede e amigo meu.

Passaram alguns dias e comecei a notar no insecto como uma melancolia desconhecida até então, quiçá a saudade do seu anterior fogar ou o limitado da sua vivenda atual. O certo é que comecei a ter mágoa dele, passando pela minha cabeça a ideia de o liberar. Mas esse impulso durou pouco e de imediato procurei um plano B: haveria que lhe trazer um parceiro.

Dado que para conseguir o meu primeiro exemplar teve que fazer inúmeros intentos, desbotei rapidamente a possibilidade de ir novamente de caçaria. Tentando atalhar, fui junta do melhor pega-grilos que conhecia, um rapazote que já ia ao mar e tinha um bigode roxo que ainda não levara a primeira ceifa. Pedi-lhe uma parelha para o meu bichinho e incrivelmente diz que sim. Andou para o mato e ao pouco tempo estava no lugar acordado com um novo grilo para a minha colecção. Este bicho, alem de ser mais grande que o meu, tinha pedigree, era dos chamados cabeções.

Fez-lhe uma covinha entre as mãos e levei-o até o meu quarto onde guardava a caixinha que ia compartir com o seu congénere.

O meu velho amigo, até esse momento a cada bocado mais taciturno, saiu do seu letargio e começou a mexer-se, correndo excitado pelo minúsculo habitáculo agora compartido. A minha ideia fora todo um sucesso.

Já era tarde assim que fui cear e me deitei certo de ter salvado a um amigo da sua doença de solidão.

De amanhã acordei com a ânsia de ir procurar mais erva para os meus convidados, sabedor de que duas bocas precisam mais que uma só. Sentei na cama e colhi o cofrezinho transparente e o que vi deixou-me horrorizado. O grilo recém chegado devorara ao meu amigo deixando o seu corpo desmembrado como se fora obra dum Jack estripador dos insectos.

Soltei a caixinha e com ela já no chão pisei-a até que teve consciência de que nada do que havia no seu interior ficara com vida.

Depois cai na cama e chorei como uma criança.

terça-feira, 14 de julho de 2009

nº 57 Manifestos na defesa da língua

A gente está a organizar-se para defender o nosso mais importante activo: a língua. Chegaram-me um par de manifestos que vos animo a assinar se concordais. Eu já assinei.

http://www.peticao.com.pt/hegemonia-social-do-galego

http://galegopatrimoniodahumanidade.blogaliza.org/

quinta-feira, 9 de julho de 2009

nº 55 A Câmara de Ugia III

Madrigal do Nó Amante
ou
Bolero Gordiano

Quisera ser um nó
para abraçar-te
com o meu chicote
fazer-te o amor,
ser lais de guia
para salvar-te
se há naufrágio
no coração.

Alma com alma
atar bem curto,
ser o sujeito
da tua oração,
- Arria cabo!
que tu me digas
quando te abafe
minha paixão.

Quero empatar
a minha aorta
na tua cava
e em transfusão,
deitar em ti
fluído amante
num rito antigo
de perversão.

Quero ser nó
que tu desates
quando remates
esta canção,
embora sejas
a sentinela
que guarde o fio
do meu amor.

Fotos: Ugia Pedreira ©; Texto: Orjais ©

terça-feira, 7 de julho de 2009

nº 54 Gaspacho arousão

Orjais ©

No magnífico blogue da Ilha de Arousa NaIlla, um amigo enviou-me a receita dum prato típico da minha terra, o Gaspacho. Não tem nada a ver com a sopa a base de pepino senão que é um guiso cujo ingrediente principal é a ervilha. Na fotografia está empratada uma dose que eu preparei e posso acreditar que é uma comida equilibrada, saborosa, sobretudo se, como é o caso, as batatas são novas e os ovinhos da casa.

Ingredientes

Três ou quatro batatas grandes.
Ervilhas (chícharos)
Um envelope de corante alimentar.
Meia cebola
Um dente de alho
Salsa
Bacon ou chouriço
4 ou 5 ovos
Água
Sal

Preparação

Corta-se o bacon ou o chouriço e aloura-se junto com a cebola, o alho picado e a salsa. Deixa-se refogar um pouco e bota-se a água com um envelope de corante alimentar. Quando ferver, junta-se as batatas (cortadas em dados) e as ervilhas. Temperar com sal. Quando os vegetais estejam cozidos abrem-se uns ovos e deixam-se escalfar ao gosto.

Sugestões

Não gosto de usar os corantes alimentares. Eu deitei na água uns fios de açafrão e uma ponta de faquinha de pimentão doce. Também gosto do sabor do louro nas batatas.

Curiosidade

Em Cozinha tradicional portuguesa de Maria de Lourdes Modesto da Editorial Verbo, há uma receita muito semelhante ao gaspacho arousão. O título da receita recolhida na Estremadura é Ervilhas com ovos escalfados, p. 205, e a única diferença destacável é a presença de tomates.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

nº 53 A câmara de Ugia II

JANELAS

Há janelas contaminadas de carena,
vãos contranaturais
como olhadas de concreto,
há paredes impossíveis
em lugares inauditos,
cruzes desvidradas,
muros de esparavel.
Há um problema resolvido
com atávicos somiês,
com portas agônicas revividas,
onde um musgo que se extingue
cheira à floresta do mar.
Há um antropólogo
perplexo ante o fenómeno,
uma augusta rareza
fertilizada de tradição,
há um céu que se amostra deslocado
entre o burato irreverente
duma viga de formigão.
E depois está o homem
que nivela perpianhos
con conchas de venera,
o opus incertum
e o opus quadratum,
a ortodoxia do iconoclasta
a heterodoxia do santarrão.
Depois estou eu
que leio binómios em cada estratégia,
que amo a aquele anjo
com cara de ladrão,
que gozo das drogas legais
e dos panfletos,
que rezo orações
a um Deus perdedor.
E depois estas tu,
Tudo.
Fotos: Ugia Pedreira ©, Texto: Orjais ©

quinta-feira, 2 de julho de 2009

nº 52 O nome da Arousa

Na rede pude ler algumas reflexões sobre a origem da palavra Arousa. Resulta muito complicado seguir o fio se não es esperto em etimologias, mas não me resisto a colar aqui o encontrado.

Antes hemos formulado la posibilidad de un étimo *arrau(g)io / *arrau(g)ia, con diptongo au, cuyo cierre en ou es sobradamente conocido. La Ría de arousa (Pontevedra) aparece como Arauza en 899 y ya como Arouza en 1142. En la zona de Neuchâtel cursos de agua y lugares próximos al lago glaciar se mencionan como Areuse, Orousa, Oruse, Arosa, arousa, Aurusa, Aurosa, Arouse, Areuse, Ourouse, Reuza, Orose, La Reuse, Creuse (cr = representación de la vibrante velar, v. Creuse, afluente del Vienne en Francia). Son ejemplos muy interesantes porque muestran la equivalencia total entre reuse (torrente glaciar) y la forma plena arousa. [...]
Conclusiones:a) Sin salir del territorio europeo se puede deducir y documentar la existencia de formas lexicalizadas, con la misma estructura fónica y mismo significado, para un mismo referente topográfico: Harrow / harrobia (mina), Reuse / arousa (glaciar). La arqueología y la geología proporcionan fechas para el referente que son aplicables a los términos que lo designan.b) La existencia de Arrow (río), arrow (lanzar) y Harrow (antigua mina de pedernal) en una zona poblada a finales de la última glaciación sugiere la implantación de población procedente del continente portando una lengua estructurada de la misma forma: arroyo (río), arrojar (lanzar), (a)rosa (glaciar). c) Es en la Europa de las glaciaciones donde han tenido que surgir estos términos, que no pueden explicarse por colonización lingüística del continente desde Asia Menor, pues carece de paisajes glaciares. d) Se hace necesario redefinir el término “indoeuropeo”, así como su origen.


nike: Onnega
http://www.celtiberia.net/articulo.asp?id=1466&cadena=arousa
Sin entrar a hipótesis en Bascuas sobre si un ARANZUELO burgalés es o fue ARAUZUELO, me atengo a la documentación gallega con ARAÚXO, arousa y otras formas con documentación medieval de diptongo -AU-; tanto ARAÚXO como arousa son formas distintas de ARANZA, ARANZO y de ARGANZO, ARGANA, etc. con documentación medieval en que son constantes ARAN-, ARGAN- y no hay ARAU- ARGAU ... que permita suponer AU >AN.Asimismo ARA- no puede ser sin más doblete de ARGA- (que, por cierto, tiene más de un origen y etimología) porque lo único que interesa es que no se encuentra en la Fonología Gallega un cambio regular que en léxico común lleve de *ARGA- a ARA- con el correspondiente mapa dialectal de áreas en que, por ejemplo, se conserva ARGA-, áreas en que evoluciona a ARA-. El conjunto de topónimos y de hidrónimos que presenté en el artículo que estamos comentando no puede ser tratado con una Fonología distinta a la del léxico común y lo que sabemos de Fonología Diacrónica en este léxico común nos sugiere, por no decir que nos certifica, certifica que estamos ante puntos de partida distintos y evoluciones o conservaciones distintas para ARA-, ARGA-, ARAU-, AROU- ... y sería capricho emparejarlos sin más.Otra cosa es que en el punto de partida indoeuropeo sea cierto que ARGH- ARM- ARW- .... puedan ser ampliaciones de una misma raíz AR- y con significados próximos; pero ¡ojo! también pueden ser raíces distintas, significados distintos. Y que ARG- tire más a lo blanco o claro, incluso a la plata, parece mejor que *ARGH- 'moverse'

nike: igmoral
http://www.celtiberia.net/articulo.asp?id=1664&cadena=arousa

Uma das minhas páginas favoritas é Fror na Area, do etimólogo Cossue. Escrevi para ele e perguntei nestes termos:

Uma perguntinha: os da Arousa (Ilha) temos muito interesse por saber qualquer coisa da origem do topónimo. Numa publicação sobre celtismo limos no epígrafe duma estela o termo AROUSA como nome de pessoa http://ilhadeorjais.blogspot.com/2009/05/n-44-lucobo-arousa.html É possível ter uma origem pré-romana?

E esta foi a resposta:

Com respeito ao topónimo Arousa, o estudo etimológico máis fundo que conheço é aquele do professor -e, agora si, maestro- Bascuas, em Estudios de Hidronimia Paleoeuropea gallega, p. 37 e sucessivas. Podo resumir o seu estudo assi (mais recomendo encarecidamente a leitura do livro!):1º.- A ilha de Arousa testemunha-se como insula Arauza (ano 899), Aroucia (ano 912), Arautiam (1115)... O actual -s- é secundário e nom etimológico (nom procede de -ss- :-(2º.- O seu étimo é o protoindoeuropeu *ArH-k-ya, da raiz *er- 'mover-se', e achamos os seus melhores referentes na chamada hidronímia paleoeuropea, com rios como o português Arouce, e topónimos como Arouca. 3º- Implicitamente, Arousa carece de étimo latino, germánico ou árabe, de jeito que de seguro deve ser prelatino. Por outra banda, a lenda LUCOBO AROUSA tem aparecido numha inscriçom na cidade de Lugo; LUCOBO significa moi provavelmente 'Aos (deuses) Lugos', no entanto AROUSA deve ser um epíteto adicado a este. Penso, polo seu -s-, que nom é a mesma verba que o atual topónimo Arousa.

http://frornarea.blogspot.com/2009/06/pg-bergo-na-antroponimia-galega.html