sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

nº 23 Séneca, Foucault e Schopenhauer.

Séneca, Foucault e Schopenhauer.

Dos Hypomnématas à era dos blogues.

Michael Foucault (Poitiers, 15 10 1926 – Paris, 25 06 1984) publicou em 1983 um interessante artigo chamado L’écriture de soi. Este, segundo ele mesmo conta, fazia parte «duma série de estudos sobre as artes de si mesmo, é dizer, sobre a estética da existência e o governo de si e dos outros na cultura greco-romana, nos dois primeiros séculos do império.» As suas reflexões sobre os hypomnématas e a correspondência, transcendem a uma filosofia geral sobre a arte de ler e escrever em relação com a construção de um próprio como homem e como intelectual.
Nesta linha de pensamento, quando lia a Foucault, não podia deixar de ter em mente um livro do que já falei neste blogue: Pensamiento, palabras y música, de Arthur Schopenhauer (Danzig, 22 de Fevereiro 1788 — Frankfurt, 21 de Setembro 1860). Os dois discursos vão-se ensarilhando como se fossem cabos duma trança, com um parceiro que nos encaminha face à cultura clássica, ao filósofo estóico Lucio Anneo Séneca (Corduba, Hispânia, 4 a. C. - Roma, 65 d. C.)
Começa Foucault propondo-nos uma série de analogias entre a escritura do si e a vida ascética:
  1. Solidão. «A escritura de si aparece claramente aqui na sua relação de complementaridade com a anacoreses: mitiga os perigos da solidão e oferece a uma olhada possível o que se tem feito ou pensado.»
  2. Confissão. «A coação que a presença do outro exerce na ordem da conduta, o exercerá a escritura na ordem dos movimentos interiores da alma; neste sentido, desempenha um papel muito próximo ao da confissão ao director espiritual da que Casiano dirá, na linha da espiritualidade evagriana, que deve revelar, sem excepção, todos os movimentos da alma (omnes cogiationes).»
  3. Profilasse. «Por último, a escritura dos movimentos interiores aparece também, segundo o texto de Atanásio, como um arma no combate espiritual: [...] a escritura constitui uma prova e é uma espécie de pedra de toque: sacando à luz os movimentos do pensamento, dissipa à sombra interior na que se tecem as tramas do inimigo»

Existe um contínuo leitura-pensamento-escritura (não necessariamente nesta ordem) nos textos de Foucault e Schopenhauer, que vêm a explicar a importância de pensar por um próprio, da leitura como médio de aperfeiçoar esses pensamentos e da escritura como remate a um treinamento vital onde o facto de escrever ajuda a pensar e produz ideias novas.

  • Os excessos da leitura:

Glosando a Séneca, fundamentalmente as Epístolas morales a Lucilio, Foucault faz uma série de conjecturas a redor dos efeitos da leitura sobre a formação do indivíduo. Ler é preciso para apreender, pois ninguém pode chegar por si próprio à solução de todos os problemas.
«Se um passa sem cessar de livro em livro, sem se deter jamais, sem retornar de quando em quando à colmeia com sua provisão de néctar, e, por tanto, sem tomar notas nem constituir-se por escrito um tesoiro de leitura, expõe-se a não reter nada, a dispersar-se a través de pensamentos diferentes e a esquecer-se de si próprio.» Em palavras de Séneca: «Dissipa a multitude de livros».
Schopenhauer é muito mais radical nos seus postulados:
«Quando lemos, outro pensa por nós; repetimos simplesmente o seu processo mental. Algo assim como o aluno que está apreendendo a escrever e com a pena copia os caracteres que o mestre tem desenhado antes com o lápis. A leitura libera-nos, em boa parte, do trabalho de pensar.» Conclui o filósofo alemão com que «tal é o caso de muitas pessoas muito cultas. Terminam por ser incultas de tanto ler.»
A leitura tem de ser pois um médio para construir ideias próprias, não um fim para abalançar-se sobre a dos demais.
Dado a imensidade da obra escrita, há que rentabilizar a leitura de tal modo que não percamos o tempo com banalidades. Diz Séneca: «Assim pois, lê sempre autores reconhecidos e, se nalguma ocasião gostaras de recorrer a outros, volta depois aos primeiros.» Schopenhauer sempre rotundo assegura: «Nunca se lê demasiado a boa literatura e nunca demasiado pouco a má. Os maus livros são veneno intelectual: destruem o espírito. Para ler o bom existe uma condição; não ler o mau; pois a vida é curta e o tempo e as forças limitados.»
Segundo Schopenhauer, muitos fazedores de livros, são na realidade relojoeiros que vão construindo o seu discurso com peças tiradas de autores diversos procurando um perfeito funcionamento da obra final. Mas os verdadeiros escritores são aqueles que procuram à matéria na sua cabeça, os que são empurrados a pensar pelas coisas mesmas. Na sua ironia quase retranqueira o filósofo alemão espeta-nos. «Qual não seria a ciência de muitos homens se eles souberam todo o que está nos seus próprios livros.»
Séneca, não menos irónico, fala da necessidade de acudir de quando em vez à literatura dos antagónicos, se bem aclara que ele acostuma «a passar ao acampamento inimigo não como trânsfuga, senão como explorador.»
Na essência do dito até aqui estaria pois a necessidade dum critério à hora de escolher os livros que devemos ler, mas também a necessidade de reservar um tempo para reflectir sobre o lido para assim assimila-lo e sacar as nossas próprias conclusões.
Esta tarefa não é singela: «Pode um sempre sentar e ler, mas não... a pensar.»
Na minha opinião como bibliófilo, a leitura é uma arte, comparável a da escritura. O Bom Leitor, uma figura esta escassamente estudada pelas ciências cognitivas, possui um condão reservado só a uns poucos elegidos. Ele tem uma grande facilidade para duma passada de olhos pelo volume escolhido, tirar conclusões sobre a temática, o estilo e a pertinência da sua leitura. Como é lógico, possui uma fabulosa compreensão leitora, o qual faz com que quanto leia seja imediatamente assimilado pelo seu intelecto. Como ademais acumula uma grande bagagem, pode por em relação numerosos itens que se complementem e expliquem. Consoante a este poder metabólico e de rede bibliográfica do leitor, Séneca dizia: «Procuremos outro tanto com os alimentos que nutrem o espírito, não permitamos que fiquem intactos quanto tenhamos ingerido, para que não nos resultem estranhos. Assimilemo-los; doutro modo, irão ao acervo da memória, não ao da inteligência. Prestemos-lhes fiel sentimento e apropriemo-nos deles para que resulte uma certa unidade de muitos elementos, igual que de números soltos formamos um só, quando uma soa conta abarca sumas menores e diferentes entre si.»
Resulta evidente a influência de Séneca em Schopenhauer se pomos uma trás doutra as seguintes citas cujo tema versa sobre aquilo último do que vimos de falar:

  1. Schopenhauer: «Precisamente isto é o que faz também, em maior escala, o pensador científico. Ainda que precisa de muitos conhecimentos e deve, por conseguinte, ler muito, no entanto, o seu espírito é suficientemente forte para dominar todo isto, para assimila-lo e incorpora-lo no sistema dos seus pensamentos e subordina-lo assim ao conjunto orgânico das suas intuições grandiosas, sempre abertas a novos desenvolvimentos. E, no processo, o seu próprio pensar, como o baixo de órgão, domina constantemente tudo e não é nunca sufocado por outros tons, como sucede com as mentes puramente enciclopédicas nas que fragmentos musicais em todas as claves misturam-se confusamente e já não se ouve nenhuma nota fundamental.»
  2. Séneca: «Num coro há vozes altas, baixas e médias, timbres de homens e de mulheres: “Aí nenhuma voz individual pode distinguir-se; unicamente o conjunto se impõe ao ouvido[...] Outro tanto quero que aconteça na nossa alma, que disponha duma boa provisão de conhecimentos, de preceitos, de exemplos tomados de várias épocas, mas que converjam numa unidade.”»
  • De hypomnématas, correspondências e blogues.

Foucault define hypomnémata dizendo que «em sentido técnico, podiam ser livros de contas, registos públicos, cadernos individuais que serviam de ajuda-memória.»
«O seu uso como livro de vida, como guia de conduta semelha ter chegado a ser algo habitual em todo um público cultivado. Neles se consignavam citas, fragmentos de obras, exemplos e acções do que tinha sido testemunha ou cujo relato se tinha lido, reflexões ou razoamentos que se tenham ouvido o que provenham do próprio espírito. Constituíam uma memoria material das coisas lidas, ouvidas ou pensadas, e ofereciam tais coisas como um tesoiro acumulado, à releitura e à meditação ulteriores. Formavam também uma matéria prima para a redacção de tratados mais sistemáticos, nos que se ofereciam os argumentos e médios para lutar contra um defeito concreto (como a cólera, a inveja, a charlatanice, a adulação) ou para sobrepor-se a determinada circunstância difícil (um doo, um exílio, a ruína, a desgraça).»
Eram, pois, quadernos de trabalho de campo no mundo das ideias, não apenas dos outros, para, em definitiva, dar auxílio no complicado exercício de pensar.
Dizia um velho axioma romano: qui escribit, bis leguit. O mantimento dum inventário de citas consiste fundamentalmente em copiar e organizar. A cópia deve ser literal, referenciada bibliograficamente e indexada segundo temáticas, investigações abertas ou qualquer outro item por determinar. Antigamente, o pensador acumulava milhares de fichas nas que ter a mão o fruto de anos de leituras. Hoje, a tecnologia permite-nos criar bases de dados com inúmeras ferramentas que cruzam e filtram qualquer tipo de dados. Mesmo existem na actualidade programas informáticos criados para a gestão de citações.
Mas o hypomnémata é mais que um simples álbum de cromos. O que se pretende é ter um lugar onde ir depositando os fragmentos mais significativos de aquilo que nos estimula intelectualmente. Um exemplo do processo de criação dum destes hypomnématas poderia ser o que segue:

  1. Encontramos um fragmento dum texto que estimula especialmente o nosso interesse.
  2. Copiamos esse texto num volumem especialmente destinado a esse fim.
  3. Incorporamos referências bibliográficas que tratem sobre o mesmo tema do texto escolhido.
  4. Reflexionamos sobre os diversos pontos de vista que achegam os diferentes autores até lograr uma visão nítida do conjunto.
  5. Achegamos as nossas próprias opiniões ou ideias.

Obviamente, não se trata de fazer um tratado ou ensaio sobre o tema proposto pelo texto citado, senão de ter um artefacto que nos proporcione, com uma escrita ágil e eficaz, um ponto de partida para futuros trabalhos.
Investigadores, artistas, filósofos, etc., fazem dos seus cadernos de campo autênticos hypomnématas contemporâneos. Na algibeira de todos eles é habitual encontrar um caderno com anotações só compreensíveis para quem as realiza, alem de qualquer outro aparelho que lhes permita captar a realidade, como uma câmara de fotos digital ou uma gravadora de sons.
Desde um ponto de vista pós-moderno, resulta muito subgerente comparar os hypomnématas com o uso actual dos blogues.
O blogue nasceu como diário no que cada artigo é uma janela onde deitar e publicar as tuas opiniões sem depender de intermediários (editores, directores de jornais, etc.) As postagens estão cheias de citações directas ou indirectas a livros, filmes ou canções, muitas vezes glosadas pelas opiniões de blogueiros e visitantes.
Uma das características fundamentais dum blogue é a sua imediatice. O autor escreve quando se sente motivado, estimulado por algo que lhe aconteceu ou simplesmente quando pode. Postagem a postagem vai emborcando no seu diário digital o produto da sua experiência como ser humano, até chegar a um lugar comum com os hypomnématas para mim do maior interesse: tanto os diários da antiguidade clássica como os da era digital, são, apenas, a imagem intelectual do seu autor, independentemente de que esta chegue a nós em forma de vitela, papel ou ecrã. Dum modo cínico poderíamos dizer aquilo de que pelos teus blogues te conheceram.
Mas o blogue tem uma característica que não possui necessariamente o hypomnémata: o seu carácter público. A maior parte dos diários digitais foram feitos para ser publicados na rede e por este médio oferecidos ao maior número de pessoas possível. De entre todos os que formam a Grande Blogosfera, só uma minoria têm um interesse que pudéramos dizer universal. Há que pensar que muitos dos grandes artistas ou intelectuais do mundo possuem os seus diários pessoais, onde compartem todo tipo de ideias, em muitos casos com uma certa dose de frescura doméstica.
Existe, alem disso, um poder blogueiro, diários de referência que marcam tendências intelectuais e artísticas, linhas de pensamento, foros de debate, etc.
Mas o blogue é ante tudo um exercício de escrita, pelo que cabe aplicar o dito por Schopenhauer: «a primeira regra, pois, para um bom estilo – e que quase basta por si própria- é que um tenha algo que dizer.»

  • Volvendo ao princípio.

Principiávamos este artigo com as analogias que Foucault faz entre a escritura do si e a anacorese. Podemos fazer o exercício prático de filtrar os blogues em função da tríada que propõe o filósofo francês: solidão, confissão e profilase.
Resulta óbvio que a escrita é sempre um fato individual. Pensamos e escrevemos, nalguns casos quase simultaneamente. Mas internet, e nomeadamente os blogues, são realidades onde a solidão adquire novas dimensões. Porque deitamos a nossa intimidade na rede a olhos de qualquer curioso? Posso afirmar que em muitos casos por combater a solidão. Lemos, pensamos, passamos toda a nossa vida investigando, atesourando lembranças, informação e por fim, com quem compartimos o que sabemos? Os foros, o chat, permite-nos procurar pares com o nosso mesmo perfil em qualquer lugar do mundo, gente que tenta espantar a sua solidão de igual modo que ti. O blogue, alem disso, permite-te elaborar melhor os contidos, aprimora-los, etiqueta-los e complementa-los com imagens, áudios, sem mais limites que a tua capacidade criativa ou competencial.
Existe a crença de que Internet isola e impessoaliza as relações, mas isto nem sempre é assim. Muitos indivíduos com problemas de relacionamento encontram em Internet um médio de comunicação extraordinário, uma razão fabulosa para sair do seu ensimesmamento. Alem disso, já falamos como um blogue, por exemplo, é em muitos casos o reflexo da personalidade do seu criador, uma descrição em imagens, textos e sons da sua experiência vital ou da pessoa que em realidade quisera ser.
Também o blogue pode exercer o papel de confessor ao permitir-nos deitar em cada postagem, protegidos pela gelosia do ecrã, os nossos anseio, frustrações, medos, debilidades, etc. Mas a confissão vai ser ouvida por inúmeros usuários que estarão dispostos a modificar a tua conduta a través dos seus comentários. A blogosfera está povoada de olhos expertos e algum, sem dúvida, vai-te estar observando.
Por último, Foucault falava de profilasse, sendo a escritura de si como um arma no combate espiritual. Escrever e expor as tuas criações a um público potencial gigantesco, o qual nos ajuda a curar os pequenos ou grandes pecados do espírito. Um deles, por exemplo, o da vanidade. Quanto mais sólida crês que é a arquitectura do teu discurso, mais opiniões contrárias chegaram à tua caixa de correios. Mas quiçá o principal antídoto que nos proporciona o blogue seja contra a frustração de ver os teus trabalhos ocupando espaço em qualquer gaveta, pendentes de despertar o interesse dalgum editor.

  • Conclusões.

A motivação primária de esta postagem foi escrever sobre dois filósofos muito importantes na minha formação intelectual, mas, numa releitura prévia as conclusões, dou-me conta que o tema principal do meu discurso foi apenas a importância que na minha vida tem a escritura. Desde criança, com os primeiros poemas infantis, escrever foi uma condição imprescindível para sobreviver. Resulta difícil dizer a um amigo ou amiga o muito que o queres, encontrar parceiros com os que compartilhar os teus descobrimentos, manter uma conversa com alguém com suficiente tempo para que o importante não fique fora.
As redes sociais digitais são garrafas deitadas a um mar insondável, onde se calhar alguém se interesse da tua mensagem. A aprendizagem online, como ensino não formal ou informal, permite-nos focar o nosso interesse no que consideramos pertinente e não ter que desenvolver uma carreira de obstáculos, como no ensino formal, até chegar a meta que nos propusemos.
Por tanto, a conclusão não é minha, eu não posso rematar esta postagem com uma cadência final, porque não existe uma só resposta. A gente deverá reflexionar por que precisa de escrever, por que precisa de ser lida, por que, na época dos pós-modernismos, quis converter-se num bloguer.

Notas: Todas as citações foram tiradas das seguintes edições:

FOUCAULT, Michel, Estética, ética y hermenéutica, Paidós, Barcelona, 1999

SCHOPENHAUER, Arthur, Pensamiento, palabras y música, Madrid, EDAF, 1998

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

nº 22 A família Picón Conde.

Faz algum tempo fiquei impactado por uma nota de imprensa que dizia:
"Por no saludar la efigie del Caudillo en un cine de la Coruña cuando se proyectaba en la pantalla al tiempo de ser interpretado el Himno Nacional, fué detenido y conducido a la Comisaría de Vigilancia el vecino de la Isla de Arosa Jesús Picón Conde, de 29 años de edad, zapatero, residente accidentalmente en La Coruña.
Al ser llamado la atención a Jesús Picón por un agente de policia se insolentó con él."
El Compostelano, Santiago de Compostela, segunda-feira 30 de Agosto de 1937
No livro Historia da Illa de Arousa, de Xoán Dopico e Xosé Lois Vila Fariña, conta-nos como um irmão de Jesús morreu a mãos dos fascista submergido no mar da Arousa. Também no compostelano aparece o nome de Manuel Picón Conde, quiçá irmão dos anteriores, por ser declarado prófugo no recrutamento de 1933.
Eram, pois, uma família de contestatários, decididamente anti-sistema, dos que podemos tirar muitos ensinamentos.
Da Guerra Civil e dos anos do medo ainda fica muito por saber e aclarar. Brindo este espaço para quem queira ir resgatando fragmentos, tal como eu faço, perpetuando uma memória quase esquecida.
Pelo de agora vaia a minha homenagem aos Picón Conde e deixo aqui os nomes de ilhéus moradores dos campos de concentração francês, onde puderam ter coincidido com o meu tão admirado Eduardo Martínez Torner.

GARCÍA CASTELO, Francisco Campo de refugiados de Argelès sur Mer na França.

GUILLÁN ABALO, Alfonso Campo de refugiados de Argelès sur Mer, Vernet d´Ariège e no de Barcarès na França.

OTERO CUDEIRO, Juan Dios Campo de refugiados de Argelès sur Mer na França.
Fonte: Repertorio biobibliográfico do exilio galego: Unha primeira achega, Consello da Cultura Galega. 2001

nº 21 Sanfona

A Sanfona

Velha sanfona que trunfas
nas romarias e feiras,
quanto te querem, velhinha,
os que movem tuas teclas!
E não é muito, minha jóia,
que tal apego te tenham
os ceguinhos que te adoram
e a todas partes te levam
como um imã poderoso
para sacar as moedas
que nos bolsos, bem guardadas,
têm as gentes festeiras.

Quando o teu rodízio gira
roçando as cordas singelas,
e tangendo ceibas notas
muito melosinhas e meigas,
os cegos põe-se fonchos
e entoando quadras ledas
um sorriso te doam,
e por ver-te, quanto deram
se as portas dos seus olhos
não se encontrassem tão fechas!

Quiçá em tempos passados
fostes nobre companheira
dos galãs muito namorados
que, a beirinha da reixa
do ninho da sua amada
entoavam doce queixa...
e agora encontras-te pobre...
pobre como quem te leva!


Velha sanfona do cego,
pelos favores que emprestas
aos que têm neste mundo
obscuridades eternas,
ainda velha, muito vales!
Vales de oiro quanto pesas.
Sanfoninha, nunca faltes
nas romarias e feiras,
pois tanto ti como a gaita
sois relíquias galegas.

Poema:
Manuel Nóvoa Costoya
Eco de Galicia. Havana, 1 de Janeiro de 1935. nº 379 p. 20

Pintura:
Luis Menéndez Pidal (Pajares, Asturias; 1861 - Madrid, 1932)

versão galego-portuguesa: Orjais.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

nº 20 Juan Goday Gual

O presente artigo pretende ser tão só uma biografia de Juan Goday Gual feita seguindo as pegadas que ao longo da sua vida foi deixando na prensa escrita. O único que pretendi é oferecer a informação ordenada, com a promessa de que qualquer dado novo que vaia obtendo irá acrescentando esta postagem. Resultam muito interessantes as novas sobre a visita casual a Ilha do rei Afonso XII, a bota-fora do vapor Teresa Goday, com a presença na mesma nada menos que de Alfredo Brañas ou as relações de amizade e familiares que os Goday mantiveram sempre com a Pequena Catalunha, o grupo de fomentadores catalães instalado nas nossas rias.

«A nuestro distinguido amigo D. Juan Goday dueño de la fábrica de salazón y conserva que S. M. el Rey visitó en la isla de Arosa cuando durante su estancia en la Ría del mismo nombre se vió obligada la escuadra a permanecer en sus aguas, le han sido concedidos los honores de proveedor de la Real Casa y el uso del escudo de armas reales en las muestras, facturas y etiquetas de las referidas fábricas. Damos la enhorabuena a Sr. Goday por la nueva distinción real de que acaba de ser objeto.»
Gaceta de Galicia, Ano III, nº 806, 27 de Outubro de 1881.

«Escenas contemporáneas
D. Juan Goday y Gual
Hijo de D. Juan y de Dª María de la Concepción, nació en Canet de Mar, provincia de Barcelona, el 23 de enero de 1838. A la edad de trece años pasó a Villanueva de Arosa, en la provincia de Pontevedra, al lado de su padre, que era a la sazón gerente de la acreditada casa titulada de Manuel Godoy (sic) y Compañía, dedicada a la industria con tres fábricas de salazón en la hermosa ría de Arosa. Bien conocido era en todo el país el establecimiento, pues databa su fundación desde fines del siglo pasado.
Disuelta la asociación el año de 1862, el joven Goday se estableció por cuenta propia al frente de una fábrica de salazón en la Isla de Arosa, ampliando su industria con otras tres fábricas en los puntos de Montalvo, Melojo y Rianjo.
Pero bien pronto hubo de limitar sus trabajos, sobremanera útiles para multitud de familias de aquella comarca, obligado por las circunstancias desfavorables por que ha atravesado y atraviesa aquella insustria. Con sólo las fábricas de Rianjo y Arosa, cuyos edificios son de su propiedad particular, habiendo montado en esta última localidad en 1880 una fábrica de pescados en conserva, principalmente de sardina, sus productos fueron premiados con medalla de oro que obtuvieron en la Exposición de Londres.
No contento con esto el Sr. Goday, cábele la satisfacción de haber sido uno de los primeros que han montado una fábrica de vapor para freir sardina, la cual tuvo la honra de enseñar a S.M. don Alfonso en la visita que en agosto de 1881 hizo a dicho establecimiento, y a la salazón que posee en el mismo punto. El Rey, para dar una prueba de lo grato que le habían sido los adelantos hechos por el inteligente fomentador, se sirvió agraciarle con la distinción de proveedor de la Real Casa, y además dejó para repartir entre los operarios la suma de 3.000 rs.
En la actualidad está montando con iguales aparatos otras fábricas de conservas en Rianjo.
El país, que conoce cuanto debe al Sr. D. Juan Goday, le eligió diputado provincial desde 1871 al 1876; mas no es la política lo que llama la atención de este benemérito industrial, que es tambíen socio de la ilustre Sociedad Económica de Amigos del País de Santiago.»
Escenas contemporáneas, 1883 Ano I; tomo III [Tip. de Manuel G. Hernández; Madrid]

«Exposición de pesca en Londres.

Hoy se han dado a conocer al público las recompensas concedidas por los jurados, y siendo así podemos también nosotros ponerlo en conocimiento de nuestro país, y para satisfacción también de los interesados.

Han obtenido medalla de oro:

D. Carlos Piró, D. Pedro Mier, D. José Borrull y Fabra y compañía, de Barcelona, por redes para pescar.

D. Juan Goday, de Villanueva de Arosa, y D. Fernando Pérez Casariego, de Tapia (Asturias), por conservas.

Museo Naval de Madrid, por sus colecciones.[...]»

Escenas contemporáneas, 1883 Ano I; tomo III [Tip. de Manuel G. Hernández; Madrid]

«Pontevedra.

Diputación provincial.-Presidente. D. Eduardo Matos Santos.

Comisión permanente.- Vicepresidente. D. Gumersindo Otero García.

Vocales, D. Gaspar Massó.

D. Fermín Alfaya.

D. Juan Goday Gual.

D. Román Casares.

D. Antonio Aguiar.»

Guía oficial de España. 1889

«Acontecimiento en la Rías Bajas

Nos escriben de la isla de Arosa que lo ha sido y muy grande le acto de la botadura del vaporcito Tersa-Goday, construido en un astillero improvisado en las riberas de la Isla por el infatigable, laborioso y dignísimo amigo nuestro Sr. D. Juan Goday, rico fabricante de conservas en dicha isla.

Personas ilustradas é imparciales elogiaban la iniciativa y el espíritu emprendedor del Sr. Goday, que con los escasos elementos de que alli puede disponerse, consiguió llevar a feliz término la construcción de un vaporcito, dando ejemplo a los gallegos de lo mucho que se puede hacer cuando a la apatía y a la indiferencia sustituyen el patriotismo y trabajo honrado.
El entusiasmo que reinaba en la Isla el sábado 18, era grandísimo: desde Carril fueron en una gran gabarra elegantemente decorada por los hijos del Sr. Buhigas Ulpiano y Juan, además del Sr. D. Salvador Buhigas y su señora la familia de Acosta, Rueda, Harguindey, Orense y Casulleras, los señores D. Ramiro Rueda y D. Alfredo Brañas, Catedráticos de esta universidad, los Administradores de las Aduanas de Villagarcía y Carril, el vista Sr. Rasilla, el ilmo señor don José Mª Portal, Lectoral de esta Basílica, los Sres. García Hervilla y Roig, párrocos de Carril y Deiro respectivamente, varios señores capellanes, el joven abogado D. Isaac Rovira y el fotógrafo Sr. Reguera.
La gabarra iba remolcada por el vapor Goday donde a su vez tocaba alegres aires populares la banda de música de Villagarcía, dirigida por Rubianes. La alegría y la satisfacción reinaba en todos, especialmente en la familia Buhigas, ligada por vínculos de parentesco á la del Sr. Goday.
A las tres de la tarde el Sr. Portal, por delegación del Sr. Párroco de la Isla procedió a la bendición del nuevo buque, estando dicho Sr. Lectoral auxiliado por el Sr. García Hervilla y por los capellanes de la isla y de Carril. Aquella hermosa ceremonia fue presenciado por todos los invitados bajo un toldo improvisado sobre el arenal. y ademas por numeroso público de la isla, de Villajuan, de Villagarcía y de Villanueva.
El fotógrafo Sr. Reguera tomó varias vistas desde el mar. El cuadro era sorprendente y conmovedor.
La simpática señora de Goday, al lado de su esposo y rodeada de sus hijos presenciaba conmovida aquel acto: de pronto se rompen las amarras, y el casco del Teresa Goday se deslizó magestuoso, erguido y elegante hasta las aguas de la ría. Resonaron en los aires, bombas, gritos y vivas formando una alegre e imponente confusión. La banda del Sr. Rubianes rompió a tocar la marcha real, a cuyo compás el buque se deslizaba por sus ensebados carriles.
Todos se apresuraron a abrazar al Sr. Goday, y a felicitar a su señora e hijos, así como a su amable y cariñosa hija política Dª Matilde Buhigas, y su familia, que tanta parte tomaban en la satisfacción legítima de que se hallaban poseídos el Sr. D. Juan Goday y los suyos. El banquete que siguió luego,de más de cuarenta cubiertos fue espléndido, acreditando una vez más la fama que en esto goza el Sr. Goday. Hicieron los honores de la casa el señor Goday y sus hijos Juan y Matilde Buhigas. Descorchadas las botellas de Champagne de las mejores marcas inició los brindis el Sr. Administrador de la Aduana de Carril que felicitó al Sr. Goday.
El ilmo. Sr. D. Ramiro Rueda pronunció un sentido y elocuente discurso admirando la constancia y laboriosidad del Sr. Goday y brindando por la prosperidad de la industria gallega. Inspirados estuvieron tambien los discursos de los Sres. Portal, García Hervilla y Brañas aplaudidos con entusiasmo por sus felices conceptos y su facilidad de palabra. El Sr. Cura de la Isla cerró los brindis con uno muy cariñoso por la salud y prosperidad de la familia Goday.
Originales y muy oportunos fueron los versos que el joven Isaac Rovira dedicó al señor Goday. A cada paso eran interrumpidos por las risas y los aplausos de los comensales. El joven Rovira fue abrazado por todos y felicitado con gran entusiasmo.
En suma, que el acto resultó brillante por todos conceptos y digno del acontecimiento que se celebraba, que lo fue y muy grande construir un vapor en estas rías y para ello improvisar un pequeño astillero.
El Sr. Goday ha recibido muchas felicitaciones, y nosotros añadimos también la nuestra muy cordia al acaudalado fabricante de las rías bajas...»
Gaceta de Galicia, Ano XXI; nº 208, 21 09 1891

Gaceta de Santiago, Ano XXX; nº 139, 26 06 1900

«Con medalla de oro resultan premiados los aceites de oliva expuestos por Jesús del Prado y Compañía; las sardinas en aceite de Juan goday, de Rianjo, y los productos de las Salinas de la Trinidad, de San Carlos de la Rápita.»

Crónicas de la Exposición de París. La Ilustración Artística, 12 11 1900

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

nº 19 A gaita, o gaiteiro e os lobos.

Formoso poema da conhecida história da gaita e o lobo. Faz muitos anos, um velho gaiteiro do Valadouro contou-ma como se lhe acontecera a ele próprio. Esta versão poetizada foi publicada em El Compostelano, 3 de Agosto de 1928.

A GAITA, O GAITEIRO E OS LOBOS
Non é conto... Certo foi!
outros moitos, e buliron
ventos, por onde non doi.
Na parroquia do Aparral,
terra da vila das Pontes,
-entre ríos, vales e montes,-
do partido ortigueiral.
Vindo unha noite das fías
un gaiteiro e seu rapaz,
tras os ouveos dos cans,
ouviron... non ladaíñas!
Dous lobos, no amencer
famentos lobos, ouvean:
e carne humana olfactean
e xa chegan para comer.

Nisto, o gaiteiro berrou:
e co rapaz xa rubindo
por un carballo, ruxindo,
cheo de medo rosmou:
- Os lobos! Quen ollara
nosa vida, ou nosa morte?
Eles son dous; polo norte
ben os vin! Xa chegan, xa!-
E logo os lobos chegaron
a ouvear na carballeira,
e do carballo na beira
coas pouta ben acovaron.
O redor do carballiño
unha cova eles fixeron:
para que caira, lles deron
ás poutas moito camiño...
E viña abaixo, o carballo:
mais, lixeiriño o gaiteiro,
e seu rapaz, ben lixeiro,
brincan noutro... Bo traballo!
E foi co fol, o brincar
o gaiteiro, -sen xa ter
nin forzas para o soster-
co roncón deu en roncar.
Feitos dous cans de palleiro

os lobos foxen brincando:
tolos, de medo, ouveando
pola gaita do gaiteiro.
Dera co cóbado ao fol
o gaiteiro, sen querer,
e despois, houbo que ver:
salvos viron vir o sol!
Rindo, o gaiteiro e o rapaz
déronlle entón a gaitiña,
até chegar á casiña,
sempre ollando para atrás.

José Fernández Merino

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

nº 18 Turnê María Manuela 2009

Como acontecia o ano passado, nos meses de Fevereiro e Março vou formar parte da banda que acompanha à cantora María Manuela. Como novidade, nesta turnê acompanham-nos três vozes amigas: Pilocha, Paloma Suances e Xiana Lastra. Não é fázil poder ir a um espectáculo onde se transmita tanta e tão boa poesia (Manuel María, Celso Emilio, Emilio Pita, Ana Caxiao, etc), quase que toda ela musicada magistralmente por Miguel Varela ou a própria María Manuela. Mas por cima de tudo somos uma pequena família que afirmamos com o nosso trabalho aquilo que cantara Vozes Na Luta:

A poesia e uma arma,
eu não sabia,
todo depende da bala
e da pontaria.



As datas marcadas até hoje são:



-7/o2/2009 Betanços.

-6/03/2009 Padrão

-13/03/2009 Lugo

-14/03/2009 Vila Nova de Lourença


Se queres ver o book do espectáculo preme aqui.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

nº 17

Lua sobre os montes de Isorna. Orjais ©


Sou um poeta desocupado...

habite-me.

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domingo, 15 de fevereiro de 2009

nº 16 O estranho caso da borracha-tijolo

Nas turmas de aqueles anos, alguma de mais de trinta ou quarenta putos, meia dúzia de sobrenomes se misturavam entre eles para identificar a indígenas fruto de séculos de endogamia e insularidade. Além da linhagem, muitos dos seus nomes semelhavam ancorados no passado. Havia Albinos, Eugénios, Genaros, Amadores, Eládios, Silvérios, etc.
Quando uma criança possuía um apelido exótico como o meu, de imediato éramos considerados forasteiros e com esta expressão faroestiniana havia que apreender a viver, até que o tempo te ia acomodando á paisagem.
Já eu tinha alguns anos de escolaridade obrigatória quando um dia ao estar o professor a fazer chamada, (ao contrário do que lhe acontecera a Pedrito Fernández, o da mochila azul), descobri que na minha turma havia uma nova forasteira. A primeira reacção foi de alívio, pois era mais que provável que por um tempo deixasse de ser o branco perfeito, e a segunda, a de pensar como fazer para me unir à comissão de bem-vindas.
Aos que falávamos espanhol os colegas qualificavam-nos simplesmente de parvos. Eu fora parvo toda a vida, mas estava a progredir para deixar de se-lo. A menina nova ainda era mais parva do que mim, pois ela falava um espanhol perfeito. Devia ser filha dum trabalhador dalguma caixa económica e a pobre parecia um passarinho caído do ninho, morto de fome e frio.
Quando saímos ao intervalo, sem pensa-lo duas vezes, fui cara ela e espetei-lhe na cara:
-Tu és parva.
Naquele mesmo instante aprendi o significado disso que chamam discriminação por razão de género. Os meus pares ficaram a olhar para mim como dizendo:
–Não te passes com a rapariga.
Fiquei muito chato. Pelo visto havia dois tipos diferentes de forasteiros, os que levavam carapitos e os que não.
Desde aquele mesmo dia a moça ficou como um prego cravado no meu coração.
A menina sentava-se justo as minhas costas, o qual agradecia, pois quando menos não tinha que fazer esforços por não vê-la. O mau e que sim podia ouvi-la, com o seu perfeito parviniano, e até cheira-la. Foi precisamente um adoçado cheirinho a nata o que chamou a minha atenção. Quando virei a cabeça, sobre a mesa estava a primeira borracha-tijolo que olhei na minha vida.
Era algo fantástico, enorme e com um recendo a bolacha verdadeiramente indescritível. Foi suficiente uma olhadela para decidir que aquela delicatessem ia ser minha.
Teve de ser muito persuasivo para lograr que o meu parceiro de mesa e melhor amigo durante todo o primário, consentira em associar-se comigo para cometer o maior roubo que jamais tivéramos feito, (no meu caso confesso que era o primeiro).
Ao ter jornada partida, o material escolar ficava sobre a mesa até a tarde, assim que a estratégia era sair os últimos e perpetrar o latrocínio dissimuladamente, já que o professor aguardava na porta para fechar a sala de aulas. Fui eficaz como um experimentado Arsèn Lupin.
Fora do recinto, e em previsão de que ante a sua desaparição pela tarde houvesse revista, decidimos ocultar a borracha-tijolo entre umas silvas, num pinheiral que ficava de caminho ao nosso bairro.
O jantar foi angustioso, com a adrenalina ainda sem descer de tudo e cônscios do mais que provável rebuliço que se ia produzir de tarde. Eu já estava a ver ao chefe de turma ou quiçá, meu Deus!, até o director, a dizer:
- Aqui não sai ninguém enquanto não apareça o ladrão ou ladrões.
Mas a tarde produziu-se uma milagre. A menina, discreta, nem perguntou se alguém vira a sua borracha, por outro lado difícil de se ocultar entre os livros ou cadernos. Não sei que passaria pela sua cabeça. Quiçá era a primeira rapariga que eu conhecia farta-de- tudo, dessas que não lhe dão mérito a nada, que tem tanto que logo aborrecem qualquer coisa, ou tal vez, sendo nova entre os ilhéus, simplesmente não se atreveu a provocar um conflito na turma. Fosse como for, a tarde transcorreu, chegou a noite e na solidão do quarto, entre os lençóis, o medo a ser descoberto deu passo a uma sensação muito pior, o sentimento de culpabilidade. Por primeira vez escutei o meu coração a latejar no peito, batendo na noite como um martelo a fazer cacos o meu cérebro infantil. Já na arraiada decidi que tinha de restituir o roubado, pois ficava claro que não poderia viver com aquele peso o resto da minha vida.
Ao dia seguinte o meu amigo confirmou-me que na noite passada houvera quando menos dois putos ilheus que não pegaram olho.
A estratégia agora ficava clara. Antes de ir para a escola, passaríamos pelo pinheiral e recuperaríamos a borracha. Na saída para o intervalo, ou em qualquer outra, ficaríamos novamente os últimos e silandeiramente pousaríamos o roubado sobre a mesa da colega.
No meio do pinheiral havia um grande pinho manso com uma arrandeeira pendurada. Próximo a ele, uma silva com as amoras todavia de cor vermelha. Metemos a mão entre as espinhas e sacamos a borracha-tijolo, ou melhor dito, o que ficava dela. Fora mordida, picada, esfarelada... Da sua aparência original só ficava parte do letreiro no que com letras maiúsculas podíamos ler: NATA.
Eu não disse palavra e acho que o meu parceiro também não diz nada. Soltei aquele queijinho gruyère como se queimasse, fiquei uns segundos olhando para ele, o qual jazia esquartejado sobre o arume, ergui-me e tomei uma nova decisão: passar página definitivamente.
O que restava de caminho à escola foi para nós os dois um passeio que por silencioso resultou atípico, mas jamais voltamos a falar da borracha-tijolo, nem do que aconteceu aqueles dias.
A rapariga não durou muito entre nós. Quiçá por não denunciar o roubo cheguei a ter-lhe certo aprecio, mesmo que nunca cruzáramos palavra; há que lembrar que era parva. Ela fiz muitos intentos de que nos levássemos, escreveu-me cartinhas, picava-me com o lápis acabadinho de afiar, mandava recados por amig@s comuns, mas eu não correspondia. Deixou de tentar qualquer coisa comigo o dia que quase lhe parto a tíbia duma patada, mas essa é outra história.