segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

nº 15

Luis de Morales (1500 - 1586)
A concavidade duma mão
é a medida de capacidade
com a que podemos calcular
o volume dum peito.
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quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

nº 14 Pregão da Gaita Galega 1852

A Gaita Gallega de João Manuel Pintos é uma obra singular pelo que tem de pioneira mas, sobre tudo, pela valentia que amostra a hora de tratar o conflito linguístico entre o galego e o castelhano. Os protagonistas da história, como na gravura de Goya, personificam o mundo ao revés. O que fala castelhano é o criado-tamborileiro Pedro Luces, o qual acode onda o gaiteiro do Leres aprender a falar galego e tocar a gaita.
Desde um ponto de vista antropológico-musical, A Gaita Gallega resulta um autêntico manual do que era a aprendizagem tradicional dum aspirante a gaiteiro. O ofício havia que apreende-lo desde a base, tocando os arruídos, acompanhando ao mestre e alimentando essa condição imprescindível dum bom gaiteiro: o orgulho de se-lo.
Em 1852 os gaiteiros começavam a competir com as murgas, nos teatros soavam as gallegadas, descafeinadas evocações duma moinheira, e a intelectualidade galega estava a descobrir um filão inesgotável para os seus textos e reivindicações: a cultura do povo.
Antes de tirar do prelo as primeiras brochuras de A Gaita Gallega, Pintos publicou o texto que transcrevo a continuação a modo de anúncio, como uma pequena jóia cheia de intenção e duplos sentidos. Alguma vez, comentaremos pelo miúdo o muito de interessante que nos oferece, mas pelo de agora, desfrutemos da sua formosura.


PREGÃO DE A GAITA GALEGA
Já fez tempo que estou eu, o Gaiteiro, falando só e dizendo para mim: que terá, Senhor, esta fala galega para ser tão repudiada incluso pelos mesmos filhos de Galiza? Será tão bujão de termos que não se possa por ela desafogar o entendimento com claridade? Estará amaldiçoada? Terá algum feitiço? Botariam-lhe alguma paulina para que se desbandasse e esmigalhasse de maneira que não se pudesse juntar jamais e, em pena dos nossos pecados, somente ficassem anacos e cachos dela espalhados sem travação para eterna memória de semelhante praga? Será tão agre e brava que se encarrapitam as orelhas e fechem os ouvidos com a repugnância de tão duro som? Não e não, diz o Gaiteiro. Matinando, pois, decote com esta ideia fiz-lhe um fato novo a minha gaita e pendurei-lhe no ronco uma borla das festas para começar as minhas foliadas e tocar umas tocatas do trinque, fazendo que os chios de esta música nova se ouçam quando menos em toda A Galiza. Ruim seja quem por ruim se tem. O Gaiteiro bem sabe que não há pior cunha que a do mesmo pau; mas, assim e tudo, já não há atrancos nem barrancos que o detenham no caminho. Assim, pois, em acabando de pôr as penas à sua monteira, ai o tereis mais plantado e mais garrido que Guerineldos, enchendo as fróias, apertando o fole e convidando a todos os seus paisanos. A Gaita, como é nova, tem certas técolas para o tempero e não faltarão, nas foliadas, adufes, ferrenhas e conchas; e, de quando em quando, soará a sanfona com os ferrinhos. Venha!, bailadores, ide-vos pondo currutacos para vir à festa, que possa que não vos arrependais; pois, ao fim e ao cabo, eu não ando com pantominadas nem prometendo O que não hei de dar, como fazem muitos farafulhas que com quatro guedelhas muito encrouchadas ou com quatro pelinhos de cabrão se vendem por grandes e afamados músicos, resultando que todo quanto tocam é uma gaiteirada; e, desde que fazem o seu ordenado, vão-se rindo e vos quedais rangendo. Eu já vos desengano em tempo. Nem piano, nem órgão, nem chouta, nem chifre vos vou tocar, nem vos ofereço aberturas nem fechaduras, nem duos nem vinte e quatros, nem orquestras nem barulhadas, nem outras tolerias. A Gaita, meus amigos, a Gaita é para o Gaiteiro, e o tamboril para o tamborileiro. Nem mais nem menos que gaiteirada e mais gaiteirada vos vou fazer para que nenhum alarve usurpe a jurisdição do Gaiteiro, Santo Idioma Galego seja comigo, pois ao pé da sua capela e debaixo do seu alpendre vou fazer eu esta romaria.
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quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

nº 13 A guitarra de Antonio de Puga

Antonio de Puga
Fonte: Colec. particular (Inglaterra)

Trás a postagem anterior, estive a recordar algumas imagens que tinha no meu arquivo, mais bem da memória, sobre artistas, mormente músicos, dos quais gostaria de dizer qualquer coisa.


O esplêndido quadro que encabeça este comentário é obra de Antonio de Puga, nascido em Ourense em 1602. Pintor da corte de Filipe IV, possa que seja o nosso artista mais internacionalmente reconhecido, com obras em museus de todo o mundo como o Ermitage ou o National Gallery.
Como acontecia com as imagens do postagem anterior, nº 12, a personagem representada é um artista (músico) ambulante, neste caso um cego de guitarra.


De Manuel de la Cruz conservamos este outro exemplo com uma temática idêntica à do mestre ourensão.
Cego com guitarra e cão. S. XVIII
Manuel de la Cruz.
Atribuído a Antonio de Puga temos também o retrato dum tamborileiro, propriedade hoje em dia da Fundação Caixa Galicia.

O tamborileiro

Fonte: Fundação Caixa Galicia


Rosácea da quitarra do quadro de Antonio de Puga.

domingo, 18 de janeiro de 2009

nº 12 Um bugulu do Bosch

Este Natal, Teresa, a minha mulher, presenteou-me um livro (dois volumes) formosíssimo da editorial Tashen, titulado Los secretos de las obras de arte de Rose-Mari & Rainer Hagen. Os autores analisam as imagens intentando explicar todas aquelas coisas que não vemos a primeira vista. O mau é que as vezes também querem explicar o que resulta simplesmente óbvio. Isto acontece, por exemplo, no famoso quadro do Bosch, O Carro de Feno. No ângulo inferior esquerdo da tábua aparece uma figura descrita deste modo:



"A la izquierda aparece un hombre, un titiritero por el alto sombrero negro, que lleva un niño en la capucha al que quizá haya raptado."




Fonte: Museu do Prado.

A personagem central, a do alto chapéu, é um cego que se apoia num guia, o seu criado. Leva um capote cumprido e assomando pelo capuz vemos a cabeça e o braço estendido duma marioneta.
A técnica que executavam estes artistas ambulantes consistia em manipular um boneco de mão usando como telão o capote e como manipulador o próprio cego ou o criado.

Muito conhecida é a imagem de O Galego dos Curritos, obra do pintor Leonardo Alenza y Nieto, (Madrid, 1807-1845).

Fonte: Museu do Prado.

Esta cena mostraria a performance dum músico nas ruas de Madrid vários séculos apôs do quadro do Bosch.

Por último, resulta curioso ver como o sanfonista pintado por Fierros, actualmente no Museu de Lugo, tem os atributos próprios do artista ambulante, comuns aos três desenhos: grande chapéu, cumprido capote e uma moca ou pau na mão para servir de bordão ou assegurar-se a superioridade nos maus encontros.

Fonte: Museu de Lugo.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

nº 11 Um poema de Maiclar

Na hemeroteca virtual da Real Academia Galega podemos ler o poema titulado La Aceñera. Está assinada por Maiclar, pseudónimo de Marcial Valladares Núñez. Foi publicado em 1845 na revista La Aurora de Galicia, cabeçalho baixo o qual se agrupavam os integrantes da primeira geração de provincialistas.
Resulta curioso o feito de que este poema não apareça nas obras completas nem noutras monografias sobre o escritor da Estrada publicadas até hoje. Suponho que o facto de ter sido assinada com um pseudónimo deveu fazer que o poema passara desapercebido.
Quando Marcial Valladares publica La Aceñera levava vivendo em Samora apenas oito meses. Vive lá só com seu pai, longe de Galiza e da sua casa petrucial de Vilancosta. Tem saudade, uma morrinha que combate lendo a Lamartine, Mesonero Romanos, tocando o seu violino ou escrevendo ingénuos poemas como o publicado na Aurora. Mas, alem do puramente literário, o texto de Valladares permite-nos fazer um par de reflexões que acho podem ser de interesse.
1. O facto de publicar em La Aurora de Galicia, demonstra que mesmo na distância, Marcial Valladares segue a ter uma boa relação com o círculo da Academia Literária. Entre as assinaturas ilustres do jornal compostelano estão a dos colegas académicos J. M. Posada (fundador do Faro de Vigo), J. M. Gil (homeopata santiaguês) ou o grande poeta Francisco Añón.
2. O poema tem como personagem principal a uma mulher, a azenheira, que canta uma cantiga que espanta ao Valladares. Os ouvidos do polígrafo estradense estavam treinados para a música patrimonial, a qual já se dedicara a recolher na sua aldeia natal quando menos desde 1840. As duas estrofes finais do poema de La Aurora, o momento mas formoso de toda a composição, fala do parecido que encontra o autor entre o canto samorano e outro ouvido por ele a um galego tempo atrás.

Ninfa del Duero, bien haya
quien tal voz y humor te há dado:
tu cantar me há consolado
en mis cuitas y dolor.
Que lo he de aprender te juro
y mas por ser parecido
á uno en Galicia aprendido
del aldeano cantor.

A mi país delicioso
sirena, me has trasportado
dondo otro tiempo he amado
com infantil ilusión.
Donde ofreciera mil veces
el alma la vida entera
cual tu ofreciete, Aceñera,
á los aires tu canción.
Este fragmento pode, de algum modo, insinuar-nos como era o labor etnográfico de Marcial e por extensão, dos pioneiros da recolha etnomusicológica na Galiza. Acho que as mais da vezes o documento aparecia por casualidade, sem ir ao seu encontro e antes de passa-lo a pauta, já na oficina, havia que o reter na memória. Nesse transito tão delicado, a melodia podia sofrer perdas ou modificações, mas também eram melodias escutadas no seu contexto, dum modo natural e não forçado pelo investigador.


La Aceñera

domingo, 11 de janeiro de 2009

nº 10 Amo-te Teresa

O 2008 foi, falando em termos estritamente musicais, um ano esplêndido para mim. Apôs tomar posse faz quinze anos duma vaga de professor de primário, a minha relação com o mundo da música fica num plano meramente teórico. Durante este tempo dei aulas, investiguei, escrevi muito, mas afastei-me radicalmente dos cenários. Suponho que depois de começar tão novo um chega a empanturrar-se de tal jeito que mesmo pode aborrecer o que durante tanto tempo amou profundamente.

Porém, até a mais forte indigestão, se é que não te leva a tumba, tem por força que passar alguma vez. E a mim passou-se-me neste 2008 no que teve ocasião de me voltar a sentir músico ao lado de algumas das pessoas a quem mais estimo nesta profissão.
Comecei o ano fazendo uma pequena turnê por Galiza acompanhando a cantadeira María Manuela. Cada vez que vou tocar com ela sinto que de algum modo estou a ser protagonista activo da história da música popular do nosso pais. Ela é um exemplar, infelizmente em extinção, de pessoa dada em corpo e alma a cultura do seu pais. Durante os seus muitos anos de cantadeira, o seu primeiro single é do 1974, jamais deixou de cantar em galego, desistindo das muitas ofertas que teve para o fazer em castelhano. Alem disso, foi das primeiras, quiçá com o Xoán Rubia, em incorporar ao seu repertório peças trazidas de Portugal. No caso do cantor de Mugardos, lembrar a formosa versão de Maria dos Vozes na Luta.

A família que acompanhamos a Manuela somos o Xurxo Varela, o seu filho, grande experto em música antiga, Paco Barreiro, excelente guitarrista e um dos melhores dubladores de vozes para o cinema e a T.V. da nossa terra, Manuel Dopico, meu irmão, o depositário de tudo o talento que guardavam os cromossomas dos meus pais, e eu mesmo.

No verão teve ocasião de tocar com o grupo do luthier e viola Francisco Luengo, Malandança. O repertório girava entorno às cantigas de Martim Codax, cantadas pela voz espectacular de Paulina Ceremużyńska. Durante anos esteve muito interessado no pergaminho Vindel como documento fulcral na historiografia musical galega. Desde o seu descobrimento pelo antiquário madrileno até a sua localização actual na Pierpont Morgan Library, este pequeno troço de vitela teve uma vida bem curiosa. Agora não só ia poder reflexionar sobre o documento, senão que colaboraria numa performance pública destas melodias recuperadas. O lugar escolhido foi a universidade laboral de Gijón, uma construção franquista a médias entre o kitsch nazi e a estética EXIN Castillos.

No último trimestre do ano vieram os concertos mais emotivos.

- O 14 de Novembro presentávamos no meu colégio um C.D. que nos mesmos produzimos, Son de Rianxo. No remate do acto pedi a Pepe Romero filho que tocara alguma peça do seu repertório, acompanhado por José do Rio do Anjo ao bombo e eu mesmo no tambor. Para mim foi uma breve mas muito emotiva actuação. Eu nunca tocara com o mestre Pepe Romero, apesar de anos de amizade, pelo que fiquei muito honrado e aguardo que ele saiba o muito que para mim significou a sua presença entre nós aquele dia.


- O 28 de Novembro, os companheiros do grupo Leixaprén voltamos subir juntos a um cenário apôs mais duma década... e tinha de ser na Ilha. Recuperamos os sons já quase esquecidos para rejuvenescer uns quantos anos com a magia ainda intacta do grande mestre de cerimónias: o Gaitropos.

- O 4 de Dezembro, no teatro Jofre, numa produção da TVG, homenageamos a María Manuela por toda uma vida de carreira musical. Lá estiveram Mini e Mero, Pilocha, Uxia Senlle, Xoán Rubia, Ugia Pedreira, Guadi, Paloma Suances, Susana Seivane e um grupo de músicos dirigidos por Xurxo Varela e Nani García. Quando fazes parte duma banda que tem de acompanhar a um pessoal como este, cada instante que vives é uma experiência única, uma aprendizagem impagável e um antídoto contra a depressão patriótica.

- O 30 de Dezembro, teve a honra de tocar na Sé de Compostela o Ordo Profetarum. Substitui ao percursionista habitual, na actuação mais complexa e extenuante da minha vida profissional. Para mim foi um desafio integrar-me num espectáculo perfeitamente estruturado, com uma arquitectura perfeita na que eu só podia pretender não incomodar, jamais ser brilhante. A coisa decorreu bastante bem, não fiz demasiado ruído, pelo que posso dizer que em termos gerais fiquei satisfeito. Mas o verdadeiramente indescritível e o facto de tocar na Sé uma música tão formosa. O meu ateísmo não me inabilita para sentir o peso que Compostela e a sua catedral tem na história do nosso país. Como galego, senti que por um instante estava a ocupar um lugar privilegiado, o altar que outrora ocupara Gelmírez, naquele no que fora coroado o rei Afonso VII. Vestido como estava com roupa talar e malhas, senti vontade de ser um cruzado da causa galega, um adiantado a defender desde o púlpito a nossa soberania. Mas desisti ante a hipótese de que o pessoal achara que estava a ver um comercial de Gadis.


Bom, rematou o meu Annus Musicalis, fui feliz, amei e sonhei, sementei e recolhi, e disse muitas poucas vezes o mais importante que podia dizer: Amo-te, Teresa.