quinta-feira, 30 de abril de 2009

nº 39 PePe Romero, Bravo Mestre!

Hoje fui a Nóia à presentação dum C.D. Aguardava escutar a dois mestres queridos por mim, a José Espanha, clarinetista e compositor e a PePe Romero, geneticamente gaiteiro. Só tocou este último e só por ouvi-lo, a viagem a Nóia logo dum mais que duro dia de trabalho, pagou a pena.
Saiu o gaiteiro ao cenário e durante uns segundos contemos a respiração, sabíamos que ia acontecer algo grande, e aconteceu.
A música de PePe é equilibrada e dominante. Equilibrada porque soube adaptar as novas técnicas ao velho ofício, porque o revolucionário soa a tradicional, a mais difícil equação nos tempos que vivemos. Dominante porque foi suficiente um lamento do instrumento para apoderar-se das nossas vontades, fazer-nos activamente passivos, essa milagre que faz com que um espectador se sinta protagonista do espectáculo.
Arría a Xarda, a sua achega ao livro disco de Barbantia As voces da Musa, tem, alem disso, o sabor a salitre duma foliada marinheira, o aroma da malhante abandonada na beira-mar. Poderia chamar-se Rianjo, Ribeira ou Porto do Som. Poderia ter o rostro dos velhos marinheiros desenhados por Castelao ou a cor duma lua reflectida no mar.
Bom, obrigado, Mestre, pela aula magistral. Galiza e gaitas.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

nº 38

Esta tarde esteve a pintar um mural com as crianças de Taragonha. Colorando um polvo no fundo marinho teve a arroutada de desenhar um heroi arousão e saiu-me isto. Proximamente, já se sabe que não é bom que o homem esteja só, desenharei a Carcawoman, e quem sabe se até alguma BD. Já postos.

sábado, 25 de abril de 2009

nº 37 O moinho das azenhas

O filme Divinas palabras, de José Luis García Sánchez (1987), tem quando menos uma cena gravada na Ilha de Arousa. Trata-se duma foto fixa do Moinho das Azenhas, enquanto no trilho Ana Belén e Milhadoiro interpretam Nube de algodón.

Divinas palabras é mais que recomendável por ver no cinema um texto de Valle Inclán, pelos actores, Echanove e Victor Rubio extraordinários, pela ambientação, pela música, etc. Já falarei de algumas incoerências, curiosidades e demais secretos deste filme. Agora, desfrutemos do formoso fotograma das Azenhas.

Fotograma do filme Divinas Palabras.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

nº 36 O maracanaço

Hoje era sábado, e os sábados das quatro da tarde em adiante só existia uma actividade possível: jogar a futebol. Em realidade, eu não passava um dia sem bater na bola, mas na fim-de-semana, como no futebol profissional, encenavam-se os grandes enfrentamentos.

Na Ilha não haviam muitas instalações desportivas. Tínhamos o campo onde jogava a equipa federada, as pistas de asfalto do grupo escolar e pouco mais. Bom, em realidade, não tão pouco mais.


Existia, desconheço se ainda existem, toda uma rede de ervaçais acondicionados para a pratica desportiva, quer dizer, com a erva apanhada ou simplesmente, aplanada pelas nossas chuteiras. Resulta extraordinário observar como as crianças desenvolvidas em liberdade, são quem de autogestionar o seu lazer, com um grau de organização que poderia fazer ruborizar a qualquer adulto. Estes rectângulos abertos num mato fundamentalmente de silveiras e fenos, constituíam uma rede estável, com sedes no Pombal, As Penas, Lagartinho, Gradim, etc.


Duma volta, os da Torre, o meu bairro, decidimos ir jogar ao Monte, o qual era para mim quase como ser seleccionado para um partido internacional. A preparação foi exaustiva. Treinamos durante a semana, nos recreios do cole, e mesmo tivemos conversas tácticas nas que falávamos de como neutralizar aos melhores jogadores contrários. Mas, além de toda a preparação física e intelectual, tínhamos uma arma secreta: uma caixa de remédios.

Cada um de nós foi trazendo da sua casa pensos, mercromina, esparadrapo... Até juntamos algum dinheiro para comprar réflex, um produto que consideramos absolutamente imprescindível, (confesso ter exagerado algum choque só por que me botaram um bocadinho de aquele remédio cheirão).


A noite anterior ao partido não peguei olho. Deitado na cama, com os olhos fechados, visualizava cada uma das paradas que ia fazer, os golos que meteríamos, o grande trunfo que nos aguardava. Porém, o que mais me quitava o sono era um jogador rival. Era grande, mais bem gigante, algo assim como um trol de David o Gnomo. Como futebolista era péssimo, mas se acertava a dar com a bola podia furar-te e como mal menor, introduzir-te na baliza junto com o esférico. Era tal a sua pouca perícia e suma brutalidade, que os companheiros o situavam como defensor estorvo e quando chegava a ele a bola, a gente berrava o seu nome dizendo a continuação: fura! fura!

Na tarde do partido caminhamos face ao Campo das Penas. As casas foram desaparecendo e pouco a pouco adentramo-nos no mato. No terreno de jogo estavam já os rivais, entre eles, o meu terror noturno Enormus. Colocamo-nos em cadansua metade, e dispomo-nos a jogar o partido. Os capitães deram-se a mão, no entanto os do Monte olhavam para nós numa atitude que a mim pareceu-me como se estivessem a executar a dança maori dos All Blacks.

Jogamos e jogamos bem. Ganhamos o partido a domicílio, com um domínio esmagador. O que controlava o tempo no seu relógio assobiou e os da Torre abraçamo-nos orgulhosos de ter protagonizado o nosso pequeno maracanaço. Logo das primeiras emoções, dispusemo-nos em ir embora de volta a casa, cantando aquilo de campeões, campeões! Então alguém diz com voz dramática:

- E a caixa dos remédios?

A caixa desaparecera e pela cara desafiante dos adversários soubemos que não a perdêramos.
Alguém quis protestar, mais foi suficiente que Enormus se erguera da rocha na que estava sentado como um dinossauro do pleistoceno, para que todos compreendêramos que aquele partido sim que não o podíamos ganhar. Naquele momento soube que de volta, o de campeões ficaria afogado no mais profundo das nossas gargantas.

Ao dia seguinte, na escola, os meus companheiros semelhavam ter esquecido tudo. Parecia que não jogáramos, que não perdêramos e que não nos roubaram. No recreio, todos foram jogar ao futebol, misturados uns com os outros, menos eu, que fiquei dolorido e segregado do resto, chateado com o mundo inteiro, mas também humilhado de não ter tido a coragem de defender o que era meu.

Tocou o timbre, fomos às fileiras e quando estávamos preparados para entrar, a minha olhada cruzou-se com a do gigante do Monte. Então, Enormus sorriu. Não era um riso de burla, não havia maldade nem superioridade, senão a tenrura duma criança que com aquele gesto queria pedir perdão. Naqueles poucos segundos de cruzamento de olhos dois meninos comunicaram-se sem palavras e não fez falta mais.

Um tempo depois fizeram o recheio do Regueiro com um novo espaço para o futebol, e começou a haver torneios organizados desde a Associação Cultural ou a equipa federada. Eu joguei em dois de aqueles campeonatos, sempre como porteiro, e como prova, as fotografias que adjunto.

No primeiro, com a camiseta do C.A.P. (Caixa de Aforros de Ponte Vedra), ficamos os derradeiros da clasificação. Devia ser o jogador mais baixo de todas as equipas, já que lembro, não sem certo rubor, que era incapaz de chegar-lhe ao travessão da baliza. (Campo do Regueiro)

Com o segundo, patrocinado pela panadaria Casico, logramos o campeonato. Alem disso fiquei como porteiro menos goleado, pelo que recebi uma copa que ainda conservo coma um tesoiro e que me foi entregada no campo Salvador Otero, no descanso dum partido oficial. (Campo das Bouças)

Numa e noutra fotografia reconheço as caras de algum dos meus melhores amigos na altura, com muitos dos quais apenas tenho hoje qualquer relação, mas aos que desde estas páginas do meu blogue envio um sorriso como o de Enormus: um poema sem palavras.


Ano: 1981?


Ano: 1983

domingo, 19 de abril de 2009

nº 35 Fim da turnê com Maria Manuela e amigas.


Grande fotografia!!! De esquerda a direita, Pablo, Paloma Suanzes, Xurxo, Pilocha, Cholo (escondido), María Manuela, Paco Barreiro, Eu (com boné e adufe), meu irmão Manolo (abaixado), Roberto, Xiana e Lastra. Quantas histórias e quanta história nesta foto que nos fizemos no Círculo de Belas Artes de Lugo.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

nº 34 Missale Romanun de Turim. 1361

Esta imagem pertence a um Missal Romano datado em 1361. Não logrei muita informação sobre o manuscrito italiano, acho que depositado numa biblioteca de Turim, mas a iluminatura é tão fantástica que não me resisto a publica-la no blogue.


Surpreende o extremado naturalismo da figura do anjo. A sua posse, como colhe o instrumento e até o próprio instrumento em si, semelha indicar que o pintor fiz o seu desenho do natural, observando a um gaiteiro em plena actuação.

No rostro ampliado, vemos que tem as bochechas infladas em atitude de deitar ar dentro do fole, a través dum soprete muito longo. Podemos captar toda a tradição bizantina e as pegadas da revolução naturalista de Giotto.






As mãos colhem o ponteiro com "musicalidade", dentro do complicado que resulta sempre que a postura pareça natural. A mão direita semelha acariciar a madeira com os dedos esticados, numa atitude muito gaiteiril.





E por último, a gaita, um exemplar perfeitamente crível. O bordão, colocado sobre o ombreiro direito está em posição quase vertical, como corresponde ao uso dum fole de cabrito. Está formado de três peças torneadas, rematado por uma copa um bocadinho desproporcionada.


De todas as imagens que tenho visto sobre iconografia da gaita, esta é a que até o de agora mistura dum modo mais espectacular antiguidade e realismo. Alguma outra, como com a que fecho a postagem, ainda tardaria duzentos anos em ser desenhada pela mão do grande Rafael Sanzio.


Venezia, Gallerie dell'Accademia

1500-1520

nº 33

Esta postagem só para dar os meus parabéns a Mini e Mero, que acabam de receber o prémio Pedrón de Ouro, 2009. Os artistas populares galegos estamos de celebração ao ver que aos mais distinguidos membros do nosso ofício são-lhes reconhecidos os muitos anos de amor à Pátria e à nossa cultura.

Em palavras de Celso Emílio:


Amigos da saudade que levais
a luz pelos vieiros,
Saúde a todos companheiros.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

nº 32 A estética do si

Ando, desde já faz muito tempo, a voltas com isso que pudéramos chamar a filosofia do si. Depois de ler muito, escutar muito, olhar muito o que fazem os outros, chega a etapa em que precisas descobri-te, inventar-te, dar-te a conhecer a ti mesmo.

Por isso eu considero que muitos blogues não são o fruto dum exibicionista que oferece as suas idiotices a um público em potência, senão, mais bem, um modo de amostrar-se um a si mesmo de que pasta está feito.
Tinha dúvidas se publicar os meus rascunhos temeroso de que alguém pudera estar a olhar por um furadinho, mas cada um de nós somos essa difícil equação entre o que criamos e o que destruimos, independentemente da qualidade do feito ou desfeito.
Quando vi a rapariga da fotografia da Estampa, postagem nº 31, fiquei namorado dessa cara de pessoa nascida em liberdade. Se tivesse que descrever como era a Ilha antes da anexação, mostraria o rostro desta menina e ficaria calado. O meu rascunho tentava recolher essa magia e fazê-la minha, coma num antigo ritual para roubar-lhe a alma.
Sei que não é um grande desenho, mas como diria Michel Onfray: «Um filósofo-artista que fracasa é mais grande que um membro do rebanho que trunfa.»

quinta-feira, 9 de abril de 2009

nº 31 Um artigo do jornal madrileno la Estampa. 1935

Os materiais etnográficos fruto do trabalho de campo realizados na Ilha de Arousa são escassíssimos. Como exemplo, nos cancioneiros históricos, (Inzenga, Casto Sampedro, Bal y Gay e Torner, etc.) não existe nenhum item, e só no de Dorothe Schubarth há uma única cantiga. Felizmente, possuímos um registro sonoro feito na Arousa nos anos 60 por um grupo de etnomusicólogos italianos, do que já darei conta noutra postagem.
É por isto que qualquer achega que podamos fazer a este respeito resulta do máximo interesse, para uma posta em comum e uma visão mais globalizada da nossa antropologia cultural.

Um campo urgente de redescobrir é o da prensa escrita, as crónicas daqueles jornalistas que vieram visitar-nos em diferentes momentos e que deitaram nos seus artigos as suas impressões.
Entre os conceitos fundamentais dos que falam os teóricos da investigação etnográfica estaria o do estranhamento. Este estranhamento é o que lhe vai permitir ao investigador manter uma distância com o informante, uma objectividade científica necessária. Com efeito, estamos a falar duma viaje antropológica ideal ao campo de trabalho que quase nunca se dá nestes termos, mas sim considero importante observar ao observador, analisar como os demais nos olham, olhar-nos a nos mesmo e de um trabalho elementar de comparação, concluir como somos na realidade.
Muitos dos artigos que formam parte da etiqueta Hemeroteca dos Ilheus, foram escritos por viajantes estranhados, no sentido etnográfico e psicológico, os quais elaboraram uma descrição densa do que na Arousa foi saindo ao seu encontro. Por tanto trata-se de observar, interpretar e transcrever.

O 09/03/1935 publicou-se o artigo En la isla de Arosa, La Estampa, Madrid, obra dos jornalistas Lorenzo Carriba e do fotógrafo Montaña [ver PDF]. Os autores dão uma visão que vai ser uma constante ao longo do tempo e que podem ser considerados como tópicos etnográfico sobre a vida e comportamentos dos ilhéus:
  1. O vitimismo. Os entrevistados sempre se doem do isolamento, não apenas geográfico que sofre a Arousa, senão principalmente administrativo.
    «Ni tenemos Ayuntamiento, ni hospital, ni farmacia, ni guardias, ni cura. Sin embargo, pagamos cerca de trece mil pesetas de impuestos.»

  2. Como defesa a este isolamento administrativo, os nativos destacam a autogestão em termos de trabalho comunal, assistência social ou mesmo o mantimento da ordem ante a falha de autoridade.
    «Sobre su superficie no verá usted ni un automóvil ni un pollino; por todas partes, pescado, fábricas de pescado, talleres para la construcción y reparación de embarcaciones y redes; pinos, dos peñas grandes, casas y mar. Dentro de este marco, la pobación se mueve como si se tratara de una sola y gran familia.»

  3. Ausência de conflitos.
    «Yo acabo de cumplir veinticinco años y, desde que tengo uso de razón, no recuerdo que aquí se haya cometido un solo robo o crimen. Si usted habla con un vecino de más edad le dirá a usted lo mismo. No obstante, las casas y las tiendas están siempre abiertas hasta horas avanzadas de al noche, sin un policía que vigile.»
Os relatos dos forasteiros, como este do que agora falamos, apresentam uma visão arcádica da Arousa, próxima a descrever-nos a um bom selvagem morador duma espécie de comuna hippie. No entanto, a insistente recorrência a estes tópicos indica-nos que algo ou quiçá muito haja de verdade em quanto se diz. O tradicional epíteto de singular ou esquisito referido aos ilhéus pode ser visto em chave antropológica, quiçá mesmo desde uma antropologia do si, e dizer, o constructo elaborado pelos próprios nativos para de forma simples, definir-se como povo diferenciado.

Do artigo de La Estampa, eu destacaria duas coisas: as magníficas fotografias de Montaña e a caracterização da personagem do Carregán a través das perguntas-respostas da entrevista.
A fotografia titulada Una pequeña arosana, é mesmo uma metáfora da imagem idealizada da Arousa. A menina inocente presenta-se ante o público que a vê pobremente vestida. O seu fato enrugado e surrado está cingido ao corpo com uma fita comprida que dá voltas a cintura até rematar num nó desordenado. A pesares da pobreza, olha para nós feliz e orgulhosa de morar na sua pequena Utopia. A estética quase ária de esta fotografia, devia aproximar-se muito ao que os leitores madrilenos esperavam dos habitantes dum lugar tão extravagante da Galiza celta.
A entrevista ao velho marinheiro não tem desperdício. Como se dum petrúcio irlandês se tratara o Carregán (O'Cárregan), achega ao relato toda a sua experiência de lobo de mar, de grande xamã ao que acodem os inexperientes jovens na procura de conselho. Lembra-me aquela istinção de Margareth Mead entre educação pós-figurativa, co-figurativa e pré-figurativa.
A cultura pós-figurativa designa o tipo de sociedade e de cultura em que as crianças aprendem dos mais idosos, isto é, dos que pertencem a pelo menos duas gerações anteriores.

Este tipo de educação foi a típica das sociedades humanas durante milénios, acrescenta a antropóloga norte-americana. Mas para se dares é imprescindível que os câmbios sejam muito lentos, de tal jeito que o modo de vida dum bebe não seja muito diferente da dum ancião. Obviamente, o Carregán e os seus sucessores estão no limite duma transformação que definitivamente vai fazer menos audível a voz dos maiores.

Um dos aspectos dos que se fala na entrevista é a grande explosão demográfica da que o velho marinheiro foi testemunha. Tendo em conta que está a piques de cumprir os oitenta anos deveu nascer cerca de 1855. Nas suas oito décadas de vida, a Arousa passou de ter uns mil habitantes a quatro mil. Este impulso demográfico não se deu por colonização migratória, assim que só se pode explicar pelas melhoras na alimentação e no controlo das enfermidades. Nestes dois factores deveu ser muito importante o estabelecimento das fábricas de conservas que proletarizou as mulheres, pouco úteis mal alimentadas ou enfermas.
Seguindo com a caracterização do Carregán como a do sábio xamã, dá-se-nos uma interpretação arousã da vida em harmonia do homem primitivo com a natureza. A toninha, (o de toulinha é um erro do jornalista ou um localismo?) não pode ser vista como inimiga, senão como competidora. O uso de explosivos é uma deslealdade da que nada sabem os funcionários nos seus gabinetes. O facto de que um comandante da marinha tenha de encartar a orelha e dar-lhe publicamente a razão amostra às claras quem está em posse da autoritas.
Mas são tempos de trocas, chega a luz eléctrica e o cinema. No Capitol põem El desfile del Amor (The Love Parade) de Lubitsch, com Maurice Chevalier e Jeanette MacDonald. Tendo em conta que esta película estreou-se em 1929, a Ilha só chegou com seis anos de atraso.
Como colofão, na derradeira página da revista, não como feche do artigo, o velho marinheiro sai retratado junto ao jornalista, sentados e conversando nos degraus dum patamar. O Carregán semelha uniformizado para a ocasião. Aparece em todo o seu esplendor a elegância do marujo com o seu colete, o seu boné e as calças cheias de remendos. O investigador aponta no caderno de campo as respostas, também aqueles castrapismos que incrustará no seu artigo como sinal de autenticidade.



Coda:

Para os ilhéus que leais esta postagem proponho-vos uma tarefa. Quem são as pessoas que posam nas fotografias? Quem é a rapariga que olha a câmara e que quiçá ainda viva? Quem é o raparigo que salta o muro? Quem é...?

domingo, 5 de abril de 2009

nº 30 Anjos músicos.

Faz uns meses, Isabel Rei enviou-me umas fotografias do Coro Alto do Mosteiro de S. Salvador de Cela Nova, onde aparecem umas talhas de anjos tocando diversos instrumentos, como uma sanfona, um alaúde ou uma harpa.

fig.1

Eu estivera no mosteiro em diversas ocasiões mas não reparara nestes seres alados interpretando uma espécie de consort celestial, primorosamente talhados pelas mãos dum artista experto.

Volvi a Cela Nova na procura de ver in situ as figuras do Coro e teve a sorte de ficar só ante elas na imensa solidão da Igreja. Fotografei quanto quis e sobre todo, captei a magia dum lugar singular, mesmo ultrapassando a mística natural deste tipo de edifícios. Nas outras visitas ao Coro Alto, as olhadas eram sempre para o gaiteiro representado numa misericórdia, para o órgão, o facistol e os grandes vitelos com notação gregoriana. Mas neste caso o bosque impediu-me ver às árvores, e os anjelinhos passaram desapercebidos.

De todos os instrumentistas fiquei especialmente impressionado pelo anjo que toca um clavicórdio. Lembrava vagamente alguma outra representação pictórica com o mesmo motivo iconográfico, mas o tipo de instrumento em mãos dos anjos tinha mais a ver com virginais, órgãos positivos e não tanto com clavicórdios das características do de Cela Nova. E por isto que ofereço aqui as poucas talhas que pude encontrar na que podemos falar dum modelo iconográfico idêntico, e dizer, a imagem dum anjo alado músico tocando um clavicórdio de caixa rectangular e cordas do mesmo cumprimento.

Fig.2 Orjais ©

A fig. 2 esta colocada no impressionante tecto da igreja de St. Mary em Shrewsbury. Desta imagem apenas existem fotografias e só tive acesso à ilustração que aparece em GALPIN, Francis W. (1932) Old English Instruments of Music, their history and character, [Methuen & Co. Ltd; London]. Afortunadamente, sim pude ver boas fotografias dalgum outro anjo de Shrewsbury, assim que optei por fazer um desenho combinando toda a informação da que dispunha. A semelhança entre a figura inglesa e a de Cela Nova é mais que evidente. Os cabelos, as dobraduras da roupa, a postura das mãos, o clavicórdio, semelham todos feitos por um mesmo patrão. Ambas estão datadas no século XV.

En Old Englsh Instruments... podemos ler o que se segue:

«O exemplo inglês está nas mãos duma figura alada gravada em madeira e colocado no tecto finamente decorado da nave da Igreja de S. Mary, Shresbury, construído durante a primeira metade do século [XV]. O instrumento é de forma rectangular, com nove teclas e seis cordas; depois foi provavelmente organizada em parelhas como no alaúde, três tangentes estavam por debaixo de cada par de cordas, quiçá de arame, ainda que também puderam ser de tripa.» p. 117-118

Fig. 3

A terceira das imagens pertence aos fundos do Rijksmuseum de Ansterdam. O grupo escultórico é obra de Adriaen van Wesel, que a fez em c. 1476 como parte dum altar da Sé de St. Jan, na cidade holandesa de Den Bosch. Novamente o modelo comum, o anjo de asas despregadas a interpretar uma música concertada no seu clavicórdio...

Segundo a datação que se maneja na actualidade, dos três exemplos aqui citados, a imagem mais antiga seria a inglesa, na primeira metade do século XV, depois viria a holandesa, c. 1476, e por último a galega, sempre apôs 1492.