sexta-feira, 31 de outubro de 2008

nº 05 Orjias 2


Quando criança, os Sábados de tarde eram de futebol. O jogo era prioritário, e tinha de haver um grande temporal de chuva e vento para ficar na casa a ver T.V. Sesión de Tarde botava quase sempre filmes de aventuras, com Johnny Weissmüller na selva ou Errol Flynn a fazer de Robin dos Bosques. A má notícia era quando punham uma da pioneira do nado sincronizado Esther Williams e a sua escola de sereias, ou cinema espanhol com estrelas infantis a fazer esforços por não medrar.

Uma tarde que chovia a potes, sentei no cadeirão a ver um filme com o meu pai. Era de detectives privados, da hampa de Chicago e de muito tiro. Um daqueles homens de chapéu preto e metralhadora de tambor, subiu a um elevador, premeu no botão e dirigiu-se directamente ao terraço. Na Ilha, as casinhas eram pequenas e os únicos edifícios de vários andares foram construídas pelas Caixas Económicas, más apenas com escada de serviço. Na minha ignorância de puto com pouco mundo, dirigi-me ao meu pai com voz maravilhada:

- Quem dera que uma coisa assim existira na verdade!

Meu pai ficou a olhar para mim como a pensar, meu Deus, o que foi que eu fiz de errado?, mas de seguida explicou pelo miúdo que aquilo era um engenho inventado fez muito, muito tempo.

Anos mais tarde, depois de rematar a educação primária, teve de ir a Vila a estudar o secundário, na altura em que já começava a ter penugem no bigode. Fiz amizade com um natural que como bom colega, guiou-me pela sua cidade. Desde a conversa com meu pai, acho que poucas vezes subira num elevador, pelo que aquele mecanismo seguia a aliciar-me com a sua magia. Na conversa, saiu o tema da minha extravagante atracção, questão que provocou no meu colega uma sonora gargalhada. Curvei a cabeça e caminhei um bocado silencioso, percebendo o amigo, acertadamente, que me chateara. Para compensar-me, parou no primeiro portal e premeu ao chou um botão do porteiro automático. Não sei o que respondeu à voz que falou do outro lado, mas de imediato a porta abriu e passamos para o interior do prédio.

Aquela manhã teve overdose de elevador. Uma e outra vez subimos e baixamos, contando os números que se iluminavam ao nosso passo, cumprimentando com os transeuntes que nos olhavam com indiferença. A partires de então, perdi parte da minha paixão pelos elevadores, que só recuperei um dia que subindo ao andar do meu primo, o qual não deixava de botar uma bola de basquete, vimos como esta foi engolida pela pequena fenda entre a caixa e a porta. Mas essa é outra história...

nº 04 O Cantor dos Melismas 2

Seria quem de comunicar-me contigo
a través do seu útero afrutado
sussurrando uma só mensagem em clave:
meu nen@.
Seria quem de imaginar o teu cabelo,
o teu nariz, a tua boca,
os teus olhos abertos para ver o futuro amável que te espera,
apenas pelo feito casual de seres nosso.
seria quem de te abraçar
de enviar-te um beijo umbilical que te estremeça,
de cantar-te um arrolo telepático,
de comer-me teu nome aos bocadinhos.
Tudo posso fazer por ti,
meu nen@,
menos suportar a sua dor
por ter-te.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

nº 03 Meu cinema 1





Aldeia da Roupa Branca, é um filme de Eduardo Chianca de Garcia (14 de Maio de 1898 - Rio de Janeiro, 28 de Janeiro de 1983). Foi estreada em 1939 e relata a história das disputas entre as famílias do Tio Jacinto e a viúva Quitéria. Quando a vi, fiquei admirado com a cena inicial na que Beatriz Costa canta acompanhada do coro de lavandeiras, ajoelhadas fronte ao rio Doiro. Todo o filme é uma alegoria da luta entre a cidade e a aldeia. Neste quadro de costumes, os velhos carroceiros negam-se a abandonar as suas viaturas de tração animal, e só é no remate que aparece um moderno caminhão. A cidade é a terra dos perigos, do fado, das más companhias, no entanto que a aldeia é o canto popular, a gente trabalhadora e honesta.

Numa outra cena antológica, os patrões transportadores, contratam suas respectivas bandas de música para as festas da aldeia. Entram desfilando em direção contrária pelo largo principal, até investir uns com os outros e dar começo a uma grande briga.

É um filme para não perder.

Aldeia da Roupa Branca
Beatriz Costa
Composição: Raul Portela, G. Chianca, A. Curto

Ai rio não te queixes,
Ai o sabão não mata,
Ai até lava os peixes,
Ai põe-nos cor de prata.

Roupa no monte a corar
Vê lá bem tão branca e leve
Dá ideia a quem olhar
Vê lá bem que caiu neve

Água fria, da ribeira,
Água fria que o sol aqueceu,
Velha aldeia, traga a ideia,
Roupa branca que a gente estendeu.

Três corpetes, um avental,
Sete fronhas, um lençol,
Três camisas do enxoval,
Que a freguesa deu ao rol. (BIS)

Ai rio não te queixes,
Ai o sabão não mata,
Ai até lava os peixes,
Ai põe-nos cor de prata.

Olha ali o enxoval
Vê lá bem de azul da esperança
Parece o monte um pombal
Vê lá bem que pombas brancas

Água fria, da ribeira,
Água fria que o sol aqueceu,
Velha aldeia, traga a ideia,
Roupa branca que a gente estendeu.

Três corpetes, um avental,
Sete fronhas, um lençol,
Três camisas do enxoval,
Que a freguesa deu ao rol. (BIS)

Ai rio não te queixes,
Ai o sabão não mata,
Ai até lava os peixes,
Ai põe-nos cor de prata.

Um lençol de pano cru,
Vê lá bem tão lavadinho,
Dormimos nele, eu e tu,
Vê lá bem, está cor de linho.

Água fria, da ribeira,
Água fria que o sol aqueceu,
Velha aldeia, traga a ideia,
Roupa branca que a gente estendeu.

Três corpetes, um avental,
Sete fronhas, um lençol,
Três camisas do enxoval,
Que a freguesa deu ao rol. (BIS)


nº 02 O Cantor dos Melismas 1

Vivo num país oculto no lóbulo esquerdo do meu cérebro.
Hoje senti a ruindade dum abalo himicranial
assolador,
trás do qual, os moradores correram espavoridos colo abaixo
povoando pavilhões auditivos,
glóbulos oculares
e alguma que outra matéria branda.
Apenas resta aumentar a dívida interna com um novo crédito do
P.A.R.A.C.E.T.A.M.O.L.

nº 01 Orjias 1

Meus caros:
"Eu sou Orjais, um raparigo de aldeia, como quem diz um ninguém."
Assim, com este empréstimo de Neira Vilas, poderia começar o relato da minha vida. Nasci um dia de Santo António, padroeiro de Lisboa, no 1969. De ser certo o que diz minha mãe, fiz os primeiros choros por volta das sete da tarde, coincidindo que nesse momento, uma banda de música passava a tocar por baixo da nossa janela. Portanto, semelha que estava no destino que fosse reintegracionista e músico, ainda que a dizer verdade, também no andar inferior da nossa moradia havia uma taberna e mais sou abstémio. A minha família era de nómadas, pelo que aos quatro anos resolvemos ir viver a Ilha de Orjais, um território onde moravam os Argonautas do Mar da Arouça, pessoas com rostro salgado e coração destemido. Esse território já não existe. Um dia, alguém considerou que os lugares singulares devem desaparecer e se produz o cataclismo. Por isso a Ilha de Orjais só pode ser visitada no mar dos meus pensamentos, onde abóiam lembranças inconexas, cosidas umas a outras por delgadinhos fios de saudade.