segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

nº 19 A gaita, o gaiteiro e os lobos.

Formoso poema da conhecida história da gaita e o lobo. Faz muitos anos, um velho gaiteiro do Valadouro contou-ma como se lhe acontecera a ele próprio. Esta versão poetizada foi publicada em El Compostelano, 3 de Agosto de 1928.

A GAITA, O GAITEIRO E OS LOBOS
Non é conto... Certo foi!
outros moitos, e buliron
ventos, por onde non doi.
Na parroquia do Aparral,
terra da vila das Pontes,
-entre ríos, vales e montes,-
do partido ortigueiral.
Vindo unha noite das fías
un gaiteiro e seu rapaz,
tras os ouveos dos cans,
ouviron... non ladaíñas!
Dous lobos, no amencer
famentos lobos, ouvean:
e carne humana olfactean
e xa chegan para comer.

Nisto, o gaiteiro berrou:
e co rapaz xa rubindo
por un carballo, ruxindo,
cheo de medo rosmou:
- Os lobos! Quen ollara
nosa vida, ou nosa morte?
Eles son dous; polo norte
ben os vin! Xa chegan, xa!-
E logo os lobos chegaron
a ouvear na carballeira,
e do carballo na beira
coas pouta ben acovaron.
O redor do carballiño
unha cova eles fixeron:
para que caira, lles deron
ás poutas moito camiño...
E viña abaixo, o carballo:
mais, lixeiriño o gaiteiro,
e seu rapaz, ben lixeiro,
brincan noutro... Bo traballo!
E foi co fol, o brincar
o gaiteiro, -sen xa ter
nin forzas para o soster-
co roncón deu en roncar.
Feitos dous cans de palleiro

os lobos foxen brincando:
tolos, de medo, ouveando
pola gaita do gaiteiro.
Dera co cóbado ao fol
o gaiteiro, sen querer,
e despois, houbo que ver:
salvos viron vir o sol!
Rindo, o gaiteiro e o rapaz
déronlle entón a gaitiña,
até chegar á casiña,
sempre ollando para atrás.

José Fernández Merino

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

nº 18 Turnê María Manuela 2009

Como acontecia o ano passado, nos meses de Fevereiro e Março vou formar parte da banda que acompanha à cantora María Manuela. Como novidade, nesta turnê acompanham-nos três vozes amigas: Pilocha, Paloma Suances e Xiana Lastra. Não é fázil poder ir a um espectáculo onde se transmita tanta e tão boa poesia (Manuel María, Celso Emilio, Emilio Pita, Ana Caxiao, etc), quase que toda ela musicada magistralmente por Miguel Varela ou a própria María Manuela. Mas por cima de tudo somos uma pequena família que afirmamos com o nosso trabalho aquilo que cantara Vozes Na Luta:

A poesia e uma arma,
eu não sabia,
todo depende da bala
e da pontaria.



As datas marcadas até hoje são:



-7/o2/2009 Betanços.

-6/03/2009 Padrão

-13/03/2009 Lugo

-14/03/2009 Vila Nova de Lourença


Se queres ver o book do espectáculo preme aqui.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

nº 17

Lua sobre os montes de Isorna. Orjais ©


Sou um poeta desocupado...

habite-me.

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domingo, 15 de fevereiro de 2009

nº 16 O estranho caso da borracha-tijolo

Nas turmas de aqueles anos, alguma de mais de trinta ou quarenta putos, meia dúzia de sobrenomes se misturavam entre eles para identificar a indígenas fruto de séculos de endogamia e insularidade. Além da linhagem, muitos dos seus nomes semelhavam ancorados no passado. Havia Albinos, Eugénios, Genaros, Amadores, Eládios, Silvérios, etc.
Quando uma criança possuía um apelido exótico como o meu, de imediato éramos considerados forasteiros e com esta expressão faroestiniana havia que apreender a viver, até que o tempo te ia acomodando á paisagem.
Já eu tinha alguns anos de escolaridade obrigatória quando um dia ao estar o professor a fazer chamada, (ao contrário do que lhe acontecera a Pedrito Fernández, o da mochila azul), descobri que na minha turma havia uma nova forasteira. A primeira reacção foi de alívio, pois era mais que provável que por um tempo deixasse de ser o branco perfeito, e a segunda, a de pensar como fazer para me unir à comissão de bem-vindas.
Aos que falávamos espanhol os colegas qualificavam-nos simplesmente de parvos. Eu fora parvo toda a vida, mas estava a progredir para deixar de se-lo. A menina nova ainda era mais parva do que mim, pois ela falava um espanhol perfeito. Devia ser filha dum trabalhador dalguma caixa económica e a pobre parecia um passarinho caído do ninho, morto de fome e frio.
Quando saímos ao intervalo, sem pensa-lo duas vezes, fui cara ela e espetei-lhe na cara:
-Tu és parva.
Naquele mesmo instante aprendi o significado disso que chamam discriminação por razão de género. Os meus pares ficaram a olhar para mim como dizendo:
–Não te passes com a rapariga.
Fiquei muito chato. Pelo visto havia dois tipos diferentes de forasteiros, os que levavam carapitos e os que não.
Desde aquele mesmo dia a moça ficou como um prego cravado no meu coração.
A menina sentava-se justo as minhas costas, o qual agradecia, pois quando menos não tinha que fazer esforços por não vê-la. O mau e que sim podia ouvi-la, com o seu perfeito parviniano, e até cheira-la. Foi precisamente um adoçado cheirinho a nata o que chamou a minha atenção. Quando virei a cabeça, sobre a mesa estava a primeira borracha-tijolo que olhei na minha vida.
Era algo fantástico, enorme e com um recendo a bolacha verdadeiramente indescritível. Foi suficiente uma olhadela para decidir que aquela delicatessem ia ser minha.
Teve de ser muito persuasivo para lograr que o meu parceiro de mesa e melhor amigo durante todo o primário, consentira em associar-se comigo para cometer o maior roubo que jamais tivéramos feito, (no meu caso confesso que era o primeiro).
Ao ter jornada partida, o material escolar ficava sobre a mesa até a tarde, assim que a estratégia era sair os últimos e perpetrar o latrocínio dissimuladamente, já que o professor aguardava na porta para fechar a sala de aulas. Fui eficaz como um experimentado Arsèn Lupin.
Fora do recinto, e em previsão de que ante a sua desaparição pela tarde houvesse revista, decidimos ocultar a borracha-tijolo entre umas silvas, num pinheiral que ficava de caminho ao nosso bairro.
O jantar foi angustioso, com a adrenalina ainda sem descer de tudo e cônscios do mais que provável rebuliço que se ia produzir de tarde. Eu já estava a ver ao chefe de turma ou quiçá, meu Deus!, até o director, a dizer:
- Aqui não sai ninguém enquanto não apareça o ladrão ou ladrões.
Mas a tarde produziu-se uma milagre. A menina, discreta, nem perguntou se alguém vira a sua borracha, por outro lado difícil de se ocultar entre os livros ou cadernos. Não sei que passaria pela sua cabeça. Quiçá era a primeira rapariga que eu conhecia farta-de- tudo, dessas que não lhe dão mérito a nada, que tem tanto que logo aborrecem qualquer coisa, ou tal vez, sendo nova entre os ilhéus, simplesmente não se atreveu a provocar um conflito na turma. Fosse como for, a tarde transcorreu, chegou a noite e na solidão do quarto, entre os lençóis, o medo a ser descoberto deu passo a uma sensação muito pior, o sentimento de culpabilidade. Por primeira vez escutei o meu coração a latejar no peito, batendo na noite como um martelo a fazer cacos o meu cérebro infantil. Já na arraiada decidi que tinha de restituir o roubado, pois ficava claro que não poderia viver com aquele peso o resto da minha vida.
Ao dia seguinte o meu amigo confirmou-me que na noite passada houvera quando menos dois putos ilheus que não pegaram olho.
A estratégia agora ficava clara. Antes de ir para a escola, passaríamos pelo pinheiral e recuperaríamos a borracha. Na saída para o intervalo, ou em qualquer outra, ficaríamos novamente os últimos e silandeiramente pousaríamos o roubado sobre a mesa da colega.
No meio do pinheiral havia um grande pinho manso com uma arrandeeira pendurada. Próximo a ele, uma silva com as amoras todavia de cor vermelha. Metemos a mão entre as espinhas e sacamos a borracha-tijolo, ou melhor dito, o que ficava dela. Fora mordida, picada, esfarelada... Da sua aparência original só ficava parte do letreiro no que com letras maiúsculas podíamos ler: NATA.
Eu não disse palavra e acho que o meu parceiro também não diz nada. Soltei aquele queijinho gruyère como se queimasse, fiquei uns segundos olhando para ele, o qual jazia esquartejado sobre o arume, ergui-me e tomei uma nova decisão: passar página definitivamente.
O que restava de caminho à escola foi para nós os dois um passeio que por silencioso resultou atípico, mas jamais voltamos a falar da borracha-tijolo, nem do que aconteceu aqueles dias.
A rapariga não durou muito entre nós. Quiçá por não denunciar o roubo cheguei a ter-lhe certo aprecio, mesmo que nunca cruzáramos palavra; há que lembrar que era parva. Ela fiz muitos intentos de que nos levássemos, escreveu-me cartinhas, picava-me com o lápis acabadinho de afiar, mandava recados por amig@s comuns, mas eu não correspondia. Deixou de tentar qualquer coisa comigo o dia que quase lhe parto a tíbia duma patada, mas essa é outra história.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

nº 15

Luis de Morales (1500 - 1586)
A concavidade duma mão
é a medida de capacidade
com a que podemos calcular
o volume dum peito.
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quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

nº 14 Pregão da Gaita Galega 1852

A Gaita Gallega de João Manuel Pintos é uma obra singular pelo que tem de pioneira mas, sobre tudo, pela valentia que amostra a hora de tratar o conflito linguístico entre o galego e o castelhano. Os protagonistas da história, como na gravura de Goya, personificam o mundo ao revés. O que fala castelhano é o criado-tamborileiro Pedro Luces, o qual acode onda o gaiteiro do Leres aprender a falar galego e tocar a gaita.
Desde um ponto de vista antropológico-musical, A Gaita Gallega resulta um autêntico manual do que era a aprendizagem tradicional dum aspirante a gaiteiro. O ofício havia que apreende-lo desde a base, tocando os arruídos, acompanhando ao mestre e alimentando essa condição imprescindível dum bom gaiteiro: o orgulho de se-lo.
Em 1852 os gaiteiros começavam a competir com as murgas, nos teatros soavam as gallegadas, descafeinadas evocações duma moinheira, e a intelectualidade galega estava a descobrir um filão inesgotável para os seus textos e reivindicações: a cultura do povo.
Antes de tirar do prelo as primeiras brochuras de A Gaita Gallega, Pintos publicou o texto que transcrevo a continuação a modo de anúncio, como uma pequena jóia cheia de intenção e duplos sentidos. Alguma vez, comentaremos pelo miúdo o muito de interessante que nos oferece, mas pelo de agora, desfrutemos da sua formosura.


PREGÃO DE A GAITA GALEGA
Já fez tempo que estou eu, o Gaiteiro, falando só e dizendo para mim: que terá, Senhor, esta fala galega para ser tão repudiada incluso pelos mesmos filhos de Galiza? Será tão bujão de termos que não se possa por ela desafogar o entendimento com claridade? Estará amaldiçoada? Terá algum feitiço? Botariam-lhe alguma paulina para que se desbandasse e esmigalhasse de maneira que não se pudesse juntar jamais e, em pena dos nossos pecados, somente ficassem anacos e cachos dela espalhados sem travação para eterna memória de semelhante praga? Será tão agre e brava que se encarrapitam as orelhas e fechem os ouvidos com a repugnância de tão duro som? Não e não, diz o Gaiteiro. Matinando, pois, decote com esta ideia fiz-lhe um fato novo a minha gaita e pendurei-lhe no ronco uma borla das festas para começar as minhas foliadas e tocar umas tocatas do trinque, fazendo que os chios de esta música nova se ouçam quando menos em toda A Galiza. Ruim seja quem por ruim se tem. O Gaiteiro bem sabe que não há pior cunha que a do mesmo pau; mas, assim e tudo, já não há atrancos nem barrancos que o detenham no caminho. Assim, pois, em acabando de pôr as penas à sua monteira, ai o tereis mais plantado e mais garrido que Guerineldos, enchendo as fróias, apertando o fole e convidando a todos os seus paisanos. A Gaita, como é nova, tem certas técolas para o tempero e não faltarão, nas foliadas, adufes, ferrenhas e conchas; e, de quando em quando, soará a sanfona com os ferrinhos. Venha!, bailadores, ide-vos pondo currutacos para vir à festa, que possa que não vos arrependais; pois, ao fim e ao cabo, eu não ando com pantominadas nem prometendo O que não hei de dar, como fazem muitos farafulhas que com quatro guedelhas muito encrouchadas ou com quatro pelinhos de cabrão se vendem por grandes e afamados músicos, resultando que todo quanto tocam é uma gaiteirada; e, desde que fazem o seu ordenado, vão-se rindo e vos quedais rangendo. Eu já vos desengano em tempo. Nem piano, nem órgão, nem chouta, nem chifre vos vou tocar, nem vos ofereço aberturas nem fechaduras, nem duos nem vinte e quatros, nem orquestras nem barulhadas, nem outras tolerias. A Gaita, meus amigos, a Gaita é para o Gaiteiro, e o tamboril para o tamborileiro. Nem mais nem menos que gaiteirada e mais gaiteirada vos vou fazer para que nenhum alarve usurpe a jurisdição do Gaiteiro, Santo Idioma Galego seja comigo, pois ao pé da sua capela e debaixo do seu alpendre vou fazer eu esta romaria.
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quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

nº 13 A guitarra de Antonio de Puga

Antonio de Puga
Fonte: Colec. particular (Inglaterra)

Trás a postagem anterior, estive a recordar algumas imagens que tinha no meu arquivo, mais bem da memória, sobre artistas, mormente músicos, dos quais gostaria de dizer qualquer coisa.


O esplêndido quadro que encabeça este comentário é obra de Antonio de Puga, nascido em Ourense em 1602. Pintor da corte de Filipe IV, possa que seja o nosso artista mais internacionalmente reconhecido, com obras em museus de todo o mundo como o Ermitage ou o National Gallery.
Como acontecia com as imagens do postagem anterior, nº 12, a personagem representada é um artista (músico) ambulante, neste caso um cego de guitarra.


De Manuel de la Cruz conservamos este outro exemplo com uma temática idêntica à do mestre ourensão.
Cego com guitarra e cão. S. XVIII
Manuel de la Cruz.
Atribuído a Antonio de Puga temos também o retrato dum tamborileiro, propriedade hoje em dia da Fundação Caixa Galicia.

O tamborileiro

Fonte: Fundação Caixa Galicia


Rosácea da quitarra do quadro de Antonio de Puga.